Amor & gelato
Capítulo 22
Naquela noite, eu mal consegui dormir, e não por estar em conflito, mas por ter muita certeza. X podia aparecer num cavalo branco com uma dúzia de rosas e uma desculpa perfeita, e mesmo assim eu não o aceitaria. Eu quero Howard.
— Como está o diário?
Ergui o rosto. A expressão do Ren estava mais relaxada do que na estação, e do meu coração brotaram pequenas asas. Estou perdoada? Tentei encará-lo, mas ele desviou o olhar de novo.
— Está bom, e eu estava completamente errada sobre uma coisa.
— O quê?
— Howard não foi só um consolo. Ela se apaixonou por ele. — Virei o diário para mostrar a página a ele. — O que isso significa?
Depois do trecho contando sobre a visita de Francesca, havia uma página inteira rabiscada com as palavras “sono incinta”.
— Sono incinta. Significa: “Estou grávida.”
— Foi o que imaginei.
Olhei a página com tristeza. Sei que pensar isso seria aniquilar a mim mesma, mas quase desejei que ela não estivesse grávida. Seu conto de fadas tinha acabado de desmoronar.
Capítulo 22
11 DE JUNHO
Sono incinta. Sono incinta. Sono incinta. Será que eu me sentiria diferente se as palavras estivessem na minha língua? ESTOU GRÁVIDA. Pronto.
Mal consigo pensar. Hoje vomitei o café da manhã, como aconteceu em todos os outros dias da última semana, e enquanto dava descarga, um pensamento horrível me ocorreu. Tentei tirá-lo da cabeça, mas... eu precisava saber. Minha menstruação sempre foi meio irregular, mas estava mais irregular do que o normal? Fui até a farmácia, mas esqueci meu dicionário inglês-italiano e tive que fazer uma pantomima horrível para explicar o que queria, e então corri para casa para fazer o teste e... deu positivo. Voltei para comprar mais dois testes. Positivo. E positivo.
Todos deram positivo.
13 DE JUNHO
Mal saí do quarto nos últimos dois dias. Francesca foi embora ontem, e agora toda vez que Howard bate à porta finjo estar dormindo. Sei que preciso sair daqui. Howard me ama. E eu o amo. Mas isso não importa mais, porque estou grávida de outra pessoa. Sei que preciso contar a X, mas tenho vontade de morrer quando penso nisso. O que ele vai dizer?
Segundo Francesca, ele está procurando por mim, mas tenho certeza de que não está procurando por isso. E o momento não poderia ser pior. É um sinal de que Matteo e eu temos que ficar juntos? Mas e quanto a este tempo com Howard? Há três dias escrevi que ele era o homem certo para mim. E agora isso.
Quero muito contar a Howard, mas o que dizer? Liguei para minha mãe e desliguei duas vezes. Eu começo a discar o telefone de Matteo, mas paro logo nos primeiros números. Estou me dando um prazo até amanhã à noite para decidir o que fazer. Não consigo nem pensar.
14 DE JUNHO
Liguei para Matteo. Ele está trabalhando em Veneza e vou encontrá-lo.
Não posso contar por telefone.
15 DE JUNHO
Estou no trem. Howard fez questão de me dar uma carona até aqui, e embora eu não tenha contado por que estou indo, acho que ele sabe.
Lágrimas desciam sem parar pelo meu rosto e a última coisa que ele disse foi: “Está tudo bem. Por favor, seja feliz.”
Assim que o trem saiu, comecei a chorar tanto que todo mundo em volta olhou. Eu já repassei isso várias vezes na minha cabeça e tudo aponta para Matteo. Eu vou ter um filho dele. Preciso tirar Howard da cabeça. Eu escolhi Matteo. O destino escolheu Matteo. Nosso bebê escolheu Matteo.
Tem que ser ele.
15 DE JUNHO – MAIS TARDE
Talvez Veneza seja o pior lugar do mundo para uma mulher grávida.
Claro que é linda. Cento e dezessete ilhas interligadas por barcos e táxis aquáticos e aqueles gondoleiros de camiseta listrada conduzindo turistas por preços absurdos. A Cidade Flutuante. O cheiro é horrível, e a água batendo em tudo me dá a impressão de que posso cair a qualquer momento. Assim que o trem chegou, sequei as lágrimas e me forcei a comer um pedaço de foccacia. Faltava uma hora para eu e Matteo nos encontrarmos. Uma hora até ele saber. Eu li que Veneza está afundando, uns quatro centímetros a cada século. E se eu afundar junto com ela?
16 DE JUNHO
Marcamos um encontro na Piazza San Marco. Assim que me localizei, saí da estação de trem e fui direto para lá. Estava cedo, então fiquei andando e observando a Basílica de São Marcos. A construção é muito diferente do Duomo de Florença. Tem estilo bizantino, com muitos arcos e um mosaico chamativo na fachada. Parte da piazza estava inundada e havia turistas dobrando a calça e caminhando pela água.
Às cinco horas da tarde, percebi que não tínhamos combinado o ponto exato onde nos encontraríamos, então andei até o centro da piazza. Havia pombos por todos os lados e eu não parava de ver crianças. Um
menininho com cabelo e olhos escuros passou correndo por mim, gritando alguma coisa, e meu primeiro pensamento foi: que inteligente, ele fala muito bem italiano. Será que meu filho vai falar uma língua que mal entendo?
Então vi Matteo. (Por que continuar a chamá-lo de X?) Ele vinha na minha direção. Vestia um terno e segurava o paletó numa das mãos e um buquê de rosas amarelas na outra. Eu só o observei por um instante, sentindo tudo o que aquele momento significava. Então, antes que pudesse dizer alguma coisa, ele me abraçou e afundou o rosto no meu cabelo. Ele só dizia, sem parar “que saudade, que saudade” e, ao sentir seus braços quentes e sólidos, fechei os olhos e soltei o ar pela primeira vez desde que descobri que estava grávida. Ele não é perfeito, mas é meu.
17 DE JUNHO
Ainda não contei a ele. Estou esperando tudo voltar a ser natural entre nós.
Ele tem sido muito gentil comigo, e passamos a maior parte do tempo andando pelas ruas de Veneza. Ele alugou um pequeno apartamento com vista para um canal, e mais ou menos a cada meia hora um gondoleiro passa lá embaixo, em geral cantando para os passageiros. Matteo contou que viu que tinha cometido um erro no segundo em que meu trem saiu da estação em Roma. Disse que me via em todo lugar, e que certa vez seguiu uma mulher parecida comigo por meio quarteirão até perceber que não podia ser eu. Disse que não conseguia se concentrar e começou a passar horas estudando as fotos que tinha tirado quando estava comigo. Falou que eu inspirara alguns de seus melhores trabalhos.
Ele me convidou para ficar no apartamento com ele, mas fiz uma reserva num hotel barato. É administrado por uma senhora, e só tem três quartos, que compartilham o mesmo banheiro. Há paninhos de renda cobrindo tudo e me sinto na casa de uma parente idosa. Faz mais de três dias que não tiro nenhuma foto, o que deve ser um recorde para mim. Minha mente está cheia demais. Amanhã vou contar sobre o bebê. Amanhã.
18 DE JUNHO
Preciso escrever isto. É horrível e brutal, mas foi o que aconteceu e não posso omitir.
Levei Matteo para jantar num restaurantezinho lindo perto do hotel.
Ambiente à luz de velas e silencioso. Absolutamente tudo naquele momento estava perfeito, só que, quando chegou a hora de contar a ele, não consegui fazer com que as palavras saíssem. Quando chegou a conta, perguntei se ele queria ir para o hotel comigo.
Meu quarto estava bagunçado, com roupas e equipamentos de fotografia por todos os lados, mas pelo menos era tranquilo e reservado, e quando entramos, eu disse a ele para se sentar. Ele se sentou na cama e me puxou para que eu me sentasse a seu lado. Disse que estava pensando numa coisa havia muito tempo e achava que estava na hora de darmos o próximo passo.
Meu coração acelerou. Ele ia me pedir em casamento? Então olhei para minha mão e entrei em pânico. Eu ainda estava com o anel de Howard.
Será que teria que tirar? É possível dizer sim para alguém mesmo usando o anel que ganhou de outra pessoa? Porém, em vez de me mostrar um diamante, Matteo me explicou o que era basicamente um plano de negócios. Disse que estava cansado de não ganhar quase nada trabalhando para escolas e que queria começar algo só seu, fazendo retiros para fotógrafos de língua inglesa que quisessem passar um tempo na Itália. Ele já tem dois tours marcados e acha que eu seria o complemento perfeito.
Eu poderia ajudar a organizar as viagens e acomodações, e quando tivesse um pouco mais de experiência, também ensinar fotografia. Então me abraçou e disse que tinha sido idiota de me perder de vista. Era hora de fazermos as coisas juntos.
Até aquele momento, eu não deixara que ele me beijasse, e assim que sua boca encostou na minha, só consegui pensar em Howard. Foi quando percebi que nunca daria certo com Matteo. Grávida ou não, eu amo Howard. É impossível ter um relacionamento amando outra pessoa. Então me afastei dele e falei as duas palavras que tinha ido dizer.
As palavras penderam pesadas no ar. E aí ele se levantou como se a cama tivesse queimado sua pele. “Como assim grávida? Como isso aconteceu?
Nós terminamos há dois meses.” Expliquei que devia ter acontecido pouco antes de ele ir embora e que eu só descobrira no começo da semana.
Foi quando ele surtou. Começou a gritar, me chamar de mentirosa e dizer que era impossível aquele bebê ser dele. Disse que eu tinha engravidado de outro, provavelmente de Howard, e que agora estava tentando passar a responsabilidade para ele. Começou a pegar todas as minhas coisas e jogar pelo quarto, minha câmera, fotos, roupas, tudo. Tentei acalmá-lo, mas ele jogou uma garrafa de vidro na parede e, quando se virou e olhou para mim, senti muito medo.
Então menti. Disse que ele estava certo, que o bebê não era dele, que era de Howard, e que eu nunca mais queria vê-lo. Falei o que achei que ele quisesse ouvir, mas aquilo o deixou ainda mais furioso. Ele disse que acabaria com nós dois e que Howard iria se arrepender de ter se aproximado de mim. Finalmente, ele me empurrou para passar, abriu a porta com um chute e foi embora.
O anel. A negação. A mentira.
Eu finalmente estava tendo uma visão clara da vida da minha mãe, como se até aquele momento tivesse olhado por uma janela embaçada e não percebesse.
Eu não tinha noção de que ela passara por tanto sofrimento. Para ser franca, ela era muito alegre. Tipo a vez em que nosso vizinho de cima deixou a banheira aberta e, quando nosso apartamento inundou, estragando várias coisas, minha mãe se limitou a pegar um esfregão e começou a falar de como era maravilhoso estarmos nos livrando de algumas coisas para começar de novo.
Será que aquela postura otimista e grata com a qual eu crescera tinha sido apenas uma campanha de relações públicas bem elaborada? Será que minha mãe tinha medo de que eu descobrisse que a gravidez a forçara a desistir?
Fechei o diário. Tinha quase certeza de que, se continuasse lendo, teria outro colapso, e dessa vez achava que nem Ren conseguiria me acalmar. E, além do mais, era inútil continuar. Não importava o que minha mãe tinha feito depois: voltado a Florença de balão, escrito HADLEY AMA HOWARD em letras enormes na Piazza del Duomo, mandado um punhado de cartas do amor por todos aqueles pombos de Veneza — nada disso daria certo. Ponto final. Ela passaria o restante da vida a quase dez mil quilômetros de distância apenas com um fino anel de ouro para se lembrar do que tinha perdido.
Ah, com o anel e comigo. Também conhecida como o suvenir mais inconveniente do mundo.
Eu me recostei e fechei os olhos, sentindo os leves movimentos que o trem fazia de um lado para outro ao seguir pelos trilhos. Eu estava a uns cento e cinquenta quilômetros de um homem cuja vida seria virada de cabeça para baixo e a quinze centímetros de outro que não queria nada comigo.
Eu realmente queria estar em qualquer outro lugar.
* * *
Eram quatro da tarde quando nosso trem chegou a Florença. Ren tinha cochilado de novo e seu celular não parava de vibrar no banco ao seu lado, como se fosse um inseto gigantesco. Até que eu me inclinei e dei uma olhada. Mensagem da Mimi. Ai. Será que ele ia contar que eu o beijara? Se contasse, era melhor eu caprichar nos golpes de luta. Ia precisar.
Ren abriu os olhos.
— Chegamos?
— Chegamos. Seu celular estava tocando.
— Obrigado.
Ele leu as mensagens com o cabelo caindo nos olhos. Enquanto todos os outros recolhiam suas coisas, agarrei o diário. Aquele tinha sido um dos dias mais longos da minha vida, e eu me sentia num grande casulo de tristeza. Não acreditava que ainda tinha que voltar para o cemitério e contar a Howard o que sabia.
* * *
A viagem de volta ao cemitério foi silenciosa. Brutalmente silenciosa. Todos que ultrapassávamos pareciam estar no meio de uma conversa animada, o que tornava ainda mais doloroso o vazio entre nós dois. Eu estava arrasada, mas também furiosa. Sim, eu tinha feito besteira, mas isso significava que não podíamos mais ser amigos? E por que eu tinha que conhecer Matteo e perder Ren no mesmo dia? A maioria das pessoas tinha o luxo de passar pelos dramas da vida ao longo dos anos, então porque comigo estava sendo tudo de uma vez?
Quando finalmente paramos no cemitério, um grande grupo saía de um ônibus no estacionamento, e todos nos encararam como se fôssemos parte da atração. Howard saiu do centro de visitantes e acenou para nós.
Ao vê-lo, me senti congelar por dentro e depois quebrar em pedacinhos, mas consegui acenar também. E até sorrir. O que ele ia dizer?
— Pra casa? — perguntou Ren.
— Sim.
Segundos depois paramos na entrada da casa e ele desligou a scooter.
Desci da garupa e lhe entreguei meu capacete.
— Obrigada por me ajudar, Ren. Não foi ótimo, mas pelo menos agora eu tenho algumas respostas.
— Foi um prazer. — Em silêncio, trocamos um breve olhar e logo depois ele baixou os olhos, religando a scooter. — Espero que dê tudo certo com Howard.
Vai ficar tudo bem. Ele gosta muito de você.
Seu tom de voz era de despedida, e senti um nó na garganta.
— Quer correr amanhã?