Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 34 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Experiências com culturas de febre amarela

Experiências com culturas de febre

amarela*

 

Para as nossas experiências serviram 2 balões fornecidos por Sanarelli que continham caldo filtrado depois de ter servido por 15 dias como meio de cultura do seu bacilo. É o líquido que costuma designar como toxina de febre amarela. O caldo empregado em primeiro lugar nos pareceu um pouco mais tóxico, mas notamos em geral que a reação de vários indivíduos, mesmo de mesma espécie animal, é bastante variável.

Experimentamos em cachorros, gambás (Didelphis aurita) e só um tatu (Dasypus sexcinctus). Os sintomas observados durante a vida eram: vômitos, logo depois da injeção, elevação de temperatura, albuminúria e escassez de urina, diarréia e abatimento. Convém notar que as temperaturas normais dos gambás e tatus estão freqüentemente abaixo de 33,5° e nunca eram superiores a 34,6°, de modo que uma temperatura de 36,5° já deve ser considerada como febre bastante forte.

Fizemos as seguintes experiências:

Um cachorrinho de 9 quilos de peso recebeu em 1 de setembro 20cc [?] e em 6 de dezembro 30 gramas de cultura filtrada nas veias mesentéricas. Essas injeções produziram sintomas característicos, mas passageiros; pareciam aumentar a tolerância do animal porque em 5 de outubro suportou mais 50 e em 14 de outubro mais 65 gramas injetados nas veias safenas.

Um outro cachorrinho de 4 quilos recebeu em 18 de agosto uma injeção de 15 gramas na veia safena. Apresentou os sintomas já mencionados, mas restabeleceu-se.

Um cachorrinho novo de 480 gramas que recebeu em 29 de outubro 3,6 gramas de cultura, morreu já na noite seguinte falhando as alterações características nas vísceras provavelmente devido ao decurso rápido de intoxicação.

Um outro cachorrinho de mesmo tamanho recebeu em 19 de outubro 2 gramas em injeção intravenosa sem conseqüência fatal.

Em 5 de outubro um gambá de 1.150 gramas recebeu na jugular 10 gramas de cultura filtrada. Teve vômitos e elevação de temperatura, morrendo depois de 3V dias, apresentando congestão e degeneração gordurosa acentuada do fígado, o estômago cheio de massas cor de borra de café e completamente semelhantes às massas que constituem o vômito preto. No duodeno e na parte inferior havia o mesmo conteúdo, sendo o resto do intestino quase vazio, com exceção do reto onde o conteúdo da mucosa feculenta também apresenta uma cor preta. No pulmão direito havia extensas infusões hemorrágicas.

Das vísceras e do sangue cultivaram-se duas espécies de bactérias.

A que prevalecia pôde ser determinada como bacilo piociânico.1

Em 14 de outubro injetamos 7 gramas de caldo da cultura na veia jugular de um tatu do peso de um quilo e com a temperatura de 32,7°. A temperatura subiu até 35,1°. O animal já 24 horas depois parecia moribundo, mas só morreu depois de 40 horas.

Na autópsia achou-se no estômago conteúdo bilioso; no intestino delgado, grande quantidade de matérias parecidas às de vômito preto. A bexiga contém pouco de urina com pequena proporção de albumina.

O fígado é hiperêmico e as suas células contêm muitas granulações, das quais uma parte dá com ácido úrico a reação de gordura. A bile é abundante, de cor verde escura, de consistência mucosa espessa.

Em 11 de novembro um gambá de 235 gramas recebeu 2 gramas de líquido de cultura em injeção intravenosa.

Veio a morrer no dia 24, apresentando fígado muito gorduroso. No estômago havia um pouco de massa preta, o intestino é quase vazio. Encontrou-se uma peritonite localizada na face posterior do estômago, devida ao criptococo [?] piogênico. Esta complicação deve ter causado a morte, mas provavelmente foi consecutiva aos efeitos da toxina.

Em 30 de dezembro recebemos de Sanarelli uma cultura de seu bacilo, já atenuado para os cachorros em conseqüência de passagens repetidas pelo coelho e cultura prolongada.

Inoculado por injeção intravenosa e em pequena dose a um outro gambá, não produziu a morte. Todavia, em 1898 mostrou-se ativo em 2 experiências feitas no coelho e no cão.

No princípio de 1898 também experimentamos uma cultura feita em São Carlos do Pinhal, obtendo no cão e no coelho os fenômenos típicos.

* Manuscrito de Lutz (3 folhas) que se transformou, com algumas diferenças mais de estilo do que de conteúdo, em um trecho do “Instituto Bacteriológico. Relatório de 1897,” texto datilografado, datado de março de 1898. (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 25, pasta 227, maço 1; cópia datilografada.)

1 Bacilo piociânico – era também chamado de “bacilo de Gessord,” segundo nome do bacteriologista que o descreveu em 1882 como bastonete curto e grosso, móvel, isolado ou associado em cadeias, muito polimorfo, que se cultivava bem nos meios habituais. Era abundante na água e nas cavidades orgânicas do corpo e só produzia piocianina – substância que tinge de azul as matérias purulentas -em meio anaeróbio. Encyclopedia e Diccionario Internacional, v.16, p.9334.