Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 46 de 56

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Ueber die Drepanidien der Schlangen. Ein Beitrag zur Kenntnis der Hämosporidien

Sobre os drepanídios das serpentes.

Uma contribuição para o

conhecimento dos hemosporídios *

 

Ocupado há alguns anos com o estudo dos esporozoários, analisei o sangue de todos os vertebrados à minha disposição, à procura de hemosporídios. Consegui resultados positivos, tanto nos seres de sangue quente quanto nos de sangue frio. Entre os primeiros encontrei, no homem e nos pássaros (Fringillidae, Ciconiae e Columbae), as formas conhecidas como parasitas da terçã benigna, da febre estivo-outonal e também as formas Proteosoma e Halteridium. Nos animais de sangue frio encontrei citozoários em serpentes e rãs com muita freqüência, e esporadicamente em exemplares de Tejus teguixin, Enyalius sp. e Jacare nigra; em contrapartida, as tartarugas, as anfisbenas e as Batrachia apoda sempre apresentaram resultados negativos.

Dos habitantes do sangue não pertencentes aos esporozoários, os tripanossomas foram encontrados em ratos e rãs, embriões de Filaria em homens, cães, pássaros, rãs e répteis (Enyalius sp.).

Após múltiplos resultados negativos em serpentes da região costeira, eu já havia encontrado, há vários anos, os primeiros citozoários em ofídios dos arredores de São Paulo. Naquela época, considerei o resultado uma novidade, mas, desde então deduzi, do

“Sporozoenkunde” de Wasielewsky, 1 e do “Baumgarten's

Jahresbericht”,2 que parasitas semelhantes (provavelmente os mesmos) foram observados por Billet em Tonkin (nos Pythonmolurus, Tropidonetus stolatus e Bungarus fasciatus). Infelizmente não tive acesso aos originais; tenho, no entanto, a impressão de que se trata de observações ocasionais. Minhas pesquisas independentes são efetuadas em outra parte do mundo, com outro material, bastante amplo (mais de duzentos indivíduos de cerca de vinte espécies).

Os resultados dessas pesquisas, até agora, são apenas sumariamente citados nos relatórios anuais (em português) do Instituto Bacteriológico local, porque eu desejava aprofundar, mais do que me foi possível até o momento, o estudo desses parasitas extremamente interessantes. Dado o lento progresso dessas pesquisas -dependentes de muitos acasos – não seria fora de propósito divulgar provisoriamente o que foi conseguido até agora, no interesse dos estudos atuais sobre esporozoários.

Os parasitas das serpentes por mim observados, que aparecem temporariamente como citozoários, são, sem dúvida, esporozoários intimamente aparentados aos drepanídios, os quais são, em geral, incluídos em um grupo específico de hemosporídios. Em todo caso, estão bem distantes dos parasitas da malária, ao passo que, em muitos aspectos, lembram os coccídios, ou seja, as gregarinas (Monocystis) e mesmo os sarcosporídios. O futuro nos dirá se é justificado organizar os hemosporídios em um grupo específico e separar os gêneros Danilewskya e Karyolysus, com base em nossos conhecimentos ainda bastante incompletos. Manterei o nome de gênero Drepanidium, por ser o mais antigo, e denominarei os parasitas do sangue das serpentes de Drepanidium serpentium, uma vez que acredito dever considerar as diversas formas que observei como pertencentes a uma mesma espécie.

 

Diversas formas, nas quais aparecem os

drepanídios

A. Citozoários. Nos eritrócitos do sangue em circulação se

encontram duas formas, uma maior e outra menor, que

correspondem ao conteúdo de dois esporocistos diferentes. Por

isso eu as qualifico de micro e macro esporozoítos, ou,

simplificando, micro e macrozoítos.

B. Formas que são encontradas nos órgãos, mas não no

sangue em circulação. As formas encontradas nos órgãos,

quando totalmente desenvolvidas, são císticas e aparecem

como micro e macroesporocistos, ou, mais corretamente, como

zoitocistos. As etapas preliminares lembram as formas jovens

de certas gregarinas; as ulteriores, as fases que são

observadas nos Monocystis e nos coccídios.

Como a expressão Drepanidium, que, na verdade, só cabe aos citozoários menores e atualmente indica toda a espécie, considero as duas formas existentes na circulação sangüínea como hemozoítos, enquanto o nome esporônteos me parece ser, por enquanto, o mais apropriado para as formas encontradas nos tecidos, que ainda não formaram germes.

De acordo com essa nomenclatura, o processo do desenvolvimento é o seguinte:

 

Freqüência das diversas formas

Os microzoítos que surgem nos eritrócitos, os quais são observados reiterada e maciçamente, servem como indício de uma infecção declarada. É freqüente a ausência total dos macrozoítos, em outros casos são relativamente escassos. Na realidade, apenas os encontrei em abundância em duas serpentes recentemente importadas de províncias nortistas de clima quente constante. É provável que sua manifestação dependa das condições de temperatura.

As formas que ocorrem em órgãos serão encontradas, sem maiores dificuldades, apenas em serpentes infectadas abundantemente. Durante muito tempo, eu mesmo só conhecia os micro-hemozoítos e procurava em vão outras formas evolutivas.

Neste país, de um modo geral, é comum encontrar os citozoários em serpentes, mas a freqüência varia segundo a estação do ano, a proveniência e a espécie dos exemplares examinados, de modo que não é possível fornecer um número proporcional determinado. Além disso, o número dos hemozoítos observados varia extraordinariamente, desde menos de 1% até 20, 40 e mesmo 80% dos glóbulos vermelhos do sangue (em tais casos, amiúde se vê uma infecção dupla, por vezes também tripla, do mesmo eritrócito). De maneira geral, após uma observação continuada, limitada às serpentes disponíveis no momento, será possível contar seguramente com resultados positivos em pelo menos um quarto dos casos, dos quais decerto apenas uma pequena parte estará fortemente infectada. Quando se negligenciam exemplares menores e mantidos isolados longamente, assim como espécies comprovadamente sem parasitas, facilmente se chegará a uma proporção muito maior. Em algumas espécies a infecção é a regra absoluta, especialmente se ela já tiver sido verificada em outros exemplares da mesma região.

As seguintes espécies comprovaram, do meu ponto de vista, serem as mais apropriadas para esse estudo:

Eunectes murinus, Boa constrictor, Drymobius bifossatus

(Coryphodon pantherinus Dum. e Bibr.), Coluber corais, Spilotes

pullatus, Xenodon neuwiedii, Rhadinaea merremii, Philodryas

olfersii, Herpetodryas carinata. (Nomes e classificação segundo

Boulenger: Catalogue of the Snakes in the British Museum.)

Entre os solenóglifos encontrei os drepanídios em diversas espécies e variedades de Curotalus e Bothrops.

Apesar de inúmeras pesquisas, não os encontrei nos Oxyrrhopus trigeminus (com uma exceção), Liophis poecilogyrus, como nas espécies Elaps. Estavam também ausentes em dois exemplares de Stenostoma dimidiatum.

É provável que, de modo geral, todas as serpentes sejam infectáveis e que a freqüência dos parasitas dependa mais de seu modo de vida. Estes, normalmente, parecem ser muito bem tolerados e só ameaçam a vida do hospedeiro em casos excepcionais.

 

Técnica da pesquisa

A. Sangue. A melhor maneira de pesquisar as formas

existentes no sangue é com a serpente viva, com a vantagem

de poder repetir o exame várias vezes. O sangue é obtido por

punção na comissura da Venae palatinae situada à frente do

palato. As gotas aí originadas são imediatamente sugadas com

uma pipeta e o sangramento estancado aplicando-se ou

pressionando com algodão. A gota fresca de sangue,

espalhada entre a lamínula e a lâmina de pesquisa, é

examinada rapidamente com a objetiva 6, ocular 4; com a

imersão em óleo dá imagens particularmente belas, já que os

eritrócitos grandes se dispõem facilmente lado a lado e se

mantêm muito tempo sem deformação.

Os preparados secos servem para fins de tingimento, fixados e

esfregados conforme o modo usual. Esse método de exame,

assim como a aplicação de reagentes, darão muitos

esclarecimentos desejáveis, não devendo, no entanto, substituir

completamente as observações muito mais instrutivas do objeto

vivo.

B. Formas que ocorrem nos órgãos. Os diversos órgãos

internos também são examinados mais facilmente quando

frescos. Achei mais cômodo e simples raspar pedaços de

pulmão, fígado e rim com o fio de uma faca, até restar apenas a

estrutura do tecido conjuntivo, o que é particularmente fácil com

o pulmão. (Os preparados de formalina também se prestam

bem para esse tratamento.) A pasta do parênquima, sem

aditivo, é estendida sobre lâminas de vidro, colocando-se por

cima a lamínula ou lâminas finas. Desse modo é possível

examinar grandes pedaços rapidamente, o que é importante,

dado o número por vezes reduzidíssimo das formas

encontradas nos órgãos. Além disso, as formas parasitárias

sobressaem isoladas e bem nítidas, com sua aparência

totalmente natural. Resultados similares também são obtidos

pelo exame de fatias congeladas (fixação com formalina,

inclusão em borracha), o que, no entanto, só é prático em

órgãos fortemente infectados. Os cistos ressaltam

particularmente bem nos exames feitos em água.

Caso se queiram obter fatias tingidas dos objetos conservados,

conseguem-se bons resultados com os mais diversos corantes

(carmim, cochonilha, hematoxilina, anilinas em soluções e

combinações conhecidas). Contudo, o tingimento deve durar

horas, eventualmente até dias, uma vez que os cistos são

resistentes aos corantes. Em compensação, os esporozoítos

nos cistos, como também os hemozoítos nos glóbulos

sangüíneos, retêm tanto os corantes que, não só é possível

aplicar com êxito o método de Gram, mas também os métodos

usuais de descoloração dos bacilos da tuberculose. Também se

conseguem tinturas isoladas por meio, por exemplo, de anilinas

verdes, que são extraídas com facilidade pelo álcool e só se

mantêm nos drepanídios.

 

Descrição mais precisa das diversas formas

A. Hemozoítos. Os microzoítos recém-penetrados aparecem

sob forma de um pseudovermículo pálido. De certo modo, estão

encistados no interior do glóbulo sangüíneo, no qual sempre se

encontram no sentido longitudinal, eqüidistantes de sua

periferia e do núcleo não deslocado. As duas extremidades

parecem arredondadas, similares aos corpúsculos de Rainey ou

à figura formada por pares de esporozoítos nos esporoblastos

maduros do Coccidium oviforme. Porém, apenas uma

extremidade é redonda por natureza, a outra só se torna assim

pelos golpes da extremidade da cauda afilada. A hemácia

habitada não é prejudicada pelo baixo metabolismo do

hospedeiro, permanecendo completamente inalterada quanto à

forma e à cor. Nas hemácias frescas da serpente ainda viva não

são observados vacúolos, ao contrário do que ocorre nas que

são retiradas algum tempo após a morte. Por isso também não

se pode falar de um estágio anterior dos hemozoítos em forma

amebóide ou pseudovacuolar. As formas menores ou mais

jovens pouco se diferenciam das mais velhas, ligeiramente

maiores; por vezes se vêem nas mesmas alguns pequenos

grãos brilhantes, que, no entanto, não enegrecem com o ácido

ósmico. Além disso, o seu núcleo muitas vezes é quase

invisível, uma vez que aparece transparente e sem estrutura e,

por conseguinte, pouco se destaca do protoplasma claro.

As demais particularidades são mais facilmente reconhecidas

após a saída do microzoíto, o que usualmente sucede com

bastante rapidez, especialmente em formas um pouco mais

velhas, de modo que muitas vezes já se encontram exemplares

livres em preparados recém-fabricados. Após uma observação

mais cuidadosa, não tenho dúvidas de que a saída só ocorre

após a interrupção da circulação, quando é facilmente

observável diretamente. No início, após a elaboração dos

preparados, o número de microzoítos saídos aumenta

constantemente.

Depois da saída, o microzoíto se alonga de tal maneira, que

alcança ou ultrapassa o comprimento de uma hemácia: a

extremidade posterior agora aparece afilada e a extremidade

anterior um pouco mais estreita e fina. Apresenta então uma

semelhança evidente com um germe falciforme de gregarina e,

igual a este, consegue se arquear e dobrar-se sobre si mesmo

ou rastejar lentamente com a extremidade anterior à frente. Ao

mesmo tempo parece prender-se, vez por outra, com a

extremidade da cauda. Tendo líquido suficiente à disposição,

ele se alonga formando um fuso comprido e desliza

tranqüilamente. Nesse processo, também o núcleo se alonga

de maneira nítida.

Além do núcleo que, embora seja móvel situa-se em geral um

pouco atrás do meio, e além do plasma muito leve e finamente

granulado, reconhece-se nitidamente uma cutícula; em

contrapartida, não consegui identificar nem uma camada fibrosa

nem cílios.

Em preparados bem fixados, os microzoítos livres são fácil e

rapidamente tingidos. O núcleo aceita bem todos os corantes

de núcleo e aparece bastante compacto e rico em cromatina;

nunca se apresenta ovalado transversalmente, no máximo

redondo, geralmente um pouco (às vezes fortemente) alongado.

