Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 7 de 56 · parte 1/8

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Apresentação Histórica/Historical Introduction

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

Apresentação Histórica/Historical

Introduction

“La fièvre paludeénne tueuse d'hommes”. Desenho de A. Ehrmann.

Revista francesa do início do século XX, não identificada. Foto do

arquivo iconográfico da Casa de Oswaldo Cruz.

“La fièvre paludeénne tueuse d'hommes”. Drawing by A. Ehrmann,

from a Science Magazine of the early XX century. Reproduction of

arquivo iconográfico Casa de Oswaldo Cruz.

 

Insetos, humanos e doenças:

Adolpho Lutz e a medicina tropical

 

Jaime L. Benchimol; Magali Romero Sá

Adolpho Lutz permaneceu longe da família por dezessete anos: tinha dois quando os pais – Gustav e Mathilde Oberteuffer Lutz – viajaram para a Suíça, em 1857, sete anos após a emigração para o Brasil. Em 1864, voltaram ao Rio de Janeiro, deixando, porém, os três meninos maiores em Basiléia, para continuarem seus estudos. Adolpho, o segundo dos dez filhos do casal, nascido na capital brasileira em 18 de dezembro de 1855, só reencontraria os pais em 1881, ao regressar a ela com o título de doutor e uma sólida formação em medicina e biologia adquirida em universidades germânicas. Nesse intervalo, a cidade que acolhera aqueles imigrantes suíços sofreu notáveis transformações.

Quando os pais de Adolpho Lutz desembarcaram pela primeira vez no Rio de Janeiro, na passagem de 1849 para 1850, já estavam domadas as forças que, nas décadas anteriores, haviam resistido à política centralizadora do Império e à crescente hegemonia econômica do Sudeste do Brasil.

Aquele porto medularmente cindido em senhores e escravos prosperava articulando a lavoura escravista do café, em expansão no vale do rio Paraíba, com o mercado mundial. Suas ruas eram ocupadas por uma multidão de ‘escravos de ganho’ que alugavam cotidianamente o uso de sua capacidade de trabalho nos mais diferentes misteres. Uma pequena fração do dinheiro que obtinham era usada no pagamento, pelos próprios escravos, de meios necessários à sua manutenção: alimentos, bebida, às vezes até um quarto de cortiço. O grosso da renda destinava-se aos proprietários: incorporava-se ao cabedal dos mais ricos, ou garantia a sobrevivência dos mais pobres, às vezes quase tão pobres quanto o escravo posto ao ganho. A escravaria doméstica executava os múltiplos serviços daquela economia natural que as moradias senhoriais agasalhavam, inclusive o abastecimento de água e a retirada de esgotos, que logo se tornariam rentáveis serviços ‘públicos’, a cargo de empresas privadas.

Largo da Carioca, 1844. Aquarela sobre papel de Eduard

Hildebrand, intitulada “Brunnen in Rio de Janeiro” (Fontes no Rio de Janeiro), onde se vê o Chafariz da Carioca, o edifício do Hospital da

Ordem Terceira da Penitência, a Igreja e o Convento de Santo

Antônio. Coleção Staatliche Museen zu Berlin, Alemanha (Belluzo,

1994, v.3, p.106, fig. 481).

Nas décadas subseqüentes, a segunda revolução industrial – a dos artefatos de ferro e aço, dos bens de capital, das ferrovias e navios a vapor -consagraria o poderio mundial da Inglaterra, não obstante outros países, revolucionados também pela grande indústria, despontassem como sérios concorrentes. As exportações de capital, sob a forma de empréstimos públicos e investimentos diretos, impulsionariam a modernização de economias periféricas como a brasileira, aparelhando-as para responderem aos novos fluxos de matérias-primas e produtos industrializados.

No tempo decorrido entre a imigração de Gustav e Mathilde Lutz e a torna-viagem do jovem médico Adolpho, em 1881, outros processos ajudaram a modificar a fisionomia da capital brasileira: a abolição do tráfico negreiro em 1850, a guerra contra o Paraguai (1864-1870), a expansão demográfica e a ampliação gradativa do trabalho livre. Na década de 1870, o império de Pedro II e dos barões do café parecia viver seu apogeu de grandeza e estabilidade, e o Brasil, seu destino de país essencialmente agrícola. O Rio de Janeiro era seu mais próspero empório comercial e financeiro. No mesmo ritmo em que as fazendas do vale do Paraíba absorviam o contingente final de escravos do país, pelo tráfico interprovincial, abriam-se nessa cidade grandes bolsões para o trabalho assalariado. As novas relações de trabalho viabilizaram um salto de qualidade na circulação de mercadorias, base da economia urbana. Não obstante a formação de manufaturas importantes, o setor produtivo continuava a ser um apêndice da importação e da exportação.

 

Morro da Gamboa em 1866, atual Morro da Providência, Rio de

Janeiro. Fotografado por Augusto Malta (Museu Histórico Nacional,

Rio de Janeiro).

Substituindo o transporte pelos rios e em lombo de mulas, os trilhos das estradas de ferro D. Pedro II e Leopoldina começaram a articular mais profundamente o Rio de Janeiro a suas retaguardas rurais. O transporte marítimo, revolucionado também pela energia a vapor, expandiu-se em combinação com um complexo de empresas comerciais e financeiras constituídas principalmente pelo capital britânico. O próprio porto recebeu seus primeiros melhoramentos: armazéns de ferro e guindastes a vapor no cais da Alfândega, onde o braço escravo foi suprimido da movimentação de cargas.

Na década de 1860, empresas estrangeiras e, em alguns casos, nacionais começaram a instalar serviços públicos — iluminação a gás, redes domiciliares de água e esgotos, limpeza, transportes urbanos etc. — contribuindo, assim, para a dissolução do sistema escravista de circulação desses elementos e da economia doméstica em que se fundava a auto-suficiência das moradas senhoriais. As companhias de bondes comandaram o espraia-mento da malha urbana para além do antigo perímetro da Cidade Velha e seu desdobramento recente, a Cidade Nova.

 

Baía da Guanabara vista da Praia de Russel, 1850. Óleo sobre tela de C. J. Martin, intitulado “Vista da Baía da Guanabara. Tomada da

Praia de Russel,” em 1850. Coleção Sérgio Fadel, Rio de Janeiro,

Brasil (Belluzo, 1994, v.3, p.154, fig. 525).

Apesar da formação de novos bairros, iam se condensando na área central realidades críticas, oriundas da crescente incompatibilidade entre a antiga estrutura material e as novas relações econômicas capitalistas que nela se enraizavam. As ruas estreitas e sinuosas eram congestionadas pelos novos fluxos de homens e mercadorias, inclusive artefatos de ferro de grande porte, entre o terminal ferroviário, a orla do porto e o dédalo mercantil da cidade. No populoso centro coexistiam escritórios e bancos, lojas, oficinas, trapiches, prédios públicos, moradias particulares em sobrados e casas térreas, armazéns freqüentemente associados a cortiços e estalagens, velhos casarões aristocráticos subdivididos em cômodos exíguos e sujos para famílias inteiras de trabalhadores. Uma multidão heterogênea, flutuante, morava e labutava na área central do Rio de Janeiro. Havia total contigüidade entre o mercado onde essa força de trabalho, agora livre, se punha à venda, e o mercado onde as diárias e os ganhos incertos se convertiam nos elementos indispensáveis à sua sobrevivência.

