Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 6 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 5

Enchi o prato com dois centímetros de água da pia (F) e coloquei o vaso sobre ele. Minhas violetas não pareciam muito interessadas em ter companhia, mas me sentei à mesa da cozinha e fiquei olhando para elas assim mesmo.

Eu não estava enrolando. Imagina.

 

Capítulo 5

ESCREVER DIÁRIOS ERA meio que um hábito da minha mãe. Bem, muitas coisas eram meio que um hábito dela, que também gostava de hot yoga, food trucks e reality shows horríveis, e certa vez desenvolveu um interesse repentino por fazer cosméticos em casa. Passamos basicamente um mês inteiro com o rosto lambuzado de óleo de coco e purê de abacate.

Mas os diários... eram uma constante. Algumas vezes por ano ela gastava uma grana na nossa livraria preferida no centro de Seattle com um daqueles cadernos grossos para desenho. Depois, passava meses preenchendo-o com sua vida: fotos, textos, listas de compras, ideias para sessões de fotos, sachês de ketchup velhos... tudo o que você pudesse imaginar.

E o estranho era o seguinte: ela deixava outras pessoas lerem. E mais estranho ainda era que todos adoravam. Talvez porque os diários fossem criativos e hilários, e depois que se lia um, a pessoa sentia que tinha acabado de fazer uma viagem pelo País das Maravilhas.

Fui para o quarto e fiquei parada ao pé da cama. Sonia deixara o diário bem no meio do travesseiro, como se temesse que eu não fosse percebê-lo, e ele afundava o colchão como se fosse uma pilha de tijolos.

— Pronta? — falei, em voz alta.

Eu não estava nada pronta, mas mesmo assim me aproximei e segurei o caderno. A capa era de couro macio, e havia uma grande flor-de-lis dourada no centro. Não parecia nem um pouco com os diários que tínhamos em casa.

Respirei fundo e o abri, meio que esperando uma chuva de confetes, mas apenas panfletos e canhotos de tíquetes caíram no chão, e senti um cheiro meio bolorento. Catei todos os papéis e comecei a folheá-lo, ignorando o texto e me concentrando nas fotos.

Lá estava minha mãe na entrada de uma igreja antiga com a câmera pendurada no ombro. E depois ela sorrindo diante de uma enorme tigela de macarrão. E então... Howard. Eu quase deixei o diário cair. Certo, claro que ele estaria no diário dela. Eu não tinha surgido do nada, mas mesmo assim. Minha mente resistia com todas as forças a pensar nos dois juntos.

Analisei a imagem. Sim, sem dúvida era ele. Mais jovem, com o cabelo mais longo (aquilo no braço era uma tatuagem?), mas sem dúvida era Howard. Ele e minha mãe estavam sentados em degraus de pedra, e ela estava de cabelo curto,

batom estilo filme antigo e cara de apaixonada.

Eu afundei na cama. Por que ela mesma não tinha me contado sua história com Howard? Será que achou que o diário faria isso melhor? Teve medo de que eu não estivesse pronta para ouvir?

Hesitei por um instante, depois enfiei o diário na gaveta do criado-mudo e a fechei com um baque alto. Bem, eu não estava pronta.

Ainda não.

* * *

O alarme de um carro disparou em algum lugar do cemitério, e o som reverberou na minha cabeça. Esta dor de cabeça é um oferecimento de Jet Lag & Estresse.

Obrigada, Itália.

Eu me virei e olhei para o relógio na parede. Eram três da tarde. O que me deixava com uma quantidade absurda de tempo livre.

Saí da cama devagar, fui até a mala e fiz uma tentativa desanimada de organizar as coisas: camisas do lado direito, calças do lado esquerdo, pijamas ali... Eu tinha colocado as roupas ali dentro de qualquer jeito, e a mala estava uma bagunça. Por fim, decidi colocar algumas fotos minhas com minha mãe nos porta-retratos vazios do quarto, depois amarrei os tênis e fui para a varanda.

