Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 12 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 11

Folheei outra vez os registros anteriores no diário. Será que as escolas tinham mesmo uma política contra o relacionamento entre alunos e professores-assistentes? Eu entenderia que fosse uma regra para professores de verdade, mas assistentes de pesquisa? E minha mãe estava arrebatada. Como era possível alguém tão apaixonada ir embora e manter a filha deles em segredo por dezesseis anos?

Marquei a página do diário e fui até a janela. A noite estava maravilhosa.

Nuvens passavam sobre a lua como navios-fantasma, e agora que os amigos do Howard tinham ido embora, tudo estava calmo e silencioso.

De repente, um vulto chamou minha atenção, e eu gelei. O que era aquilo?

Eu me debrucei na janela, com o coração martelando no peito. Um borrão branco se movia em direção à casa. Parecia uma pessoa, mas estava passando rápido demais, como um... Estreitei os olhos. Aquele era Howard? De skate?

— O que você está fazendo? — sussurrei.

Ele deu um impulso forte com o pé e passou rapidamente pela entrada de carros, como uma foca deslizando para o mar. Como se fosse algo que fizesse sempre.

Eu tinha que conhecer melhor aquele cara.

 

Capítulo 11

— LINA, ESTÁ ACORDADA? Telefone para você.

Howard bateu na porta aberta do quarto, e eu enfiei o diário embaixo da cama. Eu estava relendo os trechos da noite anterior. E enrolando. Porque, sim, queria saber o que tinha acontecido, mas também queria prolongar a parte feliz.

Mais ou menos como aquela vez em que parei Titanic na metade e fiz Addie assistir à primeira parte de novo.

— Quem é?

— Ren. Tenho que comprar um celular para você. Fique com o meu por enquanto. Vou usar o fixo.

— Obrigada.

Eu me levantei e fui até ele, que estava completamente acordado e não tinha nada a ver com o X do diário. Nenhum sinal de seu sombrio passeio noturno. Ou de práticas suspeitas de namoro.

Ele me entregou o celular.

— Você poderia dizer ao Ren que ele não precisa ter medo de mim, por favor? O garoto quebrou o recorde mundial de quantas vezes se falou “senhor”

numa única conversa.

— Posso, mas acho que não vai fazer diferença. Você realmente deixou ele assustado naquela primeira ligação.

— Eu tive um bom motivo. — Ele sorriu. — Vejo você um pouco mais tarde? Devo sair do trabalho lá pelas cinco.

— Ok.

Encostei o celular no ouvido e Howard foi para o corredor. Ciao, misterioso X.

— Oi, Ren.

— Ciao, Lina. Que bom que você está viva.

Eu me inclinei casualmente porta afora e observei Howard descer a escada.

Ele e minha mãe haviam se agarrado num parque público? Não é o tipo de coisa que uma filha quer saber sobre os pais. E o que tinha sido tão especial no jeito que ele dissera o nome dela quando ficaram juntos pela primeira vez na Space?

Parecia uma cena brega de uma daquelas novelas que a mãe da Addie não admitia que via.

— Você está aí? — perguntou Ren.

— Sim, desculpa. Estou meio distraída.

Fechei a porta do quarto e me sentei na cama.

— Então, ele não ficou zangado?

— Não. Ele estava dando uma festa e acho que nem percebeu que nos atrasamos.

— Fortunato. Você já foi correr?

— Não. Ia sair agora. Quer ir também?

— Já estou a caminho. Me encontra no portão do cemitério.

Troquei de roupa e corri para encontrá-lo. Ren estava com uma camiseta laranja chamativa e corria sem sair do lugar como um velho. Como sempre, seu cabelo caía nos olhos e ele estava vermelho e suado da corrida.

— Como essa roupa não tem cara de americana? — perguntei, puxando a camisa dele.

— Não tem cara de americana quando está num italiano.

— Metade italiano — corrigi.

— Metade é o suficiente. Pode acreditar em mim.

Começamos a correr pela estrada.

— Então, sua mãe ganhou o Prêmio LensCulture... — comentou Ren.

Olhei para ele.

— Como você sabe?

— Existe uma coisa chamada internet. É muito útil.

— Ah, sim. Eu lembro vagamente que isso existia antes de morar na Itália.

Eu havia tentado fazer uma chamada pelo FaceTime com Addie umas dez vezes naquela manhã para contar a ela as novidades sobre a leitura da noite, mas só aparecera a mensagem NO SERVIZIO. Pelo menos agora podia usar o celular do Howard sempre que quisesse.

— Encontrei um monte de matérias sobre ela. Você não me contou que sua mãe era tão famosa.

— O LensCulture deu uma alavancada na carreira dela. Foi quando ela começou a trabalhar só com fotografia.

— Eu gostei da foto. Nunca tinha visto nada parecido. Como era mesmo o nome? Apagado?

Ele me ultrapassou, depois abraçou o próprio corpo, olhando por cima de um dos ombros. Minha mãe fotografara uma mulher que tinha acabado de remover um nome tatuado no ombro.

Eu ri.

— Nada mau.

Ele voltou a correr ao meu lado.

— Também vi autorretratos que ela fez quando estava doente. São bem

intensos. Vi você em alguns deles.

Mantive os olhos grudados na estrada.

— Não gosto de ver esses.

— Compreensível.

Chegamos a um trecho em que havia um declive e imediatamente acelerei.

Ren fez o mesmo.

— Então... pretende sair com seus amigos de novo em breve? — perguntei.

— Está falando do Thomas?

Eu enrubesci.

— E... dos outros.

Minha prioridade era descobrir o que havia acontecido entre minha mãe e Howard, mas isso não significava que eu tinha que desperdiçar minha chance com Thomas, não é?

— É Marco, não é? Você está louca pra ver ele de novo, certo?

Eu ri outra vez.

— Talvez.

— Thomas não pegou o seu número?

— Eu nem tenho celular. Você sempre liga pro cemitério, lembra?

Além disso, ele não tinha pedido. Provavelmente porque havia se lembrado do seu relógio caro depois de pular comigo na piscina.

— Também já liguei pro celular do seu pai. Mesmo que estivesse apavorado.

— Como conseguiu o número?

— Sonia me deu, mas levei tipo uma hora pra tomar coragem de ligar.

Suspirei.

— Ren, você precisa esquecer aquela primeira conversa ruim com Howard.

Ele é um cara muito legal. Não vai machucar você por ser simpático comigo.

— Um ogro já gritou com você por algo que não fez? Não é tão fácil esquecer.

— Ogro? — Eu ri.

— As pessoas não são tão altas aqui. Aposto que ele atrai todos os olhares quando chega em algum lugar.

— É bem provável.

O menor caminhão do mundo passou por nós, buzinando várias vezes. Ren acenou.

— Ei, quer ir à cidade comigo hoje à noite? Podíamos tomar sorvete ou só passear, ou algo assim. Talvez lá pelas oito e meia?

— A Modelo Sueca não vai ficar chateada?

Eu estava só brincando, mas ele me olhou com uma cara séria.

— Acho que não.

* * *

Quando Ren chegou para me buscar, Howard e eu estávamos terminando de jantar. Ele tinha preparado macarrão com tomate e muçarela frescos, e eu passara a refeição inteira olhando para ele como uma louca. X é bonito, inteligente, charmoso. Menos quando você engravida dele? Aí de repente ele passa a ser tão terrível que você foge para o outro lado do mundo para evitá-lo por dezesseis anos? Eu pegara o diário três vezes naquela tarde, e todas as vezes o largara. Era difícil demais.

— Está tudo bem? — perguntou Howard.

— Sim. É que eu estava... pensando.

Desde que tínhamos combinado não falar da minha mãe, as coisas estavam um pouco melhores. Na verdade, era muito fácil conviver com ele. Howard era uma mistura de hippie e nerd que sabe tudo de história.

Enfiei o garfo na massa outra vez.

— Está muito bom.

— Bem, o mérito não é do chef. É muito difícil fazer besteira tendo ingredientes tão bons. Então, o que acha de sairmos amanhã? Posso tirar o dia todo de folga, e teremos bastante tempo para turistar.

— Tudo bem.

— Para onde você e Ren vão hoje?

— Ele só disse que queria ir à cidade.

— Lina? — A cabeça do Ren apareceu na porta da cozinha.

— Falando nele...

— Desculpe pelo atraso. — Ele viu Howard e se assustou. — E eu deveria ter batido, senhor.

Howard sorriu.

— Oi, Ren. Quer jantar? Eu fiz pasta con pomodori e mozzarella.

— Buonissimo. Mas não, obrigado. Eu já comi. Minha mãe tentou reproduzir um prato do KFC e fez uma panela enorme de purê que basicamente se transformou em cola. Ainda estou tentando digerir.

— Ecaaa.

Howard riu.

— Já passei por isso. Às vezes a gente simplesmente precisa de KFC —

comentou, então pegou o prato e entrou na cozinha.

Ren se sentou ao meu lado, pegou um fio de macarrão do meu prato e perguntou:

— Então, aonde vamos hoje?

— Como vou saber? Você que é de Florença.

— É, mas tenho a sensação de que você não passou muito tempo na cidade.

Tem alguma coisa que esteja louca pra ver?

— Não tem tipo uma torre inclinada ou coisa assim?

— Linaaa. Isso fica em Pisa.

— Relaxa, estou brincando, mas, na verdade, tem uma coisa que eu quero ver. Vamos lá em cima comigo um segundo. — Eu levei meu prato para a cozinha, e Ren me seguiu até o quarto.

— Este é mesmo seu quarto? — perguntou ele quando entramos.

— É. Por quê?

— Você não tirou nada da mala? Isto aqui está meio vazio. — Ele abriu uma das gavetas vazias da cômoda, depois a fechou devagar.

— Todas as minhas coisas estão aqui. — Eu apontei para a mala.

Qualquer um que olhasse acharia que ela havia explodido, as roupas estavam espalhadas em cima dela.

— Você não vai ficar aqui um tempo?

— Só o verão.

— São, tipo, dois meses.

— Espero que seja menos. — Lancei um olhar para a porta aberta.

Ai. Será que era imaginação ou minha voz tinha reverberado pelo cemitério inteiro?

— Acho que não dá pra ele ouvir.

— Espero que não.

Eu atravessei o quarto, depois me ajoelhei para pegar o diário embaixo da cama e comecei a folheá-lo.

— Eu li sobre um lugar... Ponte Véchio?

— Ponte Vecchio? — Ele me olhou com uma cara de dúvida. — Você está brincando, não é?

— Eu sei que falei errado.

— Bem, falou, quer dizer, você assassinou o nome. Mas você nunca foi lá?

Há quanto tempo está em Florença?

— Desde terça à noite.

— Isso significa que deveria ter visto a Ponte Vecchio na quarta de manhã.

Vai se arrumar. Estamos saindo.

Olhei minha roupa.

— Eu já estou pronta.

— Desculpa. Foi modo de dizer. Pega sua bolsa ou seja lá o que for. Estamos indo. Você precisa conhecer. Está na minha lista de dez lugares preferidos no mundo.

— Está aberta? São quase nove horas.

Ele soltou um gemido.

— Sim, está aberta. Vamos.

Peguei o dinheiro que Howard tinha me dado na noite anterior e enfiei o diário na bolsa. Ren já estava no meio da escada quando fui atrás, mas ao chegar lá embaixo ele parou de repente, e eu dei um encontrão nele.

Howard estava sentado no sofá, com o laptop apoiado nos joelhos.

— Aonde vocês dois estão indo com tanta pressa?

— Lina ainda não foi à Ponte Vecchio. Vou levar. — Ren pigarreou. — Com sua permissão, senhor.

— Permissão concedida. É uma ótima ideia. Lina, você vai adorar.

— Obrigada. Espero que sim.

Fomos até a porta.

— Estou de olho em você, Ren — disse Howard no instante em que Ren saiu para a varanda.

Ren não se virou, mas se empertigou como se tivesse tomado um choque na coluna. Howard me olhou e piscou.

Ótimo. Agora Ren nunca mais ia relaxar.