Aí, todos os anos, irrompiam epidemias mais ou menos mortíferas, variando os índices de morbidade e mortalidade conforme a sinergia, a um só tempo biológica e social, dos viventes que se concatenavam no curso de cada doença. As epidemias de varíola aconteciam, em geral, no inverno. O cólera atingiu o Rio de Janeiro em 1855-1856, na cauda da terceira grande pandemia do século XIX. A tuberculose, as disenterias, a malária e febres chamadas por dezenas de nomes crepitavam como flagelos crônicos na capital e nas províncias.

O problema sanitário mais grave era, sem dúvida, a febre amarela, que ‘aportou’ na capital do Império no verão de 1849-1850, justo quando Gustav e Mathilde Lutz puseram os pés na terra onde pareciam despontar os primeiros sinais daquela civilização que

florescera nas zonas temperadas do Velho Mundo.1

 

A febre amarela e o início da carreira de Adolpho

Lutz

Segundo Bertha Lutz,2 seus avós chegaram ao Rio de Janeiro em janeiro de 1850. Teria sido, então, no auge da gravíssima epidemia que varreu, pela primeira vez, a capital brasileira. Adolpho Lutz (1930, p.2) escreveu, porém, que seus pais a conheceram ainda livre da doença, o que significa que desembarcaram pouco tempo antes de 28 de dezembro de 1849, data em que um médico natural de Lubeck, Robert Christian Berthold Avé-Lallement (1812-1884), diagnosticou os primeiros casos no Hospital da Santa Casa da Misericórdia (Franco, 1969, p.35; Chalhoub, 1996, p.61; Santos Filho, 1991, p.195).

Testemunhas da epidemia relacionaram sua eclosão à chegada de um navio negreiro procedente de Nova Orleans, tendo feito escalas em Havana e Salvador antes de atracar no Rio de Janeiro, a 3 de dezembro de 1849. Os tripulantes dispersaram-se, irrompendo a yellow jack numa das hospedarias em que se alojaram, na rua da Misericórdia. Em fevereiro de 1850, quando a Academia Imperial de Medicina finalmente reconheceu que a febre amarela se apossara da cidade, já se havia disseminado pelas praias dos Mineiros e do Peixe, Prainha, Saúde e além. Segundo estimativas do dr. José Pereira Rego (1872, p.159), atingiu 90.658 dos 266 mil habitantes do Rio de Janeiro, causando 4.160 mortes, de acordo com os dados oficiais, ou até 15 mil vítimas, segundo a contabilidade oficiosa (Chalhoub, 1999, p.61).

“Ano de mangas, ano de febre amarela,” diziam os cariocas, expressando em linguagem coloquial a relação que os médicos estabeleciam entre o calor, a umidade e as epidemias. Excetuando-se o intervalo de 1862 a 1869, elas ‘davam’ com a regularidade de outros frutos sazonais, sempre na ‘estação calmosa’, aquela longa temporada de calor e chuvas que começava lá por novembro e terminava em março ou abril. As analogias com o mundo vegetal não terminavam aí: supunha-se que, como outras plantas, a febre amarela se ambientava à perfeição nas baixadas litorâneas, especialmente nas cidades portuárias, onde as matérias em putrefação, de origem vegetal e animal, constituíam humo ideal para ela.

Referindo-se aos pais e à primeira epidemia ocorrida no Rio de Janeiro, escreveria Adolpho Lutz (1930):

No período subseqüente nasceram-lhes muitos filhos que,

todos, correram o risco da febre amarela durante um tempo

variável, mas geralmente bastante longo. Minha mãe, que viveu

mais de trinta anos na capital, nunca foi acometida, mas meu

pai e um irmão meu tiveram cada um dois ataques e um outro

adoeceu durante a primeira epidemia de Santos, quer dizer, em

1879, de modo que a imunidade de família pode ser excluída.

Entretanto, um número bem maior de pessoas da família

conservaram-se livres e podem, hoje, ser consideradas

protegidas por esse processo insensível de imunização cuja

existência é tão evidente como o seu estabelecimento é difícil

de acompanhar. Levando em conta uma terceira geração, se

pode dizer que em minha família a morbidade entre as pessoas

expostas não chegou a um terço, fato notável, quando se

compara com a morbidade geral das primeiras epidemias em

vários lugares do estado de São Paulo.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro com o diploma de doutor, aos 26 anos de idade, Adolpho Lutz instalou-se na casa dos pais, na rua da Princesa Imperial, 33, bairro do Catete, casa grande o suficiente para abrigar seus nove irmãos e o “Colégio de Meninas” fundado

pela mãe.3 O negócio do pai ficava na rua do Sabão, 44A. Segundo anúncios publicados no Almanak Laemmert (p.497, 512, 549), a Lutz & C. era uma firma de “negociantes estrangeiros que se dedicava à importação e exportação,” nesta última atividade associada a J. R. Dietiker. Eram “Consignatários e casas de Commissões de generos de Importação e Exportação” e “Armazens de Fazendas seccas de importação, por atacado”. Tirando proveito da modernização em curso na cidade, a Lutz e companhia adquirira (em 4 de abril de 1872) o controle dos ativos da “Empresa Industrial de poços tubulares instantâneos,” pertencente a Gustavo Adolpho Wierffbain, “engenheiro civil, natural d'Allemanha e residente no

Império do Brasil”.4

Como vimos no primeiro livro da Obra Completa de Adolpho Lutz, uma das primeiras providências do jovem foi validar seu diploma na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em artigo publicado em abril de 1882, em Correspondenz-Blatt für Schweizer Aerzte, descreveu esse trâmite e retratou a medicina no império brasileiro. Explicava que as cidades maiores ofereciam vantagens, mas a vida era três vezes mais cara do que na Suíça, e, no caso do Rio de Janeiro, ao inconveniente do calor somava-se o risco da febre amarela. Assim, esse foi um dos fatores que levaram o jovem médico a buscar uma cidade do interior para exercer a profissão. Além das compensações oferecidas pela “formosura da natureza,” quem se dedicava a uma prática bem conceituada aí conseguia fazer fortuna, como na Europa. A renda variava de acordo com a região, sendo escasso o dinheiro em algumas, e abundante em outras, como em determinadas áreas cafeeiras ou em algumas colônias alemãs no sul do país.

Documento de 21.12.1881 atestando a aprovação de Adolpho Lutz

nos exames de suficiência (em Clínica Médica, Cirurgia e

Obstetrícia) para validação de seu título de Doutor em Medicina, feitos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (BR. MN. Fundo

Adolpho Lutz).

Matrícula da Faculdade de Medicina – Documento de matrícula de

Adolpho Lutz na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em

27.10.1881, para os exames de habilitação necessários ao exercício

da profissão no Brasil (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz).

Lutz permaneceu oito meses na capital do império, enquanto aguardava o exame de suficiência. No primeiro semestre de 1882, tentou se estabelecer em Petrópolis, mas acabou optando por Limeira, onde havia expressiva colônia suíça-alemã e para onde acabara de se mudar sua irmã, Helena, recém-casada com o comerciante alemão Gottfried Wilhelm Luce.

De junho de 1882 a março de 1885, residiria naquele importante centro cafeeiro, canavieiro e cerealífero da província de São Paulo, então com cerca de 14 mil habitantes.

Atendia moradores de outras povoações, à margem da Estrada de Ferro Paulista, e assim logo adquiriu visão abrangente das doenças que ocorriam na região. Em fins de 1882, em nota publicada no mesmo periódico suíço, narrou as primeiras impressões do interior de São Paulo e relacionou os temas que poderia analisar em futuros artigos. Enfatizava as contribuições que poderia dar à geografia médica. A diversidade de tipos étnicos sob seus cuidados fornecia fecundas “observações a respeito da influência do clima e da raça humana sobre as diversas doenças; em meu serviço atendo negros, brasileiros, imigrantes alemães, portugueses e italianos, que, por conseqüência, proporcionam material comparativo muito interessante” (Lutz, 1883, p.30).

Helena Lutz Luce, irmã de Adolpho Lutz, com o filho Gottfried

Wilhem Luce, nascido em 24.8.1884. Residiam em Limeira (SP), mas a foto foi tirada em Campinas, em 20.6.1886, na Photographia

Rozén, Nickelsen & Ferreira, à rua Direita n. 48 (Acervo Margareta

Luce).

Em Limeira, Adolpho Lutz realizou importantes investigações tanto no domínio da clínica como da helmintologia de animais domésticos e do homem. Datam desse período suas pesquisas sobre vermes, que alargaram o repertório de patologias estudadas pela escola tropicalista baiana, abrindo caminho, também, para o conhecimento das doenças de animais no Brasil. Como vimos no segundo livro desta coleção (Benchimol & Sá, 2004), o interesse pela lepra levou Adolpho Lutz a viajar para Hamburgo, em março de 1885, para trabalhar, por cerca de um ano, na clínica fundada por Paul Gerson Unna; sob sua orientação, enveredou pelo terreno da bacteriologia, ocupando-se da morfologia de germes relacionados a várias doenças dermatológicas.

Ao regressar ao Brasil, em meados de 1886, Lutz retomou a clínica, agora na capital paulista, e continuou a publicar, na Alemanha, artigos relacionados não apenas à dermatologia mas também aos

helmintos.5 Foi então que saiu em O Brazil-Medico, na Gazeta Médica da Bahia (18871889) e, em seguida, em livro (1888) a versão em português do trabalho sobre a ancilostomíase veiculado originalmente na coleção de lições de clínica médica de Volkman (Leipzig, 1885), trabalho que o tornou mais conhecido entre seus pares. Em Limeira e, depois, na cidade de São Paulo, Lutz estudou, também, os ciclos evolutivos do Ascaris lumbricoides e do Rhabdonema strongyloides. Na série de artigos que publicou no prestigioso Centralblatt für Bakterologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten, em 1888, a respeito das infestações por nematódeos intestinais no homem — ancilostomíase, oxiuríase, ascaridíase e tricocefalose — ressaltava o papel do solo e das fezes na propagação dessas doenças, correlacionava-as com os hábitos de vida e alimentação das populações imigrantes e chamava a atenção de seus pares para a freqüência das infestações

domiciliárias e das epidemias familiares.6

Sobrado onde residiu Adolpho Lutz em Limeira, São Paulo. Foto

tirada por Eduardo Cruz em abril de 1986, às vésperas da

demolição do prédio (Acervo Instituto Adolfo Lutz).

 

Amebas, bacilos e disenterias

As doenças intestinais eram componente preponderante da problemática sanitária das cidades que sofriam, mais ou menos intensamente, o boom populacional e a degradação das condições de vida correlatos ao desenvolvimento do capitalismo. Lutz começou a estudá-las quando clinicava em Limeira, e em 1891 publicaria trabalho fundamental a esse respeito naquele mesmo periódico alemão (1891, p.241-8).

A etiologia das disenterias era, então, muito nebulosa. Amebas já haviam sido localizadas em cadáveres de pessoas que sucumbiam a síndromes intestinais diversas, mas não se havia conseguido demonstrar uma relação de causa e efeito com aqueles animais protozoários.

À época em que Lutz começou a investigar a questão, as noções que se tinha sobre a disenteria eram muito confusas, e estavam sujeitas a grandes controvérsias. Os médicos que buscavam as causas do mal encontravam nas dejeções e nos órgãos dos doentes variados microrganismos, e cada um atribuía ao que tinha encontrado a condição de agente etiológico específico.

Dopter (1909, p.1-2) fixa o início desses estudos em 1859: Vilem Dusan Lambl (1824-1895), médico boêmio que se doutorara em Praga e que trabalhava aí num hospital pediátrico (Franz-Josefs-

Kinder-Spitale), 7 assinalou a presença de amebas nas dejeções e, mais importante, no intestino de uma criança acometida de disenteria.

Várias formas que assumem as células do fígado ao degenerarem

e, para comparação, representa-se, na imagem inferior, uma ameba

(Harris, 1898, fig. 5)

Segundo Martinez-Palomo (1996), dez anos antes o médico russo G. Gros havia demonstrado que organismos por ele chamados de Amoeba gengivalis parasitavam o homem, em artigo publicado no Boletim da Sociedade Imperial de Naturalistas de Moscou sob o título “Fragments d'helmintologie et fisiologie microscopique”.

De acordo com o biólogo britânico Clifford Dobell (1919), a primeira observação relativa às amebas como parasitas do intestino humano teria sido realizada pelo cirurgião Timothy Richards Lewis, em 1870, à época em que integrava uma comissão formada para investigar o cólera na Índia, então colônia britânica.

“Hoje, sabemos” – explica Martinez-Palomo – “que existem dois tipos de amebas intestinais no homem: uma não patogênica, observada por Lewis (Entamoeba coli), e outra patogênica (Entamoeba histolytica), definida por Lõsch. Tal diferenciação levou várias décadas para se estabelecer”. Esse autor atribui a descoberta do agente causador da amebíase a um médico e microscopista de São Petersburgo, Fedor Aleksandrovich Lõsch:

em 1873, iniciou o tratamento inicialmente proveitoso de um

jovem camponês chamado J. Markow que padecia de intensa

diarréia e enfermidade retal com sulfato de quinina (e outras

drogas) … Lõsch descreveu com perfeição as amebas

encontradas nas fezes do paciente, batizando-as como Amoeba

coli (a maior parte das ulcerações estava no cólon), mas como

… a inoculação de amebas em cães não deu certo, não ousou

afirmar categoricamente que eram responsáveis pela infecção.8

 

Seção microscópica de um abscesso do fígado, mostrando a

Entamoeba hystolitica à margem da cavidade rodeada por células

do fígado necrosadas (Manson-Bahr, 1940, p.548, fig. 62).

Entamoeba coli, com aumento de 2.500 vezes: 1 – cisto com oito

núcleos; 2 – estágio amebóide ativo com alimentos ingeridos

(Manson-Bahr, 1940, p.859, fig. 190).

O médico russo supôs que apenas agravariam a inflamação intestinal, por simples irritação mecânica (Dopter, 1909, p.2). Talvez suas dúvidas proviessem, também, da leitura do trabalho publicado pouco tempo antes (1869) por Basch, que tinha observado em cortes de intestinos disentéricos elementos esféricos não caracterizados e filamentos que sugeriam uma bactéria do grupo Leptothrix. Pouco tempo depois, Rajewsky descreveria em Centralblatt für die medizinische Wissenschaft (1883, p.273) colônias de cocos e bactérias nos vasos linfáticos da submucosa.

Nos anos seguintes, Sonsino, Perroncito, Grassi, Calandruccio e Blanchard corroboraram a ocorrência de amebas nas evacuações disentéricas, mas seu papel permaneceu problemático uma vez que Grassi as encontrou também em indivíduos sãos, e Cunningham e Lewis, em doentes de cólera.