Não sabia aonde ir, então me sentei no balanço, onde fiquei por um tempo.

Dali eu tinha uma boa vista do memorial. Um prédio longo e baixo, com um trecho de inscrições gravadas que eu podia apostar que era o Muro dos desaparecidos. Na frente dele, havia uma coluna alta com a estátua de um anjo segurando uma braçada de galhos de oliveira. Dois homens tiravam fotos diante dela, e um deles acenou para mim ao me ver.

Acenei também, mas me levantei e fui até a cerca dos fundos. Não estava disposta a lidar com outra situação como a dos Jorgansen.

Foi fácil encontrar o portão dos fundos e, quando saí, percebi que Sonia não estava brincando: a colina atrás do cemitério era íngreme. Pela segunda vez naquele dia, o suor escorreu pelas minhas costas, mas me forcei a continuar correndo. Eu vou conquistar você, colina. Finalmente, cheguei ao topo, com as pernas e os pulmões ardendo. Estava quase desmaiando quando ouvi um barulho e levantei o rosto. Eu não estava sozinha.

Havia um garoto brincando com uma bola de futebol. Tinha minha idade, talvez um pouco mais velho, e devia fazer uns três meses que não cortava o cabelo. Ele usava um short e uma camiseta de uniforme de futebol e fazia embaixadinhas, cantando baixo em italiano o que quer que estivesse tocando em

seus fones de ouvido. Hesitei. Será que conseguiria sair dali sem que ele me visse? Talvez se eu desse uma cambalhota e fugisse rolando?

Ele olhou na minha direção e nos encaramos. Que maravilha. Agora eu teria que seguir em frente ou ficar parecendo uma maluca. Assenti para ele e continuei depressa pela trilha, como se estivesse atrasada para uma reunião ou coisa do tipo. Totalmente natural. Devia ser bem normal pessoas correndo para compromissos importantes no topo de colinas italianas.

Ele tirou os fones, deixando escapar a música alta.

— Oi, você está perdida? O albergue Bella Vita fica logo à frente.

Eu parei.

— Você fala inglês?

— Só um pouquinho — respondeu ele, com um sotaque italiano exagerado.

— Você é americano?

— Mais ou menos.

Eu o avaliei. Ele falava como americano, mas parecia tão italiano quanto um prato de almôndegas. Altura mediana, pele morena e um nariz característico. O

que fazia ali? Mas, pensando bem, o que eu fazia ali? Até onde pude notar, a região rural da Toscana estava lotada de adolescentes americanos.

Ele cruzou os braços e franziu a testa. Estava me imitando. Que grosseria.

Fiquei sem graça.

— Como assim “mais ou menos americano”?

— Minha mãe é americana, mas eu morei aqui a maior parte da vida. De onde você é?

— Seattle, mas vou passar o verão aqui.

— É mesmo? Onde?

Apontei na direção da casa.

— No cemitério?

— É. Howard, meu pai, é o administrador. Acabei de chegar.

Ele ergueu uma das sobrancelhas.

— Que sinistro.

— Na verdade, não é. É mais um memorial. Todos os túmulos são da Segunda Guerra, então não acontece nenhum enterro. — Por que eu estava defendendo o cemitério? Aquele lugar era sinistro, sim.

O garoto assentiu e recolocou os fones nos ouvidos.

Era minha deixa.

— Foi um prazer conhecê-lo, ítalo-americano misterioso. A gente se vê por aí.

— Meu nome é Lorenzo.

Fiquei vermelha. Pelo que parecia, Lorenzo tinha uma audição supersônica.

— Foi um prazer conhecê-lo, Lo-ren... — Tentei repetir o nome dele, mas empaquei na segunda sílaba. Ele enrolara o R de um jeito que minha língua se recusava a fazer. — Desculpa, não consigo pronunciar direito.

— Não tem problema. Seja como for, me chamam de “Ren”. — Ele sorriu.

