Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 22 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 21

 

NÃO FOI UM beijinho qualquer. Não foi aquele primeiro beijo sem jeito ou um selinho roubado no cinema pelo seu namoradinho da escola. Foi um beijo com direito a braços enrolados no pescoço, dedos entrelaçados no cabelo em meio a lágrimas salgadas e uma pergunta pairando no ar: por que não fizemos isso antes? Ren envolveu minha cintura e por cinco segundos tudo foi perfeito, mas depois...

Ele me afastou.

Ele.

Me.

Afastou.

Desejei que um buraco se abrisse no chão e me sugasse para dentro, naquele segundo.

Ele não conseguia olhar para mim.

Sério, por que o chão ainda não tinha me engolido?

— Ren... não sei o que aconteceu. — Ele tinha retribuído o beijo, não tinha?

Não tinha?

Ele olhava para baixo.

— Não, não é isso. Tudo bem. Só acho que não é o momento certo, sabe?

MOMENTO. Meu rosto queimava. Ele não só tinha me afastado como estava sendo legal comigo. Lina, dá um jeito nisso. As palavras começaram a disparar da minha boca.

— Você está certo. Totalmente certo. Eu me deixei levar depois do que aconteceu lá... Fiquei muito emotiva, acho que acabei confundindo as coisas e...

— Fechei os olhos com força. — Somos só amigos. Eu sei disso. E nunca, jamais, jamais mesmo, pensei em você como algo além disso.

Será que conta como mentira se você estiver negando algo que só admitiu para si mesma há um minuto? Além disso, exagerei nos “jamais”, mas queria que ele acreditasse em mim.

Ren ergueu o rosto, me encarando com a expressão mais indecifrável do planeta. Então se distraiu de novo.

— Tudo bem. Não esquenta com isso.

* * *

Por que, por que, por que eu fiz aquilo? Eu me encostei numa das portas do táxi, Ren se sentou na outra, olhando pela janela como se estivesse tentando decorar as ruas ou algo do tipo. Tive a impressão de que ele seria capaz de se jogar pela janela a qualquer momento só para me evitar.

Eu não merecia uma segunda chance? Voltar vinte minutos no tempo, para o momento em que ainda não havia perdido a cabeça e beijado meu melhor amigo que tinha namorada e claramente não me queria? Até o instante em que eu ainda não havia notado quanto amava seu cabelo desgrenhado e seu senso de humor ou o fato de que, embora o conhecesse havia menos de uma semana, eu me sentia à vontade o bastante para dividir aquela história maluca com ele?

Ai, meu Deus. Eu estava tão apaixonada que chegava a doer.

Pressionei os dedos no peito. Você conhece Ren há cinco dias. Não pode estar apaixonada por ele. Muito racional.

E nem um pouco verdade.

Claro que eu estava apaixonada. Ren era autêntico e eu me sentia confortável para ser eu mesma quando estava com ele. Tudo isso seria perfeito se ele sentisse o mesmo, mas não era o caso. Olhei para Ren e uma onda de dor percorreu meu corpo. Será que ele nunca mais ia falar comigo?

O taxista nos olhava pelo retrovisor.

— Tutto bene?

— Si — respondeu Ren.

Enfim, o carro deu uma guinada para a estação de trem e Ren entregou ao motorista algumas notas, depois praticamente se jogou para fora do táxi. Infeliz, fui atrás dele.

Ainda tínhamos que voltar para Florença. Uma viagem de trem inteira, e depois, o percurso de scooter, e... Ah, não. Depois eu estaria no cemitério. Com Howard. Eu não podia me permitir pensar tão à frente, ou começaria a surtar.

Ren diminuiu o passo por um instante para que eu pudesse alcançá-lo.

— Nosso trem sai em quarenta e cinco minutos.

Quarenta e cinco minutos. Ou seja, uma eternidade.

— Quer se sentar?

Ele balançou a cabeça.

— Vou comprar algo pra comer. — Sozinho.

Ele não falou isso, mas nem precisava.

Assenti, apática, depois fui até as cadeiras mais próximas e me afundei numa delas. Qual era o meu problema? Primeiro, não dá para chorar em cima de uma

pessoa e em seguida beijá-la. Em segundo lugar, não se beija um cara que tem namorada. Uma namorada deslumbrante. Mesmo que desconfie que ele também esteja a fim de você.

Será que eu entendi tudo tão errado assim? Ele estava sendo atencioso só porque eu era uma boa amiga? E todas aquelas vezes em que tinha segurado minha mão ou dito que gostava de mim porque eu era diferente? Não significaram nada?

E quanto a Matteo? Meu pai era, sem exagero, a pior pessoa que eu já conhecera. Eu tinha certeza de que minha mãe me mantivera longe dele de propósito, mas por que ela enviara todas as pistas para que eu o encontrasse?

Eu precisava me distrair. Tirei o diário da bolsa, mas, quando o abri, as palavras se moveram ligeiras pela página feito insetos. Eu não ia conseguir me concentrar enquanto estivesse me sentindo daquele jeito.