Em 1883, quando estudava essa doença no Egito, Koch admitiu que as amebas poderiam desempenhar papel patogênico específico depois de encontrá-las não apenas nas dejeções mas também em cortes de intestinos disentéricos, em localização profunda das

paredes intestinais.9 Kartulis, seu discípulo, confirmou aquelas observações após examinar grande número de doentes em Alexandria e na Grécia: encontrou as amebas nas evacuações, no intestino e em abscessos no fígado (Dopter, 1909, p.2-3), mas não conseguiu dissipar as dúvidas sobre seu papel patogênico — as inoculações experimentais em animais de laboratório foram inconclusivas —, nem demonstrar o parentesco entre a disenteria ‘tropical’, que estudava, e os casos descritos na Europa por médicos

que não viam relação com as amebas. 10

 

Edoardo Perroncito (1847-1936) em Turim, Itália (Fundo Emile

Brumpt, Instituto Pasteur). O cientista correspondeu-se

intensamente com Lutz a partir de 1883.

Giovanni Battista Grassi (1854-1925) (Howard, 1930, prancha 49).

Desde então, aumentou significativamente o número de trabalhos pu blicados a esse respeito, uns confirmando, outros refutando a hipótese de Koch e Kartulis.

Em Praga, Jaroslav Hlava apresentou, em 1886, os resultados do

estudo de sessenta casos: 11 conseguira reproduzir a doença inoculando material disentérico em diferentes animais, mas isolara não apenas amebas como 19 bactérias diferentes. Chegou a afirmar que somente as primeiras eram específicas, porém, no ano seguinte, Theodor Albrecht Edwin Klebs (1887) incriminou um bacilo isolado das paredes intestinais. A conclusão parecida chegaram Chantemesse e Widal (1888).

Na clínica de Lõsch, em Kiev, Massiutin examinou as evacuações de cinco pacientes: um com disenteria crônica; dois com “catarro intestinal crônico;” um, com febre tifóide, e o último com “catarro intestinal agudo”. Todos tinham amebas. Em artigo publicado em 1889, Massiutin concluiu que não eram elas as responsáveis pela disenteria. Com a água, penetrariam no canal intestinal e lá seu desenvolvimento seria favorecido pelas ulcerações já existentes, que aqueles protozoários apenas agravariam (Councilman & Lafleur, 1891, p.400-1; Dopter, p.4).

Em fins daquele ano, Adolpho Lutz passou por Baltimore, nos Estados Unidos, a caminho do Reino do Havaí, onde ia assumir o cargo de Government Physician for the Study and Treatment of Leprosy. Naquela cidade da costa leste norte-americana, populoso entroncamento de vias que ligavam o norte e o sul do país, acabara de ser inaugurado o Johns Hopkins Hospital, um dos mais modernos do mundo. Lutz conversou com o chefe de seus serviços

médicos, o patologista William Osler (1849-1919),12 sobre a investigação, ainda inédita, que vinha fazendo a respeito das amebas.

Johns Hopkins (1795-1873), fundador e patrono do hospital, fora presidente do Merchands Banks e um dos diretores da Baltimore & Ohio Railroad. Solteiro, membro da seita quacre, decidira investir parte de sua imensa fortuna na criação de uma universidade e de um hospital que servisse à educação e à pesquisa médica, e que se destinasse prioritariamente aos indigentes da região. Para supervisionar sua construção, foi contratado John S. Billings (1838-1913), médico das forças armadas, já familiarizado com os ‘hospitais barracas’ adotados durante a Guerra Civil. O princípio que os inspirava – a prevenção do contágio – era o mesmo que fundamentava os projetos hospitalares compostos por pavilhões isolados, sujeitos a rigorosas normas de ordenação dos espaços, leitos e serviços. A construção daquele complexo, formado por 17 pavilhões e quase 600 metros de corredores conectando-os, prolongou-se de 1877 até a inauguração, em 7 de maio de 1889. Já no começo de 1886, William H. Welch começara a ministrar os cursos de microbiologia e histologia patológica; no laboratório de patologia, que chefiava, ingressou no mesmo ano William Thomas

Councilman (1854-1933).13 Osler, por sua vez, depois que assumiu a chefia dos serviços médicos do hospital formou uma equipe de médicos assistentes que residiam lá, dedicando-se, em tempo integral, ao ensino e à pesquisa. Henry A. Laflleur foi um deles, de 1889 a 1891, transferindo-se, em seguida, para a universidade onde se doutorara, a McGill, no Canadá.

Johns Hopkins Hospital no início do século XX. Fonte:

mdhsimage.mdhs.org/Library/Images Mellon%20

Images/Z24access/z24-00250.jpg, acesso em 22.6.2005.

Johns Hopkins Hospital, Baltimore, MD. Cartão Portal. No verso lê-

se: “Instituição de fama mundial, localizada em Broadway e

Monument Street, ocupando mais de quatro quadras da cidade.

Começou a funcionar em 1889” (Acervo dos autores).

Adolpho Lutz começa o trabalho que publicou na Alemanha, em 1891, mencionando a visita que fizera àquele hospital, de maneira a ressaltar que, em 1889, lá não se tinha feito ainda nenhum estudo concernente à amebíase. Porém, já no ano seguinte Osler descreveu um caso de abscesso hepático com a presença de amebas, sem fazer referência ao brasileiro, o que motivou este comentário ressentido: “a prioridade das observações do Novo Mundo cabe … a mim, devendo Osler avocá-las apenas em relação à América do Norte”. Alegava Lutz que havia retardado a publicação de suas investigações “na esperança (infelizmente não realizada) de poder completá-las com material mais abundante”.

Seu artigo baseava-se em apenas três casos, mas era abrangente e preciso: não apenas dava uma “visão de conjunto” dos fatos fragmentários registrados até então em diversos países, como apresentava uma teoria capaz de conciliar os pontos de vista divergentes a respeito das disenterias. Num dos primeiros compêndios publicados mais tarde sobre essa síndrome, então associada a múltiplas etiologias já razoavelmente estabelecidas, o trabalho de Lutz é qualificado como “muito singular, uma vez que as idéias expostas aí pelo autor são aquelas atualmente tomadas como definitivas a respeito da etiologia disentérica”. Lutz considerava “indubitável” o papel patogênico das amebas, mas supunha que, ao lado dessa disenteria,

cuja evolução é crônica, com alternativas de cura passageira e

exacerbações, complicando-se com freqüência com abscessos

do fígado, há lugar para outra disenteria, epidêmica, aguda,

provocando lesões difteróides do intestino, e sem nunca

ocasionar abscessos do fígado. Em uma palavra, Lutz já tinha

entrevisto nessa época a distinção, admitida em nossos dias,

entre a disenteria bacilar e a amebiana. (Dopter, 1909, p.4)

O clínico de São Paulo enviou aquelas observações ao CentralBlatt für Bakteriologie und Parasitenkunde quando se encontrava no Havaí, chefiando os serviços médicos do leprosário de Molokai. Demonstrava, efetivamente, que duas entidades mórbidas vinham sendo confundidas, e estabeleceu os critérios para diferenciá-las. Mostrou que alterações patológicas designadas por nomes tão diversos quanto catarro intestinal agudo e crônico, enterite ulcerosa, abscessos hepáticos e disenteria crônica ou tropical encaixavam-se no quadro mórbido causado pelas amebas. Denominou-o “enterite com evacuações sanguinolentas,” de modo a diferenciá-lo da disenteria propriamente dita, que se manifestava como doença infecciosa aguda, capaz de se disseminar por extensas zonas. Tal distinção seria comprovada em 1898, quando o bacteriologista japonês Shiga Kiyoshi (1870-1957) isolou o agente da disenteria bacilar (Shigella dysenteriae).

