Amor & gelato
Capítulo 15
Eu me calei. Aquilo importava? Ela era só uma garota ciumenta. E toda vez que Ren a via, agia como se tivesse ganhado na loteria.
— Mimi o quê?
— Deixa pra lá. Podemos ir até a Piazza della Signoria? Quero ver aquela estátua.
Capítulo 15
FICAMOS QUIETOS DURANTE o percurso de scooter até a piazza. Já passava das onze horas e a cidade estava diferente. Meio vazia. Assim como eu, depois de abrir um berreiro vergonhoso na saída da boate. Ren parou no meio-fio e nós descemos.
— É aqui?
— É aqui. Piazza della Signoria.
Ele me olhava como se eu fosse uma caixa de louça frágil, mas eu ainda estava coberta de muco, então talvez fosse justificável.
Entrei pela piazza. Um dos lados era tomado por um prédio grande que parecia uma fortaleza com uma torre de relógio, e diante dele havia um chafariz com a estátua de um homem cercado por figuras menores. Algumas pessoas andavam por ali, mas o lugar estava quase vazio.
— Que prédio é aquele? — perguntei.
— O Palazzo Vecchio.
— Alguma coisa velha... Palácio velho?
— Esattamente. Você está ficando boa nisso.
— Eu sei. Reconheci a palavra “velho”. Agora sou praticamente fluente.
Sorrimos um para o outro. Meus olhos eram como balões cheios de água, mas pelo menos eu não estava mais fungando. Tinha sorte por Ren não ter me abandonado no ponto de táxi mais próximo.
— E então, o que foi mesmo que aconteceu aqui? — perguntou Ren.
— Foi a primeira vez que Howard disse que amava minha mãe. Eles estavam olhando uma estátua. Acho que tem algo a ver com sabina.
— Ah, sim. O rapto das sabinas. Acho que fica numa área coberta.
Atravessamos a piazza, vendo várias outras estátuas pelo caminho, depois passamos sob uma entrada em arco e chegamos a um grande pátio repleto de esculturas.
Eu a reconheci na hora.
— Ali está ela.
A obra era feita de mármore branco e ficava sobre um pedestal, com três figuras entrelaçadas numa coluna alta. Eu a contornei devagar. Minha mãe estava certa. Ninguém parecia feliz, mas todos estavam ligados uns aos outros e se complementavam. Também estavam nus, e músculos e tendões saltavam na
escultura. Giambologna não brincava em serviço.
Ren apontou.
— Repara só como a mulher está olhando para o outro homem. Ela não queria ir. E aquele cara no chão está apavorado.
— É. — Cruzei os braços, observando a estátua. — É só impressão minha ou aqui é um lugar estranho para Howard dizer que amava minha mãe?
— Talvez tenha sido espontâneo. Ele se deixou levar pelo luar ou algo assim.
— Mas ele estava estudando história da arte e acabara de contar a ela o episódio retratado pela escultura. Eu ficaria surpresa se não tivesse algum tipo de significado pra ele.
Ren hesitou.
— Por falar em Howard... preciso contar uma coisa.
— O quê?
Ele respirou fundo.
— Eu meio que perguntei sobre a padaria secreta.
Eu me virei de repente.
— Ren! Você falou do diário pra ele?
— Não, claro que não. — Ele tirou o cabelo dos olhos, evitando meu olhar.
— Foi quando você estava se arrumando. Inventei que minha mãe tinha encontrado uma padaria secreta quando se mudou pra cá, e depois perguntei se ele sabia onde ficava. Disse que eu ia levar você lá de surpresa hoje, depois da Space.
Ele então me fitou com aqueles olhos grandes e expressivos, e eu suspirei.
Era como tentar ficar zangada com um filhote de foca.
— Ele falou onde era?
— Não. Essa é a parte estranha. Ele disse que nunca foi a um lugar assim.
— O quê? E você a descreveu pra ele? — perguntei, de olhos arregalados.
— Sim. Tentei ser vago pra ele não perceber que eu estava me referindo ao encontro com sua mãe, mas ele agiu como se não fizesse a menor ideia.
— Então ele não se lembra de levá-la lá?
Ele balançou a cabeça.
— Não, foi mais que isso. Foi como se nunca tivesse ouvido falar das padarias secretas de Florença.
— O quê? Não é o tipo de coisa que alguém esquece.
— Também acho.
