Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 11 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 10

Naquele breve momento eu me senti viva, muito mais do que durante todo o ano anterior. Talvez durante toda a minha vida.

 

Capítulo 10

ENTÃO, TALVEZ ANDAR de scooter encharcada não tivesse sido a melhor ideia. Eu estava tremendo quando paramos na frente de casa. Além disso, a piscina tinha reativado a loucura natural do meu cabelo e, quando tirei o capacete, ele se transformou numa nuvem fofa ao redor da minha cabeça.

— Você está tremendo de frio ou de medo?

— De frio. Ren, fala sério. Estamos uma hora atrasados. O que ele vai fazer?

A porta se abriu de repente e Howard apareceu, uma enorme silhueta contra a luz.

Ren também começou a tremer.

— Quer que eu entre com você? — sussurrou Ren.

Fiz que não.

— Obrigada pela carona. Eu me diverti muito.

— Eu também. Vejo você amanhã. Boa sorte.

Fui até a porta com a calça grudada nas pernas.

— Desculpa o atraso. Perdemos a noção do tempo.

Howard estreitou os olhos para mim.

— Seu cabelo está molhado?

— Eles me fizeram andar na prancha.

— Na prancha?

— É o ritual de iniciação. Eu pulei na piscina.

Um leve sorriso cintilou sob sua expressão séria.

— Então a noite foi um sucesso.

— Foi.

— Fico feliz. — Ele olhou por cima de mim. — Boa noite, Ren.

— Boa noite, senhor... pai da Carolina.

Ren virou a scooter e foi embora, espalhando cascalho.

— Olá, olá — disse uma mulher quando entrei em casa com Howard.

Sonia e mais quatro pessoas estavam sentadas nos sofás, segurando taças de vinho. Jazz tocava ao fundo e todo mundo parecia meio alto. Pelo visto, Howard também estava dando uma festa. Ao estilo cemitério. Talvez mais tarde todos tivessem que mergulhar em piscininhas diante do memorial.

— Pessoal, esta é Lina — disse Sonia. — Lina, esse é o pessoal.

— Oi.

— Che bella. Você é uma beldade — ronronou uma mulher mais velha com óculos de gatinho.

Howard sorriu.

— Ela não é linda?

— Somos velhos amigos do seu pai — disse um dos homens num inglês vagaroso. — Nós o conhecemos desde seus dias loucos de garanhão. Ah, quantas histórias poderíamos contar.

— É — concordou o cara ao lado dele. — Howard não estava brigando com você por ter chegado tarde, não é? Porque talvez eu devesse lembrar a vez em que viajamos de mochilão pela Hungria e ele...

— Chega — disse Howard, às pressas. — Lina deu um pulinho na piscina, então tenho certeza de que ela quer subir e trocar de roupa.

— Que pena — falou Óculos de Gatinho.

— Boa noite — falei.

— Boa noite — responderam todos em coro.

Subi a escada. Estava congelando.

— Ela é a filha da fotógrafa? — perguntou a moça dos óculos de gatinho.

Eu parei.

— Sim. Ela é filha da Hadley. — Silêncio.

E... sua também, não é? Esperei que ele esclarecesse, mas alguém mudou de assunto.

Como assim?

* * *

Liguei para Addie no FaceTime assim que vesti uma roupa seca.

— Está pronta pra dizer “Eu avisei”?

— Estou sempre pronta pra falar “Eu avisei”. Ai, meu Deus! Como foi?

Incrível? — Ela começou a pular na cama.

Eu abaixei o volume do computador.

— Sim. In-crí-vel.

— Por favor, diz que conheceu o italiano mais gato de todos os tempos.

— Conheci, mas ele não é italiano. É inglês.

Ela soltou um gritinho.

— Melhor ainda! Ele tem redes sociais? Preciso investigar a vida dele.

— Não sei. Não perguntei.

— Vou pesquisar. Qual é o nome dele?

— Thomas Heath.

— Até o nome é atraente. — Addie ficou quieta por um minuto enquanto digitava o nome dele. — Thomas... Heath... Florença... — Ela ficou sem ar. —

MINHA NOSSA SENHORA DA TENTAÇÃO. Ele tem o cabelo mais bonito que eu já vi. O garoto parece um modelo. Talvez um modelo de cueca.

— Não é?

— Já viu esse deus sem camisa? Você precisa dar uma olhada nessas fotos do perfil dele. Não consigo parar de ver. Ah, que ótimo. Agora você nunca mais vai voltar pra Seattle. Por que voltaria quando Thomas Heath está...

