Amor & gelato
Capítulo 1
— Bom dia. Eu estava dizendo à minha filha que ela deve ir para a Itália.
— Itália — repetiu a enfermeira, com um suspiro. — Passei minha lua de mel lá. Gelato, a Torre de Pisa, as gôndolas de Veneza... Você vai adorar.
Minha mãe abriu um sorriso triunfante para mim.
— Mãe, não. Eu não vou pra Itália de jeito nenhum.
— Mas, querida, você precisa ir — insistiu a enfermeira. — Vai ser uma experiência única.
No fim das contas, a enfermeira estava certa sobre uma coisa: eu precisava ir.
Mas ninguém me deu nenhuma pista do que eu encontraria quando chegasse lá.
Capítulo 1
A CASA SE destacava ao longe como um farol num mar de lápides. Não é possível que aquela fosse a casa dele! Provavelmente, só estávamos seguindo algum costume italiano. Sempre dê uma passada no cemitério com os recém-chegados. Para dar uma noção da cultura local. É, só podia ser isso.
Entrelacei os dedos no colo e meu estômago gelou conforme nos aproximávamos da casa. Era como ver o tubarão saindo das profundezas do oceano e vindo na minha direção. Taaan tan. Só que eu não estava num filme.
Aquilo era real. E me esperava a uma curva de distância. Não entra em pânico.
Não pode ser. Sua mãe não teria mandado você morar num cemitério. Ela teria avisado. Ela teria...
Ele ligou a seta, e eu perdi o fôlego. Ela simplesmente não me contou.
— Você está bem?
Howard, a quem eu talvez devesse chamar de pai, me olhava com uma expressão preocupada. Provavelmente porque eu tinha acabado de soltar um chiado.
— É aqui que você...? — Fiquei sem palavras, então tive que apontar.
— Bem, é, sim. — Ele hesitou por um instante, depois apontou para a janela.
— Lina, você não sabia? Sobre tudo isso?
“Tudo isso” não chegava nem perto de descrever o imenso cemitério iluminado pelo luar.
— Minha avó disse que eu ficaria na propriedade de um americano. Ela contou que você administra um memorial da Segunda Guerra. Eu não achei que...
O pânico escorria sobre mim como calda quente. Além disso, eu não conseguia concluir uma única frase. Respira, Lina. Você já sobreviveu ao pior.
Pode sobreviver a isto também.
Ele apontou para a extremidade do terreno.
— O memorial é aquele prédio lá, mas no resto da propriedade ficam os túmulos dos soldados americanos mortos na Itália durante a guerra.
— Mas esta não é sua casa de verdade, é? É só seu local de trabalho.
Em vez de responder, ele parou na entrada e senti minha última esperança se apagar junto com os faróis do carro. Não era apenas uma casa. Era um lar.
Gerânios vermelhos ladeavam o caminho da entrada, e um balanço rangia na
varanda, como se alguém tivesse acabado de se levantar. Tirando as cruzes que cobriam os gramados ao redor, era uma casa normal num bairro como outro qualquer. Só que não era um bairro como outro qualquer. E não parecia que aquelas cruzes sairiam dali. Nunca.
— Eles preferem que um administrador fique aqui em tempo integral, por isso construíram esta casa nos anos 1960. — Howard tirou a chave da ignição, depois tamborilou os dedos no volante, nervoso. — Sinto muito, Lina. Achei que você soubesse. Não posso nem imaginar o que está se passando pela sua cabeça agora.
— É um cemitério. — Minha voz estava fraca como chá aguado.
Ele se virou para mim sem me olhar nos olhos.
— Eu sei. E a última coisa de que você precisa é um lembrete de tudo pelo que passou este ano. Mas acho que vai acabar gostando. É bem tranquilo e tem uma história muito interessante. Sua mãe amava este lugar. E depois de passar quase dezessete anos aqui, não consigo me imaginar morando em nenhum outro.
A voz dele era esperançosa, mas eu afundei no banco, com um monte de perguntas surgindo na cabeça. Se ela amava tanto este lugar, por que nunca me falou dele? Por que nunca me falou de você até ficar doente? E, por tudo o que é mais sagrado, por que ela se esqueceu deste pequeno detalhe: contar que você é meu PAI?
Howard absorveu meu silêncio por um instante, depois abriu a porta do carro.
— Vamos entrar. Deixa que eu pego sua mala.
Com seu um metro e noventa e cinco de altura, ele contornou a traseira do carro, e eu me estiquei para a frente para observá-lo pelo retrovisor. Quem preenchera as lacunas fora minha avó. Ele é seu pai; é por isso que sua mãe quis que você fosse morar lá. Eu deveria ter imaginado, mas a verdadeira identidade do bom e velho Howard era algo que minha mãe deveria pelo menos ter mencionado.
Howard fechou o porta-malas, e eu me recompus e comecei a mexer na mochila, ganhando mais alguns segundos. Coloca essa cabeça pra funcionar, Lina. Você está sozinha em outro país, um verdadeiro gigante acabou de assumir que é seu pai e sua nova casa poderia ser o cenário de um filme de apocalipse zumbi. Faz alguma coisa.
Mas o quê? A não ser que eu arrancasse as chaves do carro das mãos do Howard, não conseguia pensar em nenhum jeito de escapar daquela casa.
Finalmente, soltei o cinto de segurança e o segui até lá.
* * *
A casa era rigorosamente normal, como se para compensar a localização.
Howard deixou minha mala ao lado da porta e fomos para a sala, onde havia duas poltronas e um sofá de couro. Vários pôsteres de viagem antigos estavam pendurados nas paredes, e o lugar inteiro cheirava a alho e cebola, mas de um jeito bom, é claro.
— Bem-vinda ao lar — disse Howard, acendendo a luz. Um novo pânico me atingiu em cheio, e ele estremeceu ao ver minha expressão. — Quer dizer, bem-vinda à Itália. Estou muito feliz por você estar aqui.
— Howard.
— Oi, Sonia.
Uma mulher alta com postura de gazela entrou na sala. Ela devia ser alguns anos mais velha que Howard, tinha a pele cor de café e ostentava várias pulseiras douradas nos braços. Estava deslumbrante. E também surpresa.
— Lina — disse ela, enunciando meu nome cuidadosamente. — Você chegou. Como foram os voos?
Fiquei um pouco sem jeito. Será que ninguém ia fazer a gentileza de nos apresentar?
— Bons. Mas o último foi muito longo.
— Estamos muito felizes por você estar aqui.
Ela sorriu para mim, e um silêncio pesado se instalou.
Finalmente, eu dei um passo à frente.
— Então... você é a esposa do Howard?
Howard e Sonia se entreolharam e quase tiveram um ataque de riso.
Lina Emerson, gênio da comédia.
Howard só conseguiu parar de rir alguns segundos depois.
— Lina, esta é Sonia. Ela é a superintendente-assistente do cemitério. E
trabalha aqui há mais tempo do que eu.
— Só alguns meses a mais — explicou Sonia, enxugando os olhos. —
Howard sempre me faz parecer um dinossauro. Minha casa também fica nesta propriedade, um pouco mais perto do memorial.
— Quantas pessoas moram aqui?
— Só nós dois. Agora nós três — respondeu ele.
— E uns quatro mil soldados — acrescentou Sonia, sorrindo.
Ela estreitou os olhos para Howard, e eu olhei para trás bem a tempo de vê-lo passar o indicador freneticamente sobre a garganta. Comunicação não verbal.
Ótimo.
O sorriso da Sonia desapareceu.
— Lina, você está com fome? Eu fiz lasanha.
Então era daí que vinha o cheiro.
— Estou morrendo de fome — admiti.
E não estava exagerando.
— Que bom. Lasanha com pão de alho cheio de alho é minha especialidade.
— Boa! — exclamou Howard, dando um soco no ar, exageradamente triunfante. — Nada como ser mimado por Sonia.
— É uma noite especial, então achei que deveria caprichar. Lina, acho que você vai querer lavar as mãos, certo? Vou pôr a mesa, nos encontre na sala de jantar.
Howard apontou para o outro lado da sala.
— O banheiro fica ali.
Eu assenti, depois coloquei a mochila na poltrona mais próxima e praticamente fugi para o banheiro. O cômodo era minúsculo, mal tinha espaço para um vaso sanitário e uma pia. Deixei a água ficar o mais quente que consegui aguentar e esfreguei as mãos com um pedaço de sabonete que estava na borda da pia, para me livrar de qualquer vestígio da viagem.
Enquanto me lavava, tive um vislumbre de mim mesma no espelho e soltei um gemido. Eu parecia alguém que foi arrastada por três fusos horários. O que, para ser sincera, tinha de fato acontecido. Além das olheiras, minha pele, em geral bronzeada, estava pálida e amarelada. Meu cabelo enfim tinha conseguido desafiar as leis da física. Molhei as mãos e tentei domar os cachos, mas isso só serviu para deixá-los ainda mais desgrenhados. Acabei desistindo. E daí que eu estava parecendo um porco-espinho que tinha acabado de tomar Red Bull? Pais devem aceitar os filhos como eles são, não é?