— Será que ele estava mentindo?
— Talvez. Mas por que mentiria? — Ele balançou a cabeça de novo. —
Passei as últimas horas tentando pensar por que ele se esqueceria da padaria, mas até agora não cheguei a nenhuma conclusão. Sem querer ofender, mas a história
dos seus pais é meio misteriosa.
Eu me encostei em uma das colunas, e fui escorregando para o chão, até meu corpo fazer um baque.
— Eu que o diga. Por que acha que estou lendo o diário?
Ele se sentou ao meu lado, depois se aproximou até nossos braços se tocarem.
— Sinto muito.
Suspirei.
— Não tem problema. E você está certo. Tem alguma coisa estranha. Sempre achei isso.
— Talvez você devesse perguntar a ele outra coisa do diário. Tipo um teste.
— Por exemplo, sobre O rapto das sabinas? — Olhamos para a escultura.
— É. Repara em como ele vai agir quando você perguntar sobre isso.
— Boa ideia. — Eu olhei para o chão. E foi a minha vez de hesitar. —
Então... preciso me desculpar por uma coisa que fiz.
— O quê?
— Na Space, eu e Mimi tivemos uma... discussão, e falei que você estava ignorando as ligações dela quando estávamos na Ponte Vecchio.
Ele arregalou os olhos.
— Cavolo. Acho que foi por isso que ela me chamou de disgraziato e foi embora.
— É. Quer dizer, não tenho certeza do que significa disgraziato, mas desculpa. Thomas me falou que você gosta dela há muito tempo, e espero não ter estragado tudo.
— Vou ligar pra ela quando chegar em casa. Vai ficar tudo bem. Parecia que ele estava tentando convencer a si mesmo. Respirei fundo.
— Ei, olha, se não puder mais sair comigo por aí, vou entender. Pelo visto, isso está complicando as coisas pra você.
— Não. É uma complicação boa. — Ele pegou o celular. — São quase onze e meia. Vamos voltar pro cemitério?
— É. É melhor eu voltar pro diário.
— E pro homem misterioso.
* * *
Quando cheguei em casa, o Homem Misterioso estava, por incrível que pareça, tirando uma forma de muffins do forno.
— Você está cozinhando?
— Estou.
— Já é quase meia-noite.
— Sou especialista em desastres culinários na madrugada. Além disso, achei que você podia querer comer alguma coisa quando chegasse, e meus muffins de blueberry são lendários. E por “lendários” quero dizer “comestíveis”. Sente-se.
Foi uma ordem. Puxei uma cadeira e me sentei.
— Então, aonde vocês foram hoje?
— Na Space. É uma boate perto do Arno — disparei, após hesitar por um instante.
Ele riu.
— Esse lugar ainda existe?
Ufa. Pelo menos da Space ele se lembrava.
— Sim. Já foi lá?
— Muitas vezes. Sua mãe também ia.
Eu me inclinei para a frente.
— Então vocês, tipo... iam juntos?
— Muitas vezes. Normalmente a gente ia quando deveria estar estudando.
Não sei como está agora, mas era o lugar ideal para estudantes estrangeiros.
Muitos americanos frequentavam.
Ele serviu alguns muffins num prato e puxou uma cadeira.
— A Space é meio nojenta. Não gostei muito de lá.
— Também nunca gostei muito. De boates. Não sou de dançar.
Então eu devia agradecer a ele por minha falta de talento para a dança.
Parti um muffin ao meio. O vapor subiu para o meu rosto. É agora ou nunca.
— Então, Howard, tenho uma pergunta. Você sabe muito sobre história da arte, não é?
— Sei. — Ele sorriu. — Está aí uma coisa sobre a qual sei bastante. Você sabe que eu dava aula de história da arte quando conheci sua mãe, não sabe?
— Sei. — Olhei outra vez para meu muffin e respirei fundo. — Bom, eu e Ren fizemos um passeio depois da Space, e paramos numa piazza. Piazza della Signoria? Enfim, havia uma estátua interessante lá, mas não sabíamos a história.
— Humm. — Ele se levantou e pegou o pote de manteiga na bancada, depois se sentou outra vez. — Tem muitas estátuas lá. Você sabe quem foi o escultor?
— Não. Ficava numa galeria ao ar livre. Tipo com um pátio coberto, onde qualquer um pode simplesmente entrar.