— Addie, calma! Ele pode ser um deus grego que não vai fazer diferença. Eu não vou ficar aqui.

— Como assim não vai fazer diferença? Você pode ter um casinho de verão, não é? E, uau! Quer dizer, sério, uau! O cara é lindo. Qual é o nome do seu outro amigo?

— Ren, mas o nome completo é Lorenzo Ferrara.

— É, você vai ter que soletrar pra mim.

— A mãe dele disse que é igual a Ferrari, só que com a.

— Ferrari com a... — Ela mordeu o lábio e digitou no teclado. — Cabelo cacheado? Joga futebol?

— É ele.

Ela sorriu para mim.

— Bem, Lina, você acertou dois alvos. Ren é muito fofo. Então, se não der certo com o Modelo de Cueca, você ainda estará bem servida.

— Não, Ren está fora de questão. Eu conheci a namorada dele hoje. Ela parece a Sadie Danes, só que sueca. E com alguns ajustes no Photoshop.

— Ah, fala sério. Você tentou fugir?

— Com certeza. Ela não ficou nada feliz quando viu que Ren tinha levado uma garota nova.

Addie suspirou, se recostando no travesseiro.

— Vou passar o resto do verão acompanhando sua vida na Itália. E eu sei que a coisa do cemitério é estranha, mas agora apoio cem por cento sua estadia aí.

Você precisa ficar pelo menos mais um pouco. Faz isso por mim. Por favor!

— Vamos ver. Como está o Matt?

— Ainda não entendeu que estou interessada. Mas quem se importa com ele?

Numa escala de um a dez, quão estranho seria se eu imprimisse o perfil do Thomas e emoldurasse?

Eu ri.

— Muito estranho. Até pra você.

— E se eu fizer um calendário do Thomas? “Doze Meses de Beleza Britânica”. Acha que consegue tirar mais fotos dele sem camisa? Talvez você

 

pudesse derramar suco nele na próxima vez que se encontrarem.

— Nem pensar.

Ela suspirou de novo.

— Você está certa. Seria muito estranho. Então, como está o diário?

— Vou ler mais um pouco agora. — Hesitei. — Ontem à noite foi meio difícil, mas também foi bom. Ela adorava este lugar.

— E você também vai adorar. E eu também. Indiretamente.

Balancei a cabeça.

— Veremos.

— Ok, volta pro diário. Quero saber qual foi a decisão errada dela. Esse suspense está me matando.

— Boa noite, Addie.

— Bom dia, Lina.

2 DE JULHO

Florença é exatamente como achei que seria, e completamente diferente. É

mágica: o chão de pedras, os prédios antigos, as pontes. Mas também é suja. Você pode estar andando pela rua mais encantadora que já viu na vida e de repente sentir o cheiro de esgoto a céu aberto ou pisar em algo nojento. A cidade encanta, depois traz você de volta à realidade. Nunca estive num lugar onde quisesse registrar tudo. Passo muito tempo fotografando coisas que parecem existir somente aqui na Itália: roupas penduradas em vielas, gerânios vermelhos em latas velhas de molho de tomate, mas no geral tento capturar as pessoas. Os italianos são muito expressivos; nem é preciso tentar adivinhar o que estão sentindo.

Hoje vi o pôr do sol na Ponte Vecchio. Acho que posso dizer que enfim achei o meu lugar. Simplesmente não consigo acreditar que tive que vir até o outro lado do mundo para encontrá-lo.

9 DE JULHO

Francesca me introduziu oficialmente em seu grupo de amigos. Todos também fizeram o último semestre na ABAF, e são inteligentes e hilários, e me pergunto secretamente se estão sendo seguidos por câmeras de um reality show. Como é possível tanta gente interessante junta no mesmo lugar? Eis o elenco:

Howard: O perfeito cavalheiro sulista (Francesca o chama de gigante sulista), bonito, gentil e o tipo de cara que iria para a guerra por você. Ele faz parte de um grupo de pesquisa sobre a história de Florença, e quando não está dando aulas está assistindo às aulas.

Finn: Aspirante a Ernest Hemingway de Martha’s Vineyard. Ele finge que a barba densa e o gosto por golas altas são obra do acaso, mas todos sabemos que ele passa metade de seu tempo lendo O sol também se levanta.

Adrienne: É francesa e talvez seja a pessoa mais bonita que já vi na vida real. Ela é muito quieta e incrivelmente talentosa.

Simone e Alessio: Juntei os dois porque estão SEMPRE juntos. Eles cresceram juntos perto de Roma e estão sempre aos socos, normalmente porque nenhum dos dois jamais namorou uma garota pela qual o outro não se apaixonasse na mesma hora.

E, enfim...

Eu: Entediante. Americana aspirante a fotógrafa que está tonta desde o instante em que seu avião aterrissou em Florença.

O apartamento que divido com Francesca se tornou o ponto de encontro oficial. Todos nos aglomeramos na sacada minúscula e temos longas discussões sobre coisas como velocidade do obturador e exposição. Não é o paraíso?

20 DE JULHO

Pelo visto, não dá para aprender italiano por osmose, por mais que você durma com Italiano para leigos aberto sobre o rosto. Francesca disse que aprender uma língua é a coisa mais fácil do mundo, mas falou isso enquanto fumava, estudava abertura do diafragma e fazia um pesto caseiro, então talvez não entenda muito bem o significado da palavra

“fácil”. Eu me inscrevi no curso de italiano para iniciantes do instituto. As aulas são à noite três vezes por semana. Finn e Howard também estão no curso. Os dois estão bem mais adiantados que eu, mas fico feliz por ter a companhia deles.

 

23 DE AGOSTO

Faz mais de um mês que não escrevo, mas por um bom motivo. Tenho certeza de que não será nenhuma surpresa quando disser que me A-P-A-I-X-O-N-E-I. Que clichê! Mas, sério, mude-se para Florença, coma algumas garfadas de massa, depois passeie ao crepúsculo e simplesmente TENTE

não se apaixonar pelo cara por quem você está babando desde o primeiro dia! Provavelmente você não vai conseguir. Eu amo estar apaixonada na Itália, mas verdade seja dita: eu me apaixonaria por X em qualquer lugar.

Ele é bonito, inteligente, charmoso e tudo o que sempre sonhei. Também estamos mantendo as coisas em segredo, o que, para ser sincera, o torna ainda mais atraente. (Sim, X. Eu duvido que alguém vá ler meu diário, mas vou me referir a ele assim só por precaução.)

O QUÊ? Deixei o caderno cair no meu colo. Só tinha levado três páginas para Howard ter passado de “cavalheiro sulista” certinho a amante secreto X. Pelo visto, eu não estava dando crédito suficiente a ele.

Peguei meu laptop e fiz outra chamada de FaceTime. Addie atendeu na hora.

Seu cabelo estava enrolado numa toalha e ela segurava um waffle mordido.

— E aí?

— Eles tiveram que manter o relacionamento em segredo — falei, baixinho.

Pelo que eu podia ouvir, os convidados do Howard ainda estavam se cumprimentando lá fora, na varanda, com tapinhas nas costas e falando “Vamos repetir isto em breve”.

— Howard e sua mãe?

— É. Ela escreveu que eles eram do mesmo grupo de amigos, e de repente começa a chamá-lo de X porque tem medo que alguém pegue seu diário e descubra que eles estão namorando em segredo.

— Que escândalo! — exclamou Addie, alegre. — Por que eles tinham que manter segredo? Ele era da máfia ou coisa do tipo?

— Ainda não sei.

— Liga de novo assim que descobrir. Droga. Eu não vou estar aqui! O Ian vai me levar à concessionária. Finalmente vou pegar meu carro de volta.

— Que boa notícia.

— Nem me fala. Ontem à noite ele me fez dobrar toda a roupa lavada nojenta dele antes de me levar na casa do Dylan. Me liga amanhã?

— Com certeza.

 

9 DE SETEMBRO

Agora que comecei a escrever minha storia d’amore, posso contar como foi desde o começo. Na verdade, X foi uma das primeiras pessoas que conheci ao chegar em Florença. Ele deu uma das palestras de abertura do semestre, e depois eu simplesmente não consegui parar de pensar nele.

Claro que ele é talentoso, e tem aquele tipo de beleza que faz você gaguejar mesmo ao dizer “oi” e “tchau”, mas havia algo a mais; ele tinha uma complexidade que me fez querer entendê-lo.

