Amor & gelato
Capítulo 6
— Vou ter que perguntar para o Howard — falei, enfim, me levantando.
— Tudo bem. Posso buscar você de scooter. Lá pelas oito?
— Talvez. Eu ligo se puder ir. — Estendi a mão para a maçaneta.
— Espera. Você precisa do meu número.
Ren pegou uma caneta numa mesa ali perto, depois segurou minha mão e escreveu seu número depressa. Seu hálito era quente, e quando ele terminou, segurou minha mão por um segundo a mais.
Ah.
Ele me olhou e sorriu.
— Ciao, Carolina. Vejo você amanhã.
— Talvez.
Saí da casa e fui embora sem olhar para trás. Tive medo de que ele visse o sorriso radiante estampado no meu rosto.
Capítulo 6
AQUELA COISA DE Ren segurar minha mão me deu um friozinho na barriga, mas bastaram dois minutos no carro com Howard para tudo voltar ao normal.
Era tudo muito constrangedor.
Ele estava com grandes marcas de pente no cabelo recém-lavado e usava uma calça social e uma camisa melhorzinha. Eu não tinha recebido o memorando para me vestir bem, por isso continuava de camiseta e tênis.
— Pronta?
— Pronta.
— Bom, então vamos para Florença. Aposto que você vai adorar a cidade.
Ele colocou um CD (quem ainda ouve CDs?) e “You Shook Me All Night Long” do AC/DC começou a tocar no carro. Sabe, tipo a trilha sonora oficial do
“Ignore o primeiro passeio nada à vontade entre pai e filha”.
Segundo Howard, a cidade ficava a apenas onze quilômetros, mas levamos meia hora para chegar lá. A estrada estava lotada de scooters e automóveis, e todo prédio pelo qual passávamos parecia velho. Apesar do clima estranho no carro, a animação dentro de mim começou a aumentar como vapor se acumulando numa panela de pressão. Talvez as circunstâncias não fossem ideais, mas eu estava em Florença. Que incrível!
Quando chegamos à cidade, Howard entrou numa rua estreita de mão única e estacionou do jeito mais impressionante que eu já tinha visto. Tipo, ele teria sido um ótimo professor de direção se não gostasse tanto de administrar um cemitério.
— Desculpa pela viagem longa — disse ele. — O trânsito estava horrível hoje.
— Não é culpa sua.
Eu praticamente estava com o nariz grudado na janela. A rua era de pedras quadradas entremeadas e com calçadas estreitas. Prédios altos em tons pastel se espremiam, e todas as janelas tinham lindas venezianas verdes. Uma bicicleta passou correndo na calçada, praticamente arrancando o retrovisor do carro.
Howard olhou para mim.
— Quer ir pelo caminho pitoresco? Ver um pouco da cidade?
— Quero!
Tirei o cinto de segurança e pulei do carro. Ainda fazia calor do lado fora, e a
cidade tinha um leve fedor de lixo quente, mas tudo era tão interessante que não vi o menor problema. Howard começou a andar pela calçada e eu o segui.
Eu me sentia num filme italiano. A rua era cheia de lojas de roupas e pequenos cafés e restaurantes, e as pessoas gritavam umas com as outras das janelas e dos carros. Quando chegamos mais ou menos na metade da rua, uma buzina discreta tocou e todos abriram caminho para uma família inteira amontoada numa scooter. Havia até um varal com roupas penduradas entre dois prédios, com um vestido vermelho balançando no meio. Parecia que a qualquer instante um diretor ia aparecer e gritar: “Corta!”
— Lá está.
Viramos uma esquina e Howard apontou para um prédio alto no fim da rua.
— Lá está o quê?
— Aquele é o Duomo. A catedral de Florença.
Duomo. Parecia a nave mãe. Todo mundo estava entrando lá, e quanto mais nos aproximávamos, mais devagar tínhamos que andar. Enfim, chegamos ao centro de um grande espaço aberto e olhei para cima, vendo o enorme prédio meio iluminado pelo pôr do sol.
— Uau. É mesmo...