— “Ítalo-americano misterioso” também funciona.

Aii.

— Desculpa.

— E quanto a você? Atende por “Carolina” ou também tem um apelido?

Por um segundo achei que fosse um sonho. Um sonho estranho. Ninguém além da minha mãe e dos meus professores no primeiro dia de aula me chamava pelo meu nome completo.

— Como você sabe meu nome? — perguntei, devagar.

Quem era aquele cara?

— Eu estudo na EAIF. Seu pai apareceu lá para perguntar sobre matrículas.

As fofocas voam.

— O que é EAIF?

— A Escola Americana Internacional de Florença.

Soltei o ar.

— Ah, sim. A escola de ensino médio.

A escola que eu teoricamente frequentaria se decidisse ficar depois do verão.

Muito teoricamente. Como se nem existisse no âmbito das possibilidades.

— Na verdade, vai do jardim de infância até o ensino médio, e as nossas turmas são bem pequenas. No ano passado éramos apenas dezoito, por isso novos alunos dão o que falar. A gente vem comentando sobre você desde janeiro. Virou meio que uma lenda. Um cara, Marco, até já falou que vai formar dupla com você na aula de biologia. Ele repetiu no projeto final e ficou tentando culpar você.

— Isso é bem esquisito.

— Eu achei que você seria completamente diferente.

— Por quê?

— Você é bem baixinha. E parece italiana.

— Então como soube que devia falar inglês comigo?

— Por causa das suas roupas.

Olhei para baixo. Legging e uma camiseta amarela. Eu não estava vestida de Estátua da Liberdade nem nada do tipo.

— O que minha roupa tem de tão americano?

— Cores fortes. Tênis de corrida... — Ele fez um gesto de desdém. — Daqui a um ou dois meses você vai entender perfeitamente. Muita gente daqui não vai a lugar nenhum se não estiver usando alguma peça da Gucci.

— Mas você não está usando Gucci ou sei lá o quê, não é? Está de uniforme de futebol.

Ele balançou a cabeça.

— Isso não se aplica a uniformes de futebol, que são a coisa mais italiana que existe. Além disso, eu sou italiano. Então tudo fica naturalmente elegante em mim.

Eu não sabia se ele estava brincando ou não.

— Você não deveria ter entrado na EAIF em fevereiro?

— Decidi terminar o ano letivo em Seattle.

Ele tirou o celular do bolso de trás.

— Posso tirar uma foto sua?

— Pra quê?

— Pra provar que você existe.

Respondi “não” justo na hora em que ele clicou.

— Desculpa, Carolina — disse ele, parecendo nem um pouco arrependido. —

Você deveria falar mais alto.

— Em inglês meu nome soa como “Carolaina”, mas todo mundo me chama de “Lina”.

— Carolaina Carolina. Gostei. É bem italiano.

Ren recolocou os fones, lançou a bola no ar e voltou a jogar. Ele precisava muito de aulas de etiqueta. Eu me virei para ir embora, mas ele me deteve de novo.

— Ei, quer conhecer minha mãe? Ela fica desesperada querendo a companhia de americanos.

— Não, obrigada. Preciso voltar logo e encontrar Howard. Ele vai me levar para jantar em Florença.

— A que horas?

— Não sei.

— A maioria dos restaurantes não abre antes das sete. Prometo que não vamos demorar muito.

Eu me virei para o cemitério, mas a ideia de encarar Howard e o diário me fez estremecer.

— É longe?

— Não, é bem ali. — Ele apontou vagamente para um amontoado de árvores.

— Vai ser legal. E juro que não sou um serial killer.

Fiz uma careta.

— Eu não estava achando nada disso. Até você falar.

— Sou magro demais para ser um serial killer. E odeio sangue.

— Eca.

Voltei a olhar para o cemitério, avaliando minhas opções. Ler um diário emocionalmente desafiador? Visitar a mãe de um potencial serial killer sem o menor traquejo social? As duas eram horríveis.

— Tudo bem, vamos.

— Legal.

Ren colocou a bola de futebol debaixo do braço e fomos para o outro lado da colina. Ele era mais alto que eu, e andávamos rápido.

— Quando foi mesmo que você chegou?

— Ontem à noite.

— Então deve estar quase morrendo com o jet lag, não é?

— Na verdade, eu dormi bem ontem, mas, sim. Parece que estou embaixo d’água. Sem falar na dor de cabeça, que deve ser a pior da minha vida.

— Espera só até hoje à noite. A segunda noite é sempre pior. Lá pelas três da manhã você vai estar totalmente acordada e vai ter que inventar alguma coisa estranha pra fazer. Uma vez, eu subi numa árvore.

— Por quê?

— Meu laptop estava quebrado e eu só conseguia pensar em jogar paciência, mas sou horrível nesse jogo.

— Eu jogo paciência muito bem.

— Eu subo em árvores muito bem, mas não acredito em você. Só é bom em paciência quem rouba.

— Não, eu sou boa sem roubar. As pessoas pararam de jogar cartas comigo quando eu estava no segundo ano, então aprendi a jogar paciência. Num dia bom, consigo terminar o jogo em uns seis minutos.

— Por que as pessoas pararam de jogar com você?

— Porque eu sempre ganhava.

Ele parou de andar, abrindo um grande sorriso.

— Quer dizer que você é muito competitiva?

— Eu não falei isso. Só disse que sempre ganho.

— Aham. Então você não joga nada desde os sete anos?

— Só Paciência.

— Nada de buraco? Uno? Pôquer?

— Nada.

— Interessante. Olha, aquela lá é minha casa. Aposto corrida com você até o portão. — E começou a correr.

— Ei! — Saí atrás dele, aumentando o passo até alcançá-lo e ultrapassá-lo, e não diminuí a velocidade até chegar ao portão. Eu me virei, triunfante. —

Ganhei!

Ele estava parado a alguns metros de mim, ainda com aquele sorriso idiota no

rosto.

— É verdade. Você não é nem um pouco competitiva.

Fechei a cara.

— Cala a boca.

— Devíamos jogar buraco mais tarde.

— Não.

— Mahjong? Bridge?

— Você é idoso, por acaso?

Ele riu.

— Pode pensar o que quiser, Carolina. E, por falar nisso, essa não é minha casa. É aquela. — Ele apontou para uma entrada ao longe. — Mas não vou apostar corrida até lá. Você está certa... você ganharia.

— Eu avisei.

Continuamos andando. Só que agora eu só me sentia idiota.

— Então, qual é a do seu pai? — perguntou Ren. — Ele sempre foi o administrador do cemitério, né?

— Aham, ele disse que faz dezessete anos. Minha mãe morreu, então foi por isso que vim morar com ele. — Ah! Mentalmente, tapei a boca com a mão. Lina, para de falar. Mencionar a morte da minha mãe era garantia de criar constrangimento com gente da minha idade. Adultos sentiam compaixão.

Adolescentes ficavam desconfortáveis.

Ele olhou para mim com o cabelo caindo nos olhos.

— Como sua mãe morreu?

— Câncer no pâncreas.

— Ela passou muito tempo doente?

— Não. Morreu quatro meses depois que descobrimos.

— Nossa. Sinto muito.

— Obrigada.

Ficamos quietos por um tempo antes de Ren voltar a falar.

— Acho esse diálogo tão estranho. Um diz “sinto muito”, o outro agradece.

Eu já tinha pensado exatamente a mesma coisa umas cem vezes.

— Também acho, mas é o que as pessoas costumam dizer mesmo, já percebi.

— Então, como é?

— O quê?

— Perder a mãe.

Parei de andar. Não só era a primeira vez que alguém me fazia aquela pergunta, como também parecia que ele queria mesmo saber. Por um segundo, pensei em dizer que era como ser uma ilha, que eu podia estar numa sala cheia de gente e ainda assim me sentiria sozinha, com um oceano de tristeza tentando

chegar até mim por todas as direções, mas me segurei a tempo. Mesmo quando perguntam, as pessoas não querem ouvir suas metáforas esquisitas para o luto.