— Ah, sim. Loggia dei Lanzi. Vejamos... lá ficam os leões dos Médici, e o Cellini... Como era a escultura?
— Se bem me lembro, eram dois homens e uma mulher. — Prendi a respiração.
— Uma mulher sendo carregada?
Assenti.
Ele sorriu.
— O rapto das sabinas. Essa é muito interessante, porque o artista, Giambologna, nem pensava nela como uma verdadeira obra de arte. Só a fez como uma demonstração artística de que era possível incorporar três figuras numa única escultura. Ele nem se deu ao trabalho de nomeá-la, e no final acabou se tornando seu trabalho mais conhecido.
Ok. Interessante, mas nada a ver com a história que ele contou para minha mãe. Tentei de novo.
— Você sabe se minha mãe chegou a vê-la?
Ele inclinou a cabeça.
— Não sei. Não me lembro de ter conversado com ela sobre Giambologna.
Por quê? Ela comentou sobre isso?
Não me lembro. Seu rosto estava imaculado como um pote novinho de Nutella. Ficou claro que Howard não estava mentindo, mas seria possível ter esquecido? Será que ele sofreu algum traumatismo craniano ou tinha algum bloqueio mental que o impedia de lembrar detalhes de seu relacionamento com minha mãe?
De repente, fiquei com uma pulga atrás da orelha. E se ele não estivesse esquecendo? Ou negando? E se...? Eu me levantei, esmagando o muffin com a mão.
— Preciso subir.
Saí correndo da sala antes que ele conseguisse perguntar por quê.
* * *
As palavras da minha mãe rodopiavam pela minha mente enquanto eu subia a escada: Sim, X. Eu duvido que alguém vá ler meu diário, mas vou me referir a ele assim só por precaução.
Logo que entrei no quarto, tranquei a porta e procurei o diário. Acendi o abajur e comecei a folhear as páginas.
Howard: O perfeito cavalheiro sulista (Francesca o chama de gigante sulista), bonito, gentil e o tipo de cara que iria para a guerra por você.
Eu amo estar apaixonada na Itália, mas verdade seja dita: eu me
apaixonaria por X em qualquer lugar.
Howard se ofereceu para me levar em casa, e acabei contando sobre Adrienne e a médium.
— Não acredito — murmurei.
Existia um motivo para Howard não saber da padaria secreta ou da importância da estátua de Giambologna, e para minha mãe ter se distraído e o chamado pelo nome verdadeiro.
Ele não era X.
* * *
— Addie, atende, atende! — sussurrei.
— Oi, aqui é Addie! É só deixar uma mensagem que eu...
— Aiii!
Joguei o celular na cama e comecei a andar de um lado para outro. Onde ela estava? Fui até a janela e fiquei ali parada. Minha mãe tinha se apaixonado por alguém que não era Howard. Ela teve um caso apaixonado e arrebatador, mas acabou grávida de outra pessoa. Do Howard. Será que essa tinha sido a decisão errada? Ficar grávida do Howard quando na verdade amava outra pessoa? Foi por isso que fugiu da Itália?
Eu me joguei na cadeira, mas me levantei de novo. Ren atenderia! Pulei na cama, pegando meu celular entre as cobertas e ligando para ele.
Ele atendeu no segundo toque.
— Lina?
— Oi. Olha, eu fiz o que você sugeriu. Perguntei da estátua pra ele.
— E o que ele disse?
— Ele sabia tudo sobre ela, a história e tal, mas depois perguntei se minha mãe alguma vez chegou a ver a estátua, e Howard disse que não se lembrava de já ter conversado sobre isso com ela.
— Qual é a dele? Ou tem a pior memória do mundo ou...
— Ou nunca esteve lá — interrompi, impaciente.
— O quê?
— Ren, pensa bem. Talvez ele não conheça a padaria secreta nem saiba da confissão de amor na estátua das sabinas porque ele não é o X.
— Ah.
— Certo?
— Ahhh. Bom... sim. Ok, conta tudo.
— Acho que foi mais ou menos assim: minha mãe se mudou pra Itália e fez um monte de amigos, entre eles Howard. Aí, depois de uns meses, ela se apaixonou por esse tal de X. Alguma coisa aconteceu, talvez eles brigassem demais ou rolasse muita pressão porque a escola devia ter regras sobre namoros, e eles terminaram. Então minha mãe foi se consolar com um gentil cavalheiro sulista, que provavelmente sempre gostou dela. Ela tentou, mas não conseguiu tirar X da cabeça. Então, um dia descobriu que estava grávida e entrou em pânico, porque ia ter um filho com alguém que não amava.