Enorme? Lindo? Impressionante? Era tudo isso e muito mais. A catedral ocupava uma área equivalente a vários quarteirões, e as paredes eram cobertas de entalhes detalhados em mármore cor-de-rosa, verde e branco. Era cem vezes mais bonita, impressionante e grandiosa do que qualquer outro prédio que eu já tinha visto. Além disso, eu nunca havia usado a palavra “grandiosa” na vida.
Nunca precisei até então.
— Na verdade, o nome da catedral é Santa Maria del Fiore, mas todo mundo a chama apenas de Duomo.
— Por causa do teto abobadado?
Um dos lados do prédio era coberto por um imenso telhado circular laranja-avermelhado.
— Não, mas boa sacada. “Duomo” significa “catedral”, mas como a sonoridade remete à “domo”, muita gente se confunde. Ela levou quase cento e cinquenta anos para ser construída, e foi o maior domo do mundo até o surgimento da tecnologia moderna. Assim que eu tiver uma tarde livre, subiremos ao topo.
— O que é aquilo? — Apontei para um prédio octogonal, bem menor, na frente do Duomo.
Tinha portas altas, douradas e com entalhes, e vários turistas tiravam fotos diante dele.
— O batistério. Aquelas portas se chamam Portões do Paraíso e são uma das
obras de arte mais famosas da cidade. Foram feitas por Ghiberti, que demorou vinte e sete anos para concluir o trabalho. Também vou levar você lá. — Ele apontou para uma rua logo depois do batistério. — O restaurante é bem ali.
Atravessei o grande espaço aberto (a piazza, segundo Howard), e ele segurou a porta do restaurante para mim. Um homem com a gravata enfiada no avental, parado atrás de uma bancada, olhou para nós e se empertigou um pouco. Howard era uns sessenta centímetros mais alto que ele.
— E esta noite, quantos são? — perguntou o homem numa voz anasalada.
— Possiamo avere una tavola per due?
O homem assentiu e chamou um garçom que passava.
— Buona sera — disse o garçom.
— Buona sera. Possiamo stare seduti vicino alla cucina?
— Certo.
Então, pelo visto, meu pai falava italiano. E com fluência. Até enrolava o “r”
como Ren. Tentei não ficar olhando para ele quando seguimos nosso garçom até a mesa. Eu realmente não sabia nada sobre Howard. Isso era muito estranho.
— Adivinha por que gosto daqui? — perguntou Howard quando nos sentamos.
Olhei em volta. As mesas eram cobertas com toalhas de papel baratas e havia uma cozinha aberta com um forno a lenha aceso. “Lucy in the Sky with Diamonds” tocava ao fundo.
Ele apontou para o teto.
— Aqui toca Beatles o dia todo, todo dia, então encontro duas das minhas coisas preferidas: pizza e Paul McCartney.
— Ah, sim. Eu vi os discos emoldurados no seu escritório.
Engoli em seco. Agora ele ia achar que eu estava bisbilhotando. O que foi mais ou menos o que eu fiz mesmo.
Ele apenas sorriu.
— Minha irmã mandou todos eles de presente há alguns anos. Ela tem dois filhos, um de dez e outro de doze anos. Eles moram em Denver e, de dois em dois anos, passam o verão aqui comigo.
Será que eles sabiam de mim?
Howard deve ter pensado algo semelhante, porque houve um momento de silêncio, e depois nós dois ficamos totalmente concentrados no cardápio.
— O que você quer pedir? Eu sempre como a pizza de prosciutto, mas tudo aqui é bom. Podemos pedir alguns aperitivos ou...
— Que tal uma pizza simples? De muçarela.
Simples e rápido. Eu queria voltar a caminhar por Florença e preferia que aquele jantar acabasse o quanto antes.
— Então você deveria pedir a marguerita. É bem básica. Só molho de tomate, muçarela e manjericão.
— Parece boa.
— Você vai adorar a comida daqui. A pizza italiana é completamente diferente da que se come nos Estados Unidos.
Eu abaixei o cardápio.
— Por quê?
— É bem fina e eles servem uma pizza grande só para você. E a muçarela é fresca... — Ele suspirou. — Não tem nada que se compare.
Howard estava mesmo com um olhar sonhador. Será que eu herdei dele minha paixão por comida? Hesitei. Talvez fosse uma boa ideia conhecê-lo ao menos um pouco. Afinal de contas, ele era meu pai.
— Então... de onde você é?
— Eu cresci numa cidadezinha da Carolina do Sul chamada Due West. Dá pra acreditar? Fica a uns duzentos e cinquenta quilômetros de Adrienne.
— Foi em Due West que você rearranjou todas as barreiras de trânsito e causou um engarrafamento?
Ele me olhou, surpreso.
— Sua mãe contou isso?
— Sim. Ela contou um monte de histórias sobre você.
Ele deu uma risada.
— Em Due West não havia muito o que fazer, e infelizmente obriguei a cidade inteira a pagar por isso. Que outras histórias ela contou?
— Ela disse que você jogava hóquei, e que mesmo tendo um temperamento calmo se metia em brigas no rinque.
— Aqui está a prova. — Ele virou a cabeça e passou os dedos por uma cicatriz que desaparecia sob o maxilar. — Esta é de um dos meus últimos jogos.
Eu não conseguia me controlar. O que mais?
— Você e minha mãe foram a Roma, o dono de um restaurante achou que você era um jogador de basquete famoso e vocês comeram de graça.
— Eu tinha me esquecido disso! O melhor cordeiro que já comi. E só precisei tirar fotos com o pessoal que trabalhava na cozinha.
O garçom se aproximou e anotou os pedidos, depois nos serviu água com gás.
Tomei um grande gole e estremeci. Será que só eu achava que água com gás parecia o mesmo que beber faíscas líquidas?
Howard cruzou os braços.
— Desculpe por dizer o óbvio, mas é inacreditável o quanto você se parece com Hadley. As pessoas diziam isso sempre?
— Diziam. Às vezes achavam que éramos irmãs.
— Não fico nem um pouco surpreso. Até suas mãos são iguais às dela.
Meus cotovelos estavam apoiados na mesa, e minhas mãos, cruzadas. De repente, Howard chegou para a frente alguns centímetros, como se tivesse sido fisgado por um anzol.
Estava olhando para meu anel.
Eu me ajeitei, desconfortável.
— Humm, você está bem?
— O anel dela.
Ele estendeu a mão e quase o tocou. Seus dedos praticamente encostaram nos meus. Era uma antiguidade, um anel fino de ouro com um entalhe de arabescos.
Minha mãe o usara até ficar magra demais para mantê-lo no dedo. E desde então eu passei a usar.
— Ela contou que fui eu que dei?
— Não. — Puxei a mão para o colo, sentindo o rosto corar. Minha mãe tinha me contado alguma coisa? — Era tipo um anel de noivado ou coisa do tipo?
— Não. Só um presente.
Outro longo silêncio se instalou entre nós, e nesse momento demonstrei um interesse inédito pela decoração do restaurante. Pelas paredes havia fotos autografadas do que deviam ser grandes celebridades italianas, além de vários aventais. “Yellow Submarine” tocava ao fundo. Minhas bochechas ferviam como uma panela de molho de tomate.
Howard balançou a cabeça.
— Então, deixou algum namorado esperando por você nos Estados Unidos?
— Não.
— Sorte sua. Vai ter muito tempo para partir corações quando for mais velha.
— Ele hesitou. — Hoje de manhã eu estava pensando que é melhor ligar para a escola internacional e ver se alguém do seu ano vai ficar para o verão. Talvez seja uma boa maneira de ver se você se anima a estudar aqui.
Concordei de um jeito evasivo, tentando não me comprometer, e fiquei subitamente muito interessada na foto de uma mulher usando uma tiara com uma faixa pendurada no ombro. Miss Ravióli 2015?
— Eu queria dizer que, se um dia você precisar de alguém para conversar, alguém além de mim e da Sonia, claro, tenho uma amiga que mora na cidade.
Ela é assistente social e fala inglês muito bem. Ela me disse que ficaria feliz em se encontrar com você se precisar, sabe...
Ótimo. Outra psicóloga. A que havia conversado comigo nos Estados Unidos tinha basicamente dito uhum-uhum, uhum-uhum e perguntado “Como você se sente em relação a isso?” até eu achar que minhas orelhas fossem derreter. A resposta era sempre “Péssima”. Eu me sentia péssima sem minha mãe. A
psicóloga dissera que as coisas iam começar a melhorar aos poucos, mas até o momento ela estava errada.
Comecei a rasgar as pontas do guardanapo, sem olhar para o anel.
— Você está se sentindo... à vontade aqui?
Hesitei.
— Estou.
— Sabe, se precisar de alguma coisa, é só pedir.
— Estou bem.
Minha resposta foi seca, mas Howard apenas assentiu. Depois do que pareceram dez horas, enfim o garçom chegou e colocou duas pizzas fumegantes diante de nós. Eram do tamanho de um prato grande e tinham um cheiro maravilhoso. Comi um pedaço.
Todo o constrangimento evaporou na mesma hora. Era o poder da pizza.
— Acho que minha boca explodiu — falei.
Ou pelo menos foi isso o que tentei dizer. Saiu mais parecido com
“nhaboquexplodiu”.
— O quê? — Howard ergueu o rosto.
Comi outro pedaço.
— Isto. É. Maravilhoso. — Ele tinha razão.
Aquela pizza fazia parte de um universo completamente diferente de tudo que eu já tinha vivido.
— Eu avisei, Lina. A Itália é o lugar perfeito para uma corredora esfomeada.
Ele sorriu para mim e continuamos a comer avidamente. No momento estava tocando “Ticket to Ride”, que tornava qualquer conversa desnecessária.
— Você deve estar curiosa para saber onde eu estive esse tempo todo.
Eu congelei, com a boca cheia de pizza e um pedaço da borda na mão. Ele está perguntando o que eu acho que está perguntando? Aquele não podia ser o grande momento de revelação; ninguém conta ao filho por que não esteve presente na vida dele enquanto a pessoa está se entupindo de pizza.
Olhei para ele. Howard tinha colocado o garfo e a faca na mesa e estava inclinado para a frente, com uma expressão séria. Ah, não.
Engoli o que estava na minha boca.
— Humm, não. Eu não estava curiosa.
Mentira com M maiúsculo. Enfiei a borda da pizza na boca, mas não senti o gosto.
— Sua mãe contou muita coisa sobre nosso relacionamento?
Fiz que não.
— Não. Só, humm, histórias engraçadas.
— Entendi. Bom, a verdade é que eu não sabia sobre você.
De repente, o restaurante inteiro pareceu ficar em silêncio. Menos os Beatles.
“The girl that’s driving me mad, is going awaaaayyyy...”, cantavam eles.
Engoli em seco. Nunca sequer tinha cogitado essa possibilidade.
— Por quê?
— As coisas eram... complicadas entre nós.
Complicadas. Minha mãe dissera exatamente a mesma coisa.
— Ela entrou em contato comigo mais ou menos na mesma época em que começou a fazer os exames. Sabia que estava doente, só não sabia o que era, mas acho que tinha um pressentimento. Enfim, quero que você saiba que eu teria sido presente. Se soubesse. É que... — Ele estendeu as mãos por cima da mesa. —
Tudo o que eu quero é uma chance. Não estou esperando nenhum milagre. Sei que é difícil. Sua avó me contou que você não queria vir, e eu entendo. Só quero que entenda que agradeço muito por ter esta chance de conhecer você.
Ele olhou nos meus olhos, e de repente desejei de todo o coração poder evaporar como a fumaça que ainda saía da minha pizza. Afastei a cadeira da mesa.
— Eu... eu preciso ir ao banheiro.
Saí às pressas do salão, mal conseguindo entrar no banheiro antes que as lágrimas começassem a rolar.
Estar ali era horrível. Antes daquele dia, eu sabia exatamente quem minha mãe era, e com certeza não era aquela mulher que amava violetas, enviava diários misteriosos para a filha ou se esquecia de dizer ao cara com quem se relacionara: “Ah, você não vai acreditar, temos uma filha!”