Amor & gelato
Capítulo 4
ASSIM QUE ENTREI, fui direto para a cozinha. Achei que se eu perguntasse, Howard faria o discurso mi casa, su casa, provavelmente em italiano, então em vez de perguntar, ataquei a geladeira.
As duas primeiras prateleiras estavam cheias de coisas como azeitonas e mostardas gourmet, que dão um sabor a mais, mas não são a comida em si, então olhei as gavetas, finalmente encontrando um pote que parecia iogurte de coco e um pão massudo. Fiquei arrasada por não encontrar nenhuma sobra da lasanha.
Depois de devorar metade do pão e quase lamber o fundo do pote de iogurte (de longe o melhor que já tinha tomado), vasculhei os armários até encontrar uma caixa de granola cujo rótulo dizia CIOCCOLATO. Bingo. Eu identificava a palavra chocolate em qualquer língua.
Comi uma tigela enorme de granola, depois limpei a cozinha como se fosse a cena de um crime. E agora? Bem, em Seattle, eu provavelmente estaria me arrumando para ir à piscina com Addie ou talvez pegando a bicicleta na garagem e exigindo que fôssemos tomar um daqueles milk-shakes triplos de chocolate que praticamente me mantinham em pé. Mas ali? Eu não tinha nem internet.
— Banho — falei, em voz alta.
Era algo para fazer. E, além disso, eu estava mesmo precisando.
Subi, peguei a pilha de toalhas no meu quarto e fui para o banheiro. Era muito limpo, como se Howard o esfregasse toda semana com água sanitária.
Talvez fosse por isso que ele e minha mãe não tinham dado certo. Ela era incrivelmente bagunceira. Uma vez encontrei na mesa dela um pote de macarrão tão velho que tinha ficado azul. Azul.
Fechei a cortina do box, mas não tinha a menor ideia do que fazer em seguida. O chuveiro era pequeno e parecia frágil, e sob ele havia duas torneiras com as letras C e F.
— Calor e frio? Congelante e fervente?
Eu liguei o F e deixei a água jorrar por alguns instantes, mas quando coloquei a mão sob o jato, estava gelada. Ok. Talvez o C?
Exatamente o mesmo resultado, ou meio grau mais quente. Soltei um gemido. Será que aquele probleminha com a tecnologia aqui na Itália incluía chuveiros gélidos? E que escolha eu tinha? Depois de viajar um dia inteiro e de fazer um dos treinos de velocidade mais difíceis da minha vida, eu precisava
muito tomar um banho.
— Quando em Roma... — Trinquei os dentes e entrei. — Frio! Frio! Ahh!
Peguei um frasco de alguma coisa na borda da banheira e esfreguei no cabelo e no corpo, enxaguando e saindo de lá o mais depressa possível. Depois peguei a pilha inteira de toalhas e comecei a me enrolar como uma múmia.
Bateram à porta e eu congelei. De novo.
— Quem é?
— Sou eu, Sonia. Você está... bem aí dentro?
Fiz uma careta.
— Hum, estou. Só tive uns problemas com a água. Não tem água quente aqui?
— Tem, só que demora um pouco. Na minha casa, às vezes preciso deixar o chuveiro ligado por uns bons dez minutos antes de ficar numa temperatura boa.
C significa “caldo”, ou seja, “quente”.
Balancei a cabeça.
— Bom saber.
— Olhe, desculpe incomodá-la de novo, mas eu só queria dizer que deixei o diário na sua cama.
Fiquei paralisada. O diário? Espera, eu devia ter ouvido mal. Talvez ela só tivesse dito “o aquário”. Um aquário seria um presente muito gentil. E se eu fosse dar um aquário para alguém, sem dúvida o colocaria na...
— Lina... Está me ouvindo? Eu trouxe o diário que...
— Só um minuto — gritei.
Tudo bem, ela claramente dissera “diário”, mas não significava que era algum diário em especial. As pessoas dão diários para as outras o tempo todo. Eu me enxuguei e me vesti depressa. Quando abri a porta, Sonia estava no corredor segurando um vaso com flores.
— Você me deu um diário novo? — perguntei, esperançosa.
— Bem, na verdade é velho. É um caderno que pertencia a sua mãe.
Eu me apoiei no batente da porta.
— Está falando de um caderno grande de couro cheio de fotos e coisas escritas?
— Sim. Exatamente ele. — Ela franziu a testa. — Você já viu antes? Ignorei a pergunta.
— Achei que você só ia me dar uma das fotos dela ou coisa do tipo.
— Na verdade, eu tenho uma foto, mas está pendurada na parede do quarto de hóspedes e não quero me desfazer dela. É um close do Muro dos desaparecidos. É linda. Você deveria passar lá para ver.
Ao que parecia, o Muro dos desaparecidos era muito importante por ali.
— Por que você ficou com um dos diários dela?
Minha pergunta soou como um interrogatório policial, mas ela apenas assentiu.
— Ela o enviou para o cemitério em setembro. Não havia nenhum bilhete, e o pacote não estava endereçado a ninguém, mas quando o abri, reconheci na hora.
Quando morava no cemitério, ela levava aquele diário para todo canto.
Morava no cemitério?
— Enfim, pensei em entregar para o seu pai, mas sua mãe sempre foi uma espécie de tabu. Sempre que eu tocava no nome dela, ele ficava...
— O quê?
Ela suspirou.
— Foi difícil para ele quando ela foi embora. Muito difícil. E mesmo depois de todos esses anos, eu tive medo de trazer o assunto à tona. Enfim, enrolei por uns dias e depois seu pai me contou o plano de você vir para cá. Foi quando entendi por que sua mãe tinha enviado o diário.
Ela me lançou um olhar esquisito e de repente percebi que tinha me aproximado lentamente. Estávamos a apenas quinze centímetros uma da outra.
Ops. Recuei às pressas, e perguntas começaram a sair da minha boca.
— Minha mãe morou no cemitério? Por quanto tempo?
— Não muito. Acho que por um mês mais ou menos. Foi logo depois que seu pai arrumou o emprego. Ele mal tinha se mudado para esta casa.
— Então eles estavam, tipo, juntos pra valer? Não foi um lance de uma noite entre amigos ou coisa do tipo? — Essa era a teoria da Addie.
Sonia estremeceu.
— Humm... não. Acho que não foi... isso. Eles pareciam muito apaixonados.
Seu pai a adorava.
— Então por que ela foi embora? Porque estava grávida? Howard não estava pronto pra ser pai?
— Não. Howard teria sido um ótimo pai... Eu achava... — Ela ergueu as mãos. — Espere um minuto. Não conversaram com você sobre o que aconteceu?
Sua mãe não contou?
Eu baixei a cabeça.
— Não sei de nada. Só soube que Howard era meu pai depois que minha mãe morreu.
Que ótimo. Agora eu ia chorar. Perder minha mãe tinha me transformado numa torneira humana. Do tipo comum com quente/frio.
— Ah, Lina. Eu não sabia. Sinto muito. Achei que tivessem conversado com você sobre o que aconteceu. Para ser sincera, nem eu sei o que deu errado.
Parece que o relacionamento deles terminou muito de repente e seu pai nunca
mais quis falar sobre o assunto.
— Ele já tinha falado de mim? Antes?
Ela balançou a cabeça e seus longos brincos pendentes oscilaram de um lado para outro.
— Não. Eu fiquei muito surpresa quando soube da sua vinda, mas você precisa mesmo falar com Howard. Tenho certeza de que ele vai responder a todas as suas perguntas. E talvez o diário também responda. — Ela me entregou um vaso de flores. — Fui à cidade hoje de manhã e seu pai pediu que eu comprasse isto para você. Ele disse que estavam faltando flores no seu quarto, e que violetas eram as preferidas da sua mãe.
Eu o peguei das mãos dela e o avaliei com atenção. As flores eram bem roxas e exalavam um cheiro suave. Eu tinha noventa por cento de certeza de que minha mãe não sentia nada de especial por violetas.
— Prefere que eu fique com o diário por um tempo? Pelo que parece, é muita informação de uma vez para você assimilar. Talvez você devesse conversar com seu pai antes.
Eu balancei a cabeça. A princípio devagar, e depois com mais ímpeto.
— Não, quero ficar com o diário.
Tecnicamente, era mentira. Eu tinha encaixotado os outros diários da minha mãe havia meses, quando vi que não conseguiria ler aquilo tudo sem desmoronar, mas aquele eu tinha que ler. Minha mãe o enviara para mim.
Pisquei algumas vezes, depois abri meu sorriso de “está tudo sob controle”
para Sonia, que me olhava com a expressão de uma pobre coitada presa num corredor com uma adolescente emocionalmente instável. E era exatamente isso que estava acontecendo.
Eu pigarreei.
— Vai ser legal. Saber o que ela fez enquanto esteve na Itália.
A expressão da Sonia se amenizou.
— Sim, pois é. Tenho certeza de que foi por isso que ela o enviou. Você vai vivenciar Florença exatamente como ela, e talvez seja uma bela conexão.
— É, talvez.
Se eu conseguisse passar da primeira página sem desmoronar.
— Lina, é maravilhoso ter você aqui. E passe na minha casa quando quiser para ver a foto da sua mãe. — Ela foi até o patamar da escada e olhou para trás.
— As violetas devem estar precisando de um pouco de água, mas aviso que é melhor regar por baixo. É só encher um prato de água e colocar o vaso dentro.
Assim você não exagera.
— Obrigada, Sonia. E eu, humm... Desculpa por todas aquelas perguntas.
— Eu entendo. Eu adorava sua mãe. Ela era muito especial.
— É. Era mesmo. — Hesitei. — Você se importaria de não mencionar essa conversa pro Howard? Não quero que ele pense que estou... humm... zangada com ele ou coisa assim.
Nem quero instigar qualquer conversa constrangedora que não seja estritamente necessária.
Ela assentiu.
— Minha boca é um túmulo. Só prometa que vai conversar com Howard. Ele é um cara ótimo, e tenho certeza de que vai esclarecer qualquer dúvida que você tiver.
— Ok.
Desviei o olhar e houve longos segundos de silêncio.
— Tenha um bom-dia, Lina.
Ela desceu a escada e saiu pela porta da frente, mas fiquei ali parada olhando para a porta do quarto. Estava quase piscando como uma advertência: hora de entrar em pânico.
É apenas um dos diários dela. Você consegue. Você consegue. Enfim, comecei a atravessar o corredor, mas no último instante me desviei para a escada, tombando perigosamente o vaso com as violetas.
Segundo Sonia, as flores estavam sedentas. Eu tinha que cuidar delas primeiro. Desci a escada correndo, depois olhei duas vezes os armários antes de encontrar um prato raso e grande o suficiente para o vaso.
— Pronto, meninas.