— Faz todo o sentido!
— Eu sei. E isso explicaria por que ficamos afastadas dele durante todos esses anos. Digo, ele é um cara legal, e a julgar por todas as histórias que ela contou, sem dúvida era um bom amigo, mas não dá pra fingir que ama alguém.
Seria doloroso demais.
— Coitado do Howard, logo ele, tão ameaçador — suspirou Ren.
— E foi por isso que ela escreveu “Eu tomei a decisão errada”. Talvez esse tenha sido seu maior arrependimento. Ela teve uma filha com alguém que não amava.
— Só que você é essa filha. Acha mesmo que ela teria escrito isso na primeira página do diário?
— Ah. Provavelmente não. — Eu me sentei. — Mas, Ren, é triste demais!
Quer dizer, pelo jeito que Howard fala, dá pra ver que ele amava minha mãe. E
ela me contou várias histórias de como os dois se divertiam juntos. Só que isso não era suficiente... Ela amava outro!
— É como aquela música antiga “Love Stinks”.
— Nunca ouvi falar.
— Não? Toca em um monte de filmes. Fala de quando você se apaixona por alguém e essa pessoa está apaixonada por outro. E é um grande ciclo complicado em que ninguém fica com quem quer.
— Nossa, que deprimente.
— Nem me fala. — Ren hesitou. — Você vai contar pro Howard que sabe?
Sobre X?
— Não. Quer dizer, tenho certeza de que em algum momento vamos falar disso, mas só quando eu terminar de ler o diário. Preciso ter certeza de que minha teoria está certa.
5 DE ABRIL
Outra noite de drama. Simone arranjou entradas para uma boate nova perto da Piazza Santa Maria Novella e o nosso grupo, mais alguns outros alunos, se encontrou lá por volta das onze. Fiquei até tarde trabalhando no estúdio, então apareci sozinha, e quando cheguei lá, as duas primeiras pessoas que vi foram Adrienne e Howard. Eles estavam na lateral do prédio. Adrienne estava encostada na parede e Howard se inclinava sobre ela, dizendo alguma coisa baixinho. A cena era tão íntima que por um instante não entendi nada. Nunca tinha visto os dois nem sequer conversando sozinhos. O que estava acontecendo?
Entrei na boate sem que eles me vissem e encontrei o restante do grupo, depois os dois entraram separados, como se nada tivesse acontecido.
Então as coisas ficaram muito esquisitas. Em certo ponto da noite, Adrienne chamou Alessio de mentiroso, dizendo que ele tinha quebrado a promessa de ir com ela a uma exposição, e por algum motivo isso irritou Howard. Ele disse que ela era a última pessoa do mundo que podia chamar alguém de mentiroso e, que se tivesse alguma dignidade, contaria a verdade. Adrienne revidou dizendo que aquilo não era da conta dele.
Depois Simone se meteu e falou para os dois se acalmarem.
Acho que não sou só eu que tenho segredos.
19 DE ABRIL
X está fora da cidade há uma semana, mas volta amanhã. AMANHÃ. Eu não consigo pensar em outra coisa. Depois da aula, eu disse à Francesca que preciso encontrar o vestido. Aquele vestido incrível que faz qualquer um se apaixonar por você, sabe? (Ou, no meu caso, me deixa maravilhosa para o momento em que vou contar minha grande novidade.) Francesca era a pessoa perfeita a quem eu poderia pedir para me acompanhar, porque quando o assunto é fazer compras, ela tem a paciência de uma santa. Levamos cinco horas, mas finalmente o encontramos. É um vestido leve, off-white, muito feminino, com um decote em forma de coração que bate acima do joelho. Francesca até me convenceu a cortar o cabelo. Quem diria que cortar alguns centímetros de cabelo inútil poderia valorizar as maçãs do rosto?
E quer saber qual é a grande novidade? Esta semana, Petrucione perguntou se eu estaria interessada em passar o mês de agosto aqui para ajudar no próximo semestre. Vou receber por isso e meu visto de estudante vai ser prorrogado, o que significa que ficarei até o final do verão!
20 DE ABRIL
Acordei cedo, animadíssima para ver X, mas havia uma mensagem no meu celular. Ele decidiu ficar mais tempo na conferência e só vai chegar na segunda. Foi quando tive a brilhante ideia: vou surpreendê-lo em Roma! Mesmo que ele passe o dia inteiro em seminários, pelo menos vamos estar na mesma cidade. Não me importo de turistar o dia inteiro. Os trens expressos levam só uma hora e meia até lá, então, se eu pegar o das quatro da tarde hoje, já estarei no hotel quando X chegar. Mal posso esperar para ver a cara dele!
21 DE ABRIL
Esta é a terceira tentativa de me sentar para escrever o que aconteceu em Roma. Não acredito que estou escrevendo isso, mas ACABOU.
Não consegui encontrar a conferência de X na internet, então, quando cheguei, liguei para o celular dele e disse que estava na estação de trem com uma ótima notícia. Nesse momento, começaram a anunciar alguma coisa pelos alto-falantes da estação, e quando tudo ficou em silêncio novamente, percebi que havia algo errado. Ele me disse para esperar ali.
Meia hora depois, ele entrou correndo na estação, e ficou bem claro que tinha alguma coisa errada. Perguntei se ele queria se sentar num dos cafés da estação, e pelos vinte minutos seguintes o ouvi falar. Resumo da ópera: ele acha que o trabalho dele ficou estagnado, que precisa de um novo espaço criativo e decidiu sair da escola e procurar outro emprego em Roma. Ah, e a gente terminou.
Tudo acabado.
Fiquei ali sentada com as palavras rodopiando à minha volta. Foi como se minha mente não conseguisse processar o que estava acontecendo. Então
entendi tudo. Era o fim. Ele estava terminando comigo.
De repente, não consegui mais ouvir nenhuma desculpa, só a verdade nua e crua. Eu tinha passado nove meses mentindo para meus amigos. Havia me afastado da minha família. Mudara completamente minha vida para ficar perto dele, e o namoro não tinha tanta importância assim para ele.
Cheguei a cogitar que seria possível fazê-lo mudar de ideia... Pensei em dizer que eu tinha encontrado um jeito de ficar em Florença por mais tempo, mas mesmo naquele breve instante de negação, eu sabia que era inútil. Quando uma pessoa desiste de um relacionamento, não há nada que você possa fazer para segurá-la.
X ainda estava falando quando me levantei. Eu me despedi dele com uma voz normal, como se não tivesse acabado de ser estilhaçada em um milhão de pedaços, depois fui até o balcão e comprei uma passagem de volta no trem seguinte. Não fiquei em Roma nem uma hora. Nem tive a chance de usar meu vestido.
22 DE ABRIL
Hoje acordei achando que estava num pesadelo, mas assim como nos últimos dias, a realidade esperou que eu me situasse só para me derrubar de novo. Chorei até pegar no sono. Meus olhos ficaram tão inchados que precisei deixar um pano molhado sobre eles por um tempo para ficar mais apresentável para ir à aula. Eu tinha passado o fim de semana inteiro me apegando a um fiapo de esperança de que X estaria na aula hoje, mas é claro que não estava. Será que acabou mesmo? Nunca senti tanta dor.
Nunca.
25 DE ABRIL
No fim das contas, Francesca sempre soube. Ontem à noite, depois do jantar, ela me abraçou e disse que X não valia a pena, e que nunca valera.
Fiquei muito surpresa. Todo mundo sabia?
2 DE MAIO
Hoje de manhã Petrucione anunciou que X tinha deixado o cargo. Senti um alívio enorme, não por ele ter ido embora oficialmente, mas porque alguém disse o nome dele. Não contei a ninguém sobre o relacionamento,
então agora não posso compartilhar meu sofrimento. Me sinto muito sozinha. Conversar com Francesca não ajuda. Se toco no nome de X, ela fala mal dele e acabo me sentindo pior. Florença é o lugar perfeito para se apaixonar, o que significa que é o pior lugar do mundo para ficar de coração partido. Em certos dias, só quero ir para casa. Será que devo passar o verão aqui?
— Mãe — sussurrei.
A tristeza dela se espalhava pelo diário como uma tinta que até então não havia secado. Destroçaram seu coração numa estação de trem em Roma e ela nunca nem sequer mencionou isso para mim. Como era possível? Eu conhecia aquela mulher?