Além dessa forma, muitas vezes encontrei a segunda, que se

diferencia de diversas maneiras. Trata-se igualmente de um

germe falciforme, um pouco maior e significativamente mais

largo, de modo que, ao contrário do que acontece com os

microzoítos, o núcleo muitas vezes não alcança as paredes

laterais. Este é um pouco maior, completamente redondo ou,

sobretudo nos preparados secos tingidos, um pouco ovalado

transversalmente, e a disposição da cromatina lembra uma

roseta ou a forma de diaster.

Em vida, a estrutura nuclear não é visível, o núcleo aparece

apenas como um vacúolo claro, muitas vezes rodeado por um

anel de pequenas granulações.

O plasma desta segunda forma, à exceção de pequenas áreas,

encontra-se densamente preenchido por grãos bastante

grosseiros em uma ou ambas as extremidades. O mais

interessante nestes últimos é que se compõem totalmente ou

pelo menos em sua maior parte de paraglicogênio. É que, numa

solução iodo-iodetada, eles reagem apresentando uma nítida

coloração marrom-avermelhada ou violeta-escura intensa, a

qual, com a adição de ácidos, normalmente se transforma em

cor de vinho tinto claro. Observando-se certos cuidados (tempo

de ação suficiente, evitando o acréscimo de álcool e glicerina),

obtém-se, tanto em cortes quanto em esfregaços, uma

coloração isolada excelente, a qual permite distinguir facilmente

esta forma de outras. É verdade que a cor não é absolutamente

estável em virtude da evaporação do iodo, mas sempre pode

ser restabelecida no mesmo preparado. O núcleo não se tinge e

aparece como uma lacuna pálida ou amarelo-clara, podendo,

porém, ser destacado posteriormente com tingimentos avulsos

de núcleo, mas assim se perde a visão geral dos preparados.

Em virtude de seu grão grosseiro, essas granulações são

facilmente reconhecíveis mesmo sem tingimento e aceitam os

mais diversos corantes. Por outro lado, pouco fixam estes

últimos. Ocasionalmente são encontrados outros grãos mais

finos em ambas as formas de hemozoítos, os quais podem ser

tingidos análoga ou metacromaticamente, mas, como aparecem

raramente, têm apenas uma importância menor; não se deve

valorizar demais essas reações de coloração, já que dependem

de diversas circunstâncias colaterais e, muitas vezes, segundo

se provou, dão resultados desiguais até no mesmo preparado.

Do mesmo modo, ocasionalmente são encontrados vacúolos

menores e maiores no protoplasma.

As formas mais jovens dos macrozoítos já evidenciam um

comprimento de 11 e uma largura de 3m, sendo, portanto,

consideravelmente maiores e bem mais largas do que os

microzoítos, os quais medem 5-9, por 1,2-1,5[µ]. Além disso,

sofrem um aumento significativo no interior dos glóbulos

sangüíneos, preenchendo a sua maior parte e deslocando o

núcleo para um lado, sem que com isso surja uma

descoloração ou degeneração marcante. Ao lado das formas

mais comuns, cujas granulações compactas se tingem

fortemente pelo iodo e envolvem uma grande área redonda do

núcleo encontram-se outras, tendo quase o dobro da largura,

cujas granulações parecem mais soltas, e mostram no seu

centro apenas uma lacuna indistinta, bem menor e mais

ovalada transversalmente. É possível, portanto, que ainda no

interior do eritrócito surja um princípio de redução do núcleo

central. Nunca encontrei os menores indícios de que tais

macrozoítos pudessem ter-se originado de uma conjugação,

como poderia supor o seu volume.

Na corrente sangüínea, os macrozoítos não mostram tendência

a sair e, por isso, raramente são encontrados livres em

preparados frescos. Executam então apenas movimentos

morosos, como os germes de gregarinas, sem deslizar

vivamente conforme o fazem os microzoítos. O forte

estiramento do corpo, que sobrevém nesse processo, não é

observável nos macrozoítos.

Nos capilares dos órgãos internos, muitas vezes são

encontradas formas livres, que ultrapassam de muito o tamanho

dos glóbulos sangüíneos e que devem ser entendidos como

esporônteos, cujo encistamento é iminente.