Lutz mostrou que as amebas eram “parasitas genuínos” que viviam dentro e fora do corpo humano, mas sujeitos a limites estreitos de temperatura. Essa era, justamente, uma das principais dificuldades para estudá-las. Imobilizadas pelo resfriamento, confundiam-se com outras células, sobretudo nas fezes, tão ricas em microrganismos. Para poder observar as amebas demoradamente, Lutz criou um aparelho que mantinha a platina do microscópio aquecida, em temperatura constante (Lutz & Lutz, 1943), e, assim, conseguiu desvendar seus mecanismos de adaptação aos hospedeiros humanos, a longa persistência no interior de abscessos hepáticos, e a presença, dentro delas, de elementos fornecidos pelo organismo hospedador, especialmente hemácias.

 

Amoeba, pertencente ao Filo Rhizopoda. (Brusca & Brusca, 2003,

p.121, fig.5.1-C).

Estereoscópio para estudo de protozoários, helmintos e insetos,

acoplado a dispositivo para aquecer amebas, baseado naquele que Lutz desenvolveu na década de 1880 (Acervo Instituto Adolfo Lutz).

Apesar da importância do periódico alemão que veiculou seu trabalho, e da envergadura que tinha, muitos autores passaram em silêncio por ele, como assinala, com surpresa, o já citado Dopter (1909, p.4).

Mais rápido no gatilho, Osler foi, de fato, o primeiro a descrever nos Estados Unidos amebas, mas num único caso de disenteria crônica. Tratava-se de um médico de 29 anos, que contraíra a doença no Panamá, anos antes, tendo sofrido já vários ataques que culminavam em febre, mal-estar generalizado e dor na região do fígado. Apesar de observar numerosas amebas no pus de um abscesso desse órgão e nas fezes, Osler concluiu que ainda era cedo para incriminar, com segurança, aqueles protozoários como os

causadores da doença.14

Na verdade, foi Councilman quem primeiro observou as amebas no paciente de Osler. Com Lafleur, estudou, então, outros catorze casos. No trabalho que publicaram em 1891 tampouco mencionavam Lutz, não obstante seu artigo já houvesse sido publicado. Aqueles autores conheciam bem o alemão, e a omissão se torna ainda mais gritante se considerarmos que tiveram o cuidado de fazer um inventário exaustivo do estado da arte naquele domínio da investigação médica.

Os patologistas do Johns Hopkins Hospital procuraram isolar e distinguir os microrganismos presentes nas evacuações e nos cortes intestinais dos doentes, e analisaram as lesões que as amebas produziam nos tecidos que parasitavam. Estabeleceram distinções entre disenterias com base em seus aspectos clínicos e patogênicos, diferenciando a amebiana das modalidades inflamatórias e difteróides (Dopter, 1909, p.4-5):

Com o nosso atual conhecimento sobre os protozoários, não

temos a mesma capacidade de classificar e reconhecer as

distintas espécies de amebas como no caso dos bacilos.

Portanto, é impossível dizer se as amebas encontradas na

eliminação de matéria fecal em determinadas condições são ou

não da mesma espécie.

Denominamos Amæba dysenteriæ o microrganismo

primeiramente descrito por Lõsch como Amæba coli, por não

parecer este termo muito característico, já que pode existir bom

número de amebas de variadas espécies e que … não estão

localizadas especificamente no cólon. (Councilman & Lafleur,

1891, p.405)

Além de sugerir que o hospedeiro humano continha diferentes espécies de amebas, umas patogênicas, outras não, mostraram aqueles autores que a amebíase era uma doença caracterizada por “lesões anatômicas bem definidas, e com certa homogeneidade,” afirmando que não havia nenhuma semelhança entre as alterações produzidas nos tecidos afetados por bactérias e amebas. Estas chegavam ao intestino grosso através da ingestão de comidas e bebidas. Não exerciam nenhuma ação no estômago ou no intestino delgado por não encontrarem aí condições favoráveis a seu desenvolvimento, uma das quais era a alcalinidade do ambiente. As ulcerações seriam causadas pela invasão da membrana mucosa. Encontraram amebas nos vasos linfáticos e sangüíneos, dando a impressão de chegarem ao fígado através desses canais. Também as encontraram, com freqüência, nas veias do fígado e dos pulmões, “mas não existem evidências de que chegam a esses órgãos através da corrente sangüínea … Outros órgãos não sofrem metástase, o que deveria acontecer caso as amebas atravessassem a corrente sangüínea” (ibidem, p.509, 512-4).

 

Uma célula com amebas retirada da margem de um abscesso do

fígado, corada e fixada com diferentes substâncias (Harris, 1898, fig.

11).

Após a publicação do trabalho de Councilman e Lafleur, que Cox considera o mais completo entre aqueles produzidos no final do século XIX, as disenterias tornaram-se tema de considerável relevância nos Estados Unidos, e diversos médicos publicaram relatos de casos encontrados nas zonas em que atuavam. Um

destes foi H. Harris,15 professor de patologia do Jefferson Medical College. Em trabalho de 1898 (p.385-6), citava Adolpho Lutz, reconhecendo que havia feito “criticas justas às nossas inexatas classificações das afecções intestinais”.

Ponto de vista semelhante ao de Councilman e Lafleur seria defendido por outros autores. A relação de nomes citados por

Dopter (1903, p.4-8) é enorme, 16 e inclui um brasileiro, Francisco Fajardo, que, como veremos, manteria estreita relação com Adolpho Lutz em outros domínios da protozoologia. Os trabalhos publicados por esses autores trariam contribuições importantes ao conhecimento do ciclo de vida e parasitismo das amebas, mas a diferenciação entre as patogênicas e as inofensivas demorou alguns anos até consolidar-se.

 

Ciclo da Entamoeba hystolytica: fig. 16 – trofozoítos nas fezes; fig.

17 – estágio precístico; fig. 18 – cisto maduro; fig. 19 –

desencistando (Storer & Usinger, 1979, p.291, fig. 16 a 19).

Em investigação realizada no Egito, em 1894, Kruse e Pasquale levantaram a hipótese de que nos ‘países quentes’ grassaria uma disenteria causada por espécie patogênica, a Amoeba dysenteriae, diferente de outras variedades encontradas no intestino de indivíduos saudáveis (Dopter, 1909, p.6-7). À mesma conclusão chegaram os alemães Heinrich Iranaus Quincke e Ernst Roos

(1893). 17 O protozoologista Fritz Schaudinn, apesar de não ter sabido diferenciar as amebas corretamente (Martinez-Palomo, 1996), no trabalho publicado em 1903, estabeleceu o nome da espécie patogênica válido até hoje: Entamoeba histolytica. Mas só dez anos depois Walker e Sellards a distinguiriam inequivocamente das amebas de vida livre, na água, que não causavam disenteria (Entamoeba coli) (Faust et al., 1975, p.85). Suas experiências foram realizadas em Manila, nas Filipinas, em prisioneiros confinados no presídio de Bilibid. Dos vinte homens que ingeriram ovos desta última espécie, dezessete foram infectados, mas nenhum desenvolveu a doença. Em compensação, dos vinte voluntários que receberam cápsulas com ovos de Entamoeba histolytica, dezessete foram infectados já com a primeira dose, e um, três inoculações depois. Somente quatro dos dezoito parasitados adoeceram. O experimento mostrou que o organismo podia ser patogênico em alguns indivíduos, e não produzir sintomas em outros. Mostrou ademais que portadores assintomáticos podiam transmitir o parasito patogênico a indivíduos saudáveis (Martinez-Palomo, 1996).

