Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
A febre amarela e o mosquito
No dia 18 do corrente dirigimos a seguinte carta ao Dr. Adolpho Lutz, diretor do Laboratório Bacteriológico do Hospital de Isolamento
de São Paulo: 1
Exmo. Sr.
Os dois grupos em que se dividem nossos higienistas,
relativamente à profilaxia da febre amarela, têm, cada um por
seu termo, invocado a autoridade do nome de V. Exa. para com
ele apoiar as doutrinas que respectivamente defendem.
Uns, o que contestam ao pernilongo rajado a função de
transmissor da febre amarela, citam o relatório em que V. Exa.
considera válidas as experiências de Sanarelli que atribuem ao
bacilo icteróide papel patogênico do terrível mal; outros, em
contestação, invocam trabalhos de V. Exa. impugnando a teoria
de Sanarelli e até a autenticidade do bacilo icteróide e
considerando do maior valor os trabalhos da comissão
havanesa, que dão ao mosquito o papel de único transmissor,
hoje conhecido, do tifo icteróide.
Como V. Exa. sabe, o interesse desta questão chegou, para
nós, ao seu ponto culminante: o Congresso Nacional vai
deliberar sobre as medidas propostas pela Diretoria Geral de
Saúde Pública; é indispensável, pois, que toda a luz se faça em
torno de tão momentoso assunto. Por isso, persuadidos de que
a opinião de V. Exa. é de grande peso, já pelas funções que
exerce, já pelos estudos que tem, dirigimos-lhe este apelo para
que V. Exa. exponha de modo categórico, embora
resumidamente, as idéias que tem sobre a profilaxia da febre
amarela no momento atual.
Convencidos de que V. Exa. não recusará mais esta patriótica e
valiosa contribuição para o extermínio do nosso maior inimigo,
subscrevemo-nos etc.
Devido às suas ocupações, só ontem nos pôde responder o Dr.
Adolpho Lutz com a seguinte carta:
Primeira página da carta manuscrita (5 folhas) enviada por
Adolpho Lutz ao dr. Luís de Castro, em resposta às indagações feitas por seu jornal sobre a transmissão da febre amarela (BR.
MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 6, pasta 212a, maço 01).
Ilmo. Sr. redator.
Não posso deixar de corresponder a seu pedido reiterado de
expor o meu modo de pensar em relação à transmissão da
febre amarela pelos mosquitos e estimaria muito contribuir para
a adoção das medidas necessárias para livrar daquele flagelo a
cidade onde nasci. Creio que isso se realizará somente com
medidas dirigidas contra a transmissão da moléstia pelas
estegomias, que considero hoje perfeitamente estabelecida.
Posso dizer mais, que a idéia dessa transmissão me foi sempre
simpática depois que observei na primeira grande epidemia de
Campinas (em 1889) a coincidência de um enorme número de
pernilongos rajados com um calor extraordinário e uma
pandemia de febre amarela. Como médico e naturalista sempre
prestei atenção a esses mosquitos e sabia que eram muito
freqüentes no Rio e em Santos, porém muito mais escassos no
interior de São Paulo, onde raras vezes se tornaram incômodos
nos lugares que tinha conhecido e habitado. Somente em
Campinas me vi obrigado a recorrer a um mosquiteiro, mesmo
de dia, quando queria ficar um momento descansado na casa
que habitava e onde se deram alguns casos de febre amarela.
Naquele tempo faltavam todos os elementos para explicar as
condições desse modo de transmissão. Sendo então o
mosquito rajado considerado autóctone e limitado aos países
americanos, para mim a objeção principal estava nas epidemias
observadas nas margens do Mediterrâneo e nas costas da
África. Foi com grande admiração que, poucos meses depois,
observei o mesmo mosquito nas ilhas Sandwich, não somente
na Capital, mas até em plantações distantes desta. Ora, lá os
pernilongos não existiam no tempo da descoberta e conhece-se
até a data em que foram introduzidos. Compreendi então que o
mosquito rajado era espalhado pela navegação e devia ser
encontrado em outros países quentes, mas ainda ignorava a
sua existência na Europa meridional. Este fato só se tornou
conhecido mais tarde.
