Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 25 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

A febre amarela e o mosquito

 

 

No dia 18 do corrente dirigimos a seguinte carta ao Dr. Adolpho Lutz, diretor do Laboratório Bacteriológico do Hospital de Isolamento

de São Paulo: 1

Exmo. Sr.

Os dois grupos em que se dividem nossos higienistas,

relativamente à profilaxia da febre amarela, têm, cada um por

seu termo, invocado a autoridade do nome de V. Exa. para com

ele apoiar as doutrinas que respectivamente defendem.

Uns, o que contestam ao pernilongo rajado a função de

transmissor da febre amarela, citam o relatório em que V. Exa.

considera válidas as experiências de Sanarelli que atribuem ao

bacilo icteróide papel patogênico do terrível mal; outros, em

contestação, invocam trabalhos de V. Exa. impugnando a teoria

de Sanarelli e até a autenticidade do bacilo icteróide e

considerando do maior valor os trabalhos da comissão

havanesa, que dão ao mosquito o papel de único transmissor,

hoje conhecido, do tifo icteróide.

Como V. Exa. sabe, o interesse desta questão chegou, para

nós, ao seu ponto culminante: o Congresso Nacional vai

deliberar sobre as medidas propostas pela Diretoria Geral de

Saúde Pública; é indispensável, pois, que toda a luz se faça em

torno de tão momentoso assunto. Por isso, persuadidos de que

a opinião de V. Exa. é de grande peso, já pelas funções que

exerce, já pelos estudos que tem, dirigimos-lhe este apelo para

que V. Exa. exponha de modo categórico, embora

resumidamente, as idéias que tem sobre a profilaxia da febre

amarela no momento atual.

Convencidos de que V. Exa. não recusará mais esta patriótica e

valiosa contribuição para o extermínio do nosso maior inimigo,

subscrevemo-nos etc.

Devido às suas ocupações, só ontem nos pôde responder o Dr.

Adolpho Lutz com a seguinte carta:

Primeira página da carta manuscrita (5 folhas) enviada por

Adolpho Lutz ao dr. Luís de Castro, em resposta às indagações feitas por seu jornal sobre a transmissão da febre amarela (BR.

MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 6, pasta 212a, maço 01).

Ilmo. Sr. redator.

Não posso deixar de corresponder a seu pedido reiterado de

expor o meu modo de pensar em relação à transmissão da

febre amarela pelos mosquitos e estimaria muito contribuir para

a adoção das medidas necessárias para livrar daquele flagelo a

cidade onde nasci. Creio que isso se realizará somente com

medidas dirigidas contra a transmissão da moléstia pelas

estegomias, que considero hoje perfeitamente estabelecida.

Posso dizer mais, que a idéia dessa transmissão me foi sempre

simpática depois que observei na primeira grande epidemia de

Campinas (em 1889) a coincidência de um enorme número de

pernilongos rajados com um calor extraordinário e uma

pandemia de febre amarela. Como médico e naturalista sempre

prestei atenção a esses mosquitos e sabia que eram muito

freqüentes no Rio e em Santos, porém muito mais escassos no

interior de São Paulo, onde raras vezes se tornaram incômodos

nos lugares que tinha conhecido e habitado. Somente em

Campinas me vi obrigado a recorrer a um mosquiteiro, mesmo

de dia, quando queria ficar um momento descansado na casa

que habitava e onde se deram alguns casos de febre amarela.

Naquele tempo faltavam todos os elementos para explicar as

condições desse modo de transmissão. Sendo então o

mosquito rajado considerado autóctone e limitado aos países

americanos, para mim a objeção principal estava nas epidemias

observadas nas margens do Mediterrâneo e nas costas da

África. Foi com grande admiração que, poucos meses depois,

observei o mesmo mosquito nas ilhas Sandwich, não somente

na Capital, mas até em plantações distantes desta. Ora, lá os

pernilongos não existiam no tempo da descoberta e conhece-se

até a data em que foram introduzidos. Compreendi então que o

mosquito rajado era espalhado pela navegação e devia ser

encontrado em outros países quentes, mas ainda ignorava a

sua existência na Europa meridional. Este fato só se tornou

conhecido mais tarde.