Do lado de fora do banheiro, uma música começou a tocar e a chama que era meu nervosismo se transformou numa fogueira. Será que eu precisava mesmo jantar? Talvez pudesse me esconder em algum quarto enquanto caía a ficha daquela coisa toda de cemitério. Ou não. Mas meu estômago roncou em protesto e aiii... Sim, eu precisava mesmo jantar.
— Aí está ela — disse Howard, levantando-se.
A mesa estava posta com uma toalha xadrez vermelha, e um rock das antigas, que eu já tinha ouvido em algum lugar, tocava num iPod perto da entrada da sala. Eu me sentei, num lugar diante deles, e Howard fez o mesmo.
— Espero que você esteja com fome. Sonia cozinha muito bem. Acho que essa é a verdadeira vocação dela.
Agora que não estávamos mais sozinhos, ele parecia muito mais relaxado.
Sonia sorriu.
— Nem pensar. O meu destino era morar no memorial.
— Está com uma cara boa. — E com “boa” eu queria dizer deliciosa.
Havia uma travessa fumegante de lasanha ao lado de uma cesta de fatias
grossas de pão de alho e uma tigela de salada cheia de tomates e alfaces crocantes. Precisei de toda a minha força de vontade para não atacar a comida.
Sonia cortou a lasanha e colocou um grande pedaço com queijo escorrendo no meio do meu prato.
— Fique à vontade para se servir de pão e salada. Buon appetito.
— Buon appetito — repetiu Howard.
— Buon appe... sei lá o quê — murmurei.
Assim que todos foram servidos, peguei o garfo e comecei a devorar a lasanha. Eu sabia que devia estar parecendo um animal selvagem, mas depois de um dia inteiro à base de comida de avião, não consegui me controlar. As refeições do voo pareciam vir em porções miniaturas. Quando finalmente fiz uma pausa para respirar, Sonia e Howard estavam me olhando, e ele parecia ligeiramente horrorizado.
— Então, Lina, o que você gosta de fazer? — perguntou Sonia.
Eu peguei um guardanapo.
— Além de assustar as pessoas com meus modos à mesa?
Howard soltou uma risadinha.
— Sua avó me contou que você adora correr. Ela disse que você faz uma média de sessenta e cinco quilômetros por semana e que pretende praticar corrida na faculdade.
— Bem, isso explica o apetite. — Sonia fez menção de me servir mais um pedaço e eu ergui o prato, agradecida. — Você corre na escola?
— Corria. Eu era da equipe principal, mas perdi a vaga depois que descobrimos.
Os dois ficaram me olhando sem dizer nada.
— ... depois que descobrimos o câncer. Os treinos me tomavam muito tempo, e eu não queria ficar saindo sempre da cidade e coisas do tipo.
Howard assentiu.
— Acho o cemitério um ótimo lugar para uma corredora. Tem muito espaço e ruas planas. Eu costumava correr aqui, antes de ficar gordo e preguiçoso.
Sonia revirou os olhos.
— Ah, por favor. Você não conseguiria ficar gordo nem se tentasse. — Ela empurrou a cesta de pão de alho na minha direção. — Você sabia que eu e sua mãe éramos amigas? Ela era encantadora. Muito talentosa e alegre.
Não, ela também não me contou isso. Será que eu tinha sido vítima de um elaborado esquema de sequestro? Será que sequestradores me dariam dois pedaços da melhor lasanha que eu já tinha comido na vida? E se eu implorasse, será que me passariam a receita? Howard pigarreou, e isso me fez voltar a prestar atenção na conversa.
— Desculpem. Humm, não. Ela nunca falou de você.
Sonia assentiu, com o rosto indecifrável, e Howard olhou para ela, depois para mim.
— Você deve estar exausta. Quer ligar para alguém? Eu mandei uma mensagem para sua avó quando você chegou, mas fique à vontade para ligar para ela. Tenho um plano de chamadas internacionais no celular.
— Posso ligar para a Addie?
— É aquela amiga com quem você estava morando?
— É. Mas eu trouxe o laptop. Em vez de ligar, posso fazer um FaceTime.
— Talvez não funcione hoje. A tecnologia aqui na Itália não é das melhores, e nossa conexão de internet ficou lenta o dia inteiro. Chamei alguém para dar uma olhada amanhã, mas nesse meio-tempo você pode usar meu celular.