Em 1897 apareceu o bacilo de Sanarelli e por algum tempo
parecia que o problema da febre amarela estava resolvido, pelo
menos quanto ao organismo causador. (Falando do germe de
Sanarelli, escrevi em 1897: “Também não convém esquecer o
papel que as moscas e os insetos que chupam sangue podiam
ter na propagação desta moléstia.”) Entretanto, o bacilo referido
não chegou a fornecer a explicação desejada do modo de
transmissão da febre amarela e pouco a pouco aumentaram as
dúvidas, mesmo em relação a seu papel etiológico.
Em 1898 um dos ministros do império britânico, o conhecido
Joseph Chamberlain, se lembrou de pedir por circular oficial aos
governos das colônias e aos representantes consulares que
fizessem coleções de todas as espécies de culicídeos e outros
insetos chupadores de sangue a fim de serem estudadas no
British Museum.
Vê-se que já nessa ocasião homens esclarecidos, longe de
acharem esses estudos ridículos, compreenderam bem o seu
alcance para a investigação das moléstias do homem e dos
animais domésticos. Achando-me naquele tempo ocupado com
estudos análogos, recebi um convite para contribuir e
correspondi mandando todos os meus culicídeos, em número
de mais de quarenta espécies. A coleção cosmopolita do British
Museum serviu de base para uma monografia dos culicídeos
que apareceu em quatro volumes, sendo o autor o
entomologista inglês F. V. Theobald. Um dos resultados mais
interessantes dos seus estudos é a demonstração que o nosso
mosquito rajado existia já no princípio do século passado, tanto
em Portugal como na Espanha, o que permite explicar as
epidemias de Gibraltar e Lisboa. Em geral foi observado em
todos os países onde a febre amarela tem grassado. Foi
descrito muitas vezes como espécie nova, recebendo assim
vários nomes, que hoje são substituídos pela denominação
geralmente aceita de Stegomyia fasciata.
O estudo dos mosquitos foi motivado em primeiro lugar pelas
novas descobertas em relação à filariose e à malaria. Foram
iniciadas por Manson, que provou que o nosso mosquito
noturno comum tem um papel importante na propagação da
filária que causa a elefantíase e a quilúria endêmica, mas só
mais tarde Bancroft e outros mostraram que a transmissão se
faz durante a picada do mosquito, estando as larvas do verme
recolhidas na tromba do inseto, onde chegam depois de uma
evolução prolongada. Mais tarde resultou dos trabalhos de
Manson, Ross, Grassi e outros, comprovados por experiências
de transmissão feitas na Itália, na Inglaterra e em alguns outros
países, que a malária se propaga pela picada de certos
mosquitos do grupo dos anofelinos, dos quais há pelo menos
cinco representantes no Brasil. Neste caso também a
inoculação só pode ter lugar depois da incubação prolongada
durante a qual o hematozoário tem de passar por várias fases
de evolução no corpo do mosquito. Termina com a formação de
esporozoítos que são introduzidos por meio da saliva do
mosquito injetada na ocasião da picada.
Antigamente pensava-se que o mosquito só chupava sangue
uma vez para depois madurecer e pôr os seus ovos. Julgava-se
que, como tantos outros insetos, morria logo depois. Assim, era
difícil explicar a transmissão de moléstias parasitárias por meio
desses insetos. Mas hoje sabemos por novos estudos que
muitas espécies podem viver bastante tempo chupando sangue
e pondo ovos repetidas vezes.
Os trabalhos de Finlay (que desde 1881 proclamava a teoria
dos mosquitos) fornecem boas provas disso; tornaram-se,
porém, pouco conhecidos. Ultimamente foi verificado muitas
vezes que os mosquitos rajados podem viver perfeitamente
durante dois ou três meses de verão com a condição de serem
alimentados, e sabe-se que não somente entre nós, mas até
em países mais frios, podem perdurar todo o inverno. Sendo a
temperatura baixa as estegomias não picam, cessando assim
as novas infecções até o reaparecimento do calor. Se durante o
inverno a temperatura sobe muito, podem sair dos seus
esconderijos e picar, o que explica os casos observados nessa
estação. Em regra geral, o número, tanto das larvas como dos
mosquitos adultos, fica muito reduzido durante o inverno,
principalmente se for comprido o frio; pode haver até uma
extinção completa das estegomias. Esta é a razão por que em
São Paulo a febre amarela não permanece nem se estende em
toda a cidade. As estegomias introduzidas durante o verão
podem se multiplicar perfeitamente e isso explica as epidemias
de bairro observadas várias vezes. Se uma epidemia se
extingue no fim do verão, não aparecendo um ano depois, será
por falta de sobrevivência de mosquitos infectados e não por
causa de medidas que não conseguiram interromper a marcha
natural das epidemias. As observações acima expostas não só
tornaram fácil aceitar a transmissão da febre amarela pelos
mosquitos, mas até nos fornecem a explicação das
particularidades dessa moléstia: a limitação a países quentes
ou cidades onde há tempos compridos de temperatura elevada,
a preferência dos portos de mar e (entre nós) de lugares
desservidos por estradas de ferro, a cessação das epidemias
na entrada do frio, a falta de contágio pessoal, o prazo que se
observa entre o primeiro caso introduzido num lugar e o
aparecimento de casos frescos, a imunidade de certos lugares,
a ineficiência das medidas não dirigidas contra os mosquitos,
como seja a desinfecção de roupas etc.
