Amor & gelato
Capítulo 18
Ren apontou para um link na parte de baixo.
— Página da biografia. Tenta essa.
Eu cliquei. E esperei. Outra era do gelo começou e terminou. Finalmente, uma foto em preto e branco do rosto do Matteo carregou e eu me aproximei para dar uma olhada.
E foi então que perdi o fôlego.
Capítulo 18
DE REPENTE, O cyber café parecia um dos suéteres de lã que minha tia-avó me mandava todo Natal. Quente. Áspero. Asfixiante.
Minhas mãos tremiam, mas consegui clicar na imagem para ampliá-la ainda mais. Pele morena. Olhos escuros. Cabelo cortado curtinho e depois quase melecado de tanto gel, porque do contrário ele teria que passar metade do dia tentando controlá-lo.
Eu sabia bem como era isso.
— Ai, meu Deus. Aimeudeusaimeudeusaimeudeus. Acho que vou vomitar.
— Tentei me levantar, mas tudo girou. Ren me segurou e me puxou de volta para a cadeira.
— Lina, fica calma. Está tudo bem. — Era como se ele estivesse falando debaixo d’água. — Deve ser só uma coincidência. Quer dizer, você também se parece muito com sua mãe. Todo mundo fala isso.
— Ren, ela nunca disse que ele era meu pai.
— O quê?
Eu me virei.
— Minha mãe nunca falou que Howard era meu pai. O tempo todo falou dele como se fosse apenas o melhor amigo dela.
Ele arregalou os olhos.
— Davvero? Então por que você achou que era?
— Por causa da minha avó. Ela disse que Howard era meu pai e que minha mãe não tinha me contado porque queria que eu chegasse lá de coração aberto e desse uma chance pra ele. — Coloquei a mão no peito. Meu coração batia forte, quase quebrando minhas costelas. — É claro que eu não tenho nada a ver com Howard, e Ren, olha.
Viramos para a tela outra vez.
— Preciso de uma explicação. Talvez... — Ele se calou.
Não havia o menor espaço para um “talvez”.
— E desde que cheguei aqui, as pessoas dizem que eu tenho cara de italiana.
Você mesmo falou isso quando nos conhecemos na colina. Ah, meu Deus. Eu sou italiana. Eu sou italiana!
— Metade italiana. E, Lina, calma. Ser italiana também não é o fim do...
— Ren, você acha que ele sabe? Acha que Howard sabe?
Ele hesitou, olhando outra vez para a foto.
— Não sei. Deve saber, não é?
— Então por que está me apresentando pras pessoas como filha dele? Ah, não. — Eu me curvei, segurando as pernas. — Na noite em que fomos na casa da Elena, ele estava com convidados em casa e eu ouvi uma das pessoas perguntar se eu era filha “da fotógrafa”, e ele disse que sim, mas não que eu também era filha dele.
— Mas ele me disse que é seu pai. Naquela primeira vez que nos falamos. E
Sonia diz o mesmo, não é?
— Ou os dois estão mentindo ou acreditam mesmo nisso. — Coloquei as mãos na cabeça. — Ren, e se só minha mãe soubesse? E se esse tiver sido o motivo pra ela ter enviado o diário? Pra eu saber a verdade mesmo que ninguém mais soubesse?
Ren fez uma careta.
— Ela faria isso? É tão...
Cruel? Insensível? Pode escolher.
Balancei a cabeça.
— Não sei mais. Desde que comecei a ler o diário, eu me pergunto se realmente a conhecia. — Olhei outra vez para a tela. — Ontem à noite eu estava pensando que ela e Howard tinham que ficar juntos logo porque nasci em janeiro, mas acho que não estavam com pressa. Ela já devia estar grávida na época em que foi morar com ele.
— E agora?
Respirei fundo.
— Temos que ligar pro Matteo. Preciso conhecê-lo.
— Nossa, Lina, não acho que seja uma boa ideia. Por que não conversamos com Howard antes? Ou pelo menos terminamos de ler o diário?
— Ren, por favor! Acho que era isso que minha mãe queria que eu fizesse. E
não vou conseguir encarar Howard assim. Não posso. Esse número na parte de baixo é do Matteo?
Peguei meu celular e tentei ligar, mas minhas mãos tremiam demais.
— Eu ligo. — Ele pegou o aparelho. — Ligo direto pro número da galeria?
— Sim. Vê se está aberta. E onde fica. Como vamos chegar lá? Podemos ir até Roma de scooter?
— Não, vamos de trem. Tem trens indo pra lá o dia inteiro.
Ele se inclinou para a frente, com o celular encostado no ouvido. Estava chamando.
* * *
Ren pilotou o mais rápido possível até a estação de trem, enquanto eu me segurava nele como um macaco lunático. Tínhamos visto os horários na internet e achamos um trem expresso que sairia em vinte e seis minutos. Chegamos em vinte e quatro.