Por sorte conseguíamos passar bastante tempo juntos dentro e fora da sala de aula. Só que nunca estávamos sozinhos. Nunca. Ou Francesca estava sentada no canto tagarelando ao celular, ou Simone e Alessio pediam opinião em alguma nova discussão ridícula, e nossas conversas pareciam nunca ir muito longe. Eu tinha uma grande dúvida na cabeça. ELE ESTÁ

OU NÃO INTERESSADO? Em certos dias, eu tinha certeza de que sim, e em outros, nem tanto. Talvez eu só estivesse imaginando coisas.

Mesmo assim, sempre o pegava me olhando durante a aula, e toda vez que conversávamos havia algo entre nós que eu não podia ignorar. Isso durou semanas. E então, finalmente, quando achei que estava imaginando a coisa toda, eu o vi na Space. Francesca chamava o lugar de boate oficial da ABAF, mas ele nunca tinha ido conosco. Eu havia saído para tomar um pouco de ar, e quando entrei de novo, lá estava ele, encostado na parede.

Sozinho.

Eu sabia que era minha chance, mas quando comecei a me aproximar, percebi que não sabia o que dizer. “Oi. Espero não parecer louca, mas você notou que nós dois temos uma química estranha?” Por sorte, nem tive que abrir a boca. Assim que me viu, ele estendeu a mão e segurou meu pulso. “Hadley”, disse. E pelo jeito que ele falou... eu soube que não estava imaginando coisas.

15 DE SETEMBRO

Encontrei X nos Jardins de Boboli para ficarmos um pouco sozinhos. É

um parque do século XVI que parece um oásis no meio da cidade. Cheio de obras arquitetônicas, chafarizes e espaço suficiente para fazer qualquer

um esquecer que está numa cidade. Nós dois levamos nossas câmeras, e depois de fotografarmos tudo o que queríamos, nos sentamos debaixo de uma árvore e conversamos. Ele sabe muito sobre arte. E história. E

literatura. (E sobre tudo. Mesmo.) O parque fechou às sete e meia, mas quando me levantei para guardar as coisas, ele me puxou e nos beijamos até o guarda nos mandar ir embora.

20 DE SETEMBRO

A única parte difícil de estar apaixonada por X é não contar a ninguém. Eu sei que a escola não gostaria que namorássemos, mas é difícil manter algo assim em segredo. É uma tortura passar metade do dia a três metros um do outro sem poder tocar nele.

Eu não tenho nenhum talento para guardar segredos, e todo mundo parece saber que estou apaixonada. Parte disso é logística. Na maioria das noites, nos encontramos tarde, e eu não volto para casa antes das três ou quatro da manhã. Eu disse à Francesca que estou treinando minha fotografia noturna, mas ela se limitou a revirar os olhos e dizer que sabe tudo sobre

“fotografia noturna”. Parte de mim se pergunta se todo mundo está só fingindo não saber o que está acontecendo. Será que são assim tão burros?

Nosso relacionamento está acontecendo bem debaixo do nariz deles!

9 DE OUTUBRO

X e eu estamos começando a ficar muito criativos na hora de achar lugares para os encontros. Sabíamos que todos os outros ficariam em casa estudando esta noite, então fomos à Space (aquela de antes) e depois de dançarmos até cansar, perambulamos pela cidade. X disse que tinha uma surpresa para mim e nos embrenhamos pelas ruas escuras até eu sentir o cheiro de algo maravilhoso, uma mistura de açúcar, manteiga e algo mais.

Êxtase?

Enfim, viramos uma esquina e vimos um grupo de pessoas reunidas ao redor de uma porta iluminada. Era uma padaria secreta, o que é raro.

Basicamente, os padeiros trabalhavam durante a noite para preparar sobremesas para restaurantes, e embora fosse ilegal, eles vendiam doces recém-saídos do forno por alguns euros.

 

Só algumas pessoas bem-informadas sabem disso, mas estas, bem...

Digamos apenas que correm o risco de se tornarem notívagas.

Todo mundo na fila estava muito quieto e nervoso, e quando chegou nossa vez, X comprou um cornetto recheado com chocolate, um tipo de croissant, e dois cannolis. Então nos sentamos no meio-fio e devoramos tudo. Quando cheguei em casa, Francesca, Finn e Simone estavam esparramados nos pequenos sofás, e todos ficaram implicando comigo, perguntando que fotos noturnas eram essas que eu havia tirado. Eu queria poder contar a eles.

Uau.

Para começo de conversa, quero ir a essa padaria secreta. Eu nem sabia o que era um cornetto ou um cannolis, e estava praticamente babando nas páginas.

Mas, acima de tudo, para que tanto segredo?