Amor & gelato
Capítulo 23
Ele não respondeu, e fez um círculo com a scooter, ficando de frente para a entrada e assentindo de leve para mim.
— Ciao, Lina.
E foi embora.
Capítulo 23
— ENTÃO, EXPLICA DE novo. Howard não é seu pai, mas acha que é?
— Sim, ou pelo menos eu acho que ele acha que é meu pai.
— Você acha que ele acha que é seu pai?
— Sim. Isso, ou ele está mentindo. Mas eu apostaria na primeira opção, porque em geral as pessoas não ficam animadas pra acolher adolescentes que mal conhecem, mesmo que tenham amado muito a mãe deles.
— Mas Howard não é seu pai? Então é esse tal de Matteo?
— Sim. — Eu me joguei na cama. Já estávamos tendo a mesma conversa havia vinte minutos. — Addie, não sei mais como explicar isso a você.
— Me dá um segundo. Essa história não é a história mais simples do mundo.
— Eu sei. Desculpa. — Cobri os olhos. — E ainda não contei a pior parte.
— Pior do que conhecer seu pai babaca?
— É. — Respirei fundo. — Eu beijei Ren.
— Você beijou Ren? Seu amigo?
— É.
— Ok... Bem, o que tem de ruim nisso?
— Ele não retribuiu o beijo.
— Não acredito. Por quê?
— Ele é comprometido, a gente tinha acabado de conhecer Matteo e eu estava no meio de um colapso nervoso, então foi tipo o momento mais inconveniente pra perceber o que realmente sinto por ele. Eu meio que pulei em cima do garoto e ele... — Estremeci. — ... me afastou.
— Ele afastou você?
— É. E ainda estávamos em Roma, então tivemos que voltar de trem pra Florença e ele não abriu a boca durante todo o trajeto. Então, resumindo, estou completamente sozinha na Itália, preciso contar pro Howard que ele não é meu pai e agora não tenho nem um amigo.
— Ai, Lina. E pensar que há dez minutos eu tinha inveja de você. — Addie suspirou. — E quanto ao tal Fulano? O modelo de cuecas?
— Thomas? — Droga. A mensagem dele. — Ele enviou uma mensagem mais cedo me chamando pra sair. Parece que vai ter uma superfesta de uma garota que se formou na escola.
— Você vai?
— Provavelmente, não. Quer dizer, não sei o que vai acontecer depois que eu contar pra Howard. Ele pode muito bem me mandar embora.
— Ele não vai mandar você embora. Isso é ridículo.
— Eu sei. — Suspirei. — Mas duvido que vá ficar contente. Digo, isso é muito estranho. Pra ser sincera, eu queria que ele fosse meu pai.
Palavras que nunca imaginei que diria.
Addie ficou quieta por um instante.
— Quando você vai contar?
— Não sei. Ele ainda está trabalhando, mas quer ir ao cinema hoje à noite. Se eu criar coragem, vou contar assim que ele chegar em casa.
Ela suspirou.
— Ok, o plano é o seguinte. Vou lá pra cima agora perguntar aos meus pais se você pode voltar a morar aqui. Não, vou dizer que você precisa vir morar aqui. E não se preocupa. Eles vão aceitar.
* * *
Passei a hora seguinte andando de um lado para outro no quarto. Peguei o diário algumas vezes para examinar as páginas que ainda não tinha lido, mas toda vez que tentava abri-lo acabava largando-o como se fosse uma batata quente. Tudo terminaria quando eu lesse o último texto que minha mãe escreveu. Eu nunca mais ouviria nada novo dela. E saberia exatamente o quanto tinha sofrido.
Toda hora eu ia até a janela para ver se Howard estava chegando, mas ele e o grupo de turistas atravessavam o terreno como lesmas. Será que precisavam parar em todas as estátuas? E por que aquele canto do cemitério era mais interessante do que esse? Quando terminassem de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial, a Terceira já teria acabado. Finalmente, quando achei que não aguentaria esperar por Howard nem mais um segundo, ele conduziu o grupo de volta ao estacionamento do centro de visitantes e esperou que todos embarcassem no ônibus.
