Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 8 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 7

Levei todos os três minutos de “Here Comes the Sun” para me recompor, respirando fundo, e quando enfim abri a porta, Howard ainda estava sentado à mesa com os ombros curvados. Eu o observei por um instante e senti a raiva me cobrir como uma leve camada de queijo parmesão.

Minha mãe nos mantivera afastados por dezesseis anos. Por que estávamos juntos agora?

 

Capítulo 7

NAQUELA NOITE, NÃO consegui dormir.

O quarto do Howard também ficava no segundo andar e as tábuas do piso rangiam quando ele andava pelo corredor. Eu não sabia sobre você. Por quê?

O relógio da parede do quarto fazia um tique-taque irritante. Eu não tinha percebido na noite anterior, mas de repente o barulho se tornou insuportável.

Coloquei um travesseiro sobre a cabeça, mas não adiantou e, além disso, fiquei meio sufocada. Uma brisa soprava pela janela e as violetas balançavam como rockeiros batendo cabelo num show.

Ok. Tudo bem. Acendi o abajur e tirei o anel do dedo para analisá-lo. Embora não visse Howard havia dezesseis anos, minha mãe usara o anel que ele lhe dera.

Todo santo dia.

Mas por quê? Será que eles foram mesmo apaixonados, como Sonia dissera?

E se fossem, o que os separou?

Antes que eu perdesse a calma, abri a gaveta do criado-mudo e peguei o diário.

Abri na primeira página.

Eu tomei a decisão errada.

Um calafrio percorreu minha espinha. Minha mãe tinha escrito com canetinha preta grossa, e as palavras se espalhavam pela parte interna da capa como uma fileira de aranhas. Será que aquela mensagem era para mim? Uma espécie de prenúncio do que eu estava prestes a ler?

Criei coragem e virei a página. É agora ou nunca.

22 DE MAIO

Pergunta: Imediatamente após sua reunião com os funcionários da secretaria de matrículas da Universidade de Washington (logo depois de avisar ao funcionário que você não vai começar a faculdade de enfermagem no outono), você:

A. Vai para casa e conta aos seus pais.

B. Tem um ataque de pânico e volta correndo para a sala alegando um lapso temporário de sanidade.

C. Sai para comprar um diário.

Resposta: C.

Sim, no fim das contas, você vai contar aos seus pais. E também tem consciência de que marcou a reunião para o último horário da secretaria de propósito. Mas assim que a poeira baixar, tenho certeza de que você vai se lembrar de todos os motivos que teve para fazer o que fez. É hora de entrar na livraria mais próxima e gastar todo o seu dinheiro num diário novo e sofisticado, porque por mais assustador que este momento seja, também é o momento em que sua vida (sua vida de verdade) começa.

Diário, agora é oficial. Há uma hora e vinte e seis minutos deixei de ser uma futura estudante de enfermagem. Em vez disso, em apenas três semanas vou arrumar minhas coisas (ou seja, tudo o que minha mãe não destruir quando ficar sabendo da notícia) e embarcar num avião para a Itália (ITÁLIA!), para fazer o que sempre quis (FOTOGRAFIA!) na Academia de Belas-Artes de Florença (ABAF!).

Só preciso pensar num jeito de dar a notícia aos meus pais. A melhor das minhas ideias envolve fazer uma ligação anônima de algum lugar da Antártida.

23 DE MAIO

Bom, contei. E foi ainda pior do que eu esperava. Para um observador incauto, a Grande Explosão Familiar teria parecido algo assim: Eu: Mãe, pai, preciso contar uma coisa.

Mãe: Ah, meu Deus. Hadley, você está grávida?

Pai: Rachelle, ela não tem nem namorado.

Eu: Pai, obrigada por me lembrar disso. E, mãe, não sei por que a primeira coisa em que você pensou foi gravidez. [Pigarreia] Quero falar com vocês sobre uma decisão recente que tomei para a minha vida. [Palavras tiradas diretamente de um livro chamado

Comunicação inteligente: Como falar para que os outros concordem.]

Mãe: Ah, meu Deus. Hadley, você é lésbica?

Pai: Rachelle, ela não tem nem namorada.

Eu: [Abandonando todas as tentativas de ter uma conversa civilizada.]

NÃO. O que estou tentando dizer é que não vou mais fazer faculdade de enfermagem. Acabei de ser aceita numa escola de artes em Florença, na Itália, e vou passar seis meses lá estudando fotografia. E... o curso começa em três semanas.

Mãe/Pai: [Silêncio prolongado envolvendo duas bocas abertas como de dois peixes.]

Eu: Então...

Mãe/Pai: [Continuam boquiabertos]

Eu: Será que vocês poderiam dizer alguma coisa, por favor?

Pai: [Com a voz quase sumindo] Mas, Hadley, você não tem nem uma câmera decente.

Mãe:

[Recuperando

a

voz]

COMOASSIMVOCÊNÃOVAIFAZERFACULDADEDEENFERMAGE M...

[Os cachorros do vizinho começam a uivar.]