Desde a publicação do trabalho de Adolpho Lutz, outros autores procuraram relacionar a disenteria a bactérias, atribuindo papel secundário, nulo e às vezes até benéfico às amebas. Nessa vertente situam-se os trabalhos de Maggiora, que atribuiu a doença ao bacilo piociânico e a um colibacilo levado a condição anormal de virulência. Laveran também incriminou colibacilos. Com base em estudo de casos oriundos de Roma, Tivoli, Siena e até mesmo Alexandria, Celli e Fiocca concluíram, em 1895, que o responsável pela disenteria era uma variedade daquele microrganismo que denominaram Bacterium coli dysenteriae. Segundo Bertrand e Baucher, tratava-se de uma infecção polimicrobiana associada a diversos germes (vibrião séptico, bacilo piociânico, estafilococos e colibacilo). Em Saigon, Calmette incriminou o bacilo piociânico

(Dopter, 1909, p.5-9).18

A ausência de amebas em casos típicos de disenteria, ou sua presença em indivíduos saudáveis ou acometidos por outras doenças, fatos assinalados por diversos autores, só piorava a confusão reinante naquele domínio da patologia.

Como dissemos, a unificação daquelas duas vertentes interpretativas proposta por Lutz em 1891 foi justificada nove anos depois por Shiga Kiyoshi (1898). Ele fazia parte de uma nova geração de bacteriologistas recém-incorporados ao Instituto para o Estudo de Doenças Infecciosas, inaugurado no Japão em 1892 sob a direção de Kitasato Shibasaburo (18521931), brilhante investigador que fora um dos pilares do grupo de Koch, ao lado de Friedrich A. J. Loefller (1852-1915), Georg T. A. Gaffky e Emil von Behring (1854-1917). Kitasato transformou aquele instituto – conhecido pelos japoneses como Denken – no principal fermento de transformação da medicina e da saúde pública em seu país (Yoichiro, 1997).

Refinando as evacuações de vítimas de uma disenteria epidêmica, Shiga isolou um bacilo semelhante ao coli e ao tífico, que não fermentava os açúcares; ferramentas diagnósticas recém-desenvolvidas pela bacteriologia permitiram que reconhecesse outra propriedade importante do microrganismo: era aglutinado pelo soro dos disentéricos, mas isso não acontecia com o de indivíduos acometidos por outras afecções (Dopter, 1909, p.10-1).

Kruse (1900), na Alemanha, e Flexner (1901), nos Estados Unidos, logo confirmam a descoberta de Shiga Kiyoshi. Dissociaram-se, então, as disenterias do ponto de vista etiológico: existiria uma, de marcha aguda, epidêmica, que grassaria especialmente nos países temperados, e outra, a amebiana, de caráter crônico, endêmica nas regiões tropicais. Novas dissociações ocorreram em seguida: foi descrita a disenteria provocada pelo Balantidium coli e aquela causada por espirilos (Le Dantec). Disenteria passou a designar uma síndrome com etiologias variáveis: “Assim, encontra-se hoje realizada a opinião que Lutz, Councilman e Lafleur tinham formulado em 1891-1892” – escreveu Dopter (p.10-2), em 1909, num dos primeiros tratados sobre aquela matéria.

Shiga Kiyoshi (1870-1957), descobridor do bacilo disenteria

(Yoichiro, 1997).

 

Adolpho Lutz e a febre amarela

É possível que Lutz tenha tido contato com doentes de febre amarela ou suspeitos de a terem contraído durante o tempo em que clinicou em Limeira e na cidade de São Paulo, mas não restaram vestígios disso na documentação com que estamos trabalhando. Seu primeiro contato documentado com a doença deu-se no começo de 1889, em Campinas, quando a cidade foi vitimada por uma epidemia de grandes proporções e de fortíssimo impacto, não só sobre seus habitantes como sobre a opinião pública de todo o país.

Campinas era um dos principais centros urbanos do Sudeste. “Competia e em muitos pontos emparelhava com a capital paulista” – observam Santos Filho e Novaes (p.9), autores do estudo mais minucioso sobre a epidemia de febre amarela que “arruinou a pujança, paralisou o desenvolvimento e abateu a cidade”.

Nas três décadas anteriores, a lavoura cafeeira substituíra os canaviais na região, e Campinas prosperara como dinâmico empório comercial e financeiro. Seus fazendeiros e negociantes detinham boa parte da riqueza da província de São Paulo, e a investiam em ferrovias que serviam de indutoras à expansão das lavouras e de novos núcleos urbanos pelo Oeste Paulista, fronteira de expansão da principal atividade econômica do país. Providos de uma mentalidade capitalista, que contrastava com a dos fazendeiros das zonas decadentes do vale do Paraíba, os cafeicultores e comerciantes de Campinas aplicavam capitais em empresas de serviços públicos e dotavam a cidade daqueles mesmos melhoramentos que vinham transformando a vida urbana nas capitais do império e da província: iluminação a gás (1875), linhas de bondes a tração animal (1879), linhas telefônicas (1884), mas, com atraso, os serviços de água e esgotos, implantados somente em 1891-1892, em larga medida, por efeito da febre amarela.

Campinas tornou-se o centro nevrálgico do Oeste Paulista graças a duas estradas de ferro: a Companhia Paulista de Vias Férreas e Fluviais, fundada aí em 1868, e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. A primeira inaugurou a ligação entre Jundiaí e Campinas em 11 de agosto de 1872, quatro meses após a criação da segunda empresa (30.3.1872). O comboio desta última levava a bordo o imperador Pedro II e sua comitiva ao inaugurar-se o trecho entre Campinas e Moji-Mirim, a 27 de agosto de 1875 (Santos Filho & Novaes, 1996, p.13-4).

Inauguração da Cia. Paulista, em Campinas, em 11.8.1872.

Litografia de Jules Martin (Walker & Braz, 2001, p.80).

O recenseamento da população do Brasil realizado em 1872 acusou 31.377 habitantes nas duas paróquias de Campinas: Nossa Senhora da Conceição e Santa Cruz. Outra fonte estimava em 10 mil habitantes a população urbana em 1871, e em 32 mil os moradores das propriedades rurais circundantes, sendo 12 mil livres

e 20 mil escravos. 19

Santos Filho & Novaes (1996, p.13-6) descrevem, com detalhes, as empresas, os equipamentos urbanos e as personalidades que faziam de Campinas “o principal centro da aristocracia rural paulista”. Referem-se aos suntuosos palacetes dos ‘barões do café’ que chegaram a questionar a permanência da capital da província na cidade de São Paulo. Nomeiam as casas varejistas e atacadistas que abasteciam todo o Oeste da província, até mesmo com fundições de ferro e bronze, máquinas agrícolas, peças ornamentais e outros materiais de construção fabricados localmente.

Campinas tinha catedral, teatros, rinque de patinação, hipódromo, clubes, três grandes hotéis – o Europa, o de França e o Grande Hotel Campineiro – e seis colégios – incluindo-se aquele denominado “Culto à Ciência” – que atraíam alunos de vasta zona de influência, e nos quais lecionavam alguns importantes

propagandistas da República.20 A Gazeta de Campinas (1869) era o principal jornal do lugar, mas lá circulavam também a Sensitiva (1873), a Mocidade (1874), o Diário de Campinas (1875) e o Correio de Campinas (1885).

A Santa Casa de Misericórdia foi inaugurada em 1876; dois anos depois, surgia o Hospital da Beneficência Portuguesa. Santos Filho & Novaes (1996, p.21) referem-se, ainda, aos hospitais para variolosos e morféticos, ambos custeados pela Câmara Municipal. Durante a crise de 1889, seriam criadas, às pressas, enfermarias especiais ou lazaretos para isolar as vítimas da febre amarela.

 

Brasão da cidade de Campinas. Fundada na primeira metade do século XVIII, com o nome de Bairro Rural do Mato Grosso, ganhou o

nome atual em 1842. Fonte: www.ngw.nl/int/bra/images/campinas,

acesso em 22.6.2005.

A convicção de que essa doença “não podia subir a serra” (Lutz, 1930), de que tinha como habitat exclusivo as promíscuas aglomerações urbanas situadas em planícies litorâneas, quentes e úmidas, fora já abalada em 1876, quando o dr. Valentin José da Silveira Lopes, futuro visconde de São Valentin, diagnosticara a febre amarela em dois portugueses recém-chegados do Rio de Janeiro. Tinham se internado na casa de saúde de que Lopes era um dos proprietários. O fato não teve maior repercussão por serem casos importados, mas dois meses depois (30.4.1876) Lopes anunciou pela Gazeta de Campinas que mais oito pessoas tinham sido acometidas pela febre amarela. Como todas residiam nas proximidades da estação da Companhia Paulista de Vias Férreas e Fluviais, em casas contíguas ao terreno onde estacionavam vagões carregados de carvão e mercadorias provenientes do porto de Santos, supôs Lopes que tinham sido eles os portadores de germes procedentes de navios infeccionados. Seu diagnóstico alarmou a população e suscitou grande controvérsia não apenas em Campinas, como entre médicos, políticos e jornalistas da capital da província e da capital do Império, uma vez que poucos admitiam a possibilidade de que a febre amarela se manifestasse tão longe da costa (Santos Filho & Novaes, 1996, p.23-4).

Lopes submeteu uma comunicação a esse respeito à Academia Imperial de Medicina, lida e comentada na sessão de 5 de junho de 1876 por Antônio Correia de Sousa Costa (1834-1889), professor de higiene da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e presidente da Junta de Higiene Pública. Seu parecer de que eram, de fato, de febre amarela os casos verificados em Campinas foi publicado nos Anais Brasilienses de Medicina (“Memória sobre a febre amarela em Campinas”), sendo Lopes eleito membro correspondente da

Academia (28.8.1876).21

Endossaram o ponto de vista do médico campineiro Antônio Felício dos Santos (1843-1931), Júlio Rodrigues de Moura (1839-1892), João Vicente Torres Homem (1837-1887) – um dos clínicos mais renomados da capital, professor de clínica médica de sua Faculdade – e Carlos Ferreira de Souza Fernandes (1829-1888) – autor de “A febre amarela em Campinas” (Anais Brasilienses de Medicina, v.28, 1876-1877). Outro aliado foi Augusto César de Miranda Azevedo (1851-1907), futuro deputado constituinte de São Paulo (1891), então residente no Rio de Janeiro.

Mas a hipótese da febre amarela em Campinas foi refutada por diversos professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, inclusive José Martins da Cruz Jobim (1802-1878), seu diretor por muitos anos, lente de medicina legal, um dos fundadores da Academia de Medicina e ainda senador do Império. Suas idéias sobre a etiologia da doença embasaram o ponto de vista de Antônio de Souza Campos (1845-1918), primeiro campineiro a se doutorar em medicina (1872): argumentou este que seria impossível o transporte do elemento que gerava a doença – o ar ‘infeccionado’ de Santos impregnado nas cargas transportadas pelos trens – uma vez que, na passagem pelo Alto da Serra, seria substituído pelo ar frio, mais salubre, das montanhas (Santos Filho & Novaes, 1996, p.26).

A controvérsia não chegou a demover os habitantes do interior da ilusão de que estavam a salvo da febre amarela, “até que os fatos vieram provar o contrário” – observaria mais tarde Adolpho Lutz (1930), que julgava correto o diagnóstico de Lopes em 1876.

A epidemia de 1889, a primeira que grassou em Campinas, teve enorme impacto sobre a população, e repercussão nacional.

Quando irrompeu, o terror se apoderou da população e quem pôde, fugiu:

Os fazendeiros … mudaram para as suas propriedades rurais

ou para São Paulo … Famílias inteiras abandonaram as suas

casas e os seus pertences. Quem não conseguiu condução, de

carro ou a cavalo, foi mesmo a pé, em busca de refúgio nos

sítios vizinhos ou nas cidades mais próximas. Fecharam-se as

residências, as lojas, os armazéns, oficinas, hotéis … As

farmácias não davam conta do aviamento de receitas. (Santos

Filho & Novaes, 1996, p.36-7)

O médico José Maria Teixeira (1854-1895), autor de A epidemia de Campinas em 1889 (1889), registraria: “A cidade estava abandonada e quase deserta! Ruas extensas e retas com centenas de casas fechadas e sem um transeunte” (apud Simões, 1897, p.23). Os moradores remanescentes acorriam todos os dias à igreja para “fazer públicas preces ad petendam pluviam” – observou outra testemunha da crise (ibidem) – com a esperança de que as lágrimas de Deus pusessem abaixo aquele sinistro miasma que se apossara da atmosfera da cidade.

Segundo matéria publicada no Freie Presse. Zeitung für Deutsche in Brasilien, o “negócio dos ladrões” tornou-se muito rendoso naquela cidade fantasma. O sr. Felipe José, um dos que se afastara dela, descobriu, ao retornar, que não restava ouro, nem sedas, nem relógios em sua loja. Outro comerciante que se refugiara em São Paulo, ao retornar, encontrou seu magazine completamente vazio; “Sem dúvida muitos roubos desse tipo ainda virão à tona à medida que os fugitivos da epidemia forem voltando a Campinas”.

Em suas Reminiscências (1930), Lutz alude à opinião corrente de que três quartos de seus 20 mil habitantes a tinham deixado, “ficando, principalmente, homens que tinham empregos; contudo, muitas pessoas voltaram antes do tempo e apanharam a infecção. Dos que não eram imunes e moravam dentro da cidade, quase todos foram infectados”.