Em 1897 apareceu o bacilo de Sanarelli e por algum tempo

parecia que o problema da febre amarela estava resolvido, pelo

menos quanto ao organismo causador. (Falando do germe de

Sanarelli, escrevi em 1897: “Também não convém esquecer o

papel que as moscas e os insetos que chupam sangue podiam

ter na propagação desta moléstia.”) Entretanto, o bacilo referido

não chegou a fornecer a explicação desejada do modo de

transmissão da febre amarela e pouco a pouco aumentaram as

dúvidas, mesmo em relação a seu papel etiológico.

Em 1898 um dos ministros do império britânico, o conhecido

Joseph Chamberlain, se lembrou de pedir por circular oficial aos

governos das colônias e aos representantes consulares que

fizessem coleções de todas as espécies de culicídeos e outros

insetos chupadores de sangue a fim de serem estudadas no

British Museum.

Vê-se que já nessa ocasião homens esclarecidos, longe de

acharem esses estudos ridículos, compreenderam bem o seu

alcance para a investigação das moléstias do homem e dos

animais domésticos. Achando-me naquele tempo ocupado com

estudos análogos, recebi um convite para contribuir e

correspondi mandando todos os meus culicídeos, em número

de mais de quarenta espécies. A coleção cosmopolita do British

Museum serviu de base para uma monografia dos culicídeos

que apareceu em quatro volumes, sendo o autor o

entomologista inglês F. V. Theobald. Um dos resultados mais

interessantes dos seus estudos é a demonstração que o nosso

mosquito rajado existia já no princípio do século passado, tanto

em Portugal como na Espanha, o que permite explicar as

epidemias de Gibraltar e Lisboa. Em geral foi observado em

todos os países onde a febre amarela tem grassado. Foi

descrito muitas vezes como espécie nova, recebendo assim

vários nomes, que hoje são substituídos pela denominação

geralmente aceita de Stegomyia fasciata.

O estudo dos mosquitos foi motivado em primeiro lugar pelas

novas descobertas em relação à filariose e à malaria. Foram

iniciadas por Manson, que provou que o nosso mosquito

noturno comum tem um papel importante na propagação da

filária que causa a elefantíase e a quilúria endêmica, mas só

mais tarde Bancroft e outros mostraram que a transmissão se

faz durante a picada do mosquito, estando as larvas do verme

recolhidas na tromba do inseto, onde chegam depois de uma

evolução prolongada. Mais tarde resultou dos trabalhos de

Manson, Ross, Grassi e outros, comprovados por experiências

de transmissão feitas na Itália, na Inglaterra e em alguns outros

países, que a malária se propaga pela picada de certos

mosquitos do grupo dos anofelinos, dos quais há pelo menos

cinco representantes no Brasil. Neste caso também a

inoculação só pode ter lugar depois da incubação prolongada

durante a qual o hematozoário tem de passar por várias fases

de evolução no corpo do mosquito. Termina com a formação de

esporozoítos que são introduzidos por meio da saliva do

mosquito injetada na ocasião da picada.

Antigamente pensava-se que o mosquito só chupava sangue

uma vez para depois madurecer e pôr os seus ovos. Julgava-se

que, como tantos outros insetos, morria logo depois. Assim, era

difícil explicar a transmissão de moléstias parasitárias por meio

desses insetos. Mas hoje sabemos por novos estudos que

muitas espécies podem viver bastante tempo chupando sangue

e pondo ovos repetidas vezes.