— Obrigada.
Ele se levantou da mesa.
— Alguém quer vinho?
— Sim, por favor — disse Sonia.
— Lina?
— Humm... eu meio que ainda não tenho idade pra beber.
Ele sorriu.
— Na Itália não tem idade mínima para beber, então acho que aqui é meio diferente, mas fique à vontade.
— Bem, fica pra próxima.
— Já volto. — Ele foi até a cozinha.
A sala ficou em silêncio por uns dez segundos, depois Sonia pousou o garfo no prato.
— Estou muito feliz por você estar aqui, Lina. E quero que saiba que, se precisar de qualquer coisa, é só gritar. Literalmente.
— Obrigada.
Fixei o olhar num ponto logo acima do ombro esquerdo dela. Adultos sempre se esforçavam demais comigo. Eles achavam que se fossem muito legais conseguiriam compensar a perda da minha mãe. Isso era fofo e horrível ao mesmo tempo.
Sonia se virou para a cozinha e baixou a voz.
— Você se incomodaria de passar na minha casa amanhã? Quero lhe dar uma coisa.
— O quê?
— Falamos disso lá. Aproveite esta noite para se ambientar.
Eu me limitei a balançar a cabeça. Ia me ambientar o mínimo possível. Não ia nem desfazer a mala.
* * *
Depois do jantar, Howard fez questão de carregar minhas coisas para o segundo andar.
— Espero que goste do seu quarto. Tem umas semanas que pintei e redecorei, e acho que ficou bem bonito. Mantenho a maioria das janelas abertas no verão, assim fica mais fresco, mas pode fechar quando quiser. — Ele deixou minha mala perto da porta, e falava rápido, como se tivesse passado a tarde inteira ensaiando seu discurso de boas-vindas.
— O banheiro é do outro lado do corredor, e coloquei um sabonete novo e xampu lá. Avise se precisar de mais alguma coisa que compro amanhã, está bem?
— Ok.
— E, como falei, a internet anda bem irregular, mas se resolver tentar, o wi-fi é “cemitério americano”.
Claro.
— E qual é a senha?
— Muro dos desaparecidos. Tudo junto.
— Muro dos desaparecidos — repeti. — O que isso significa?
— É uma parte do memorial. São várias placas de pedra com uma lista de nomes dos soldados cujos corpos nunca foram encontrados. Posso lhe mostrar amanhã se você quiser.
Nããão, obrigada.
— Bem, estou bem cansada, então... — Eu me aproximei da porta.
Entendendo a indireta, ele me entregou o celular e um pedaço de papel.
— Anotei as instruções para ligar para os Estados Unidos. Você precisa colocar o código do país e o código de área. Avise se tiver algum problema.
— Obrigada. — Coloquei o papel no bolso.
— Boa noite, Lina.
— Boa noite.
Ele deu as costas e saiu pelo corredor, e eu arrastei minha mala para dentro, sentindo os ombros relaxarem de alívio por finalmente estar sozinha. Bem, você está mesmo aqui, pensei, você e seus quatro mil novos amigos. Havia uma chave na porta, e fiquei satisfeita ao ouvir o clique quando a tranquei. Então me virei devagar, me preparando para o que quer que Howard quisesse dizer com “bem bonito”, mas meu coração quase parou de bater, porque nossa...
O quarto era perfeito. Uma luz suave emanava do lindo abajur dourado no criado-mudo, e a cama, cheia de almofadas, parecia ser do século passado. Uma
escrivaninha e uma cômoda pintadas ficavam uma de cada lado do quarto, e havia um grande espelho oval pendurado na parede ao lado da porta. Vários porta-retratos vazios ocupavam o criado-mudo e a cômoda, como se esperando que eu os preenchesse.
Fiquei ali observando tudo por um minuto. Era tão eu. Como era possível alguém que nem me conhecia ter montado o quarto dos meus sonhos? Talvez nem tudo estivesse perdido...
E então uma rajada de vento soprou para dentro do quarto, chamando minha atenção para a grande janela aberta. Eu tinha ignorado minha própria regra: Se parecer bom demais para ser verdade, provavelmente é mentira. Fui até lá e espiei pela janela. As lápides brilhavam sob o luar como dentes num sorriso sombrio e estranhamente silencioso. Nenhuma beleza poderia compensar uma vista como aquela.
Saí da janela e tirei o papel do bolso. Era hora de começar a planejar minha fuga.