— Está pronta? — sussurrei para mim mesma.
Claro que não estava.
Howard entrou no centro de visitantes, e depois ele e Sonia saíram e começaram a andar em direção à casa.
Ah, não. Eu não podia conversar com ele na frente da Sonia. Teria que guardar aquela informação a noite toda? Quando eles chegaram à entrada, desci dois degraus de cada vez e os encontrei na varanda.
— Aí está você — disse Howard. — Como foi seu dia?
Horrível.
— Foi... ok.
Ele usava uma camisa social azul-clara com as mangas arregaçadas e seu nariz estava queimado de sol. Algo que nunca tinha me acontecido. Porque, afinal de contas, eu era italiana.
— Tentei ligar para seu celular mais cedo, mas você não atendeu. Se quisermos chegar a tempo para o filme, precisamos ir agora.
— Agora?
— Sim. Ren vai?
— Não. Ele... não pode ir. — Como eu ia sair daquela?
Sonia sorriu.
— Vão exibir um filme muito antigo hoje, um clássico com a Audrey Hepburn. Já ouviu falar de A princesa e o plebeu? Ele se passa em Roma.
— Não, nunca. — E será que daria para todo mundo parar de falar de Roma?
* * *
Em circunstâncias normais, acho que eu teria gostado de A princesa e o plebeu.
É um filme em preto e branco sobre uma princesa europeia que viaja pelo mundo. Só que sua agenda e sua equipe eram rígidas demais, então certa noite, em Roma, ela sai escondida pela janela do quarto para se divertir. O único problema é que, por ter tomado um sedativo mais cedo naquela noite, a princesa acaba apagando no banco de um parque e um repórter americano a resgata. Eles exploram a cidade e se apaixonam, mas não acabam juntos, porque a vida dela é cercada de muitas exigências.
Eu sei. Deprimente.
Não prestei muita atenção porque não conseguia parar de olhar para Howard.
Sua risada era alta e toda hora ele se aproximava para dizer os nomes dos lugares que Audrey e seu paquera estavam visitando. Até me comprou um saco gigantesco de doces, e, embora eu tenha comido tudo, mal senti o gosto. Acho que foram as duas horas mais longas da minha vida.
Na volta, Sonia insistiu para que eu me sentasse na frente.
— Então, o que achou do filme?
— Bonito, mas triste.
Howard olhou para Sonia.
— Você ainda vai se encontrar com Alberto hoje?
— Ai, vou.
— Por que ai?
— Você sabe por quê. Faz anos que jurei nunca mais ir a um encontro às cegas.
— Não pense nisso como um encontro às cegas. Pense que vai sair para beber com alguém que eu admiro muito.
— Se não fosse seu amigo, eu teria recusado. — Ela soltou um suspiro. —
Mas, enfim, qual é a pior coisa que pode acontecer? Eu sempre disse que um encontro horrível em Florença é melhor do que um encontro bom em qualquer outro lugar.
De repente, percebi que não sabia absolutamente nada sobre ela.
— Sonia, como você veio parar em Florença?
— Vim passar férias de verão depois da faculdade e me apaixonei por uma pessoa. Não durou, mas eu acabei me estabelecendo aqui.
Soltei um gemido interno. Talvez essa fosse apenas parte da experiência de ir à Itália. Venha para a Itália. Apaixone-se. Veja tudo desmoronar. Os sites de viagem deveriam divulgar essas informações.
Sonia me encarou pelo espelho.
— Sabe, as pessoas vêm para a Itália por vários motivos, mas, quando ficam aqui, é só por dois.
— Quais?
— Amor e gelato.
— Amém — disse Howard.
Olhei pela janela e concentrei toda a minha atenção em impedir que as lágrimas escorressem dos meus olhos. Só gelato não bastaria. Eu também queria o amor.