B 3 . Formas Encistadas

A fim de estudar as formas encistadas, selecionam-se os

órgãos internos de exemplares fortemente infectados, de

preferência aqueles que contêm macro e microzoítos. Descobri

os cistos primeiramente no fígado, onde surgiam em pequenos

aglomerados com a aparência de tubérculos; encontrei-os, mais

isoladamente, no baço, nos rins, testículos e até na parede

intestinal. Contudo, sua sede é o pulmão, onde não raro são

encontrados com exclusividade. Creio ter constatado com

segurança que eles não se encontram nem nas células do

sangue, nem nas dos tecidos, mas no lúmen dos capilares, o

qual, normalmente, preenchem completamente. Por isso,

aparecem como uma espécie de êmbolo, de acordo com dois

resultados que tive a oportunidade de obter recentemente.

Encontrei, em um corte histológico, um cisto menor, totalmente

livre, no lúmen de uma arteríola do pulmão, e em outra ocasião,

encontrei outro em um preparado sangüíneo, obtido 20 horas

antes de uma veia do palato e que estivera na câmara úmida.

Como durante a primeira pesquisa eu não tinha visto esse cisto,

que ainda era muito jovem, é provável que ele tenha se

formado posteriormente no preparado. Os esporônteos

maduros, que, não raro, são encontrados livres nos capilares do

pulmão, são grandes demais para poderem penetrar numa

célula normal, e nunca observei o menor indício de uma

fagocitose.

Nos cistos mais jovens, cuja parede transparente é oval, pode-

se ver o esporônteo, que adaptou a sua forma por contração ou

por dobramento de uma extremidade do corpo. Pouco a pouco,

ele se transforma em um corpo uniforme e fortemente

granulado de forma oval, que fornece uma nítida reação

glicógena. Ele lembra, então, os cistos coccídios; como nestes,

o conteúdo pode se retrair um pouco das extremidades e se

avizinhar da forma esférica. Às vezes, há um esboço de campo

de um núcleo no interior, em outros casos ele não é

reconhecível. Em contrapartida, agora aparecem novos núcleos

na periferia, cujo número permite conclusões sobre a natureza

dos germes em fase de formação.

Os cistos mais jovens são um pouco maiores do que um

eritrócito, mas crescem consideravelmente. Parece, também,

que este processo se desenrola com rapidez, uma vez que os

diversos estágios evolutivos são escassos em relação aos

cistos maduros.

Nos estágios subseqüentes, os cistos contêm esporoblastos

claros, esféricos, ou pode-se ver um indício dos futuros

esporozoítos ao redor dos núcleos, sob a forma de células

fusiformes relativamente largas. O material não utilizado se

encontra entre elas em pequenos grupos, consolidando-se

depois em um corpo residual pequeno mas bem nítido, do qual

raramente se encontra mais de um.

Os cistos maduros dos macroesporozoítos encerram grandes

germes em número reduzido, de dois a vinte. Estes são

fortemente granulados e reagem intensamente ao iodo, que não

existe no corpo residual constituído. Distin-guem-se dos

macrozoítos encontrados no sangue apenas porque o seu

núcleo amiúde se situa perto de uma extremidade.

Os cistos dos microesporozoítos encerram germes pequenos,

cujo número varia de cerca de trinta até perto de trezentos.

Neste último caso os cistos são muito grandes e lembram os

tubos dos sarcosporídios. Os microzoítos são inteiramente

semelhantes à forma menor encontrada no sangue e nunca

contêm paraglicogênio, do qual, no entanto, ainda podem ser

vistos traços entre os germes, antes da formação completa do

corpo residual. No cisto totalmente formado não se consegue

mais nenhuma reação ao iodo.

A parede do cisto, nitidamente contornada, apesar de ser muito

fina possui uma resistência significativa, opondo-se aos

corantes, os quais só penetram com lentidão. Apesar disso,

conseguem-se obter bons preparados do seu conteúdo. Este

apresenta, nos cistos não amadurecidos, uma nítida coloração

dos núcleos periféricos, cuja cromatina toma a forma de roseta.

Os macrozoítos também exibem rosetas de cromatina em seus

grandes núcleos redondos, enquanto nos microzoítos o núcleo

e a figura de cromatina aparecem mais como bastõezinhos, em

virtude do estiramento maior. No mais, quanto à possibilidade

de tingimento, os esporozoítos comportam-se do mesmo modo

que os hemozoítos.