A noite estava quente, e Florença parecia duas vezes mais cheia do que quando eu fui com Howard. Ir de scooter era um pouco mais rápido porque podíamos passar entre os carros no engarrafamento, mas mesmo assim levamos um bom tempo. Não que eu me importasse. Andar de scooter era muito divertido, e o ar frio que soprava parecia ser minha recompensa por sobreviver a um dia tão longo e quente. Quando Ren estacionou, a lua já surgira redonda e pesada como um tomate maduro, e eu me senti como se tivesse dado um mergulho longo e refrescante.

— Por que está tão cheio hoje? — perguntei, entregando o capacete para ele guardar embaixo do banco.

— É verão. As pessoas gostam de sair. E os turistas chegam em bando. São verdadeiras manadas!

— Ren, você é meio estranho.

— Já me falaram isso.

— O que essa ponte tem exatamente?

— “Ponte Vecchio” significa “Ponte Velha”. Ela fica sobre o rio Arno. Vem, é por aqui.

Fiz o possível para acompanhá-lo enquanto ele abria caminho para atravessar a rua, e logo chegamos a uma calçada larga junto ao rio. O Arno se estendia escuro e misterioso, e as margens eram iluminadas como uma passarela, com fios de luzes cintilantes que desapareciam em ambas as direções.

Eu me permiti um segundo para absorver tudo aquilo.

— Ren... é lindo. Não acredito que as pessoas possam morar aqui de verdade.

— Como você mora?

Eu o olhei e ele estava sorrindo. Dã.

— Bem, é, acho que sim.

— É só esperar. Depois de ver isso você vai querer ficar aqui pra sempre.

As pessoas que passavam por ali empurravam umas às outras, então Ren me deu o braço e fomos até o rio, pulando por cima de um cara de cabelo comprido sentado de costas para a água. Ele tocava um violão velho e cantava “Imagine”

com um forte sotaque.

— Meu pai tem um livro que ensina letras de música em inglês pra italianos.

Acho que vou emprestar para aquele cara ali — brincou Ren.

— Ah, mas pelo menos ele transmite o sentimento certo. Está cantando com muita nostalgia.

O ponto em que meu braço tinha ficado colado ao do Ren estava esquentando, mas antes que eu pudesse pensar nisso, ele se afastou e colocou as mãos nos meus ombros.

— Pronta pra engolir seu chiclete?

— O quê?

— Pronta pra ver a Ponte Vecchio?

— Claro. É por isso que estamos aqui, não é?

Ele se virou e apontou.

— Por ali.

A calçada havia nos levado a uma pequena ponte para pedestres. Era pavimentada com asfalto, e vários turistas se aglomeravam em volta de panos e cobertores sobre os quais bolsas e óculos escuros falsos estavam à venda. Nada interessante.

— É aqui? — perguntei, tentando não demonstrar muito que estava decepcionada.

Talvez fosse mais legal durante o pôr do sol.

Ren soltou uma gargalhada.

— Não. Não é esta ponte. Pode acreditar em mim, você vai saber quando colocar os olhos nela.

Fomos até o centro da ponte, e um homem negro se colocou diante do seu cobertor cheio de mercadorias.

— Meu jovem, quer bolsa bonita Prada para namorada? Quinhentos euros na loja, mas dez euros para você. Faz ela sentir amor de verdade.

— Não, obrigado — disse Ren.

Eu o cutuquei.

— Não sei, não, Ren. Parece um ótimo negócio. Dez euros pelo amor verdadeiro?

Ele sorriu, parando no meio da ponte.

— Você não viu, não é?

— Vi o qu... ah.

Corri para o guarda-corpo. Estendida sobre o rio, a uns quatrocentos metros de nós, havia uma ponte que parecia ter sido construída por fadas. Três arcos de pedra erguiam-se graciosamente da água, e toda a extensão era coberta por uma fileira flutuante de prédios coloridos debruçados sobre o rio. Havia três arcos menores abertos no centro, e tudo emanava uma luz dourada na escuridão, iluminado pelo próprio reflexo na água.

Chiclete oficialmente engolido.

Ren sorria para mim.

— Uau! Nem sei o que dizer.

— Não é? Vem. — Ele olhou para a direita, depois para a esquerda, e pulou o guarda-corpo da ponte como num salto com vara.

— Ren!

Eu me debrucei, com a certeza de que o veria nadando cachorrinho em direção à Ponte Vecchio, mas acabei cara a cara com ele. Ren estava agachado numa borda protuberante do tamanho de uma mesa que pendia sobre a água e parecia ridiculamente satisfeito consigo mesmo.

— Eu estava esperando ouvir você caindo na água.

— Eu sei. Agora vem. Só toma cuidado pra ninguém ver.

Dei uma olhada para trás, mas todo mundo estava envolvido demais com as Prada falsificadas para prestar atenção em mim. Subi no parapeito e pulei ao lado dele.

— Isso é permitido?

— De jeito nenhum, mas daqui se tem a melhor vista.

— É incrível.

Por algum motivo, o barulho das pessoas lá de cima não chegava até nós, e juro que a Ponte Vecchio estava ainda mais brilhante e régia. Tive uma sensação solene e perplexa. Como a de ir à igreja. Só que eu queria ficar ali pelo resto da vida.

— Então, o que acha?

— Ela me faz lembrar de uma vez em que eu e minha mãe fomos a uma reserva de papoulas na Califórnia. Todas as flores se abrem ao mesmo tempo, e planejamos nossa visita para chegar na hora certa. Foi mágico.

— Como isso aqui?

— É.

Ele chegou para trás, parando a meu lado, e encostamos a cabeça na parede, apenas admirando. Enfim achei o meu lugar. Era como se minha mãe estivesse acenando para mim do outro lado do rio. Se eu forçasse a vista, quase podia vê-la. Meus olhos ficaram um pouco embaçados, transformando as luzes da Ponte Vecchio em grandes halos dourados, e tive que passar uns trinta segundos fingindo que um cisco misterioso do Arno tinha caído no meu olho.

Pela primeira vez, Ren ficou em completo silêncio, e quando o acesso de choro passou, olhei para ele.

— Então, por que se chama “Ponte velha”? Não é tudo velho por aqui?

— É a única ponte que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, e é muito, muito velha, até pros padrões italianos. Tipo, medieval. Aquelas coisas que parecem casas eram açougues. Eles abriam as janelas e jogavam todo o sangue e as entranhas no rio.

— Não acredito. — Olhei de novo para as janelas. A maioria tinha venezianas verdes e todas já estavam fechadas. — São lindas demais pra isso. O

que são agora?

— Joalherias luxuosíssimas. E está vendo aquelas janelas espaçadas no topo da ponte?

Eu assenti.

— Sim.

— Aquilo é uma passarela. Chama-se Corredor Vasariano e era usada pelos Médici como forma de se deslocar por Florença sem precisar andar pela cidade.

— A família da Elena.

— Esattamente. Assim não precisavam se misturar conosco, a ralé. Quem expulsou todos os açougueiros foi Cosimo Médici. Ele queria dar mais prestígio à ponte. — Ren olhou para mim. — Então, que livro era aquele que você estava lendo? O que estava debaixo da sua cama.

Você confia nele. As palavras abriram caminho na minha cabeça antes que eu ao menos tivesse a chance de questionar. E daí que eu só conhecia Ren havia dois dias? Eu sentia que podia confiar de verdade nele.

Tirei o diário da bolsa.

— É o diário da minha mãe. Ela estava morando em Florença quando engravidou de mim, e escreveu neste diário sobre essa época. Ela o enviou para o cemitério antes de morrer.

Ele olhou para o caderno, depois para mim.

— Caramba. Isso é muito pesado.

Pesado. Exatamente. Eu abri na primeira página, olhando de novo as palavras agourentas.

— Comecei a ler um dia depois que cheguei. Estou tentando entender o que

aconteceu entre Howard e ela.

— Como assim?

Eu hesitei. Seria possível resumir toda aquela história complicada em algumas frases?

— Ela conheceu Howard quando estava estudando aqui, e depois que ficou grávida foi embora da Itália e nunca contou a ele sobre mim.

— Sério?

— Quando ela ficou doente, começou a me falar muito dele, e depois me fez prometer que viria morar aqui por um tempo. Só que não me contou o que tinha dado errado entre eles, e acho que me deixou este diário pra que eu descobrisse.