Quando chegamos ao cemitério, Howard deixou Sonia em casa, depois deu a volta a caminho da nossa. Os faróis lançavam um brilho sinistro sobre as lápides, e a combinação de açúcar ingerido e nervosismo estava me deixando muito enjoada.
Enfim estávamos a sós. Era a hora de contar para ele. Respirei fundo.
Começaria a falar em três... dois... dois... dois...
Howard quebrou o silêncio.
— Eu queria dizer outra vez quanto é importante para mim ter você aqui. Sei que não tem sido fácil, mas agradeço muito por você estar tentando, mesmo que seja só pelo verão. Eu acho você incrível. De verdade. Estou orgulhoso de você por embarcar nessa aventura e explorar Florença. Você é uma aventureira, igualzinha à sua mãe.
Então ele sorriu para mim, como se eu fosse a filha que ele sempre esperara ter, e o que restava da minha coragem derreteu como um cubo de gelo no calor.
Eu não podia contar a ele. Não naquela noite.
Talvez nunca.
Quando entramos, dei uma desculpa esfarrapada, dizendo que estava com dor de cabeça de novo, fui para o meu quarto e me joguei na cama. Nos últimos dias eu andava me jogando muito na cama. Mas o que fazer? Eu não podia contar a Howard, mas também não podia não contar.
Seria assim tão ruim se eu só ficasse até o fim do verão e depois voltasse para casa sem contar? Mas e quando o Dia dos Pais chegasse e ele esperasse um cartão meu? Ou quando eu fosse me casar e ele achasse que deveria entrar comigo na igreja? E aí?
Meu celular começou a tocar, saltei da cama e atravessei o quarto em dois pulos. Por favor, que seja Ren. Por favor, que seja Ren, por favor que seja...
Thomas.
— Alô?
— Oi, Lina. Sou eu, Thomas.
— Oi.
Eu me vi de relance no espelho. Parecia um baiacu depois de um colapso nervoso.
— Recebeu minha mensagem?
— Sim. Desculpa não ter respondido. Hoje foi uma... loucura.
— Não tem problema. O que acha da festa? Quer ir comigo?
A voz dele soava tão descomplicada e britânica. E ele estava falando de uma festa. Quem se importa com festas num momento como esse? Passei a mão pelo cabelo.
— O que é exatamente?
— Aniversário de dezoito anos de uma das garotas que acabou de se formar.
Ela mora numa casa muito legal, quase tão grande quanto a da Elena. Todo mundo vai estar lá.
“Todo mundo” tipo Ren e Mimi? Fechei os olhos.
— Obrigada pelo convite, mas acho que não vou poder.
— Ah, como assim? Você precisa comemorar comigo. Passei na prova de direção ontem, e meu pai falou que eu podia pegar a BMW dele. Olha, seria uma pena se você perdesse essa festa. Os pais dela contrataram uma banda indie que eu já ouço há mais de um ano.
Apoiei o celular entre o ouvido e o ombro e esfreguei os olhos. Depois de tudo o que acontecera naquele dia, uma festa parecia ridiculamente normal.
Além disso, era estranho sair com alguém estando apaixonada por outra pessoa.
Mas o que fazer quando a pessoa em questão não quer nada com você? Pelo menos Thomas ainda falava comigo.
— Vou pensar.
Thomas suspirou.
— Tudo bem. Pode pensar. Eu passaria aí às nove. E é uma ocasião mais formal, então você precisa se arrumar. Prometo que você vai se divertir.
— Formal. Entendi. Ligo pra você amanhã.
Desligamos e joguei o celular na cama, depois fui até a janela e olhei lá para fora. Era uma noite clara e a lua piscava para mim como um olho gigante. Como se tivesse visto o desenrolar de toda aquela história complicada e agora estivesse rindo por último.
Lua idiota. Coloquei as duas mãos na janela e tentei fechar, quase me pendurando, mas ela nem se moveu.
Tudo bem.