Mas essa transmissão da febre amarela pelas estegomias hoje
não é somente uma teoria compreensível e aceitável,
sustentada por muitos fatos análogos, mas, o que vale mais,
está experimentalmente demonstrada. As experiências de
transmissão publicadas já deram vinte e cinco resultados
positivos; é preciso ser bem exigente para não achar esse
número suficiente, tanto mais que essas experiências foram
feitas em três países diferentes e na presença de muitos
médicos. Também a sua importância é todos os dias mais
reconhecida, como resulta do estudo da literatura médica e
especialmente dos jornais profissionais que mais se ocupam
com este assunto.
Os grandiosos resultados práticos obtidos em Havana, onde
cinco meses de trabalho bastaram para acabar com uma
endemia datando de um século e meio, ficam de pé, não
obstante todas as tentativas de negá-los. No congresso do
Cairo ninguém os contestou, nem tampouco a declaração
formal de que esse resultado era unicamente devido à
exterminação dos mosquitos e que as outras medidas sanitárias
(que chegaram a diminuir a mortalidade geral) ficaram
impotentes contra a febre amarela.
Para quem está familiarizado com as questões de parasitologia,
a transmissão da febre amarela pelos mosquitos exclui
qualquer outro modo. O organismo está tão especializado que
nem se pode reproduzir no Culex fatigans, o nosso mosquito
noturno comum. Isso exclui a hipótese de que outros insetos,
muito mais diferentes, sirvam de intermediários. Ainda menos
pode se acusar a veiculação pelo ar ou pela água, que está em
contradição com os fatos de observação corrente. Em
Campinas a introdução de água e esgotos não impediu o
reaparecimento de uma grande epidemia, e no Rio de Janeiro,
depois do estabelecimento do desinfectório, os casos
aumentaram em vez de diminuir.
Não quero negar que haja outros mosquitos capazes de
transmitir a febre amarela. É provável que essa propriedade
pertença a todo o gênero de Stegomyia e não somente a uma
espécie. Conheço mais duas espécies que pertencem à nossa
fauna e que provavelmente devem ser incluídas nesse gênero;
felizmente são espécies silvestres, pouco abundantes, que só
poderiam causar pequenos focos disseminados.
As medidas devem ser dirigidas em primeiro lugar contra todos
os mosquitos que se criam dentro e em redor das casas e por
esse meio que não encontra obstáculos invencíveis pode-se
obter perfeitamente o desaparecimento da Stegomyia fasciata.
Não se deve pensar que a febre amarela só se extinguirá com a
morte do último mosquito. Nesta, como em outras medidas
higiênicas, já um pouco de esforço pode dar muito resultado.
Além disso a proteção dos doentes e das pessoas sãs, por
meio de mosquiteiros etc., contribui muito para diminuir o
perigo.
Se não se poupar a energia e o dinheiro no momento da
necessidade, as dificuldades e despesas diminuirão logo com a
redução do número dos doentes e acredito que só dependerá
de nós dar ao mundo outro exemplo como aquele de Havana.
Aqui deixamos consignados os nossos agradecimentos ao
ilustre Sr. Dr. Adolpho Lutz, que correspondeu ao nosso pedido,
por se tratar de uma questão capital, mas sem o menor intuito
de alimentar polêmicas para as quais não lhe sobra tempo.
* Artigo de Adolpho Lutz publicado em Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 299, ano XXX, 26.out.1903, p.1. Em BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 6, pasta 212, maço 1 encontram-se os originais manuscritos da carta e a tradução dela para o inglês feita, provavelmente, por Bertha ou Gualter Adolpho Lutz. [N.E.]
1 Na verdade, diretor do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo.