Amor & gelato
Capítulo 17
— Ok. Bem, ele pode não ter ficado aqui por muito tempo. Acho que acabou aceitando um emprego em Roma e...
Ele se levantou, erguendo um dos braços para me interromper.
— Desculpe, mas muitos dos membros do nosso corpo docente vêm e vão.
Eu não me lembro. — Ele assentiu para nós. — Foi um grande prazer conhecê-los. Se voltar à cidade um dia, por favor venha nos dar um alô. — A voz dele continuava gentil, mas ele claramente estava encerrando o assunto.
Sem dúvida não queria falar sobre aquilo.
Ele não ia revelar nada sobre X.
— Obrigada pela ajuda — falei, enfim, me levantando.
Quando eu e Ren passamos pela mesa de Violetta, ela se levantou às pressas e nos abriu um sorriso tão grande quanto o Arno.
— Foi uma grande honra conhecer você, e fico muito feliz por ter conseguido ajudar. Tenham um dia maravilhoso.
— ... Obrigada.
Assim que a porta de vidro se fechou atrás de nós, Ren ergueu uma das sobrancelhas.
— O que foi aquilo?
Capítulo 17
— PETRUCIONE COM CERTEZA sabia de quem estávamos falando. Você viu a cara que ele fez?
Ren assentiu.
— Impossível não ter reparado nisso. E cinco segundos antes ele tinha comentado que não esquece o nome de ninguém. Só não quis nos contar mesmo.
— Espero que a gente tenha mais sorte com Francesca. — Digitei o número dela e liguei. — Está chamando.
— Pronto? — Um homem atendeu.
— Humm, Francesca Bernardi?
Ele respondeu num italiano rápido.
— Humm, Francesca? — repeti.
Ele estalou a língua. Depois o celular voltou a chamar e uma mulher atendeu.
— Pronto? — Sua voz era baixa e rouca.
— Alô, Francesca?
— Si?
— Meu nome é Carolina. Você não me conhece, mas conheceu minha mãe, Hadley Emerson.
Silêncio. Fiz uma careta para Ren.
— O que foi? — perguntou ele num sussurro.
— Carolina — disse ela lentamente. — Que surpresa. Sim. Eu conheci sua mãe. Ela era uma grande amiga minha.
Meu coração acelerou.
— Estou tentando descobrir um pouco mais sobre os... estudos dela em Florença. Vocês dividiram apartamento, não é?
— Sim. E nunca existiu mulher mais desorganizada! Achei que eu ia acabar enterrada viva na bagunça dela.
— É... isso era mesmo um problema. Você se importaria de responder a algumas perguntas sobre a época que ela passou em Florença?
— Claro, posso responder, sim, mas por que quer me fazer essas perguntas?
Há anos que não falo com ela.
— Bem... — Hesitei. Eu nunca sabia como dar essa notícia. Era como abrir uma represa. Impossível prever a reação das pessoas. — Ela morreu. Há pouco mais de seis meses.
Francesca arquejou.
— Non ci posso credere. Como?
— Câncer no pâncreas. Foi de uma hora para outra.
— Ah, pobrezinha. Era troppo giovane, veramente. Eu adoraria conversar sobre sua mãe. Depois de terminar o curso ela sumiu da face da Terra. Nenhum de nós conseguiu mais entrar em contato.
— Você...? — Fiz uma careta. — Isso pode parecer estranho, mas você lembra se ela estava namorando alguém?
— Ah, a vida amorosa de Hadley Emerson... Parecia uma novela. Sua mãe estava apaixonada, sim, e acho que metade de Florença caiu de amores por ela.
Eu sempre soube quem era o homem certo para ela, todos nós sabíamos, mas aí apareceu aquele Matteo arruinando tudo.
— Matteo? — repeti, com a voz falhando.
Nem precisei insistir, Francesca soltou o nome de uma vez.
Ren ergueu o rosto de repente.
— Sim. O nosso professor — continuou Francesca.
— Professor — sussurrei para Ren.
Bom, aquilo explicava por que mantiveram o namoro em segredo.
— ... Ele bagunçou a cabeça dela. Fiquei furiosa por ter magoado minha amiga... — Ela se calou. — Parece que estou contando velhos segredos.
— Qual era o sobrenome do Matteo?
Ela hesitou.
— Acho que era Rossi. Sim, é isso mesmo, mas eu não deveria ter falado dele. Aquele homem foi uma perda de tempo para todo mundo, sobretudo para sua mãe. — Ela suspirou. — Todos queríamos salvá-la dele. Ele era charmoso.
Muito bonito, mas controlador. Achava que podia encontrar um talento e se apossar dele. A demissão do Matteo foi um escândalo.
— Demissão? — “Espaço criativo” uma ova.
— Sim, mas são águas passadas. — A voz dela se animou. — Sabe quem seria uma ótima pessoa para conversar sobre isso? Howard Mercer. Ele era outro amigo nosso da faculdade, e hoje trabalha num cemitério pertinho de Florença.
Era muito próximo da sua mãe. Quer o número dele?
— Não, não precisa — falei, depressa. — Então, Matteo Rossi. Alguma ideia de onde ele pode estar hoje em dia?
— Nenhuma. E prefiro assim. Mas quantos anos você tem, Carolina? Eu também tenho uma filha.
— Dezesseis.
— Dezesseis? Hadley era nova demais para ter uma filha da sua idade. Então, vejamos, isso significa que você nasceu em... — Ela se calou. — Aspetta.
Dezesseis anos?
— Humm, sim.
A voz dela ficou mais aguda.
— Carolina, você está me ligando porque...
— Preciso ir. Foi bom falar com você. — Desliguei correndo.
Ren estava apoiado em mim, com a orelha a poucos centímetros do celular.
Ele deu um passo para trás.
— O que foi isso?
— Ela estava tentando descobrir quem é meu pai. Acho que talvez eles ainda se falem, e não quero que isso chegue ao Howard.
— Como ela disse que X se chama?
Abri um sorriso triunfante.
— Professor Matteo Rossi. Tenho certeza de que vamos encontrá-lo.
Ren e eu corremos até o cyber café mais próximo. Eu esperava encontrar um monte de cappuccinos descolados ou pelo menos uma vitrine cheia de muffins gigantescos polvilhados com açúcar, mas o lugar só tinha uma fileira de computadores antigos e um grupo de pessoas mal-encaradas esperando na fila para apagar spam da caixa de entrada. Que decepção.
— Tem certeza de que não quer usar o meu computador lá em casa? —
sugeriu Ren, meio sem jeito.
— Não. Quero encontrar Matteo agora.
Meu celular apitou na bolsa.
Quer ir a uma festa amanhã à noite? É de uma garota que se formou no ano passado. Banda, bar, fogos de artifício...
– Thomas
Eu me preparei para sentir um friozinho ainda maior na barriga, mas nada aconteceu. Na verdade, achei até que esquentou alguns graus. Olhei furtivamente para Ren. Lina, você precisa se controlar. Por que hoje eu o estava achando tão bonito? Só porque ele era a única pessoa que eu conhecia disposta a embarcar comigo numa busca insensata pelo ex-namorado da minha mãe?
— Quem é? — perguntou Ren.
— Ninguém.
— Então, Lina... — A boca dele se curvou para baixo numa expressão preocupada e fofa. Não, nada fofa. — Está na cara que Petrucione não queria falar do Matteo, e Francesca pelo visto também não gosta muito dele. Acha mesmo uma boa ideia procurar esse cara? E se ele for um babaca?
— Ele com certeza era um babaca, mas, sim, quero conhecê-lo. Ele foi muito importante na vida da minha mãe, e ela devia querer que eu soubesse da existência dele, senão por que teria me enviado o diário? Sinto que encontrá-lo é um grande passo pra entender tudo.
Ele assentiu, ainda parecendo em dúvida.
— Ok, mas “Matteo Rossi” é um nome bem comum. É como procurar um Steve Smith nos Estados Unidos.
— Vamos encontrá-lo — falei, num tom confiante. — Pensa bem, já tivemos muita sorte hoje. Primeiro, encontramos a escola...
— Aquilo foi um milagre.
— ... E em segundo lugar, depois que chegamos lá, você se lembrou de mencionar Petrucione. Se não tivesse falado no nome dele, acho que Violetta teria nos colocado pra fora. — Do outro lado do café, uma mulher se levantou do computador. — Ei, olha! Acho que um deles vagou.
Corri em direção ao computador, seguida por Ren, e nos esprememos na cadeira.
— Quer que eu procure em sites italianos? — perguntou ele.
— Sim. A última coisa que sabemos é que ele se mudou pra Roma, então é provável que ainda esteja lá.
— O que devo procurar?
Tirei o diário da bolsa e comecei a folheá-lo.
— Matteo Rossi Academia de Belas-Artes de Florença? Matteo Rossi fotógrafo Roma? Junta tudo o que sabemos sobre ele.
Ren digitou tudo o que falei, e começou a deslizar o cursor pela tela, parando de vez em quando para ler. Também tentei ler, mas nenhuma das minhas cinco frases em italiano apareceu.
— Nada. Nada. Nada... Alguma coisa? Que tal isto?
— O quê?
Ele clicou num dos resultados da busca.
— Parece um anúncio. Em inglês.
JUNTE SEU DESEJO DE VIAJAR COM A PAIXÃO POR
FOTOGRAFIA
Acompanhe o renomado fotógrafo e dono de galeria Matteo Rossi numa jornada por Roma que mudará sua forma de ver o mundo. Com as diversas oficinas de fotografia oferecidas ao longo do ano, Rossi transformará seu hobby em algo mais.
— Ren, você o encontrou! Só pode ser ele.
— Vamos olhar o site.
Ele clicou no link na parte inferior do anúncio, e o site carregou numa lentidão aflitiva.
— Aiii. Está demorando demais — reclamei.
Era como observar a era do gelo em câmera lenta.
— Pazienza — disse Ren.
O site enfim carregou. Era monocromático com um grande banner dourado na parte de cima com os dizeres ITÁLIA ATRAVÉS DAS LENTES.
Tirei o mouse da mão do Ren, e rolei a página para ler a enorme quantidade de texto. Todos os parágrafos eram escritos em inglês e italiano, e eram basicamente um monte de blá-blá-blá dizendo que você seria insuportavelmente feliz se pagasse um dinheirão pela oportunidade de venerar Matteo. Não consegui acreditar que o cara era tão irritante.