Vou poupar você do sermão que tive que ouvir, mas basicamente se resume ao seguinte: estou desperdiçando minha vida. Jogando no lixo meu tempo, minha bolsa de estudos e o dinheiro deles, conquistado a duras penas, para passar seis meses frívolos num país onde as mulheres nem sequer depilam as axilas. (Essa última informação foi uma contribuição da minha mãe. Não sei se é verdade.)

Expliquei que vou pagar tudo. Agradeci a contribuição deles para a minha educação. Garanti que vou manter minha rotina de depilação. E depois subi para o meu quarto e chorei por pelo menos uma hora porque estou APAVORADA. Mas que escolha eu tenho? No segundo em que recebi

 

aquela carta de aceitação soube que queria aquilo mais do que qualquer outra coisa que já quis na vida. Eu vou, porque é mais assustador não ir!

Fechei o diário. Uma verdadeira tempestade castigava meu rosto, e as palavras se juntavam numa grande massa embaçada. Era por isso que eu não conseguia ler os diários dela. Eles me davam a sensação de estar ouvindo minha mãe falar ao celular com uma amiga, mas então eu erguia os olhos da página e ela não estava ali...

Se controla. Esfreguei os olhos com raiva. Ela havia me mandado aquele diário por algum motivo, e eu precisava descobrir qual era.

13 DE JUNHO

É meio agourento viajar no dia treze, mas aqui estou eu. Depois de uma despedida para lá de gélida por parte da minha mãe, meu pai me deixou no aeroporto. Olá, mundo desconhecido.

20 DE JUNHO

ESTOU AQUI. Eu poderia escrever cinquenta páginas sobre minha primeira semana em Florença, mas basta dizer que estou aqui. A Academia de Belas-Artes de Florença é exatamente o que eu imaginava: pequena, atravancada e cheia de gente talentosa. Meu apartamento fica bem em cima de uma padaria barulhenta e meu colchão parece de papelão, mas quem se importa quando a cidade mais deslumbrante do mundo está bem diante da janela?

Minha colega de quarto se chama Francesca, e ela veio do norte da Itália para estudar fotografia de moda. Só usa preto, passa do italiano para o francês e o inglês no meio das frases sem nem perceber e está fumando como uma chaminé na nossa janela desde o instante em que chegou.

Adoro ela.

23 DE JUNHO

Primeiro dia livre na Itália. Eu estava ansiosa para passar uma manhã preguiçosa comendo um pote de Nutella com pão da padaria aqui de

baixo, mas Francesca tinha outros planos. Quando saí do quarto, ela falou para eu me vestir, depois passou a meia hora seguinte discutindo animadamente com alguém no celular enquanto eu a esperava. Quando enfim desligou, disse que eu precisava trocar o sapato. “Nada de sandálias. Já passa das onze da manhã.” Ela me fez trocar outras duas vezes. (“Nada de jeans escuros depois de abril.” “Nunca combine os sapatos com a bolsa.”) Foi cansativo.

Finalmente, saímos e Francesca começou a me contar a versão resumida da história da cidade. “Florença é o berço da Renascença. Você sabe o que é a Renascença, não sabe?” Garanti a ela que todo mundo sabe o que é a Renascença, mas ela me explicou mesmo assim. “Um terço da população morreu durante a epidemia de peste bubônica nos anos 1300, e depois a Europa passou por um renascimento cultural. De repente, houve uma explosão de arte. E tudo começou aqui antes de se espalhar para o resto da Europa. Pintura, escultura, arquitetura... Aqui era a capital artística do mundo. Florença foi uma das cidades mais ricas da história...” e ela falou, falou e falou muito.

Ela entrava e saía das ruas, sem nem sequer olhar para trás por um segundo para ter certeza de que eu estava acompanhando, quando de repente eu o vi. O DUOMO. O intricado, colorido e gótico Duomo. Fiquei completamente arrebatada, mas mesmo que não tivesse ficado, ele teria me tirado o fôlego.

Francesca apagou o cigarro, me levou para a entrada lateral do Duomo e me disse que íamos até o topo. E fomos mesmo. Quatrocentos e sessenta e três degraus de pedra, e Francesca subiu as escadas como se houvesse molas em seus saltos-agulha. Quando enfim chegamos, eu não conseguia parar de tirar fotos. Florença parece um labirinto tingido de laranja, com torres e prédios sobressaindo-se aqui e ali, mas nada tão alto quanto o Duomo. Havia colinas verdes ao longe, e o céu era de um tom perfeito de azul. Francesca só parou de falar quando viu como eu estava maravilhada.

Ela nem ficou zangada quando abri os braços, sentindo o vento e saboreando uma sensação nova, a liberdade. Antes de descermos, dei um abraço apertado nela, que me afastou e disse: “Chega, chega. Você chegou aqui sozinha. Eu só a trouxe para ver o Duomo. Agora vamos às compras.

Nunca vi uma calça jeans mais triste. Sério, Hadley, ela me dá vontade de

 

chorar.”

— Não acredito — sussurrei para mim mesma.

Qual era a chance de eu ler aquela passagem do diário no mesmo dia em que eu tinha visto o Duomo pela primeira vez? Passei os dedos pelas palavras, imaginando minha mãe, com vinte e poucos anos, correndo para acompanhar a tirânica e ágil Francesca. Será que em parte fora por isso que ela enviara o diário? Para vivenciarmos Florença juntas?