Amor & gelato
Capítulo 28
— Por que você acha que pode ficar dando em cima do Thomas e depois vir
dizer que gosta de mim?
Um tipo completamente diferente de fogos de artifício explodiu na minha mente.
— Por que você acha que pode ficar dando em cima da Mimi e depois dizer que está a fim de mim? Era você quem tinha namorada esse tempo todo.
— Você está certa. Tinha namorada. Mas terminei. E não era eu que estava rolando no chão com outra pessoa. O que eu sou pra você? Seu plano B?
Eu me levantei de repente.
— Se você estava mesmo prestando atenção, deve ter notado que eu tirei Thomas de cima de mim e disse que gostava de você, mas esquece. Não me importo mais.
— Nem eu. Vou voltar pra festa. E é melhor você voltar pro seu acompanhante.
Ele se virou e foi embora.
— Stronzo! — gritei.
Um fogo de artifício em forma de coração explodiu acima da cabeça dele.
Capítulo 28
HOWARD LEVOU QUASE uma hora para encontrar a casa de Valentina.
Primeiro porque eu não sabia quem ela era, e depois porque eu não encontrei ninguém que soubesse o endereço. Selma e seu decote biônico tinham desaparecido, e não consegui achar Elena, Marco ou qualquer outra pessoa que eu conhecesse. Enfim, consegui fazer o cara da porta me dizer onde eu estava, mas ele não falava inglês muito bem e continuava protegendo a prancheta como se eu estivesse tentando enrolá-lo para entrar de penetra. No fim, entreguei meu celular a ele, que deu o endereço a Howard.
Quando o carro dele parou na entrada, toda a raiva se esvaíra de mim e eu estava animada como um macarrão mole. Eu me sentia amarrotada. Não, esfarrapada. E quando entrei no carro Howard nem me perguntou como tinha sido. Ele viu na minha cara.
Já em casa, joguei o vestido no chão, coloquei uma camiseta e uma calça de pijama e desci. Eu estava prestes a cair no choro, mas não suportava a ideia de chorar sozinha no quarto. De novo. Eu tinha cruzado o limite do patético.
— Tem gelato e chá — disse Howard quando entrei na cozinha. — O que você prefere?
— Gelato.
— Excelente escolha. Por que não vai se sentar na sala? Eu levo uma tigela para você.
— Obrigada.
Eu me sentei de pernas cruzadas no sofá, apoiando a cabeça na parede. Tinha passado a noite inteira procurando Ren, e ele me viu justo no momento em que Thomas me beijara. Que azar. Será que o destino estava contra nós? E eu o tinha mesmo chamado de stronzo? Eu nem sabia o que aquilo significava.
Howard chegou com duas tigelas.
— Peguei dois sabores para você: morango e coco. Desculpe por não termos stracciatella. Dá pra ver que esse seria o sabor perfeito para uma noite como essa .
— Tudo bem.
Peguei a tigela, equilibrando-a no joelho.
— Noite difícil?
— Acho que não vai dar certo com Ren. — Meus olhos se encheram de
lágrimas. — Nem mesmo a amizade.
— A conversa de vocês não foi boa?
— Não. Na verdade, começamos a gritar um com o outro, e eu o xinguei em italiano. Ou pelo menos acho que era um xingamento.
— Qual foi?
— Stronzo.
Ele se sentou na poltrona diante de mim, assentindo gravemente.
— Podemos nos recuperar de um stronzo. E, lembre-se, ainda não acabou.
Durante anos achei que as coisas estavam completamente terminadas com sua mãe, mas voltamos a nos falar antes de ela receber o diagnóstico.
— É mesmo?
— Sim. Ela me mandou um e-mail e nos correspondemos por quase um ano.
Foi como se tivéssemos retomado bem do ponto onde tínhamos parado. Não conversávamos sobre nada pesado, eram só provocações divertidas.
— Vocês se encontraram?
— Não. Ela devia saber que, se eu a visse de novo, ia sequestrá-la. Sem nem perguntar nada.
— Como as sabinas. — Tentei tomar uma colherada de gelato, mas só o senti deslizar pela língua e larguei a colher na tigela. — Vocês dois basicamente têm a história mais triste que eu já conheci.
— Eu não diria isso. Houve muita coisa boa.
Suspirei.
— Então, como eu esqueço Ren?
— Sou a pior pessoa a quem você deve perguntar isso. Eu me apaixonei e nunca mais fui capaz de esquecer essa paixão. Mas, se quer saber, vale a pena.
“Uma vida sem amor é como um ano sem verão.”