O tamanho, ou o número de núcleos e germes, a forma

(redonda ou oval), bem como a disseminação dos cistos nos

diversos órgãos, variam de modo bastante acentuado segundo

o diâmetro dos capilares, a tensão tissular e outras condições

próprias ao hóspede. No entanto, essas oscilações não são

suficientes para justificar o ordenamento em espécies diversas,

uma vez que também se observa em outros esporozoários uma

certa irregularidade quanto ao número de esporos e germes

formados. Apesar de todas as flutuações na forma e no número

de germes, os macro e microesporocistos maduros

permanecem facilmente distinguíveis.

Agora chegamos à parte mais difícil da nossa tarefa, qual seja,

à interpretação do que foi observado. Para tanto, a analogia

com outros esporozoários é de pouca valia, já que as

circunstâncias da reprodução, quando não são totalmente

desconhecidas, divergem com freqüência entre si. Em todo

caso, sabemos que existe tanto uma reprodução sexuada como

uma assexuada, e, geralmente, uma série de atos do último tipo

é interrompida por uma do primeiro.

Na forma mais conhecida da reprodução sexuada, um dos

gametas corresponde a um ovo, o outro a um espermatozóide,

com as correspondentes diferenças de tamanho. Em outras

espécies, ao contrário, observa-se uma conjugação, que

também pode ser considerada um ato sexual, embora não se

tenha conhecimento de uma diferença no sexo dos indivíduos

reunidos. É possível imaginar que possam acontecer condições

intermediárias, nas quais os elementos masculino e feminino,

de construção semelhante, demonstrem certas diferenças de

tamanho e função.

Segundo essa concepção, seria possível conceber os

microzoítos como o elemento masculino e os macrozoítos como

o feminino (ao qual caberia, então, a reprodução assexuada).

Desse modo, poderiam conciliar-se as diferenças de forma e

tamanho, da constituição do núcleo, da mobilidade, do número

das formas individuais e do seu material de reserva.

Por outro lado, também não consegui observar, até o presente,

nenhuma união sexuada no sangue ou nos tecidos das

serpentes, como foi o caso com a conjugação de dois

exemplares da mesma forma. Em conseqüência, torna-se cada

vez mais provável que um ato sexual só ocorra sob outras

condições.

Parece fora de dúvida que os macrozoítos possam formar

novos macrozoítos sem nenhum ato sexual após o

encistamento, mas os microzoítos também parecem ter a

mesma gênese. Esse comportamento não deixa de ter

analogias, apesar de continuarmos sem saber por que são

formados ora macrozoítos, ora microzoítos.

A forma de transmissão de parasitas de uma serpente para

outra é uma questão que só o futuro poderá responder, como

também a da função real dos microzoítos, a qual apenas é

indicada pela sua mobilidade e por outras características. Tenho

a intenção de continuar a me ocupar destas questões.

São Paulo, dezembro de 1900.

Aditamento. Somente após a conclusão deste trabalho consegui um exemplar da monografia de Labbé, esgotada nas livrarias. Quanto à observação direta, os meus resultados se harmonizam bem com os seus dados. As divergências só sobrevêm quando se trata da interpretação do que foi observado. Contudo, não vejo motivo para modificar minhas concepções; ao contrário, acredito que Labbé também modificaria vários de seus conceitos, baseado no progresso resultante dos trabalhos recentes. Uma edição revista e aumentada dessa monografia excelente certamente seria oportuna e bem-vinda.

Descrição das figuras

 

1 – 9 micro-hemozoítos

14 – 18 macro-hemozoítos

10 – 13 microesporônteos e esporozoitocistos

19 – 26 macroesporônteos e esporozoitocistos

27 cistos jovens, livres no lúmen de uma arteríola pulmonar

As figuras 10, 11, 12, 20 e 27 são representações de preparados

tingidos; 21 e 22 mostram a reação ao iodo. O aumento é de

aproximadamente mil vezes.

 

* Trabalho realizado por Adolpho Lutz como diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo. Publicado originalmente como “Über die Drepanidien der Schlangen. Ein Beitrag zur Kenntnis der Hämosporidien,” Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde (Jena), v.29, n.9, p.390-8; 1 prancha com 27 figuras.

1 Relato sobre os esporozoários de Wasielewsky. [N.E.]

2 Jahresbericht über die Fortschritte in der Lehre von den pathogenen Mikroorganismen (1885-1911), publicação anual recém-criada pelo dr. Paul Clemens von Baumgarten (1848-1928), professor de anatomia patológica em Königsberg. [N.E.]

3 Para melhor compreensão do texto, optamos pela inserção da letra “B,” omitida pelo autor. [N.T.]