Amor & gelato
Capítulo 19
Minha mãe estava completamente errada. Como algo pode ser definitivo quando você deixa pessoas para trás sem ter revelado seus segredos?
— O que foi? — perguntou Ren. — Alguma novidade?
— Ela foi morar com Howard no cemitério, mas os dois eram só amigos. Ela já devia estar grávida naquela época. — Balancei a cabeça. — Só pode ser do Matteo.
— Posso ler até essa parte?
Entreguei o diário a ele e me recostei, observando a paisagem passar pela janela. Estávamos atravessando uma região rural com muito verde e colinas dignas de um cartão-postal, e era tão lindo e pitoresco que tive vontade de gritar.
Por que minha mãe tinha me contado daquele jeito?
Capítulo 19
QUANDO O TREM parou, havia tanta adrenalina correndo pelas minhas veias que eu poderia fornecer energia para uma pequena ilha. Não que qualquer um dos outros passageiros se importasse com isso. Eles não estavam com a mínima pressa de guardar suas revistas e seus laptops, e fiquei presa no corredor, me balançando, nervosa.
Ren me cutucou com o ombro.
— Tem certeza de que quer fazer isto?
— Eu preciso.
Ele assentiu.
— Quando sairmos do trem, vamos direto pra calçada. Se conseguirmos ultrapassar a multidão, podemos pegar um táxi e chegar lá em dez minutos.
Dez minutos.
A fila enfim começou a andar e eu e Ren saímos correndo do trem. A estação tinha um pé-direito alto e era ainda mais cheia que a de Florença.
— Pra que lado? — perguntei.
Ele girou em torno de si mesmo.
— Acho que é... pra lá. Isso. Topa correr de novo?
— Vamos nessa.
Ele me levou pela mão até a saída, desviamos das pessoas como se estivéssemos num jogo de videogame. Dez minutos. Dez minutos. Minha vida estava prestes a mudar. De novo. O que tinha acontecido com os dias normais e entediantes?
Havia um monte de táxis esperando na rua ao lado do ponto, e eu e Ren entramos no primeiro. O motorista tinha um bigode enorme e estava com o perfume vencido.
Ren leu o endereço para ele.
— Dieci minuti — respondeu o taxista.
— Dez minutos. — Ren traduziu.
Respira. Respira. Respira. Ele ainda segurava minha mão.
* * *
Quer um conselho? A não ser que você não tenha escolha, por exemplo, caso esteja sendo perseguido por um bando de macacos raivosos ou tenha fugido para uma cidade estrangeira para encontrar seu pai misterioso, nunca, jamais entre num táxi em Roma. Jamais.
— Ren, acho que esse cara vai nos matar — sussurrei.
— Por quê? Só porque quase acabamos de bater de frente de novo? Ou porque ele não para de tentar arrumar briga com os outros motoristas?
— Dove hai imparato a guidare? — gritou o taxista para o carro ao lado.
Ele se inclinou para fora da janela e fez um gesto que eu nunca tinha visto, mas que entendi na hora.
— Acho que estou vendo toda a minha vida passar como um filme diante dos meus olhos — falei.
— E como é?
— Empolgante.
— A minha também, mas devo admitir que ficou muito mais empolgante há cinco dias, quando você esbarrou comigo na colina.
— Eu não esbarrei com você. Na verdade, estava tentando evitar você.
— Sério? Por quê?
— Achei que ia ser estranho. E foi.
Ele sorriu.
— E olha só pra gente agora. Vivendo juntos nossos últimos minutos.
O motorista passou por cima do meio-fio e colocou o carro em ponto morto antes de parar completamente. Ren e eu nos chocamos contra os bancos da frente.
— Ai! — Esfreguei o rosto. — Eu ainda tenho nariz?
— Tem, mas ele agora é achatado — disse Ren, agachado no carro como um pedaço de papel amassado.
— Siamo arrivati — anunciou o taxista num tom agradável. Ele nos olhou pelo retrovisor, depois apontou para o taxímetro. — Diciassette euro.
Tirei o dinheiro da bolsa e o entreguei a ele, depois saímos do carro. No segundo em que fechei a porta, o táxi voltou para o trânsito cantando pneus, fazendo pelo menos quatro carros frearem às pressas e contribuindo para o que basicamente era uma grande orquestra de buzinas.
— Esse cara não deveria ter carteira de motorista.
— Isso é bem comum. Na verdade, ele é um dos melhores taxistas que já peguei. Olha, ali está a galeria.
Eu me virei. Estávamos diante de um prédio de pedras cinzentas com letras douradas na porta.
ROSSI GALLERIA E SCUOLA DI FOTOGRAFIA Rossi. Lina Rossi. Será que esse era meu verdadeiro nome? Droga. Tinha um R italiano. Eu não conseguiria nem pronunciá-lo corretamente.
— Vamos. — Antes que meu nervosismo levasse a melhor, fui até a porta e apertei o botão do interfone.
— Prego — disse uma voz masculina pelo fone.
— Matteo? — A porta foi destrancada com um clique alto.
Olhei para Ren.
— Está pronto?
— Quem se importa comigo? Você está pronta?
— Não.