— Profundo, mas estou pronta para o verão terminar.
Ele sorriu.
— Dê tempo ao tempo. Vai ficar tudo bem.
* * *
Eu e Howard ficamos acordados até muito tarde. Quando olhei o celular, tinha uma mensagem de duas palavras da Addie (ELES TOPARAM!!!), e eu e Howard passamos mais de uma hora discutindo os prós e os contras de ficar em Florença. Ele até pegou um caderno pautado e fez duas colunas: MOTIVOS PARA FICAR e MOTIVOS PARA IR EMBORA. Eu não acrescentei Ren à lista porque não conseguia decidir em qual coluna ele se encaixava. Vê-lo todos os dias com o
coração partido? Ou ficar com o coração partido e nunca mais vê-lo? As duas opções eram bem tristes.
Finalmente, fui para a cama, onde passei a noite me revirando. No fim das contas, existe uma razão para a expressão “cair de amores”. Porque quando isso acontece, quando acontece de verdade, é mesmo uma queda. Não há o que fazer, você simplesmente se joga de cabeça e torce para ter alguém para segurá-lo.
Senão, vai acabar se machucando feio. Pode acreditar em mim, eu sei.
Devo ter pegado no sono em algum momento, porque lá pelas quatro da manhã acordei em pânico. Alguma coisa tinha me acertado? Eu me levantei com o coração disparado. A janela tinha ficado escancarada como sempre, e um céu salpicado de estrelas cintilava sobre a copa das árvores do cemitério. A paisagem estava calma e imóvel como um lago. Nem uma única ondulação.
— Foi só um sonho — falei, com a voz supercalma e controlada.
A voz era a única parte de mim que não estava surtando pela possibilidade de algo frio ter encostado na minha perna.
Não que fizesse o menor sentido.
Balancei a cabeça, puxando as cobertas para voltar a dormir como uma pessoa racional, mas gritei e pulei uns quinze centímetros, porque havia moedas em todo canto. Tipo, todo canto mesmo.
Estavam espalhadas pela minha cama e pelo tapete, e algumas até haviam caído sobre o vestido, que continuava amarrotado no chão, largado no montinho de roupa mais triste do mundo. Corri para acender o abajur e me abaixei para olhar, tomando o cuidado de não tocar em nenhuma delas. Quase todas eram de um ou dois centavos, cor de cobre, mas algumas eram de vinte ou de cinquenta centavos. Havia até uma moeda de dois euros.
Estava chovendo dinheiro no meu quarto.
— O que está acontecendo? — falei, em voz alta.
Nesse momento, outra moeda voou pela janela aberta, me atingindo em cheio no rosto, o que me fez ficar na posição de proteção que eu tinha aprendido nas simulações para terremoto da escola. Mas quando me joguei no chão, eu não estava mais assustada. Sabia exatamente o que estava acontecendo.
Alguém estava jogando moedas pela minha janela. E isso só podia significar duas coisas: ou que um funcionário do governo italiano estava tentando me avisar que eu tinha ganhado na loteria ou que Ren estava tentando me acordar.
De um jeito ou de outro, minha noite acabara de ficar muito melhor.
Eu me levantei e corri para a janela.
Ren estava a dois metros da minha casa, com o braço pronto para arremessar outra moeda.
— Cuidado!
Eu me joguei no chão outra vez.
— Desculpa.
Levantei devagar. O paletó e a gravata do Ren estavam largados na grama, e ele segurava um saco de papel branco na outra mão. Fiquei tão feliz por vê-lo que tive vontade de socá-lo.
Eu sei. Sentimentos conflitantes.
— Oi — disse ele.
— Oi.
Ficamos nos encarando. Parte de mim queria arremessar o vestido nele e outra parte queria soltar meu cabelo de Medusa para que Ren subisse por ele até o quarto. Acho que tudo ia depender do motivo que o levara até ali.
Ren também parecia enfrentar um conflito interno. Ele ficou lá embaixo por um instante, inquieto.
— Você se incomoda de descer?
Esperei exatamente nove décimos de segundo, depois passei uma das pernas sobre o parapeito e baixei o corpo devagar. Alguns dos tijolos eram irregulares, e eu os usei como apoio para descer pela parede da casa.
— Cuidado — sussurrou Ren, estendendo os braços para me pegar.
Tive que pular no final da descida e bati nele, que acabou caindo de forma constrangedora, e nos embolamos no chão. Nós dois nos levantamos depressa, e Ren deu um passo para trás, me olhando com uma expressão que eu não conseguia entender.
— Você podia ter usado a escada — disse ele.
— Escadas são para stronzos.
Ele abriu um sorriso.
— Você foi embora da festa.
— Fui.
De repente, uma luz se acendeu no quarto do Howard.
— Howard! — sussurrou Ren para mim.
Ren parecia um pé-grande que tinha sido surpreendido na floresta. Nunca superaria aquela primeira conversa entre ele e Howard.
— Vem.
Peguei a mão dele e corremos para a cerca dos fundos, tentando, sem sucesso, não tropeçar em cada obstáculo que encontrávamos. Eu esperava que nunca precisássemos levar uma vida de crimes, porque tinha certeza de que seríamos os piores fugitivos do mundo.
— Com certeza ele ouviu a gente — ofegou Ren quando chegamos ao muro.
— Acho que voltou a dormir. Olha. A luz do quarto está apagada de novo.
Mentirinha. O mais provável era que Howard tivesse entendido o que estava
acontecendo, sem se incomodar com minha fuga em plena madrugada. Ele era mesmo o máximo. Eu me virei para olhar Ren, mas estava tão nervosa que não conseguia encará-lo. O mesmo parecia estar acontecendo com ele.
— Então, o que você queria falar comigo?
Ele chutou a grama.
— Eu, humm, não falei mais cedo, mas você estava maravilhosa hoje. Era sua versão do vestido, não era?
— Era. — Eu também baixei o rosto. — Mas acho que não funcionou.
— Não, funcionou sim. Pode acreditar. Sabe, lá... na festa. — Ele soltou um suspiro. — Fiquei morrendo de raiva quando vi você com Thomas.
Assenti, fazendo o máximo para ignorar a faísca de esperança no meu peito.
E...
— Eu realmente preciso me desculpar. Fiquei muito triste em Roma quando você disse que nunca, jamais, jamais, jamais mesmo, tinha pensado em mim como nada além de um amigo...
— Eu só falei “jamais” duas vezes — protestei.
— Tudo bem. Nunca, jamais, jamais mesmo. Foi como levar um tapa na cara.
E quando Thomas está envolvido, me comporto que nem um idiota. Ele é tipo um popstar britânico. Como competir?
Soltei um gemido.
— Popstar britânico?
— É. Mas o sotaque é falso. Na verdade, ele cresceu perto de Boston, e quando fica muito bêbado, esquece toda a pompa inglesa e fica parecendo um daqueles caras que vemos gritando nos jogos dos Red Sox com letras pintadas na barriga cheia de cerveja.
— Isso é horrível. — Respirei fundo. — Sinto muito por ter falado que nunca, jamais, jamais mesmo...
— Jamais — acrescentou Ren.
— ... jamais tinha pensado em você como nada além de um amigo. Não era verdade. — Pigarreei. — Jamais. Além disso, você não é um stronzo.
Ren abriu um sorrisinho esperançoso que na mesma hora me contagiou e me fez sorrir também.
— Onde você aprendeu essa palavra, afinal?
— Com Mimi.
Ele balançou a cabeça.
— Então você falou sério lá? Quando disse que não estava com Thomas?
Assenti.
— E você não está mais com Mimi?
— Não. Estou cem por cento solteiro.
— Humm — falei, e meu sorriso se abriu ainda mais.
Ficamos nos encarando por um bom tempo, e tenho certeza de que todas as quatro mil lápides se inclinaram para ouvir o que ia acontecer em seguida.
Então... íamos só ficar ali parados nos olhando? E quanto àquela louca paixão italiana que estava rolando entre a gente?
Ele deu um passinho para a frente.
— Você terminou de ler o diário?
— Terminei.
— E aí?
Soltei um suspiro.
— Acho que eles eram perfeitos um pro outro, mas outras coisas atrapalharam. E Howard sempre soube que não era meu pai. Ele só queria muito fazer parte da minha vida.
— Howard é inteligente e ameaçador.
Ele me ofereceu o saco de papel branco que estava carregando todo aquele tempo.
— O que é isso?
— Um pedido oficial de desculpas. Depois que saí da festa, fui a Florença e comecei a dirigir sem rumo e perguntar às pessoas onde podia encontrar uma padaria secreta. Até que umas mulheres que estavam saindo de uma boate me explicaram aonde ir. Fica na Via del Canto Rivolto. E é incrível.
Abri o saco e um maravilhoso cheiro quente e amanteigado subiu. Um doce em forma de semicírculo estava enrolado num papel branco.
— O que é isso?
— Cornetto con Nutella. Comprei dois, mas comi um no caminho. E depois usei o troco pra acordar você.
Fiz uma reverência e enfiei a mão dentro do saco, depois dei uma grande mordida no cornetto. Era quente, cremoso e tinha o sabor de tudo de mais perfeito que podia acontecer com uma pessoa. Verões na Itália. Primeiros amores. Chocolate. Dei outra mordida considerável.
— Ren?
— Sim?
— Da próxima vez, por favor, não coma o outro cornetto.
Ele riu.
— Eu nem sabia se você ia querer falar comigo, mas apostava que se trouxesse algo pra comer eu teria uma chance. Da próxima vez que deixar você sozinha no escuro como um completo idiota, vou comprar uma dúzia.
— Uma dúzia no mínimo. — Respirei fundo. Agora que tinha Nutella correndo nas minhas veias, eu me sentia invencível. — E só pra sua informação,
eu estava falando sério na casa da Valentina. É de você que eu gosto. Talvez seja até amor.
— Talvez seja até amor, hein? Bem, isso é uma boa notícia, porque talvez eu também ame você.
Sorrimos um para o outro e uma sensação quente e maliciosa atravessou meu corpo. Vi que Ren estava sentindo a mesma coisa, porque de repente estávamos tão próximos que eu conseguia contar os cílios dele. Me beija, me beija, me beija.
Ele estreitou os olhos.
— Acho que você está com o rosto sujo de Nutella.
Soltei um gemido.
— Ren, será que você pode me beijar de uma...
Mas não cheguei a terminar a frase, porque ele se aproximou e nos beijamos.
Tipo, nos beijamos mesmo. E, no fim das contas, acho que passei a vida inteira esperando para ser beijada por Lorenzo Ferrara num cemitério americano no meio da Itália. Essa é a mais pura verdade.
Eventualmente nos afastamos. Sabe-se lá como, acabamos deitados de barriga para cima na grama e ficamos ali olhando as estrelas com aqueles sorrisos enormes, típicos das manhãs de Natal, sorrisos que deveriam ser cafonas, mas que na verdade eram só incríveis.
— Por favor, podemos contar este como o nosso primeiro beijo oficial?
— O primeiro de muitos — disse ele. — Mas, se não tiver problema pra você, eu não vou esquecer aquele de Roma também. Até eu ter interrompido tudo de forma tão brusca, aquele beijo foi basicamente a melhor coisa que já tinha me acontecido.
— Pra mim também — falei.
Ele ficou de lado, se apoiando num dos cotovelos.
— Então... Eu ando querendo perguntar uma coisa.
— O quê?
Ele tirou o cabelo dos olhos.
— Já pensou como seria ficar aqui na Itália? De vez? Agora que você tem um namorado e tal?
Namorado. As estrelas piscaram em êxtase.
Eu também me apoiei num dos cotovelos.
— Eu estava meio que pensando nisso mais cedo. Addie mandou uma mensagem dizendo que posso morar com ela e a família no próximo ano, e Howard e eu passamos um tempão conversando sobre isso.
— E?
Respirei fundo.
— Eu vou ficar, Lorenzo.
Ele ofegou.
— Você enrolou o R? Juro que você acabou de enrolar o R. Fala de novo.
Sorri.
— Lo-ren-zo. Eu sou metade italiana, não é? Preciso conseguir enrolar o R.
E, qual é? Eu digo que vou ficar em Florença e você se anima só porque consigo pronunciar seu nome direito?
— Nunca me senti tão animado na vida.
Sorrimos um para o outro. Então me aproximei e o beijei de novo. Porque agora isso era uma coisa nossa.
— Então está me dizendo que não só gosta de mim, talvez até me ame, como também que vai ficar aqui de vez?
— Foi exatamente o que eu disse.
— Esta é oficialmente la notte più bella della mia vita.
— Tenho certeza de que eu concordaria com você se entendesse o que significa.
— Logo logo você vai estar falando italiano. — Ele entrelaçou os dedos nos meus. — Então agora que não vamos ficar perseguindo os ex-namorados da sua mãe, o que vamos fazer?
Eu dei de ombros.
— Nos apaixonar?
— Se for isso eu já queimei a largada. — Ele estendeu o indicador, encostando-o ao meu e formando um pequeno telhadinho. — Ei, acabei de pensar numa coisa.
— No quê?
— Quando estamos juntos, formamos um italiano inteiro.
Sorri, olhando para nossos dedos e sentindo meu coração se encher de amor tão depressa que tive que fechar os olhos para conter as lágrimas.