Eu me virei e olhei nos olhos do Ren.

— Então, ontem à noite, quando você disse que não conhecia Howard muito bem, não estava exagerando.

— É. Eu oficialmente o conheço há... — Contei nos dedos. — Quatro dias.

— Não acredito! — Ele balançou a cabeça, incrédulo, e seus cachos balançaram. — Então me deixe entender bem. Você é uma americana morando em Florença... Não, morando num cemitério... com um pai que acabou de descobrir que tem? Você é ainda mais estranha que eu.

— Ei!

Ele bateu com o ombro no meu.

— Não, não falei no mau sentido. Só quis dizer que nós dois somos meio diferentes.

— Por que você é diferente?

— Eu sou metade americano, metade italiano. Quando estou na Itália, me sinto americano demais, e quando estou nos Estados Unidos, me sinto italiano demais. Além disso, sou mais velho que todo mundo da minha turma.

— Quantos anos você tem?

— Dezessete. Minha família morou no Texas por alguns anos quando eu era bem pequeno, e quando voltamos eu não falava italiano muito bem. Já era meio velho em relação aos outros alunos do meu ano da escola, e acharam melhor eu entrar na turma anterior pra alcançar os outros. Meus pais acabaram me matriculando na escola americana alguns anos depois, mas a direção não permitiu que eu pulasse um ano.

— Quando você faz dezoito?

— Em março. — Ele me olhou. — Mas então, você só vai passar o verão mesmo?

— É. Howard e minha avó querem que eu fique mais tempo, mas obviamente a situação é muito estranha. Eu mal o conheço.

— Mas talvez acabe conhecendo melhor. Tirando a serra elétrica, eu até que

gosto dele.

Eu dei de ombros.

— É que é muito bizarro. Se minha mãe não tivesse ficado doente, eu provavelmente não saberia nada sobre ele. Ela sempre me disse que tinha engravidado muito jovem e decidido que era melhor me criar sozinha.

— Até agora.

— Até agora — repeti.

— Onde você vai morar quando sair de Florença?

— Com minha amiga Addie, eu espero. Fiquei com a família dela até terminar o segundo ano, e ela vai perguntar aos pais se também posso morar lá no ano que vem.

Ele olhou para o diário.

— Então, o que você está lendo aí?

— Bem, até agora sei que eles tinham que manter o relacionamento em segredo. Ele era professor-assistente na escola que ela frequentava, e acho que a direção não teria gostado. E ela levava esse segredo muito a sério. Tipo, depois que começaram a namorar, ela parou de escrever o nome dele porque tinha medo de que alguém lesse o diário e descobrisse. Ela só o chama de “X”.

Ele balançou a cabeça.

— Sério? Bem, a resposta pra sua pergunta deve ser essa. A maioria dos romances secretos parece ter prazo de validade.

— Talvez, mas quando cheguei aqui, Sonia disse que minha mãe morou um tempo com Howard no cemitério, então não era exatamente secreto. E disse que um dia minha mãe simplesmente foi embora, sem nem sequer se despedir dela.

— Nossa. Deve ter acontecido alguma coisa. Alguma coisa séria.

— Tipo... uma gravidez?

— Ah. Acho que isso seria importante. — Ele mordeu o lábio, pensativo. —

Agora você me deixou curioso. Me mantém atualizado, está bem?

— Claro.

— Então ela adorava a Ponte Vecchio? Sobre quais outros lugares ela escreveu?

Peguei o diário das mãos dele e comecei a folheá-lo.

— Ela fala algumas vezes de uma boate, a Space.

— Space Electronic? — Ele riu. — Não acredito. Eu fui lá há umas duas semanas. Elena adora aquele lugar. Ela conhece um dos DJs, então conseguimos entrar de graça. O que mais?

— O Duomo, os Jardins de Boboli... Ele também a levou a uma padaria secreta. Você sabe onde fica?

— Uma padaria secreta?

Entreguei o diário a ele.

— Lê isso aqui.

Ele passou os olhos pela página em que minha mãe conta sobre a padaria.