Segundo Santos Filho & Novaes (1996) e Simões (1897), quem levou a doença para Campinas foi a suíça Rosa Beck, solteira, com 24 anos de idade, recém-chegada ao Brasil com a intenção de empregar-se como professora de francês. Há dúvidas quanto ao porto onde desembarcou e onde contraiu a doença – Santos ou, mais provavelmente, Rio de Janeiro. Morreu às 2 horas da madrugada de 10 de fevereiro de 1889. Hospedara-se em casa de patrícios, no mesmo prédio onde estes mantinham seu negócio, a Padaria Suíça. Daquele ponto a febre amarela alastrou-se para o resto da cidade. O segundo óbito foi um menino de nove anos que freqüentava a padaria. O médico Eduardo Guimarães, que o atendeu, dois dias antes de seu falecimento, “a bem da saúde pública” publicou a notícia de que tinha sob seus cuidados um doente gravemente afetado pela febre amarela; e a incredulidade em relação a esse evento era tamanha que havia convocado “onze distintos colegas” para corroborar seu diagnóstico (Correio de Campinas, 23.2.1889, apud Santos Filho & Novaes, 1996, p.41). O fato de ser a vítima um autóctone, que nunca se ausentara de Campinas, era assustador: alguma causa local, ainda desconhecida, era a responsável pela febre amarela. “Tal qual uma mancha de azeite em papel mata-borrão” (Simões, 1897, p.21) ela se alastrou em março; abrandou por alguns dias, recrudesceu em abril, o ‘mês do terror’; amainou de novo e tornou a recrudescer no começo de

maio, declinando até encerrar-se no final de junho.22

Segundo Adolpho Lutz (1930), a mortalidade total foi estimada em cerca de duas mil pessoas, “incluindo os infectados que faleceram em outros lugares”. O médico Ângelo Simões (1897) diz que a febre amarela atacou “para mais de 2 mil pessoas em uma população de 3 mil habitantes (que tantos foram os que permaneceram na cidade, no máximo), produzindo 1.200 óbitos, número este por mim escrupulosamente verificado”.

A fração mais abastada da população, que pôde abandonar a cidade, foi a menos atingida; as vítimas eram, em sua maioria, brasileiros sem imunidade contra a doença, seguindo-se os italianos, os portugueses e imigrantes de outras nacionalidades.

 

Adolpho Lutz em Campinas

Em março de 1889, a Câmara Municipal converteu em lazaretos algumas casas no bairro da Guanabara, então afastado do centro urbano. Enfermarias especiais para amarelentos foram criadas também no edifício do Circolo Italiani Uniti, na Escola Municipal Correia de Melo, na sede da Sociedade Portuguesa de Beneficência e ainda na Santa Casa de Misericórdia. Em 1890 seria inaugurado, nas proximidades do cemitério, o Lazareto do Fundão, transformado depois em Hospital do Isolamento, com dois pavilhões de madeira para acomodação dos doentes, residências para o médico e o zelador e instalações destinadas a farmácia e estufa, entre outras (Lapa, 1996, p.261).

Santos Filho & Novaes (1996, p.44-6) descrevem as medidas de

higiene adotadas pela Câmara:23

As vias públicas receberam camadas de piche e foram irrigadas

quase que diariamente ao anoitecer, enquanto barricas de

alcatrão queimavam dia e noite nas esquinas das ruas centrais.

Acendiam-se fogueiras alimentadas por ervas cheirosas.

Acreditava-se que a fumaça … limpasse o ar dos miasmas

deletérios … Todos os móveis e objetos encontrados nos

aposentos das vítimas fatais da febre eram destruídos e

queimados … Para evitar o contágio dos habitantes da cidade,

enterravam-se os cadáveres à noite.24

Como ficaram principalmente os mais pobres, a Câmara adotou medidas para socorrer essa população vulnerável não só à doença como à fome e ao desamparo: custeou a condução em carros de praça dos médicos que a atendessem gratuitamente, distribuiu alimentos e roupas e autorizou o fornecimento de remédios pelas farmácias da cidade, por conta da Câmara Municipal, cujo presidente, José Paulino Nogueira (1853-1915), também adoeceu com febre amarela.

No começo de abril, quando piorou a situação, este telegrafou ao

presidente da província, Pedro Vicente de Azevedo (1844-1902):25 solicitava o envio urgente de médicos, porquanto a maioria daqueles radicados na cidade – cerca de vinte – havia debandado com suas

famílias, e os poucos que permaneceram estavam extenuados.26 O dr. Francisco Marques de Araújo Góis, que estava em Santos, em comissão do governo de São Paulo, rumou para Campinas. Chegou lá em 5 de abril. Impressionado com a dimensão da crise e com a precária assistência proporcionada a suas vítimas, endossou o pedido de reforços médicos. Em fins daquele mês, retornou a Campinas à frente da Comissão Provincial de Socorro, composta por cerca de 35 pessoas, entre médicos, quintanistas e sextanistas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, farmacêuticos,

desinfetadores e empregados para outros serviços.27

Epidemia em Campinas e Santos, 1889 – Charges de Angelo

 

Agostini sobre as epidemias de febre amarela em Campinas e

Santos, retratadas com simbologia que antecipa a República, em

vias de ser proclamada. “Parecem duas cidades abandonadas de

Deus e dos homens! Vendo que o governo não dá as providências

precisas, a imprensa reúne-se, decidindo esmolar em favor dos

míseros habitantes de Campinas e Santos” (Revista Illustrada, ano

14, n.545, 1889, p.4-5; Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro).

Adolpho Lutz fazia parte dessa comissão, juntamente com os drs. Claro Marcondes Homem de Melo (1866-1924), Irineu de Sousa Brito Junior, Aristides Franco de Meireles, Bráulio Gomes e Luis Felipe Jardim (estes dois contrairiam a febre amarela mas sobreviveriam a ela). Em suas Reminiscências (1930, p.128), Lutz recordaria as semanas que passou naquela cidade:

Quando em 1889 fui chamado com urgência de São Paulo para

Campinas, onde já não havia mais médicos, encontrei uma

pandemia bem acusada de febre amarela … Depois de quatro a

cinco semanas, já tinham vindo colegas do Rio de Janeiro e a

epidemia declinava em Campinas.

Lutz refere-se a duas outras comissões médicas – uma enviada pelo Ministério do Império, a segunda pela Comissão de Imprensa Fluminense, constituída por diversos jornais do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, O Paiz e Jornal do Commercio, entre outros).

A comissão do governo central, então sob controle do Partido Conservador, era chefiada pelo já referido dr. José Maria Teixeira (1854-1895), catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (matéria médica e farmácia). Os primeiros integrantes do grupo chegaram a Campinas, ao que parece, no dia 7 de abril, com cem camas e uma “ambulância” sob os cuidados do farmacêutico Joaquim T. Soares da Câmara. Além de Teixeira, participaram da comissão os médicos Eufrásio José da Cunha, Francisco Custório

Pereira de Barros,28 Francisco Corrêa Dutra, João de Deus da Cunha Pinto, Fernando de Barros e Luís Manuel Pinto Neto. (Santos Filho & Novaes, 1996, p.54-5). Pela Imprensa Fluminense, vieram os médicos Clemente Miguel da Cunha Ferreira (1857-1947), chefiando a comissão, e João Batista da Mota de Azevedo Correia (1854-?). Chegaram a Campinas em 20 de abril, trazendo volume considerável de medicamentos, roupas e alimentos adquiridos graças a doações feitas às vítimas da epidemia em eventos organizados na capital do Império: um “bando precatório,” uma corrida de cavalos e um concerto. Permaneceram na cidade até 28 de maio, quando a epidemia já declinava. Além dos médicos comissionados, vieram para Campinas, por conta própria, os drs. Baltasar Vieira de Melo e Domingos José Freire Júnior, tendo o primeiro assinado dois atestados de óbito (Santos Filho & Novaes, 1996, p.58-9, 61, 63).

Continuar: parte 2 de 8