Os trabalhos de Finlay (que desde 1881 proclamava a teoria

dos mosquitos) fornecem boas provas disso; tornaram-se,

porém, pouco conhecidos. Ultimamente foi verificado muitas

vezes que os mosquitos rajados podem viver perfeitamente

durante dois ou três meses de verão com a condição de serem

alimentados, e sabe-se que não somente entre nós, mas até

em países mais frios, podem perdurar todo o inverno. Sendo a

temperatura baixa as estegomias não picam, cessando assim

as novas infecções até o reaparecimento do calor. Se durante o

inverno a temperatura sobe muito, podem sair dos seus

esconderijos e picar, o que explica os casos observados nessa

estação. Em regra geral, o número, tanto das larvas como dos

mosquitos adultos, fica muito reduzido durante o inverno,

principalmente se for comprido o frio; pode haver até uma

extinção completa das estegomias. Esta é a razão por que em

São Paulo a febre amarela não permanece nem se estende em

toda a cidade. As estegomias introduzidas durante o verão

podem se multiplicar perfeitamente e isso explica as epidemias

de bairro observadas várias vezes. Se uma epidemia se

extingue no fim do verão, não aparecendo um ano depois, será

por falta de sobrevivência de mosquitos infectados e não por

causa de medidas que não conseguiram interromper a marcha

natural das epidemias. As observações acima expostas não só

tornaram fácil aceitar a transmissão da febre amarela pelos

mosquitos, mas até nos fornecem a explicação das

particularidades dessa moléstia: a limitação a países quentes

ou cidades onde há tempos compridos de temperatura elevada,

a preferência dos portos de mar e (entre nós) de lugares

desservidos por estradas de ferro, a cessação das epidemias

na entrada do frio, a falta de contágio pessoal, o prazo que se

observa entre o primeiro caso introduzido num lugar e o

aparecimento de casos frescos, a imunidade de certos lugares,

a ineficiência das medidas não dirigidas contra os mosquitos,

como seja a desinfecção de roupas etc.

Mas essa transmissão da febre amarela pelas estegomias hoje

não é somente uma teoria compreensível e aceitável,

sustentada por muitos fatos análogos, mas, o que vale mais,

está experimentalmente demonstrada. As experiências de

transmissão publicadas já deram vinte e cinco resultados

positivos; é preciso ser bem exigente para não achar esse

número suficiente, tanto mais que essas experiências foram

feitas em três países diferentes e na presença de muitos

médicos. Também a sua importância é todos os dias mais

reconhecida, como resulta do estudo da literatura médica e

especialmente dos jornais profissionais que mais se ocupam

com este assunto.

Os grandiosos resultados práticos obtidos em Havana, onde

cinco meses de trabalho bastaram para acabar com uma

endemia datando de um século e meio, ficam de pé, não

obstante todas as tentativas de negá-los. No congresso do

Cairo ninguém os contestou, nem tampouco a declaração

formal de que esse resultado era unicamente devido à

exterminação dos mosquitos e que as outras medidas sanitárias

(que chegaram a diminuir a mortalidade geral) ficaram

impotentes contra a febre amarela.

Para quem está familiarizado com as questões de parasitologia,

a transmissão da febre amarela pelos mosquitos exclui

qualquer outro modo. O organismo está tão especializado que

nem se pode reproduzir no Culex fatigans, o nosso mosquito

noturno comum. Isso exclui a hipótese de que outros insetos,

muito mais diferentes, sirvam de intermediários. Ainda menos

pode se acusar a veiculação pelo ar ou pela água, que está em

contradição com os fatos de observação corrente. Em

Campinas a introdução de água e esgotos não impediu o

reaparecimento de uma grande epidemia, e no Rio de Janeiro,

depois do estabelecimento do desinfectório, os casos

aumentaram em vez de diminuir.

Não quero negar que haja outros mosquitos capazes de

transmitir a febre amarela. É provável que essa propriedade

pertença a todo o gênero de Stegomyia e não somente a uma

espécie. Conheço mais duas espécies que pertencem à nossa

fauna e que provavelmente devem ser incluídas nesse gênero;

felizmente são espécies silvestres, pouco abundantes, que só

poderiam causar pequenos focos disseminados.

As medidas devem ser dirigidas em primeiro lugar contra todos

os mosquitos que se criam dentro e em redor das casas e por

esse meio que não encontra obstáculos invencíveis pode-se

obter perfeitamente o desaparecimento da Stegomyia fasciata.

Não se deve pensar que a febre amarela só se extinguirá com a

morte do último mosquito. Nesta, como em outras medidas

higiênicas, já um pouco de esforço pode dar muito resultado.

Além disso a proteção dos doentes e das pessoas sãs, por

meio de mosquiteiros etc., contribui muito para diminuir o

perigo.

Se não se poupar a energia e o dinheiro no momento da

necessidade, as dificuldades e despesas diminuirão logo com a

redução do número dos doentes e acredito que só dependerá

de nós dar ao mundo outro exemplo como aquele de Havana.

Aqui deixamos consignados os nossos agradecimentos ao

ilustre Sr. Dr. Adolpho Lutz, que correspondeu ao nosso pedido,

por se tratar de uma questão capital, mas sem o menor intuito

de alimentar polêmicas para as quais não lhe sobra tempo.

 

* Artigo de Adolpho Lutz publicado em Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 299, ano XXX, 26.out.1903, p.1. Em BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 6, pasta 212, maço 1 encontram-se os originais manuscritos da carta e a tradução dela para o inglês feita, provavelmente, por Bertha ou Gualter Adolpho Lutz. [N.E.]

1 Na verdade, diretor do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo.