Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 26 de 56

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Dossiê febre amarela: experiências feitas entre dezembro de 1902 e maio de 1903

Dossiê

 

 

Febre amarela: experiências feitas

entre dezembro de 1902 e maio de

1903

 

Febre amarela: experiências feitas entre

dezembro de 1902 e maio de 1903

Documento manuscrito e datilografado, sem paginação, contido no códice “Febre Amarela – Experiências feitas no Instituto Bacteriológico durante 1896 a 1903.” Instituto Adolfo Lutz, Arquivo, Livro 18. A folha de abertura do livro traz carimbo do Instituto Bacteriológico – Biblioteca – 22.6.1933. As atas concernentes às experiências ocupam 38 folhas. Depois daquelas que dizem respeito às cinco sessões da 1 a série, seguem-se vários documentos que tem relação com as experiências; a mesma coisa acontece após o registro das onze sessões da 2 a série.

O presente dossiê tem, assim, a seguinte estrutura:

• Atas da 1a série de experiências em n° de 5. Declarações

• Ata da 1a série de experiências feitas no Hospital de

Isolamento para verificação da transmissibilidade da febre

amarela pelos estegomias. 1a sessão

• 1a a Série de experiências. Ata da 2 sessão

• 1a a série de experiências. Ata da 3 sessão

• 1a a série de experiências. Ata da 4 sessão

• 1a a série de experiências. Ata da 5 sessão

• Documentos avulsos

• 2a série de experiências, realizadas em 20 de Abril de 1903.

Ata da 1a sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 2 sessão

• 2a a série de experiências. Ata da 3 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 4 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 5 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 6 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 7 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 8 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 9 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 10 sessão

• 2a a Série de experiências. Ata da 11 sessão

• Documentos avulsos

 

Experiências feitas em desembro de 1902

 

Instituto Bacteriológico

Atas da 1 a série de experiências em n° de 5

Declarações

Declaração feita pelos funcionários do Serviço Sanitário abaixo assinados e pela Comissão de clínicos que foram convidados para acompanhar as experiências sobre a transmissão da febre amarela pelos estegomias.

Sendo de grande importância repetir em nosso país as experiências feitas em Cuba sobre a transmissão da febre amarela pela Stegomyia fasciata em pessoas que voluntariamente a isso se prestaram, foram os abaixo-assinados convidados pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir às primeiras experiências.

Os mosquitos utilizados para esse fim são exemplares criados de larvas, não tendo chupado sangue antes ou depois da ocasião escolhida para a infecção deles, e para infeccioná-los aproveitou-se propositalmente um caso leve de febre amarela em um doente que teve alta no 8° dia de moléstia.

Esta foi diagnosticada pela Comissão Sanitária de São Simão na doente de nome Alexandrina, tendo sido os mosquitos aplicados nesta pelo Dr. Carlos Meyer, Ajudante do Instituto Bacteriológico, nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro do corrente ano, nos 1° e 2° dias da moléstia.

Estes exemplares foram trazidos a esta Capital pelo mesmo Doutor no dia 2 do corrente e conservados no Instituto Bacteriológico, onde foram alimentados convenientemente, isto é, com mel diluído e tâmaras secas.

Durante esse tempo a temperatura foi geralmente de 21° a 23°, o que pode-se considerar inferior à temperatura que provavelmente reinava em Cuba quando ali se fizeram experiências, e por isso foi julgado necessário ajuntar aos 12 dias tidos como prazo mínimo para tornar infeccioso o mosquito, mais 3 dias.

Este prazo talvez seja insuficiente, porém não foi estendido, já pelo grande risco que se correria de perder os mosquitos infeccionados, conservando-os por muito tempo, como porque pode-se repetir a aplicação dos mesmos mosquitos nos mesmos pacientes, depois de alguns dias.

Compreende-se que, tratando-se de uma experiência preliminar, não se escolheram as condições que mais favoreciam um resultado positivo (como o emprego de um número de mosquitos tendo chupado repetidas vezes em vários casos, e mesmo em casos graves) procurando-se, pelo contrário, as condições para produzir uma infecção de pouca gravidade visto não se dispor ainda de um tratamento específico.

Tendo as experiências em Cuba mostrado que, observando-se as

condições necessárias,1 a aplicação de mosquitos dava aproximadamente 47% de resultados positivos, não se quis exceder esse número de mosquitos.

Em conclusão, não se tendo escolhido as condições mais favoráveis, um pequeno número de resultados negativos não poderão naturalmente servir de prova absoluta definitiva contra a transmissibilidade da febre amarela pelo Stegomyia fasciata, convindo então fazerem-se outras experiências em circunstâncias mais favoráveis.

São Paulo, 15 de dezembro de 1902.

Presidente – Dr. L. Pereira Barreto

A. G. Silva Rodrigues

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Cândido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

 

Ata da 1a série de experiências feitas no Hospital

de Isolamento para verificação da

transmissibilidade da febre amarela pelos

estegomias.

1a sessão

Aos 15 dias do mês de dezembro de 1902 pelas 11 horas da manhã, achando-se presentes os Drs. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, médico do Hospital de Isolamento, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e a Comissão de clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências, composta dos Drs. Luis Pereira Barreto, A. G. Silva Rodrigues e Adriano de Barros, foram lidas as declarações escritas e assinadas pelos pacientes em como se sujeitavam às experiências sob a sua livre vontade e exclusiva responsabilidade. Em seguida foi lida e por todos assinada uma declaração expondo as condições em que a experiência ia ser feita. Logo depois fez-se com que dois mosquitos picassem no braço do Dr. Emílio Ribas e ao mesmo tempo outros dois picaram no braço do Dr. Adolpho Lutz, seguindo-se a mesma operação quanto aos pacientes Oscar Marques Moreira e Domingos Pereira Vaz, com dois mosquitos para cada um. Foi verificado por todos que os mosquitos picaram bem em vista da quantidade de sangue que se observava no abdome deles e pelos sinais evidentes que deixaram sobre a pele no lugar das picadas. Os pacientes Oscar Marques Moreira e Domingos Pereira Vaz que, parece não se acharem em condições de imunidade quanto à febre amarela, ficaram recolhidos ao Hospital de Isolamento. O Dr. Ribas sofreu a picada de dois mosquitos que haviam picado a doente Alexandrina no dia 1 de dezembro quando tinha a temperatura de 37°6 e o pulso a 102; o Dr. Lutz sofreu a picada de um mosquito infeccionado no dia 30 de novembro quando a temperatura da doente era de 39°4 e o pulso 105 e um mosquito do dia 1° de dezembro nas condições dos que picaram o Dr. Ribas; o paciente Oscar Moreira sofreu a picada de dois mosquitos nas mesmas condições daqueles que picaram o Dr. Lutz; e o paciente Domingos Vaz sofreu a picada de um mosquito infeccionado no dia 30 de novembro, quando a doente também tinha a temperatura de 38°8 e o pulso 102 e outro mosquito nas condições dos que picaram o Dr. Ribas. Feito o que se lavrou-se a presente ata que vai por todos assinada.

São Paulo – 15 de dezembro de 1902

Dr. L. P. Barreto

A. J. Silva Rodrigues

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

Nota – Os mosquitos picaram nos braços do dr. Ribas e Dr. Lutz às 11h30, e nos outros dois pacientes ao meio-dia.

 

1a série de experiências

Ata da 2a sessão Aos 18 dias do mês de dezembro de 1902 pelas 11:30 horas da manhã, achan-do-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, Médico do Hospital de Isolamento, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e a Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências, composta pelos Drs. Luis Pereira Barreto, A. G. Silva Rodrigues e Adriano de Barros, foi por todos verificado que nenhuma das pessoas que se deixaram picar pelos estegomias no dia 15 do corrente haviam apresentado alteração na saúde. Ao meio-dia os Drs. Emílio Ribas e Adolpho Lutz e os cidadãos Oscar Marques Moreira e Domingos Pereira Vaz fizeram-se picar novamente pelos Stegomyia, sendo que este último paciente foi picado pelos mesmos dois mosquitos que serviram no dia 15. O paciente Oscar Moreira só foi picado pelo mosquito infeccionado em Alexandrina no dia 30 de novembro p.p., e que também serviu para ele no dia 15 do corrente, visto que o outro do dia 1° de dezembro não quis picar. Os Drs. Emílio Ribas e Adolpho Lutz deixaram-se picar cada um por um mosquito infeccionado no doente Nicola Razzoti no dia 24 de novembro, 1° dia da moléstia em que a temperatura axilar era de 39°5 e o pulso 116, não se conseguindo que outros mosquitos infeccionados no dia 25 no mesmo doente, que então tinha a temperatura de 38°2 e o pulso a 104, picassem bem, pois que um só destes o fez levemente no braço do Dr. Adolpho Lutz. Todas as pessoas presentes verificaram as picadas dos mosquitos pelos sinais que deixaram sobre a pele e pelo sangue que continham no abdome. O caso Nicola Razzoti foi de marcha longa e de caráter grave; entretanto nada se poderá coligir se no prazo provável de incubação os Drs. Emílio Ribas e Adolpho Lutz não manifestarem a moléstia, porquanto em relação esses Cidadãos não se pode excluir a existência de imunidade adquirida. Em seguida foi lavrada a presente ata que vai por todos assinada.

São Paulo – 18 de dezembro de 1902

Dr. L. Pereira Barreto

Dr. A. G. Silva Rodrigues

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

 

1a série de experiências

Ata da 3a sessão

Aos 22 dias do mês de dezembro de 1902 pelas 12 horas da tarde, achando-se presentes o Dr Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Victor Godinho, Médico do Hospital de Isolamento; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e os membros da Comissão de Clínicos que foram convidados pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências, Dr. A. G. Silva Rodrigues e Adriano de Barros, deixando de comparecer o Dr. Luis Pereira Barreto, verificou-se que todas as pessoas que se haviam submetido à experiência achavam-se no gozo de saúde. À meia hora depois do meio-dia aplicaram-se os mosquitos no braço do paciente Domingos Pereira Vaz, conseguindo-se apenas que picasse um deles, o que foi infeccionado no dia 30 de novembro em Alexandrina, o mesmo que já o havia picado nas duas sessões anteriores. À vista disso foi resolvido que se fizesse nova aplicação às 5 horas da tarde, desistindo os Drs. A. G. da Silva Rodrigues e Adriano de Barros do seu comparecimento nessa ocasião. Às 5 horas, pois, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Dr. Candido Espinheira, Dr. Victor Godinho e Dr. Carlos Meyer, foram aplicados três mosquitos no braço do paciente Domingos Pereira Vaz, sendo um infeccionado em Alexandrina no dia 30 de Novembro (T. 39°4 – P-105), outro infeccionado em Nicola no dia 24 de novembro (T. 39°5 – P.116) e o 3° também infeccionado em Nicola no dia 25 de novembro (T. 38°2 – P. 104). Todos os mosquitos picaram bem o que por todos foi verificado. Em seguida foi lavrada a presente ata, que vai por todos assinada.

São Paulo – 22 de dezembro de 1902.

Dr. L. Pereira Barreto

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

 

1a série de experiências

Ata da 4a sessão

Aos 12 dias do mês de Janeiro de 1903 pelas 12 horas da tarde, achando-se presentes o Dr. Emílio Marcondes Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, Médico do Hospital de Isolamento, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e o Dr.

Adriano de Barros, um dos membros da Comissão de Clínicos, que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências, deixando de comparecer os Drs. Luis Pereira Barreto e A. G. da Silva Rodrigues, verificou-se que todas as pessoas que se tinham submetido à experiência achavam-se no gozo de saúde, tendo sido portanto negativos os resultados das aplicações do Stegomyia nas 3 sessões anteriores. À meia hora depois do meio-dia aplicaram-se no paciente Domingos Vaz quatro mosquitos que se tinham infeccionado em S. Simão no dia 24 de dezembro p.p. alimentando-se com sangue do doente de febre amarela Benjamim Rosanini, que estava no 2° dia de moléstia. Destes 4 mosquitos, 2 picaram a Benjamim de manhã e 2 na tarde do mesmo dia. Um dos infeccionados à tarde apenas picou no braço do paciente Domingos Vaz, sendo que os outros três também chuparam sangue. Não tendo os outros mosquitos da mesma procedência querido picar no braço do cidadão Oscar Moreira, foi resolvido fazer-se nova aplicação às 6:30 horas da tarde. Nessa ocasião, achando-se presentes os mesmos cidadãos acima mencionados, apesar de muitas tentativas, não se conseguiu que os mosquitos picassem, pelo que resolveram que o Dr. Carlos Meyer fizesse no dia seguinte pela manhã nova aplicação. Às 7:00 horas da manhã do dia 13 do corrente o Dr. Meyer conseguiu fazer com que um mosquito infeccionado em Benjamim na manhã de 24 de dezembro p.p. picasse e chupasse sangue do braço do paciente e às 7h30 um outro da mesma procedência, infeccionado na tarde do mesmo dia, picasse duas vezes no braço sem contudo chupar sangue. Ao meio-dia outro mosquito nas condições dos precedentes e infeccionado na manhã do dia 24 de dezembro p.p., picou também por duas vezes o braço do paciente Oscar sem ter chupado sangue, apesar de estar em jejum há 53 horas. Em seguida foi lavrada a presente ata que vai assinada todos os presentes.

São Paulo – 13 de janeiro de 1903.

Dr. Adriano de Barros

Dr. L. Pereira Barreto

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

 

1a série de experiências

Ata da 5a sessão

Aos 20 dias do mês de janeiro de 1903 pelas 10 horas da manhã, achando-se presentes o Dr. Emílio Marcondes Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, Médico do Hospital de Isolamento, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e o Dr. Adriano de Barros, membro da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências, deixando de comparecer os Drs. Luis Pereira Barreto e A. G. da Silva Rodrigues, foi resolvido fazer-se nova aplicação de estegomias infeccionados em doentes de febre amarela. Às 11 horas da manhã foram aplicados no paciente Januário Fiori quatro mosquitos infeccionados em S. Simão no doente Joaquim Farquinio no dia 1° de janeiro, 1° dia da moléstia. Um deles foi infeccionado de manhã quando a temperatura do doente era de 39°2 e o pulso 88, e os outros três foram infeccionados à tarde em que a temperatura era de 40° e o pulso 94. Todos picaram bem, como se verificou não só pelos sinais que deixaram no braço como pelo sangue que continha no abdome. As larvas desses estegomias vieram de Itu para São Paulo; aí se desenvolveram, sendo os mosquitos depois enviados para São Simão a fim de serem infeccionados. À 1 hora da tarde foram

aplicados no braço do paciente André[-]2 6 mosquitos infeccionados no mesmo doente Joaquim Farquinio em S. Simão. Destes mosquitos um foi infeccionado na manhã do 1° dia de moléstia, quando a temperatura do doente era de 39°2 e o pulso 88 e os outros cinco foram infeccionados no segundo dia quando a temperatura era de 38°9 e o pulso 88. Todos picaram bem e chuparam sangue. Em seguida lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 20 de janeiro de 1903.

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

 

Memorandum3

 

Diretoria do Serviço Sanitário do Estado de S.

Paulo

Diário Oficial

S. Paulo-1902

S. Paulo, 1 de dezembro de 1902

Amigo e Colega Dr. Lutz Recebi ontem a sua carta e o caixote contendo tubos. Não houve ontem entrada alguma para o hospital. Das 3 doentes que lhe comuniquei por último, deixei de fazer aplicação dos mosquitos em

uma que tinha bradicardia 4 – o pulso chegou ontem a 42 e agora verifiquei que tinha razão, porque soube neste momento que ela morreu esta noite. O Nicola teve ontem outra vez febre e as outras duas mulheres, Elisa e Alexandrina vão em boas condições. Ontem consegui 23 chuparem em Elisa (total 48) e 16 em Alexandrina (total

23) […]5 experiência, pois é uma mulher forte, de 46 de idade e que estava no verdadeiro início da moléstia – era vizinha do barbeiro que foi removido ontem com 5 dias de moléstia. Consegui fazer 20 mosquitos chuparem nela. Uma outra, Maria Jacintha, de 6 horas de moléstia, velha, T. 39°8 P.52. Consegui só 3 mosquitos chupados. Uma outra, preta, Alexandrina, de 20 anos, caso característico com 1 dia de moléstia, entrou à noite e às 9 h consegui ainda fazer 5 mosquitos chuparem. Como as vasilhas para guardar são poucas e como ontem nada havia de novo e já me haviam morrido 6 mosquitos que estavam na câmara úmida à espera de aplicação, eu ontem à noite umedeci um pouco o papel de filtro e creio que por isso muitos não quiseram chupar hoje. Tenho esperança de amanhã obter muitos chupadores. Como se estão apresentando estes casos novos é de supor que em poucos dias tenha já bastantes infeccionados (mosquitos) e por isso desejava saber qual o modo de ir enviando-os para lá. Aqui o lugar é pequeno e faltam-me todas as comodidades para eles; não sei se poderão ir despachados; enfim o senhor me mandará dizer o que pensa a respeito. O calor está insuportável. Desejando-lhe seu pronto restabelecimento, peço recomendar-me a Exa. família, ao Dr. Ribas, aos meus e aceite saudades do amigo colega e obrigado

Carlos H. Meyer

Nota explicativa

Anotações manuscritas a lápis comum ou vermelho em folhas de papel (5), algumas delas timbradas para memorando da Diretoria do Serviço Sanitário do Estado de S. Paulo, folhas essas encadernadas no códice que contém as atas das experiências sobre a febre amarela realizadas na cidade de São Paulo em 1902-3. 1. A primeira folha traz a data 22.12.1902 (por ficar muito próxima à costura do livro, não pode ser reproduzida). Diz respeito à terceira sessão da primeira série de experiências; constam aí os nomes dos médicos que assistiram às picadas feitas, à tarde, no braço de Domingos Pereira Vaz; cada linha registra o nome do doente em que fora previamente infeccionado o mosquito usado naquela sessão; em seguida, a data deste procedimento em São Simão, depois a temperatura e pressão do doente então picado. 2. A segunda folha, assinada por Carlos H. Meyer, ajudante de Adolpho Lutz, registra os mosquitos que Emílio Ribas levara para o Instituto Bacteriológico, provavelmente, na manhã de 26.1.1903. Convém notar que ocorrera em 20.1 a última sessão da série de experiências destinadas a provar a transmissão da febre amarela por mosquitos. O documento consigna o nome do doente que servira à infecção de cada lote de mosquitos, a data da operação e o número de espécimes da cada lote, elevando-se o total a 86 mosquitos. 3. A terceira folha registra o número de mosquitos (115) que eram mantidos na estufa a 28°, na manhã do dia 18, sendo provável que fosse dezembro e em São Simão. Constam aí os nomes dos doentes usados para infeccionar os mosquitos, o dia de adoecimento em que se encontravam ao terem seu sangue sugado, os seus dados clínicos (temperatura e pulso), o número de mosquitos postos a picar cada doente, especificando-se ainda a origem dos insetos (quase todos remetidos da cidade de São Paulo). 4. Em folha timbrada (10.12.1902), Meyer anota os nomes dos doentes (Alexandrina e Nicola) em que tinham sido infeccionados 26 mosquitos, especificando as datas em que foram picados esses doentes. Meyer pusera os mosquitos em “tubos novos e completamente esterilizados, inclusive a esponja com mel,” observando que tinha escapado um dos que “chuparam em Alexandrina no dia 1-XII”. Essas anotações devem ter acompanhado a remessa dos mosquitos para São Paulo, onde seriam usados nas sessões da primeira série de experiências. 5. Nesta folha timbrada, com data de 4.12.1902, Meyer anota os nomes de doentes internados com febre amarela no hospital de São Simão, o dia em que foram submetidos às picadas de mosquitos e o número de mosquitos que sugaram seu sangue. [N.E.]

Nota explicativa

Três folhas com anotações feitas em São Simão por Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico de São Paulo. Na primeira, constam os dias (15 e 16.12.1902) e horas em que foi picado um doente de febre amarela, especificando-se apenas sua temperatura e pressão no momento da operação. A segunda folha registra o estado de um dos doentes (Nicola Razzoti) que serviram à infecção de mosquitos usados nas experiências iniciadas em São Paulo em 15.12.1902. Constam aí a temperatura e pulso do doente pela manhã e à tarde dos dias 13 a 17, provavelmente de dezembro. Na ata da segunda sessão (18.12), consta que o primeiro dia de doença de Razzoti fora em 24 de novembro, tendo sido o seu caso de marcha longa e de caráter grave. Naquela sessão, mosquitos infectados nele picaram Adolpho Lutz e Emílio Ribas. Na última folha (14.12.1902) manuscrita por Meyer, provavelmente, vêem-se dados concernentes à infecção de mosquitos levados do Instituto Bacteriológico a São Simão por Adolpho Carlos Lindenberg, outro ajudante de Adolpho Lutz. Neste documento figuram os nomes dos doentes (Silvério, José Florio, Luisa Falconi, Meriza; em seguida, Nicola e Silverio, depois Alex e Nicola), o número de mosquitos que os picaram, o dia de adoecimento em que se achavam quando picados, e a data em que se realizou a operação (em novembro e dezembro de 1902).

Nota explicativa

Prontuários de duas pacientes internadas no hospital de São Simão com febre amarela, encadernados no códice que contém as atas das experiências sobre a febre amarela realizadas na cidade de São Paulo em 1902-3. Junto a estas duas folhas, constam gráficos indicando as curvas termométrica e de pulso de Maestra Elisa Pietro e Carlinda de Souza. No prontuário da primeira, lê-se: “Recolhida ao hospital com 12 horas de moléstia, tendo apresentado no período de invasão os seguintes sintomas: cefalalgia super orbitária, raquialgia, dores generalizadas, hiperemia facial, torácica e conjuntival, olhar brilhante, intolerância gástrica, sem albumina nas urinas, e com febre. É uma mulher de constituição robusta e disse ter sempre gozado boa saúde, exceto há 7 anos, quando teve em S. Simão a febre amarela, de caráter benigno”. No prontuário de Souza, consta que foi “recolhida com menos de um dia de moléstia tendo apresentado no período de invasão os seguintes sintomas: Cefalalgia super orbitária, calafrios, intolerância gástrica, hiperemia torácica, dores generalizadas a todo o corpo e febre. Nunca teve moléstia sifilítica nem venérea. Anteriormente (2 anos e tanto) teve uma febre de período longo, que se presume ser a febre tifóide. Teve queda dos cabelos nessa ocasião”.

Nota explicativa

Folha de papel que parece ter sido dobrada, com anotações manuscritas em seus quatro cantos. As do canto superior esquerdo dizem respeito a Domingos Pereira Vaz, um dos voluntários que se submeteu à primeira série de experiências destinada a provar a transmissão da febre amarela por mosquitos. Registra os sinais de seu adoecimento em conseqüência das picadas que sofreu. As anotações do canto inferior esquerdo têm a data de 15.1.1903; parecem indicar que entre a quarta sessão, em 12.1, e a quinta, em 20.1, os dois voluntários, Oscar Marques Moreira e Domingos Pereira Vaz, foram submetidos a novas picadas de mosquitos infeccionados. As observações do canto inferior direito dizem respeito à infecção no dia 18 (de dezembro, provavelmente) de 28 mosquitos em São Simão nos doentes Nicolao Vicente, Joaquim Tarquinio, Hypolito Vicente e um nome que pode ser o de Alexandrina. No canto superior esquerdo, está riscado o endereço de mãe e filho provavelmente internados com febre amarela no hospital de São Simão. [N.E.]

Nota explicativa

Anotações manuscritas em pedaço de papel encadernado no códice que contém as atas das experiências sobre a febre amarela realizadas na cidade de São Paulo em 1902-3. Dizem respeito à infecção de mosquitos (quantidades indicadas à direita) em doentes de febre amarela (nomes à esquerda). No meio das linhas, seu autor – Carlos Meyer, provavelmente – indica, nem sempre na mesma ordem, o dia de adoecimento, a temperatura e o pulso do doente, a data em que foi submetido às picadas dos mosquitos. Como se vê, alguns destes morreram, outros chuparam pouco sangue. Na parte referente a “Orlam” (?), lê-se: “Todos estes mosquitos tinham chupado sangue de Maria Alexandrina em São Simão a 19-XII-902, 2° dia de moléstia -Temperatura 37.6, Pulso 84”. [N.E.]

Nota explicativa

Telegramas enviados de São Simão a Ribas, diretor do Serviço Sanitário, na capital paulista. O primeiro (6.12.1902), de Lindenberg, ajudante do Instituto Bacteriológico, descreve a evolução de um paciente não identificado que serviu à infecção de mosquitos usados nas experiências feitas em São Paulo para provar que eram os transmissores da febre amarela. “Dia 2 manhã 38°2, pulso 94, tarde 39°9 pulso 88. Dia 3, manhã 38°, pulso 92, pequena epistaxe, tarde 39°5, pulso 88, ansiedade epigástrica, dia 4 manhã 38°5, pulso 82, ansiedade, doente agitado, tarde 39°4, pulso 80, enterorragia insignificante, dia 5 manhã 39°4, pulso 100 enterorragia desapareceu, albuminuria persistente ainda”. O segundo telegrama de Lindenberg (8.12.1902) trata da evolução do caso de Nicola Razzotti (que chama Rossatti) “dia 6, manhã 39°, pulso 88, tarde 38°8, pulso 80. Dia 7, manhã 39°5, pulso 100, tarde 38, pulso 82, teve sede pequena enterorragia, urina 24 horas, 940 cem. Dia 8 manhã 38°, pulso 82, dormiu toda noite, evacuação normal persiste albumina, estado geral bom, considero-o livre perigo”. No terceiro telegrama de 10.12.1902, Lindenberg continua a tratar desse caso, retomando sua evolução a partir do “dia 8, tarde, 39°, pulso 84; dia 9, manhã, 37°6, pulso 74, urinou 800, tarde 38°6, pulso 80, dia 10, manhã, 37°4, pulso 78, urinou 750, albumina persiste casos desde dia 2 ruas Prudente 27, estação 9, Tiradentes 57, Paulo 2. Segue ofício informações detalhadas”. O quarto telegrama, enviado em 13-12-02 pelo Dr. Francisco Luiz Vianna, chefe da comissão sanitária enviada a São Simão, comunica a partida de Lindenberg “levando trinta exemplares prontos. Notas doente Nicola, dia 10 tarde, temperatura 38°4, pulso 80, urina bastante albuminosa; dia 11 manhã 37°5, pulso 78; tarde 37°8, pulso 74, menos quantidade albumina; dia 12 manhã temperatura 37°3, pulso 74; tarde temperatura 38°, pulso 82, pequena quantidade albumina; dia 13 manhã temperatura 37°2, pulso 96, pequena quantidade de albumina; estado geral lisongeiro”.

Nota explicativa

Tabela que registra a evolução do caso de Domingos Pereira Vaz, um dos voluntários submetidos a picadas de mosquitos infeccionados na primeira séria de experiências, destinadas a provar que eram os transmissores da doença. O início do adoecimento é descrito nos seguintes termos: “Foi picado no dia 12 [de janeiro de 1903] a meia hora depois do meio dia, por 2 mosquitos infeccionados em Benjamim na manhã do dia 24-XII – T. 39°2 – P. 92, e outros 2 infeccionados no mesmo doente na tarde do mesmo dia 24-XII – T.; 39°2 – P. 92. No dia 15 novamente picado por 3 dos mesmos mosquitos a 1 ¼ h. da tarde. No dia 15 às 4hs 45 da tarde começou a sentir mal estar, inapetência, dor de cabeça, fotofobia, principalmente na região frontal, dores generalizadas pelo corpo, e forte raquialgias. Estes sintomas foram aumentando progressivamente a proporção que a temperatura se elevava. Muitos calafrios. Suores. 74 ¼ hs” [sic].

Mosquitos que serviram para a 1a experiência.

15 de Dezembro

Emílio Ribas 11 ½ 2 mosquitos dia 1° Dezembro infeccionado em Alexandrina, 2° fase

3° dia – temp. 37°6 – P.102.

Dr. A. Lutz 11 ½ 2 mosquitos infeccionados em Alexandrina, sendo 1 do dia 30 de Novembro – temp. 39°4 P. 105 e 1 do dia 1° Dezembro T. 37°6 P. 102.

Domingos Vaz 12hs 2 mosquitos infeccionados em Alexandrina sendo 1 do dia 30 Novembro – temp. 38°8 – P. 102 e 1 do dia 1°-XII – Temp. 37°6 P. 102.

Nov. 9 ½ hs – 2 mosquitos infeccionado em Alexandrina, sendo 2 do dia 30 de Novembro – temp. 39°4 – P. 105 e 1 do dia 1° Dezembro T. 37°6 P. 102.

Oscar Moreira 12 hrs – 2 mosquitos infeccionados em Alexandrina, sendo 1 do dia 30 de Novembro – temp. 39,4 P.105 e 1 do dia 1° de Dezembro T 37°6 P. 102

18 de Dezembro – meio dia

E.Ribas – 1 mosquito infeccionado em Nicola no dia 24 de Novembro, T. 39°5 P. 116; Um do dia 25 não quis picar.

A . Lutz – 1 mosquito infeccionado em Nicola no dia 24-XI – T. 39°5 – P. 116 e Mais 1 do dia 25 – T. 38°2 – P. 104.

Domingos Vaz – 2 mosq. Infeccionados em Alexandrina, os mesmos que lhe picaram no dia 15.

Oscar Moreira – 1 mosquito, o mesmo do 30-XI que lhe havia picado no dia 15. 0 do dia 1° não quis picar.

22 de Dezembro – Meio dia e 20 minutos.

Domingos Vaz – 1 mosquito infeccionado em Alexandrina no dia 30-XI, o mesmo que já o picou nos dias 15 e 18.

5 horas da tarde

1 mosquito – caso Nicola – 24-XI – 39°5 – 116

1 dito – caso Nicola 25-XI – 38°2 – 104

1 dito – caso Alexandrina 30-XI – 39°4 – 105

12 de Janeiro – 12 ½ hs da tarde

Domingos Vaz – 2 mosquitos infeccionados em Benjamim na manhã do dia 24 de Dezembro – T. 39°2 – P. 92.

2 mosquitos infeccionados em Benjamim na tarde do dia 24 de

Dezembro – T. 39°2 – P. 92.

Relatório dos drs. Luís Pereira Barreto, Antônio

 

Gomes da Silva Rodrigues e Adriano Júlio de

Barros7

Ilmo. sr. dr. Emílio Ribas, muito digno diretor de Higiene Pública do Estado de São Paulo.

A comissão por vós nomeada para acompanhar as experiências instituídas no nosso Hospital de Isolamento, sob a vossa iniciativa com o fim de decidir com todo o rigor científico se, sim ou não, a febre amarela se transmite pela picada dos mosquitos pernilongos, vem hoje dar-vos conta da honrosa tarefa de declarar-vos, com a máxima isenção de ânimo, que não podiam ser mais brilhantes, nem mais fecundos pelo seu alcance prático, os serviços que por vosso intermédio o Estado de São Paulo acaba de prestar à ciência e à humanidade.

A comissão não pode deixar de, em primeiro lugar, apontar a correta hombridade com que procedestes, expondo com toda a lealdade, aos arrojados indivíduos que se submetiam às experiências, os grandes perigos a que iam se expor.

Não tentamos uma só experiência, sem primeiro ter uma expressa declaração por escrito de cada paciente de que se prestava à demonstração experimental.

E não pudemos deixar passar em silêncio o edificante fato: fostes vós e o dr. Lutz os primeiros a dar o exemplo, fazendo-se ambos picar e picar bem, por vários mosquitos infeccionados pelo sangue de doentes de febre amarela.

Primeira observação: – Domingos Pereira Vaz, paranaense, de 22 anos de idade, solteiro. Este corajoso moço foi picado no dia 12 de janeiro, meia hora depois do meio-dia, por quatro pernilongos da espécie “Stegomyia fasciata,” os quais todos haviam sido infeccionados, picando um doente de febre amarela característica e bastante grave, no dia 24 de dezembro em São Simão. Do dia 12 a 14 de janeiro, observando regime sóbrio e debaixo de toda vigilância, passou ele sem a menor alteração na sua saúde.

Ao cair da noite do dia 14, porém, sentiu-se ligeiramente incomodado com calafrios e vômitos: – vomitou 3 vezes até às 10 horas da noite.

No dia 15 amanheceu ainda indisposto, levantando-se tarde, conservando a temperatura inferior a 37°; na tarde desse mesmo dia, às 4 e 45 minutos, acentuou-se o mal-estar geral, sobrevindo-lhe dores de cabeça, fotofobia, horripilações, quebramento de membros, dores generalizadas por todo o corpo, raquialgia forte. Nesse momento o termômetro acusou apenas 37°2. Em seguida logo começou a temperatura a subir e com ela, foram progressivamente se agravando todos os sintomas; tornou-se patente a hiperemia das conjuntivas, desenhou-se a característica congestão cutânea da região torácica e clavicular e apresentou-se extrema sensibilidade na região epigástrica.

Foi este caso típico da forma benigna da febre amarela. A ausência de albumina nas urinas poderá parecer a alguns espíritos mais exigentes, um sério motivo de dúvida quanto à exatidão do diagnóstico.

Para os que, porém, estão rompidos na prática da observação de doentes de febre amarela, não pode aqui subsistir a mínima sombra de dúvida. O “facies” do amarelento é um quadro “sui generis,” patognomônico, que jamais se pode confundir com qualquer outro. O brilho especial das córneas, a sufusão conjuntival, o aspecto vultuoso da face acompanhando o cortejo habitual dos outros sintomas, não permitem ao clínico, hesitação. É quadro que uma vez visto, nunca mais se apaga da memória.

Segunda observação: – Januário Fiori. Italiano, residente no Brasil há 11 anos, solteiro, com 23 anos de idade. Este moço foi picado no dia 20 de janeiro às 11 horas da manhã, por quatro mosquitos infeccionados em São Simão (730 quilômetros pela estrada de ferro), foram criados em São Paulo, de larvas colhidas na cidade de Itu e sugaram o sangue de um doente de febre amarela grave, no primeiro dia da moléstia, confirmada e bem caracterizada. No dia 23 de janeiro, do meio-dia em diante, começou Januário Fiori a sentir-se indisposto. Às 7 horas da tarde ainda tomou chá, porém, sem apetite. Às 7,30 sentou cefalalgia. Acusava então fortes calafrios, cefaléia super-orbitária e dores nas pernas. Às 9 horas já era bem visível a hiperemia das conjuntivas, da face e do tórax.

Este caso não admite hesitações de diagnóstico. Nada absolutamente faltou para ser completo o quadro mórbido da febre amarela. Ficou definitivamente demonstrado e fora de toda possibilidade de contestação, que um pernilongo -Stegomyia fasciata – pode conduzir a febre amarela a grande distância e transmiti-la do indivíduo doente ao indivíduo são. A experiência feita aqui na Capital de São Paulo remove para sempre, todas as objeções. Não temos aqui o concurso tumultuário das agências climatológicas ou mesológicas, como as que se dão em muitas localidades flageladas para embaraçar as conclusões. As belas experiências dos médicos americanos em Havana, não obstante o resultado final positivo da extinção dos mosquitos não conseguiram fazer calar todas as controvérsias, só pelo fato de ser aquela populosa cidade um lugar em que reinava a febre endemicamente, havia mais de um século. Objetava-se que os casos experimentais ali observados não constituíam uma prova absoluta, porque os indivíduos podiam ter contraído a infecção por um outro canal que não o dos mosquitos. Essa objeção em São Paulo seria simplesmente um caso de improbidade científica.

Não existe aqui circunstância alguma que possa baralhar os fatores do problema e diminuir a força de um “veredictum” experimental concludente. O problema a ser resolvido achou-se aqui reduzido aos termos os mais simples que se possa desejar em uma experimentação em que o determinismo científico só tem a palavra. Todas as cautelas foram aqui tomadas para que os indivíduos que iam sujeitarse às experiências, ficassem isolados e sob imediata vigilância de um pessoal solícito, como é o do nosso Hospital de Isolamento. Todos se achavam em magníficas condições de saúde quando se submeteram à prova experimental.

Terceira observação: – André Ramos. Pardo, brasileiro, de 40 anos de idade, casado. Foi picado no mesmo dia que Fiori, a 20 de janeiro à uma hora da tarde por 6 mosquitos infeccionados em São Simão, no mesmo doente que infeccionou os que serviram para prova precedente, sendo um, do primeiro dia da moléstia.

No dia 24 sentiu dores nas pernas e estômago e raquialgia, bem como ardor nos olhos. Notou-se hiperemia intensa das conjuntivas e do tórax. Passou mal a noite de 25, acusando fortes dores de cabeça e no estômago e ansiedade precordial.

Neste doente, o exame de urina nunca revelou a presença de albumina. Foi este um segundo caso de forma benigna de febre amarela”.

De tudo quanto observou a comissão, concluiu que a

transmissibilidade de febre amarela é devida aos mosquitos e8 é um fato positivo adquirido para a ciência e que deste fato resulta a necessidade da higiene privada e pública deixar a defensiva para tomar-se energicamente a ofensiva.

Eis em resumo o que de maior urgência pareceu à comissão comunicar-vos.

 

Febre amarela

Instituto Bacteriológico

2a Série de experiências

Ata da 1a sessão

Aos 20 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 horas e 20 minutos da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Victor Godinho, Médico do Hospital de Isolamento; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e a Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes desta moléstia, composta dos Drs. Luis Pereira Barreto, A. G. da Silva Rodrigues e Adriano Barros, foi introduzido no quarto convenientemente preparado para esse fim no Pavilhão II do Hospital de Isolamento o cidadão italiano Malagutti Giuseppe. Esse quarto está protegido contra a entrada e saída de mosquitos por meio de tecido de arame colocado sobre as venezianas, que abrem para o lado de fora, permitindo assim abrir-se as vidraças para o lado de dentro. As venezianas ficaram lacradas a fim de não poderem ser abertas durante a noite pelos pacientes. Na véspera, 19, foi feito o expurgo do quarto por meio do enxofre. Em um dos cantos foi colocada uma estufa a gás com a chaminé, com o fim de elevar-se a temperatura do quarto em ocasiões de estar muito baixa. Aberta a caixa existente no quarto por Malagutti Giuseppe, este retirou daí dois sacos que continham as roupas servidas pelos doentes de febre amarela Paschoal Ceraballo e Francisco Ceraballo, procedentes de São José do Rio Pardo que tendo enfermado nesta capital, foram removidos para o Hospital de Isolamento, falecendo o primeiro a 18 e o segundo a 23 de fevereiro do corrente ano. Em seguida o paciente abriu os sacos e deles retirou todas as peças de roupa, que apresentaram na maior parte grandes manchas de sangue, vômitos pretos etc., e com elas preparou com suas próprias mãos o leito em que deveria dormir, espalhando depois o restante pelo soalho do quarto. A temperatura do ambiente do quarto nesta ocasião era de 20° centígrados, a mesma que de manhã foi observada pelo Dr. Candido Espinheira. Foi determinado ao paciente que no dia seguinte de manhã, antes de lhe ser aberta a porta do quarto, reunisse toda a roupa quer da cama, quer existente sobre o soalho, introduzisse-a novamente nos sacos e os colocasse dentro da caixa. Feito o que foi fechado o quarto, ficando um empregado de prontidão a fim de acudir a qualquer chamado e de verificar, em horas diferentes da noite, se o paciente estava ou não deitado sobre o leito. Nada mais havendo a fazer-se foi lavrada esta ata que vai por todos assinada.

São Paulo – 20 de abril de 1903

Declaramos em tempo que o Dr. Luiz Pereira Barreto não se achava presente à noite, tendo vindo durante o dia a fim de verificar a disposição do quarto.

São Paulo – 20 de abril de 1903

Dr. A. G. da Silva Rodrigues

Dr. Adriano de barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Victor Godinho

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 2a sessão

Aos 21 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 ½ horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, e Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, foram introduzidos no quarto destinado às experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes desta moléstia os italianos Malagutti Giuseppe e Angelo Paroletti. As roupas, que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelo paciente Malagutti Giuseppe nos sacos, e estes colocados na caixa, foram dali retiradas pelos dois pacientes, que com elas prepararam os respectivos leitos, espalhando o restante pelo soalho. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente, que o paciente Malagutti Giuseppi achava-se deitado no leito como tinha sido por ele preparado. A temperatura do quarto de manhã era de 20° e à noite de 21°, sendo a do exterior de manhã de 12° e à noite 10°. Em seguida foi fechado o quarto observando-se as mesmas determinações feitas na véspera, e lavrou-se a presente ata que vai assinada pelos presentes.

São Paulo – 21 de abril de 1903

Dr. Emílio Ribas

Dr. Carlos Meyer

Dr. Candido Espinheira

2a série de experiências

Ata da 3a sessão

Aos 22 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 ½ horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, e Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, foram introduzidos no quarto destinado às experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes desta moléstia os italianos Malagutti Giuseppe e Angelo Paroletti. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos pacientes nos sacos e estes colocados na caixa, foram daí retiradas pelos mesmos dois pacientes, que com elas prepararam os respectivos leitos, espalhando o restante pelo soalho. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes achavam-se deitados nos leitos que haviam preparado. A temperatura do quarto de manhã e à noite era de 20°, sendo a do exterior de manhã de 6° e à noite de 16°. Em seguida foi fechado o quarto observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata que vai assinada pelos presentes.

São Paulo – 22 de abril de 1903

Dr. E. M. Ribas

Dr. Carlos Meyer

Dr. Candido Espinheira

2a Série de experiências

Ata da 4a sessão

Aos 23 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Victor Godinho, Médico do mesmo Hospital; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico; Dr. Arthur P. Ripper, inspetor sanitário, e Dr. Adriano de Barros, um dos membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de se provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes desta moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para estas experiências os italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Paroletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos pacientes Malagutti Giuseppe e Angelo Paroletti nos sacos e estes colocados na caixa, foram daí retiradas pelos três pacientes, que com elas prepararam os seus respectivos leitos, espalhando o restante pelo soalho. Foram empregadas nos travesseiros três fronhas que serviram a doentes de febre amarela em Taubaté e que se achavam manchadas com vômitos pretos; estas fronhas chegaram daquela localidade ontem, 22 do corrente, à noite. O paciente Angelo Paroletti vestiu um paletó que se achava entre as peças de roupa, e que havia servido durante a moléstia a um dos doentes de onde procederam as roupas. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes dormiam nos leitos como haviam preparado. A temperatura do quarto de manhã era de 20° e à noite de 21°, sendo a do exterior de manhã de 15° e à noite de 16°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas deter-minações dos outros dias, e lavrou-se esta ata que vai por todos os presentes assinada.

São Paulo – 23 de abril de 1903

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 5a sessão

Aos 24 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, Médico do mesmo Hospital, Dr. Vital Brasil, Diretor do Instituto Soroterápico de Butantan, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e Dr. A. G. da Silva Rodrigues, um dos membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de se provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para estas experiências os italianos Malagutti Giuseppe; Angelo Paroletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos três pacientes nos sacos, e estes colocados na caixa, foram daí retiradas pelos mesmos pacientes, que com elas prepararam os leitos em que deveriam dormir, espalhando o restante pelo soalho. O paciente Angelo Paroletti tornou a vestir o mesmo paletó com que dormira na véspera. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes se achavam deitados nos respectivos leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 21° e à noite de 23°5, sendo a do exterior de manhã de 14°5 e à noite 15°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata que vai por todos os presentes assinada.

São Paulo – 24 de abril de 1903

Dr. Emílio M. Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Carlos Meyer

Dr. Candido Espinheira

2a Série de experiências

Ata da 6a sessão

Aos 25 dias do mês de abril de 1903 pelas 8 ½ horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, Médico do mesmo Hospital, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, Dr. Theodoro Bayma, inspetor sanitário, e o Dr. Adriano de Barros, um dos membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de se provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para estas experiências os Italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Paroletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos três pacientes nos sacos, e estes colocados na caixa, foram daí retiradas pelos mesmos pacientes, que com elas prepararam o leito em que deveriam dormir, tendo antes todos eles sacudido bem todas as peças de roupa. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os três pacientes se achavam deitados nos respectivos leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 25° e à noite de 23°5, sendo a do exterior de manhã de 15° e à noite de 16°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 25 de abril de 1903

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Carlos Meyer

Dr. Candido Espinheira

2a Série de experiências

Ata da 7a sessão

Aos 26 dias do mês de abril de 1903 pelas 9 horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, médico do mesmo Hospital, e Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, foram introduzidos no quarto preparado para as experiências feitas com o fim de se provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia os italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Paroletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos pacientes nos sacos e estes colocados na caixa, foram daí retiradas pelos mesmos pacientes que com elas prepararam os respectivos leitos, espalhando o restante pelo soalho, vestindo depois cada um uma camisa de dormir nova, que havia sido colocada de mistura com as roupas usadas. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes dormiam nos seus respectivos leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 26° e à noite de 23°, sendo a do exterior de manhã de 16° e à noite de 18°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias e lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 26 de abril de 1903

Dr. Emílio Ribas

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Candido Espinheira

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 8a sessão

Aos 27 dias do mês de abril de 1903 pelas 8 horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emíilio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário, Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico, Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento, Dr. Victor Godinho, médico do mesmo Hospital, Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e os Drs. Luiz Pereira Barreto e Adriano de Barros, membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de se provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para essas experiências os italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Paroletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos três pacientes nos sacos, e estes colocados na caixa, foram dali retiradas pelos mesmos pacientes, que com elas prepararam os seus respectivos leitos depois de sacudirem bem todas as peças, espalhando o restante sobre o soalho, principalmente próximo aos leitos. Em seguida abriram três frascos que se achavam hermeticamente fechados e lacrados, contendo um deles urinas de doente de febre amarela em Casa Branca, e os outros dois vômitos pretos e fezes sanguinolentas procedentes de Ribeirão Preto, e espargiram essas substâncias sobre as roupas. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes dormiam em seus respectivos leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 23° e à noite de 22°, sendo a do exterior de manhã de 17° e à noite 16°. Foi depois fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 27 de abril de 1903

Dr. L. Pereira Barreto

Dr. Adriano de Barros

Dr. E. M. Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 9a sessão

Aos 28 dias do mês de abril de 1903, pelas 8 horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico, e os Drs. A. G. da Silva Rodrigues e Adriano de Barros, membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para essas experiências os italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Pasoletti e Giovani Siniscalchi. As roupas que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos três pacientes nos sacos e estes na caixa, foram dali retiradas pelos mesmos pacientes, que com elas prepararam os seus respectivos leitos, depois de sacudirem bem as peças. O paciente Malagutti Giuseppe vestiu o paletó com que Angelo Pasoletti havia já dormido duas noites, e os outros vestiram as camisas que estavam de mistura com a roupa. Uma das vidraças do quarto ficou aberta durante a noite. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente que os pacientes dormiam em seus leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 21°,5 e a noite de 23°, sendo a do exterior de manhã de 18° e a noite também 18°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 28 de abril de 1903

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 10 a sessão

Aos 29 dias do mês de abril de 1903 pelas 8 ½ horas da noite, achando-se presentes o Dr. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Victor Godinho, médico do mesmo Hospital; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico; e os Drs. A. G. da Silva Rodrigues e Adriano de Barros, membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, foram introduzidos no quarto preparado para esta experiências os italianos Malagutti Giuseppe, Angelo Pasoletti e Giovani Siniscalchi. As roupas, que de manhã, sob fiscalização direta, haviam sido introduzidas pelos três pacientes nos sacos e estes na caixa, foram dali retiradas pelos mesmos pacientes, que com elas prepararam os seus respectivos leitos, depois de terem sacudido bem todas as peças. O paciente Giovani Siniscalchi dormiu com o paletó que havia servido durante a moléstia a um dos doentes de febre amarela de onde procederam as roupas, o mesmo com que já haviam dormido os outros dois pacientes. Os outros dormiram com as camisas que estavam de mistura com as roupas. Foi determinado que ficasse aberta uma das vidraças, que deveria ser fechada durante a noite, caso a temperatura ficasse inferior a 21°. Foi verificado por diversas vezes durante a noite antecedente, que os pacientes dormiam em seus leitos. A temperatura do quarto de manhã era de 22° e a noite de 23°, sendo a do exterior de manhã de 16°e a noite 17°. Em seguida foi fechado o quarto, observando-se as mesmas determinações dos outros dias, e lavrou-se esta ata, que vai assinada por todos os presentes.

São Paulo – 29 de abril de 1903

Dr. Adriano de Barros

Dr. Emílio Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Carlos Meyer

2a Série de experiências

Ata da 11a sessão Aos 10 dias do mês de maio de 1903, tendo sido verificado pelos Drs. Emílio M. Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico; Dr. Candido Espinheira, Diretor do Hospital de Isolamento; Dr. Victor Godinho, médico do mesmo Hospital; Dr. Carlos Meyer, ajudante do Instituto Bacteriológico; e os Drs. A. G. da Silva Rodrigues e Adriano de Barros, membros da Comissão de Clínicos que foi convidada pela Diretoria do Serviço Sanitário para assistir e acompanhar as experiências feitas com o fim de provar o contágio ou não da febre amarela pelas roupas usadas por doentes dessa moléstia, que os pacientes Malagutti Giuseppe, Angelo Pasoletti e Giovani Siniscalchi continuaram em estado de perfeita saúde como se achavam durante todo o tempo das experiências, deram-se elas por terminadas, visto ter decorrido o prazo de 10 dias completos da data em que os mesmos estiveram pela última vez em contato com as roupas que serviram para a experiência, considerando-se esse período de tempo bastante suficiente para excluir a possibilidade de incubação da febre amarela. Em vista disso, os pacientes foram dispensados de permanecerem no Hospital de Isolamento onde se achavam até agora para observação. O Dr. Luis Pereira Barreto verificou o perfeito estado de saúde dos três pacientes no dia 8 do corrente. Em seguida foi lavrada esta ata, que vai por todos assinada.

São Paulo, 10 de maio de 1903

Dr. Adriano Barreto

Dr. Emílio Ribas

Dr. Candido Espinheira

Dr. Adolpho Lutz

Dr. Carlos Meyer

Nota explicativa As onze sessões da segunda série de experiências, de 20 de abril a 10 de maio de 1903, tiveram o objetivo de provar que as secreções dos doentes de febre amarela (vômito, sangue, urina etc.) não eram capazes de transmitir a doença a pessoas suscetíveis a ela. O quarto onde ficaram confinados os voluntários juntamente com roupas poluídas por aquelas secreções foi mantido a uma temperatura superior à do ambiente externo, de modo que funcionasse como uma estufa propícia à atividade dos microrganismos que seriam os supostos responsáveis pelo contágio da doença. Essa temperatura era mantida por uma estufa a gás.

A folha abaixo contém a relação das 81 peças de roupa usadas nessas experiências.

Nota explicativa

No códice onde figuram os materiais precedentes estão encadernados, também, estes “documentos em n° de 5 que acompanham as atas da 2 a série de experiências sobre o contágio da febre amarela”. O primeiro apresenta dados sobre os três voluntários que se submeteram às experiências. Os demais dão testemunho da veracidade das matérias orgânicas supostamente contagiosas que foram extraídas de diversos doentes e postas em contato com os referidos voluntários.

O ofício expedido de Ribeirão Preto para Emílio Ribas [2], diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, em 18.4.1903, acompanhava três frascos contendo dejetos de amarelentos recolhidos no Hospital de Isolamento daquela localidade e levados à capital paulista pelo desifetador José Antonio de Lima. O autor não identificado desse ofício prometia remeter “os documentos asseguradores da autencidade desses dejetos e que são assinados pelos Drs. Francisco César e Carlos Mauro, clínico nessa cidade”. São eles justamente que assinam as declarações datadas de 18.4.1903. Na primeira [3], asseguravam ter assistido “ao recolhimento, em vaso apropriado, por parte do Sr. Dr. Pereira da Cunha, Diretor do Hospital, do produto da enterorragia proveniente da doente Helena Maria. A enterorragia deu-se no dia sexto de degencia [sic] no Hospital, nono da moléstia”. Na segunda declaração [4], garantiam a autenticidade do recolhimento, em vaso apropriado, do vômito preto proveniente da mesma doente, recolhido nos “dias quinto e sexto de degencia [sic] no Hospital, respectivamente oitavo e nono de moléstia”. O quinto documento da série é um ofício do Hospital de Isolamento de Taubaté, assinado em 22.4.1903 por três inspetores sanitários, um clínico, um vereador e um farmacêutico, com firma reconhecida em cartório: naquele mesmo dia, tinham sujado três fronhas com vômito preto de um doente que falecera no dia anterior. O último documento [6], procedente de Casa Branca (18.4.1903) e assinado por um farmacêutico e pelo redator do jornal Tribuna Livre, garantia a autenticidade da urina extraída de um doente que se achava em estado comatoso e anúrico desde a véspera.

Hospital de Isolamento em Taubaté

Aos 22 dias de abril de 1903, às 12 horas e dez minutos do dia, nós abaixo assinados, sujamos três fronhas, das usadas por doentes de febre amarela, neste Hospital, com vômito preto do doente José Rodrigues Ferreira, que aqui esteve em tratamento e faleceu no dia 21 do corrente às 6 horas da tarde depois de 6 dias de isolamento nosocomial, feito este passado com o fim de serem as ditas fronhas enviadas para serem em São Paulo usadas a título de experiência com o fim de verificar-se a não contaminação de pessoas sãs, em contato com tais roupas poluídas.

Taubaté, 22 de abril de 1903

Dr. Augusto Pacheco – Inspetor Sanitário

Dr. Urbano Figueira – Inspetor Sanitário

Dr. Francisco Rodrigues de Camargo – Inspetor Sanitário

- Testemunhas – tais -

Dr. José Alfredo [ilegível] – Clínico

[?] – Vereador

José Machado [ilegível] – Farmacêutico Reconheço verdadeiras as firmas supra que dou fé. Taubaté, 22 de abril de 1902

Em testemunha de veracidade

O 1° Tabelião

Antonio José Rodrigues da Silva

Ata

Aos 18 dias do mês de fevereiro, dos abaixo assinados, farmacêutico Fernando Musa e advogado Dr. João Silveira, este redator do jornal Tribuna Livre, a convite do Doutor Cláudio de Souza, inspetor sanitário e diretor do Hospital de Isolamento, reuniram-se num dos quartos do referido Hospital, onde se achava internado o doente Manuel dos Santos, português, branco, de 35 anos de idade atacado de febre amarela há quatro dias. O doente pouco antes tinha tido abundantes vômitos pretos, dos quais havia ainda evidentes vestígios, nas roupas da cama. Achava-se em estado comatoso e não tinha urinado desde a véspera. O Dr. Cláudio de Souza, introduziu então até a bexiga do referido doente, uma sonda nelaton [sic] e extraiu uma certa quantidade de urinas, que foi recolhida em frasco, lacrado e por um de nós rotulado, levando a assinatura do farmacêutico Musa. E para maior, digo, para constar lavramos a presente ata que vai por nós assinada.

Casa Branca, 18 de abril de 1903.

Fernando Musa

João Silveira

Dr. Cláudio de Sousa

Ofício enviado a Emílio Ribas pelo dr. José Martins Bonilha de

Toledo, autor de um estudo sobre a urina do doente de febre

amarela cuja apresentação, de autoria de Adolpho Lutz, é reeditada

no presente volume. Esse ofício diz respeito à presença de

albumina, um dos sinais da febre amarela, em urinas de pacientes

envolvidos nas experiências em curso no Hospital de Isolamento

sobre a doença. Toledo morreria em conseqüência dela, por

contaminação acidental, cerca de dois meses depois (24.4.1903).

[N.E].

1 Aplicação num doente de febre amarela característica, no 2° dia de moléstia, e conservação dos mosquitos num ambiente de temperatura elevada durante 12 dias no mínimo.

2 Na Ata original, deixou-se um espaço em branco no lugar do sobrenome. Na versão datilografada existente no Fundo Adolpho Lutz consta André Ramos. [N.E.].

3 Carta a Adolpho Lutz escrita por seu assistente, Carlos H. Meyer, em São Simão, em 1.12.1902, usando folhas de papel (3) timbradas para memorando da Diretoria do Serviço Sanitário do Estado de S. Paulo. Meyer acusa o recebimento, no dia anterior, de tubos contendo mosquitos a serem infeccionados sugando o sangue de doentes de febre amarela recém-chegados ao hospital de isolamento daquela cidade. Na carta, o ajudante do Instituto Bacteriológico refere-se às condições dos doentes submetidos à operação, e às dificuldades envolvidas em fazer os mosquitos picarem de maneira adequada e em mantê-los vivos, para a viagem de retorno a São Paulo, onde seriam feitas as experiências destinadas a comprovar a transmissão culicidiana da febre amarela. [N.E.]

4 Freqüência cardíaca anormalmente baixa, menor que 60 batimentos por minuto em adultos. [N.E.]

5 Tudo indica que falta um trecho entre a página 1 e 2 do memorando escrito por Meyer. [N.E.]

6 Linha escrita com lápis vermelho e riscada. [N.E.]

7 Fernando Cerqueira Lemos transcreve, “em suas principais partes,” o relatório da comissão clínica que acompanhou a primeira série de experiências sobre febre amarela, a convite do Serviço Sanitário de São Paulo, em “Contribuição à história do Instituto Bacteriológico 1892-1940,” Revista do Instituto Adolfo Lutz, v.14, 1954, número especial, p.65-7. O autor diz que o relatório foi escrito em 20.2.1903, mas nele se encontram observações feitas em 24.2.

8 O começo desta frase é de Lemos, abreviando, provavelmente, um período do documento original. [N.E.]