Dez excruciantes minutos depois, Ren apareceu com uma grande garrafa de água e um saco plástico para mim.

— Sanduíche. De prosciutto.

— O que é isso?

— Presunto fatiado bem fininho. Você vai adorar.

Enquanto ele se sentava ao meu lado, abri o sanduíche e dei uma mordida.

Claro que amei, mas não era nada comparado ao que eu sentia por Ren.

E, sim. Eu tinha acabado de comparar o único cara por quem já me apaixonara a um sanduíche de presunto.

Ren se recostou na cadeira, esticando as pernas para a frente e cruzando os braços. Tentei encará-lo, mas ele estava concentrado nos próprios pés.

Finalmente, suspirei.

— Ren, não sei o que dizer. Desculpa por ter colocado você nessa situação.

Não foi justo.

— Não se preocupa com isso.

— Eu sei que você tem namorada e...

— Lina, sério. Relaxa. Está tudo bem.

Não parecia estar nada bem, e eu sentia um ciclone bem no meio do peito.

Também me recostei à cadeira e fechei os olhos, mandando mensagens telepáticas para ele. Desculpa por ter arrastado você até Roma. Desculpa por ter te beijado. Desculpa por ter estragado tudo.

* * *

Trinta e cinco minutos sem conversar.

 

Não, trinta e um, considerando aquela conversa horrível, e depois fui ao banheiro e fiquei uns dois minutos diante do espelho me odiando. Meus olhos estavam inchados. Eu estava acabada. Perdera Ren e estava prestes a perder Howard também. Não havia escolha. Eu precisava ter certeza de que Howard sabia que não era meu pai, por mais que eu quisesse que ele fosse.

— O trem chegou — avisou Ren, se levantando.

Ele foi até a plataforma e eu o segui. Mais uma hora e meia. Eu aguentaria, não é?

O trem estava cheio, e levamos um bom tempo para encontrar lugar.

Finalmente achamos dois assentos vagos diante de uma senhora gordinha que colocara um monte de sacolas plásticas no espaço que nos separava. Um homem ocupou o lugar ao lado dela, e Ren assentiu para eles, ocupando o assento junto à janela e fechando os olhos de novo.

Tirei o diário da bolsa e o limpei na calça jeans, tentando me livrar de qualquer germe do Matteo que ainda estivesse ali. Estava na hora de mergulhar outra vez na história. Eu precisava parar de pensar em Ren.

3 DE JUNHO

Esta noite, Howard me falou, com seu jeito delicado, que sempre soube de X. Aquilo fez eu me sentir ridícula. Eu achava que éramos muito sorrateiros, mas no final das contas todo mundo sabia. Eu me vi contando a ele sobre o relacionamento, até as partes ruins. E não eram poucas. O

problema era que, quando as coisas iam bem com X, iam TÃO bem que eu me esquecia de todo o resto. Foi um grande alívio falar disso, e depois eu e Howard fomos para a varanda e conversamos sobre outras coisas até as estrelas aparecerem. Eu não me sentia tão tranquila assim havia muito tempo.

5 DE JUNHO

Hoje faço vinte e dois anos. Acordei sem nenhuma expectativa, mas Howard estava me esperando com um presente: um anel de ouro fininho que ele comprou numa loja de antiguidades em Florença há quase um ano.

Ele disse que não sabia por que fizera isso; simplesmente tinha adorado o anel.

O que eu mais amo no anel é que ele tem uma história. O homem que o

vendeu contou que pertencera a uma tia dele que se apaixonara por alguém, mas fora forçada pela família a ir para um convento. O homem que ela amava lhe dera o anel e ela o usou em segredo por toda a vida.

Howard disse que o vendedor inventou uma história para acrescentar mais valor à peça, mas é lindo e, por incrível que pareça, cabe perfeitamente no meu dedo. Eu estava exausta, então em vez de sair para jantar hoje, como tínhamos planejado, ficamos em casa para ver filmes antigos. Mal consegui terminar o primeiro.

6 DE JUNHO

Hoje à noite, eu e Howard estávamos sentados no balanço da varanda, e eu estava com os pés no colo dele. Então ele me fez uma pergunta: “Se você pudesse fotografar qualquer coisa no mundo, o que escolheria?”

Antes que eu sequer conseguisse pensar no assunto, disparei “esperança”.

Eu sei, é brega, não é? Mas estou falando da esperança no sentido de tranquilidade, daqueles momentos em que você simplesmente sabe que vai dar tudo certo. É a descrição perfeita deste tempo que estou passando aqui. Parece que apertei o botão “soneca” e estou fazendo uma pausa antes de ter que encarar seja lá o que venha a seguir. Sei que meu período aqui está chegando ao fim lentamente, mas não quero que acabe.

7 DE JUNHO

Quero registrar cada minuto do que aconteceu hoje.

Howard me acordou antes das cinco da manhã dizendo que queria me mostrar uma coisa. Meio dormindo e de pijama, caminhamos pela parte de trás do cemitério. Ainda estava cinza lá fora e pareceu que tínhamos andado por horas. Então vi aonde estávamos indo. À frente, ao longe, havia uma pequena torre redonda. Parecia antiga e ficava completamente isolada, como algo esperando para ser descoberto.

Quando chegamos lá, Howard me levou até a entrada. Havia uma pequena porta de madeira que devia ter sido posta ali para impedir invasões, mas tinha se quebrado com o tempo e as intempéries. Ele a tirou do caminho, e nós dois nos abaixamos para passar e subimos pela escada em espiral até o topo da torre. Subimos tanto que foi possível ver tudo a nossa volta — a copa das árvores do cemitério e a estrada que leva a Florença. Perguntei o que estávamos fazendo ali, e ele me disse para esperar. E foi o que fizemos. Ficamos ali em silêncio enquanto o sol nascia nos tons de rosa e

dourado mais maravilhosos. Todos os campos foram inundados de cor.

Senti uma dor repentina. Eu estivera cercada pelo frio e pela escuridão, mas de repente, bem devagar, não estava mais.

Depois que já tinha amanhecido completamente, eu me virei. Howard estava me observando, e foi como se de repente eu o visse pela primeira vez. Eu me aproximei dele e nos beijamos como se já tivéssemos feito isso um milhão de vezes. Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Quando nos afastamos, não dissemos nada. Eu só peguei a mão dele e voltamos para casa.

8 DE JUNHO

Continuo pensando em como era estar com X. Quando eu tinha a atenção dele era como se um refletor brilhasse sobre mim e tudo no mundo estivesse certo. No instante em que ele desviava o olhar, no entanto, eu me sentia sozinha e com frio. Tentei encontrar o equivalente para

“inconstante” em italiano, e o mais perto que cheguei foi “volubile”.

Significa “desviar, rodopiar, retorcer”. Eu me sentia atraída por aquela sensação de redemoinho que X provocava em mim, mas aquilo me deixava sem chão. Eu achava que queria fantasia e paixão, mas no fim das contas o que realmente quero é alguém que me acorde cedo para eu não perder o nascer do sol. O que realmente quero é Howard. E agora eu tenho.

10 DE JUNHO

Francesca veio nos fazer uma visita ontem. Talvez eu não esteja mais acostumada com ela, mas nas últimas três semanas ela conseguiu se transformar numa versão exagerada de si mesma. Seus saltos agulha estavam um pouco mais altos, suas roupas, ainda mais elegantes, e ela fumava uma quantidade recorde de cigarros.

Depois do jantar, ficamos conversando. Achei que eu e Howard estávamos escondendo muito bem essa coisa nova entre nós, mas assim que ele foi dormir, Francesca disse: “Então rolou.” Tentei me fazer de desentendida, mas ela disse: “Por favor, Hadley. Não me trate como criança. Não sei por que você acha que precisa manter todos os seus relacionamentos em segredo. No segundo em que entrei aqui percebi que tinha acontecido alguma coisa entre vocês. Agora me conte os detalhes.

Subito!”

Contei sobre as últimas semanas, sobre como tinham sido tranquilas e regeneradoras. E depois falei sobre a manhã na torre e de como tudo fora perfeito nos últimos dias. Quando terminei, ela soltou um suspiro dramático. “É como uma favola, Hadley. Um conto de fadas. Você se apaixonou de verdade. Mas e agora? O que vai fazer? Não vai voltar para os Estados Unidos?” Claro que eu não tinha respostas. Havia deixado meu portfólio em várias faculdades e deveria receber um retorno da maioria delas no fim do verão. Ontem, por impulso, perguntei a Petrucione se ele consideraria me contratar como professora-assistente, mas ele me silenciou com um olhar e disse que eu era talentosa demais para perder mais tempo.

Foi quando Francesca me contou. A princípio, ela só disse: “Ele entrou em contato comigo.” Eu perguntei quem, mas pelo jeito que meu coração batia, sabia de quem ela estava falando. “Ele me encontrou trabalhando num set em Roma. Deu parabéns pelo meu estágio como pretexto, mas eu sabia o verdadeiro motivo. Ele queria encontrar você.” Por um instante, não consegui pensar em nada para dizer. (Ele estava tentando me encontrar?) “Ele disse que você mudou de número e que seu e-mail do instituto está inativo, agora que você saiu de lá.” Eu não imaginei que estivesse inacessível. Mais ou menos um milhão de pensamentos rodopiavam pela minha cabeça e Francesca me observava atentamente.

“Eu não dei seu contato, mas peguei o dele. Hadley, eu acho que seria um erro, mas não quero brincar de Deus. Se você quiser, eu tenho o número novo dele... Ele disse que mudou de ideia. Que quer lhe dizer uma coisa.”

Então ela me entregou um cartão de visitas. O nome dele estava gravado em letras grandes e seu novo telefone e e-mail estavam escritos como uma trilha de migalhas.