— Conseguimos. Conseguimos — comemorei, ofegante.
Ren afundou num banco vazio.
— Eu... nunca... corri... tanto.
Pressionei os dedos contra as costelas. Sentia uma dor horrível na lateral do tórax.
— Quem... diria... que um trem... estaria saindo agora?
Ele levou um segundo para recuperar o fôlego.
— Eles saem o dia inteiro, mas esse aqui é expresso. E precisamos fazer tudo rápido porque meus pais vão me matar se descobrirem que estou levando você a Roma pra encontrar um desconhecido. E Howard vai me jogar num caldeirão de óleo fervente.
— Matteo não é um cara qualquer. E Howard... — Soltei um gemido. — Que horror. Foi rejeitado por minha mãe e agora também vai descobrir que não tem filha nenhuma.
Nesse instante, começaram a falar num volume ensurdecedor pelo sistema de comunicação, e nós dois tapamos os ouvidos enquanto um homem fazia um longo anúncio em italiano. Quando finalmente terminou, ouvimos um apito agudo e o trem saiu lentamente da estação. Isto está acontecendo. Está mesmo acontecendo.
— Você está levando o diário, não é? — perguntou Ren.
— Estou. — Eu o tirei da bolsa. — Vou ler no caminho. Quanto tempo até lá?
— Uma hora e meia. Lê rápido.
Ele fechou os olhos e apoiou os pés no banco à frente.
— Ren?
Ele abriu os olhos.
— Sim?
— Juro que normalmente eu sou um tédio.
— Duvido.
9 DE MAIO
O semestre está terminando. Simone e Alessio acabaram mais cedo. Eles conseguiram um emprego juntos num museu em Nápoles, e todos ficamos aliviados porque eles não vão se separar. Com quem brigariam? Adrienne também terminou antes, mas foi embora sem se despedir.
Agora só restaram três do nosso grupo, Francesca, Howard e eu. Passamos tanto tempo juntos que brincamos que ele deveria economizar dinheiro e vir morar conosco. As aulas terminaram, mas tecnicamente faltam duas semanas até entregarmos o projeto final, e já comecei a ajudar Petrucione.
Parece o fim de uma era. No ano passado, vivi alguns dos meus melhores momentos, mas também alguns dos piores. Não tive nenhuma notícia de X desde aquele dia na estação de trem, e agora que o pior já passou, fico me perguntando como nosso relacionamento pode ter significado tanto para mim e tão pouco para ele.
12 DE MAIO
Nas últimas semanas, eu e Howard alugamos um carro e temos arrastado Francesca para passeios pelas cidades nas colinas da Toscana. Nossos papéis são bem definidos: Howard dirige e cuida da música, eu leio um livro de viagens em voz alta e Francesca fica sentada no banco de trás reclamando. Nós nos divertimos tanto, e eu fico muito feliz por tê-los por perto para me distrair. Às vezes até me esqueço de X por um tempo.
13 DE MAIO
Ofereceram a Francesca um emprego como assistente de um grande fotógrafo de moda em Roma. Se ela aceitar (e vai aceitar), começa em menos de um mês. Howard também tem feito entrevistas de emprego. Ele disse que vai fazer o que for preciso para ficar na Itália. Alguém precisa de um zelador com Ph.D. em história da arte? Sempre pensamos parecido com relação a Florença. Enquanto nossos amigos reclamavam dos turistas e dos preços, nós apontávamos para os vitrais coloridos e experimentávamos os sabores mais estranhos de gelato que encontrávamos.
Devo admitir que, apesar de ainda amar Florença com todo o coração, a
cidade acabou se tornando um lugar triste para mim. Sempre que saio vejo lugares aonde fui com X, e é como se eu ouvisse ecos das nossas conversas. Passei horas me perguntando por que nosso relacionamento terminou tão de repente. Será que a direção da escola tinha descoberto?
Ele havia conhecido outra pessoa? Mas é inútil pensar nisso. Eu poderia passar a vida inteira me fazendo essas perguntas.
14 DE MAIO
Só falta uma semana para terminar o prazo de entrega do meu projeto.
Petrucione recomendou algumas escolas de arte para fazer retratos fotográficos e disse que, se eu conseguir aumentar meu portfólio, poderei escolher o curso que quiser. Estou tentando ficar tão animada quanto deveria. Sinto que parte de mim já está pronta para a próxima fase, mas a outra deseja ficar nesta cidade para sempre.
15 DE MAIO
Howard deve estar cansado dos bolos que dou enquanto trabalho no meu portfólio, porque ele me surpreendeu quando eu estava saindo do estúdio e disse que ia me levar para conhecer o Cemitério e Memorial Americano de Florença. Ele tem trabalhado lá como voluntário nos últimos meses (acrescente a Segunda Guerra Mundial a sua longa lista de interesses), e há pouco tempo recomendaram que se candidatasse à vaga de superintendente fixo. O superintendente atual sofreu um derrame este mês, e eles estão com pressa para encontrar um substituto. Não consigo imaginar alguém mais perfeito para o cargo nem um lugar mais perfeito para Howard. Ele disse que é improvável e tentou demonstrar indiferença, mas deu para ver quanto ele quer esse emprego.
18 DE MAIO
O que tem de errado comigo? Tem dias em que sinto que estou seguindo em frente, e em outros fico tão triste e emotiva que é como se estivesse de novo na estação de trem em Roma. Trabalho até tarde na maioria das noites, mas mesmo que não trabalhe, não consigo dormir. Toda vez que fecho os olhos, penso em X. Sei que a esta altura eu já deveria ter superado, mas só queria ter uma última conversa. Num momento de fraqueza, liguei para ele, mas o número não existe mais. Sei que é melhor assim, mas fiquei muito decepcionada.
20 DE MAIO
Howard conseguiu o emprego! Eu e Francesca o levamos à sua pizzaria preferida para comemorar, e quando voltamos para casa, ela subiu correndo, nos deixando parados lá fora. Eu já ia me despedir, mas ele começou a pigarrear e a balbuciar, e do nada me convidou para passar o restante do verão no cemitério. Ele fez parecer muito fácil: termine suas inscrições nas faculdades. Fique no quarto vago. Passe um pouco mais de tempo em Florença. Que convite! Aceitei antes mesmo que ele terminasse de falar.
22 DE MAIO
Hoje foi meu último dia oficial como estudante da ABAF. Planejo tirar o fim de semana de folga. Começo a auxiliar Petrucione na segunda-feira.
Eu e Francesca passamos a tarde encaixotando as coisas do apartamento.
Nunca achei que diria isso, mas vou sentir saudade do meu colchão fininho e duro e de todos os clientes barulhentos da padaria. Vivi tantas coisas boas aqui!
Francesca foi embora há uma hora. O estágio dela começa em duas semanas, mas antes ela vai viajar pelo país. Eu a ajudei a descer todas as nove malas, depois simplesmente nos abraçamos. Ela diz que nunca chora, mas quando nos afastamos seu delineador estava um pouquinho borrado.
Espero que ela cumpra a promessa de visitar a mim e a Howard em breve.
24 DE MAIO
Bem, é oficial. Agora sou uma moradora do Cemitério e Memorial Americano de Florença. Todo o estresse de terminar o ano letivo deve ter me afetado, porque ontem eu estava tão exausta que mal consegui me levantar da cama. O superintendente anterior deixou o lugar mobiliado, então Howard pôde começar a trabalhar logo. O quarto extra é perfeito para mim, e Howard disse que não se incomoda se eu cobrir as paredes com fotos.
26 DE MAIO
O cemitério é deslumbrante, e embora eu devesse passar todo o meu tempo livre me inscrevendo nas faculdades, sempre aproveito alguns momentos para perambular por entre as lápides. O Muro dos
desaparecidos é especialmente interessante. Como essas pessoas podiam estar vivas e de repente desaparecer? Hoje de manhã eu estava fotografando o muro e a superintendente-assistente, Sonia, se juntou a mim. Tivemos uma longa conversa. Ela é uma mulher maravilhosa, inteligente, como Howard, e muito dedicada ao trabalho aqui.
30 DE MAIO
Esta semana foi ótima. Depois de terminarmos o trabalho do dia, Howard e eu cozinhamos, assistimos a alguns filmes antigos e fizemos longas caminhadas, e tem sido perfeito. Às vezes Sonia se junta a nós, e jogamos cartas, vemos filmes ou só conversamos. Não sei explicar direito, mas durante anos senti que estava procurando alguma coisa, como se eu não estivesse no lugar certo, no entanto aqui, com Howard, essa sensação evaporou. Não sei se é a cidade, a tranquilidade do cemitério ou o tempo livre para tirar fotos, mas nunca me senti tão à vontade. Este lugar tem mesmo algum poder de curar os males.
31 DE MAIO
Hoje de manhã mostrei a Petrucione algumas fotos que tirei no cemitério.
Há um lugar no lado noroeste com uma vista perfeita da propriedade, e tenho tirado fotos ali em diferentes horários. É incrível ver a mudança da luz e da cor ao longo do dia.
Pode parecer óbvio, mas morar num cemitério me faz pensar na morte.
Aqui há uma ordem que não existe na vida real, e acho isso estranhamente reconfortante. Talvez essa seja a beleza da morte. Nada mais é complicado. Tudo é fechado e definitivo.
Fechado e definitivo.
— Aiii — falei em voz alta.