Então, dei de ombros.

— É horrível.

— Imagino. Sinto muito.

— Obrigada. — Sorri. — Ei, olha o diálogo de novo.

— Sinto muito.

— Obrigada.

Paramos diante de portões rebuscados, e eu o ajudei a empurrá-los, causando um rangido alto.

— Você não estava brincando. Sua casa é muito perto do cemitério — falei.

— Eu sei. Sempre achei estranho morar tão perto de cemitério. Mas aí conheci uma pessoa que mora dentro do cemitério.

— Eu não podia deixar você ganhar. Faz parte da minha natureza competitiva.

Ele riu.

— Vem.

Subimos pela entrada estreita ladeada de árvores, e quando chegamos ao topo, ele estendeu os braços.

— Ta-dá. Casa mia.

Parei de andar.

— Você mora aqui?

Ele balançou a cabeça com tristeza.

— Infelizmente. Pode rir. Não vou me ofender.

— Não vou rir. Até que é... interessante. — Mas aí soltei um leve ronco e o olhar que Ren me lançou mandou minha compostura pelos ares.

— Vai em frente. Pode se soltar, mas as pessoas que moram em cemitérios não deveriam atirar pedras, ou seja lá qual for o ditado.

Enfim consegui parar de rir por tempo suficiente para recuperar o fôlego.

— Desculpa. Eu não deveria estar rindo. É que não esperava.

Voltamos a olhar a casa, e Ren soltou um suspiro cansado enquanto eu me esforçava para não ser grosseira outra vez. De manhã, eu achava que morava no lugar mais estranho possível, mas algumas horas depois conheci alguém que morava numa casa de biscoito de gengibre. E não estou falando de uma casa levemente inspirada numa casa de biscoito de gengibre: parecia que a gente podia quebrar algumas telhas e mergulhar num copo de leite. O lugar tinha dois andares com parede de pedra e um telhado de palha com detalhes intricados como confeito de glacê. O quintal era cheio de flores em tons pastel, e havia pequenos limoeiros plantados em vasos azul-cobalto ao redor da casa. A maioria

das janelas do térreo era de vidro colorido com desenhos espiralados de balas de hortelã, e havia uma bengala doce gigantesca entalhada na porta da frente. Em outras palavras, imagine a casa mais ridícula que puder e depois acrescente um monte de pirulitos à fachada.

— Qual é a história dessa casa?

Ren balançou a cabeça de novo.

— Sempre tem uma história, não é mesmo? Um cara excêntrico do interior de Nova York construiu isso aqui depois de fazer fortuna com a receita de fudge da avó. Ele se autointitulava o Barão dos Doces.

— Então o cara construiu uma casa de biscoito em tamanho real?

— Isso mesmo. Foi um presente pra nova esposa. Acho que ela era uns trinta anos mais nova do que ele, mas acabou se apaixonando por outro, um cara que conheceu num festival da trufa em Piemonte. Depois que foi abandonado pela mulher, o Barão vendeu a casa. Por acaso, meus pais estavam procurando, e claro que uma casa de doces é exatamente o tipo de esquisitice que conquistaria os dois.

— Vocês tiveram que expulsar alguma bruxa canibal daqui?

Ele me olhou confuso.

— Sabe... a bruxa de João e Maria.

— Ah. — Ele riu. — Não, ela ainda nos visita nos feriados mais importantes.

Você está falando da minha avó, não é?

— Vou contar a ela que você disse isso.

— Boa sorte. Ela não entende uma palavra de inglês. E toda vez que vem visitar, convenientemente minha mãe esquece como se fala italiano.

— De onde sua mãe é?

— Do Texas. Sempre passamos o verão nos Estados Unidos com a família dela, mas este ano meu pai estava enrolado no trabalho.

— Então é por isso que você tem esse sotaque tão americano?

— É. Todo verão finjo que sou de lá.

— E dá certo?

Ele sorriu.

— Em geral, sim. Você achou que eu fosse americano, não é?

— Só depois que você começou a falar.

— Mas é isso que conta, não é verdade?

— Acho que sim.

Ele me levou até a porta da frente, e nós entramos.

— Bem-vinda à Villa Caramella. “Caramella” significa “doce”.

— Nossa... livros.

O interior era o pior pesadelo de um bibliotecário. A sala inteira era coberta

de estantes que iam do chão ao teto, e centenas (talvez milhares) de livros estavam bagunçados nas prateleiras.

— Meus pais adoram ler — explicou Ren. — E, além disso, queremos nos preparar pro caso de um dia haver uma revolta dos robôs e precisarmos nos esconder. Muitos livros significam muito papel pra queimar na fogueira.

— Inteligente.

— Vem comigo, ela deve estar no estúdio.

Atravessamos as pilhas de livros e passamos por uma porta dupla que dava para um jardim de inverno. O chão estava coberto de lona e havia uma mesa antiga cheia de tubos de tinta e ladrilhos de cerâmica.

— Mãe?

Uma versão feminina do Ren encolhia-se numa espreguiçadeira com o cabelo sujo de tinta amarela. Ela parecia ter uns vinte anos. Talvez trinta.

— Mãe. — Ren se abaixou e sacudiu o ombro dela. — Mamma. Ela tem um sono meio pesado, mas olha... — Aproximando-se do rosto da mãe, ele sussurrou: — Eu acabei de ver o Bono em Tavarnuzze.

Os olhos dela se abriram e a mulher deu um pulo. Ren começou a rir.

— Lorenzo Ferrara! Não faça isso.

— Carolina, esta é minha mãe, Odette. Ela era groupie do U2. Passou um tempão seguindo a banda no começo dos anos 1990 durante a turnê pela Europa.

Está na cara que ainda sente uma coisa muito forte por eles.

— Vou mostrar uma coisa forte. — Ela pegou seus óculos e os colocou no rosto, olhando-me de cima a baixo. — Ah, Lorenzo, onde você a encontrou?

— Acabamos de nos conhecer na colina atrás do cemitério. Ele vai passar o verão lá com o pai.

— Você é uma de nós!

— Americana?

— Expatriada.

“Refém” era a palavra que descrevia melhor, mas não era o tipo de coisa que se diz a alguém que acabamos de conhecer.

— Espera um minuto. — Ela se inclinou para a frente. — Eu soube que você estava vindo. Você é a filha do Howard Mercer?

— Sim. Lina.

— O nome dela é Carolina — acrescentou Ren.

— Pode me chamar só de Lina.

— Bem, graças a Deus, Lina... Precisamos de mais americanos por aqui. De preferência, vivos — disse ela, fazendo um gesto de desdém na direção do cemitério. — É um prazer conhecê-la. Já aprendeu alguma coisa de italiano?

— Eu decorei umas cinco frases no voo para cá.

— Quais? — perguntou Ren.

— Não vou dizer na frente de vocês. Provavelmente vou parecer idiota.

Ele deu de ombros.

— Che peccato.

Odette fez uma careta.

— Prometa que nunca vai usar nenhuma dessas frases aqui em casa. Neste verão, estou fingindo não estar na Itália.

Ren sorriu.

— E como está se saindo? Sabe, com seu marido e seus filhos italianos? —

perguntou, zombando.

Ela ignorou a gracinha do filho.

— Vou pegar alguma coisa para beber. Fiquem à vontade. — A mãe do Ren apertou meu ombro e saiu da sala.

Ele me olhou.

— Eu falei que ela ficaria feliz de conhecer você.

— Ela realmente detesta a Itália?

— De jeito nenhum. Ela está zangada porque não pudemos passar este verão no Texas, mas todo ano é a mesma coisa. Vamos pra lá e ela passa três meses reclamando da comida horrível e das pessoas que andam de pijama em público.

— Quem usa pijama em público?

— Muita gente. Pode acreditar em mim. É uma epidemia.

Eu apontei para a mesa.

— Ela é artista?

— É. Pinta cerâmica, basicamente cenas da Toscana. Tem um cara em Florença que vende as peças na loja dele, e os turistas pagam, tipo, trilhões de dólares por elas. Provavelmente teriam um ataque histérico se descobrissem que são feitas por uma americana.

Ele me deu um ladrilho com a pintura de um chalé amarelo aninhado entre duas colinas.

— Que lindo.

— Você deveria ver o segundo andar. Minha mãe está substituindo ladrilhos comuns de uma parede inteira pelos dela.

Eu coloquei o ladrilho de volta na mesa.

— E você, tem algum talento?

— Eu? Não. Na verdade, não.

— Nem eu, mas minha mãe também era artista. Fotógrafa.

— Legal. Tirava retratos de família ou coisas assim?

— Não. Basicamente fotografias artísticas. O trabalho dela era exibido em galerias e vernissages. Ela também dava aulas em faculdades.

— Legal. Qual era o nome dela?

— Hadley Emerson.

Odette reapareceu com duas latas de Fanta laranja e uma embalagem aberta de cookies.

— Aqui, pegue um pouco. Ren come um pacote desses por dia. Você vai adorar.

Aceitei um. Era uma espécie de sanduíche de biscoito com baunilha de um lado e chocolate do outro. Um Oreo italiano. Dei uma mordida e um coral de anjos começou a cantar. Será que a comida italiana tinha algum tempero de fadas que a deixava muito melhor do que qualquer coisa feita pelos americanos?

— Oferece outro — disse Ren. — Se não ela vai comer o próprio braço.

— Ei... — falei, mas Odette me entregou o restante dos cookies e acabei ocupada demais devorando tudo para me defender direito.

Ela sorriu.

— Adoro garotas que gostam de comer. Bem, onde estávamos? Ah... Eu não me apresentei, não é? Sinceramente, este lugar está me transformando numa selvagem. Meu nome é Odette Ferrara. É como “Ferrari”, mas com a. É um prazer conhecê-la. — Limpei a mão antes de cumprimentá-la. — Podemos falar de ar-condicionado? E restaurantes drive-thru? São as duas coisas das quais estou sentindo mais falta neste verão.

— Você nem deixa a gente comer essas porcarias quando estamos nos Estados Unidos — retrucou Ren.

— Isso não quer dizer que eu não coma. E de que lado você está afinal de contas? Do meu ou do Signore?

— Sem comentários.

— Quem é Signore? — perguntei.

— Meu pai. Não sei como esses dois acabaram juntos. Sabe aqueles vídeos de relacionamentos estranhos entre animais, em que um urso e um pato se tornam melhores amigos? Pois é, eles são mais ou menos assim.

Odette soltou uma risada.

— Ah, por favor, não somos tão diferentes assim. Mas agora eu fiquei curiosa. Nesse cenário, você me consideraria o urso ou o pato?

— Não vou entrar nessa.

Ela se virou para mim.

— Então, o que você achou do meu Ren?

Comi mais um e entreguei o restante dos cookies a Ren, que estava com um olhar de “meu precioso”.

— Ele é... muito simpático.

— E bonito também, não é?

— Mãe.

Senti minhas bochechas corarem um pouco. Ren era fofo, mas de um jeito que não se nota a princípio. Ele tinha olhos castanhos bem escuros com cílios incrivelmente longos, e quando sorria era possível ver um pequeno vão entre os dentes da frente. Mas, enfim, aquilo também não era o tipo de coisa que se dissesse a alguém que acabamos de conhecer.

Odette acenou para mim.

— Bem, estamos muito felizes por tê-la na cidade. Tenho certeza de que Ren estava tendo o verão mais entediante da vida dele. Hoje de manhã falei que ele devia sair mais.

— Qual é, mãe. Até parece que eu passo o dia inteiro em casa sem fazer nada.

— Eu só sei que depois que certa ragazza saiu da cidade, você perdeu o interesse de sair.

— Eu saio quando tenho vontade. Mimi não tem nada a ver com isso.

— Quem é Mimi? — perguntei.

— Uma garota de quem ele gosta — respondeu Odette, num sussurro fingido.

— Mããããe — resmungou Ren. — Eu não tenho nove anos.

Um celular começou a tocar, e Odette tirou papéis e materiais de arte de cima da mesa.

— Onde será que...? Pronto?

Uma menininha apareceu à porta com uma calcinha de babados e sapatos pretos de festa.

— Eu fiz cocô!

Odette ergueu os polegares para ela e entrou na casa, falando ao celular num italiano rápido.

Ren soltou um gemido.

— Ai, Gabriella... Que vergonha. Volta pro banheiro. Temos visita, não está vendo?

Ela o ignorou e se virou para mim.

— Tu chi sei?

— Ela não fala italiano — disse Ren. — Ela é americana.

— Anch’io! Você é namorada do Lorenzo? — perguntou a menina.

— Não. Saí pra fazer uma caminhada e acabamos de nos conhecer. Meu nome é Lina.

Ela me avaliou por um instante.

— Você tem cara de principessa. Parece a Rapunzel por causa do seu pelo louco.

— É cabelo, não pelo, Gabriella — corrigiu Ren. — E não é legal dizer que o

cabelo de alguém é louco.

— Meu pelo é louco mesmo.

— Quer ver meu criceto? — Gabriella se aproximou correndo e pegou minha mão. — Venha, principessa. Você vai gostar muito dele. O cabelo dele é muito macio.

— Claro.

Ren colocou a mão no ombro dela.

— Carolina, não. E, Gabriella, ela não quer ir. Ela precisa ir embora daqui a pouco.

— Eu não me incomodo. Gosto de crianças.

— Não, é sério, pode acreditar em mim. Ir até o quarto dela é como entrar numa dobra no tempo. Quando você menos esperar, vai ter passado cinco horas brincando de Barbie e estará sendo chamada de princesa Purpurina.

— Non è vero, Lorenzo. Você é muito malvado!

Ren respondeu em italiano. Gabriella me lançou um olhar magoado e saiu correndo para o quarto, batendo a porta ao entrar.

— O que é criceto?

— Acho que vocês chamam de hamster. Um bichinho irritante que corre numa roda.

— É isso mesmo. Hamster. Ela é fofa.

— Ela é fofa às vezes. Você tem irmãos?

— Não, mas sempre trabalhava como babá para uma família do meu prédio.

Eles tinham trigêmeos de cinco anos.

— Nossa.

— Sempre que a mãe deles saía, dizia: “É só mantê-los vivos. Não se preocupe com mais nada.”

— Então você os amarrava ou algo assim?

— Não. Na primeira vez eu lutei com eles, mas depois eles passaram a me amar. Além disso, eu sempre chegava com os bolsos cheios de balas.

No funeral da minha mãe, um dos garotos perguntou por onde eu andava e o irmão disse: “A mãe dela vai dormir por muito tempo. É por isso que ela não pode mais brincar com a gente.” Senti um nó na garganta quando me lembrei disso.

— Preciso ir. Howard deve estar se perguntando aonde eu fui. — falei.

— Sim, claro. — Voltamos pela sala, e Ren parou na porta. — Ei, quer ir a uma festa amanhã?

— Humm...

Desviei o olhar, depois me abaixei depressa para amarrar meus cadarços. É só uma festa. Aquilo que adolescentes normais frequentam, sabe? Depois de perder

minha mãe, os eventos sociais tinham começado a parecer uma excursão ao Monte Everest. Além disso, eu andava falando muito sozinha nos últimos tempos.