Antes que eu pudesse pensar duas vezes, empurrei a porta e me vi num grande saguão circular. O ambiente tinha ladrilhos brilhantes e um lustre imenso com cerca de dez luzes penduradas, como tentáculos de uma água-viva. Um homem louro de camisa social e gravata estava sentado atrás de uma mesa prateada e curva. Ele era jovem e parecia americano. Claramente não era Matteo.
— Buon giorno. Inglês? — disse ele, num tom entediado.
— Sim. — Minha voz ecoou.
— Infelizmente, vocês perderam a aula. Começou há mais de meia hora.
Ren parou ao meu lado.
— Não viemos pra aula. Liguei há duas horas pra marcar uma reunião com Matteo. Meu nome é Lorenzo.
— Lorenzo Ferrara? — Ele nos avaliou por um instante. — Não pensei que vocês fossem tão novos. Infelizmente, o sr. Rossi está lá em cima dando aula. Os horários dele variam, e não posso prometer que terá tempo de falar com vocês depois.
— Bem, vamos esperar mesmo assim — falei, rapidamente.
Sr. Rossi. Até onde eu sabia, ele estava bem acima de mim.
— E qual é seu nome? — perguntou o homem.
— Lina... — Hesitei. Será que Matteo reconheceria meu sobrenome? — Meu nome é Lina Emerson.
Ren olhou para mim, mas simplesmente dei de ombros. O objetivo era contar ao Matteo quem eu era, certo?
— Tudo bem. Não posso prometer nada, mas vou avisar que vocês estão aqui.
O telefone começou a tocar alto e ele atendeu.
— Buon giorno. Rossi Galleria e Scuola di Fotografia.
— Vamos dar uma olhada por aqui — sugeri a Ren.
Eu estava muito nervosa. Talvez um passeio pela galeria distraísse minha mente do que estava para acontecer.
— Claro.
Passamos por uma porta em arco e entramos na primeira sala, que era toda de tijolinhos e tinha as quatro paredes cobertas por fotografias emolduradas. Uma foto grande chamou minha atenção. Era a imagem de um prédio antigo coberto de pichações numa cidade grande, como Nova York ou coisa do tipo, e numa das paredes estava escrito: O TEMPO NÃO EXISTE, RELÓGIOS, SIM. No canto direito havia uma grande assinatura rebuscada: M. ROSSI.
— É bem legal — disse Ren.
— É, minha mãe teria adorado o estilo dele.
Correção. Ela adorava o estilo dele. Minhas glândulas sudoríparas entraram em superprodução.
Ren seguiu em frente, e eu, na direção oposta. A maioria das fotografias era do Matteo, todas muito boas. Tipo, boas de verdade.
— Lina? Pode vir aqui um minuto? — A voz do Ren estava deliberadamente calma, como nas situações em que é preciso avisar que alguém está com uma aranha imensa nas costas sem causar pânico.
— O que foi? — Fui até ele na mesma hora. — O que é?
— Olha.
Levei um segundo para entender o que estava vendo, e depois quase tive um colapso. Era uma foto minha. Ou, pelo menos, das minhas costas, e eu até me lembrava de quando minha mãe tirou. Eu tinha cinco anos e fiz uma pilha de livros para subir e olhar pela janela o cachorro do vizinho. O bicho era do tamanho de um pônei e despertava em mim uma relação intensa de amor e medo. Eu estava com meu vestido preferido. Olhei a descrição. Carolina, por Hadley Emerson.
— Como ele conseguiu isso?
De repente, senti tudo girar.
— Ele sabe sobre mim. Não vai ser uma surpresa.
— Tem certeza de que não quer ir embora?
— Não sei. Acha que ele sempre esperou que eu aparecesse?
— Com licença. — Era o homem do saguão. Ele nos olhava como se desconfiasse que fôssemos enfiar uma das enormes fotos do Matteo na minha bolsa. — Vocês têm alguma dúvida?
Mais ou menos um milhão de dúvidas.
— Humm, sim... — Meu olhar desesperado percorreu a sala. — Todas as peças estão... à venda?
— Nem todas. Algumas fazem parte da coleção particular do sr. Rossi.
— Ele tem mais alguma coisa de Hadley Emerson? — Apontei para a foto.
— Humm. — Ele se aproximou e deu uma olhada na Carolina. — Posso verificar, mas acho que esta é a única. Você conhece o trabalho de Hadley Emerson?
— Humm, conheço. Mais ou menos.
— Vou olhar no sistema e já informo.
Ele saiu da sala e Ren ergueu as sobrancelhas.
— Ele não é muito observador, né?
— O que vou dizer para Matteo? Devo começar contando quem eu sou?
— Talvez você devesse esperar pra ver se ele a reconhece.
Uma porta se abriu no andar de cima e ouvimos um estrondo de vozes e passos. A aula tinha terminado. Minha respiração acelerou. Aquilo era um erro.
Estava acontecendo rápido demais. E se ele não quisesse fazer parte da minha vida? E se quisesse? Ele seria tão horrível quanto o cara do diário?
Segurei o braço do Ren.
— Mudei de ideia. Não quero conhecê-lo. Você estava certo. Precisamos conversar com Howard antes. Pelo menos eu sei que minha mãe confiava nele.
— Tem certeza?
— Tenho. Vamos dar o fora daqui.
Saímos da sala correndo. Mais de dez pessoas atravessavam o saguão, mas as contornamos depressa e quando eu estava quase encostando na maçaneta, ouvir alguém dizer: