Amor & gelato
Capítulo 16
Dei outra olhada nos últimos relatos do diário. Sem dúvida, X foi um idiota.
O que mais me dava ódio era ele ter dito que precisava de um “novo espaço criativo”. Que papo é esse? E era horrível ela não ter percebido que ele queria terminar, ainda mais porque, para quem via de fora, era muito óbvio que o relacionamento não iria a lugar nenhum. Ler aquelas últimas frases foi como assistir a um acidente de trem em câmera lenta.
E também havia Howard. Passei o dedo sobre a parte que falava dele e de Adrienne. Claro que ele também fazia algo por baixo dos panos. Será que ele e Adrienne estavam namorando e terminaram pouco depois da minha mãe e X?
Será que meus pais estavam interessados em outras pessoas e meio que acabaram ficando juntos? Por isso que não tinha durado? E o que havia de tão especial em X, afinal?
Eu queria continuar lendo, mas minhas pálpebras estavam se fechando.
Enfim, desisti, colocando o diário no criado-mudo e apagando a luz.
Capítulo 16
— PRECISO DA SUA ajuda.
Eu havia acordado com uma ideia brilhante e, embora tivesse esperado até uma hora socialmente aceitável, praticamente precisei arrancar Ren da cama.
Acabamos sentados na varanda da casa de doces, e ele parecia só trinta por cento acordado.
— Não podia esperar?
Ele estava com uma calça preta de moletom e uma camiseta desbotada e, como sempre, ficava tirando o cabelo do rosto toda hora. Devia ser só a luz da manhã, mas ele estava bonito. Tipo, mais ninguém no mundo ficaria tão bonito com aquele cabelo desgrenhado e aquela cara de sono.
— O que foi?
Ele me pegou no flagra, e eu desviei o olhar depressa.
— Nada. Só preciso da sua ajuda com uma última coisa.
— Olha, você sabe que estou bastante interessado em desvendar esse mistério por trás da história do Howard e da Hadley, mas posso dormir antes?
— Não! Ren, por que você está tão cansado?
— Fiquei no telefone com Mimi até umas três da manhã.
De repente, o sol pareceu forte demais.
— Ela ficou mesmo com raiva? Por causa do que eu disse ontem à noite?
— Sim. Ficou. — Ele suspirou. — Mas não vamos falar disso. Você precisa de ajuda pra quê?
— Você poderia me dar uma carona até a ABAF?
— A escola onde sua mãe estudou?
— É. Eu liguei pra lá hoje de manhã. Eles se mudaram pra outro lugar há alguns anos, mas quero ver se consigo alguma informação sobre Francesca.
— Francesca, a fiscal da moda?
— Acho que é minha melhor chance de encontrar o X. Afinal, ela sabia sobre eles o tempo todo.
— Ei, calma. Vamos procurar o X? Por quê?
— Porque minha mãe teve toda uma vida que eu desconhecia. E porque eu quero saber o que esse cara tinha de tão especial a ponto de ela não conseguir esquecer e que fez com que ela magoasse Howard.
— Mas, Lina, isso ainda é só uma teoria, né? E se não tiver sido por isso que
ela foi embora da Itália?
Soltei um gemido.
— Qual é, Ren... Você não quer saber quem é o misterioso X? Ele terminou com a minha mãe de um jeito horrível. Aquilo acabou com ela. Só quero saber o que ele tinha de mais. Acho que me ajudaria a entender tudo um pouco melhor.
— Humm. — Ele bocejou e encostou a cabeça no meu ombro.
— E então, vai me ajudar?
— Claro que sim. Quando você quer ir?
— O mais rápido possível.
A pele do Ren era quente, e ele tinha aquele cheiro de menininho que acabou de acordar.
— Nossa, você está tão cheirosa — disse ele, repetindo meus pensamentos.
— Não estou, não. Corri nove quilômetros e meio hoje de manhã e ainda não tomei banho.
— Está cheirosa mesmo assim.
Pelo que parecia, eu ainda sentia aquele friozinho na barriga. E o friozinho estava mais gelado do que nunca. Eu me afastei correndo.
* * *
Não. Pense. No. Ren.
Corri o mais rápido que pude até o cemitério. Eu tinha muito em que pensar e não precisava complicar as coisas com uma paixonite idiota por um dos melhores amigos que já tivera. Além disso, ele namorava uma top model sueca com crises de agressividade. E não podemos esquecer que eu havia acabado de dar meu número para o cara mais bonito que já conheci.
Quando cheguei em casa, meu coração quase saiu pela boca. Howard estava sentado no balanço da varanda com uma caneca de café e uma cara de bom moço. Era cosmicamente injusto que ele tivesse ficado sozinho num cemitério com seus muffins horríveis e sua música antiga. Aquilo me dava vontade de comprar balões ou algo do tipo para ele.
— Bom dia, Lina.
— Bom dia.
Howard me olhou de um jeito estranho. Talvez porque eu estivesse olhando para ele como se ele fosse um passarinho ferido.
— Eu estava na casa do Ren — falei.
— Vocês têm planos pra hoje?
— É, ele vem me buscar daqui a pouco.
— Para quê?
— Humm, acho que só vamos almoçar.
Será que devo convidá-lo? Espera aí. Nós não vamos almoçar.
— Legal. Bom, eu estava pensando que, se vocês dois quiserem, podíamos ver um filme hoje à noite. Uma das cidades vizinhas tem um cinema ao ar livre que passa filmes na língua original, e esta semana estão exibindo um dos meus favoritos.
— Ótima ideia!
Vibrei. Para virar líder de torcida, eu só precisava de pompons e um megafone. Calminha aí . Não foi ontem que partiram o coração dele.
Ele me lançou um olhar questionador.
— Que bom que você gostou da ideia. Vou convidar Sonia também.
— Claro.
Entrei correndo e, quando olhei para trás, a pena que senti foi tanta que quase transbordou por meus olhos. Ele amava minha mãe. Era pedir demais que ela retribuísse esse amor?
* * *
— Você disse “Piazzale Michelangelo”, não foi? — gritou Ren pra mim.
— Isso. Disseram para estacionar lá e depois seguir pro sul.
— Ok, é logo ali.
Tinha sido uma viagem rápida de scooter, e eu tomara todo o cuidado para me sentar alguns centímetros afastada, de modo que nossas pernas não se tocassem nem nada do tipo. Pelo menos não toda hora.
— Alguém vai nos receber na ABAF, não vai? — perguntou ele.
— Vai. Eu não expliquei por que estávamos indo, mas disseram que uma pessoa do setor de matrículas estaria na secretaria.
Ele entrou atrás de uma fila de ônibus, e um deles era tão grande que devia fazer bico como navio de cruzeiro. A Piazzale Michelangelo era um redemoinho de turistas. Todos pareciam estar decididos a fazer valer o que tinham gastado.
— Por que tem tanta gente aqui?
— Daqui se tem a melhor vista da cidade. Assim que esse ônibus sair da nossa frente, você vai ver.
O ônibus desacelerou, e Ren o ultrapassou. De repente estávamos diante de uma vista panorâmica de Florença, incluindo a Ponte Vecchio, o Palazzo Vecchio e o Duomo. Tive orgulho de mim mesma. Cinco dias depois de chegar, já reconhecia metade da cidade.
Ren saiu da rua e parou numa vaga mais ou menos do tamanho da minha mala e nos esprememos para sair.
— Pra onde vamos?
Eu entreguei o endereço a ele.
— A mulher da escola falou que é fácil achar.
Só que não. Passamos os trinta minutos seguintes perambulando de um lado para outro pelas mesmas ruas porque todo mundo a quem perguntávamos nos dava instruções completamente diferentes.
— Primeira regra ao lidar com italianos — resmungou Ren. — Eles adoram indicar o caminho. Ainda mais se não tiverem a menor ideia do que estão falando.
Comecei a perceber que Ren só agia como italiano quando estava a fim.
— E gesticulam muito — acrescentei. — Achei que aquele último cara estava orientando o pouso de um avião. Ou talvez guiando uma orquestra.
— Você sabe como fazer um italiano parar de falar, não é?
— Como?
— É só amarrar os braços dele.
— É aqui!
Parei de andar, e Ren esbarrou em mim. Já tínhamos passado por aquele prédio pelo menos cinco vezes, mas só naquele momento notei a minúscula placa dourada acima da porta: ABAF.
— Eles acham que as pessoas vão ler a placa de binóculos?
— Você está mal-humorado.
— Desculpa.
Apertei o botão do interfone e depois de uma campainha alta ouvi a voz de uma mulher.
— Pronto?
Ren se aproximou.
— Buon giorno. Abbiamo un appuntamento.
— Prego. Terzo piano. — A porta se destrancou.
Ren olhou para mim.
— Terceiro andar. Vamos ver quem chega primeiro.
Um empurrou o outro, depois saímos correndo escada acima, chegando a uma grande recepção iluminada. Uma mulher com um vestido justo cor de lavanda deu um pulo atrás da mesa, assustada.
— Buon giorno.
— Buon giorno — respondi.
Ela olhou para meus tênis e começou a falar inglês.
— Você ligou para falar de uma reunião com o nosso setor de matrículas?
— Eu ganhei — sussurrou Ren.
— Não ganhou, nada. — Recuperei o fôlego e dei um passo à frente. — Oi.
Sim, liguei, mas na verdade queria fazer algumas perguntas sobre uma ex-aluna.
— Como é?
— Minha mãe estudou aqui há uns dezessete anos, e estou tentando encontrar uma de suas antigas colegas de turma.
Ela ergueu uma das sobrancelhas.
— Bem, não podemos dar nenhuma informação pessoal.
— Eu só precisava saber o sobrenome dela.
— Como eu falei, não posso ajudá-la.
Aff.
— E quanto ao Signore Petrucione? Ele poderia nos ajudar? — perguntou Ren.
— Signore Petrucione? — Ela cruzou os braços. — Você sabe quem é ele?
Assenti.
— Ele era o diretor quando minha mãe estudava aqui.
Ela nos encarou por um instante, depois se virou e saiu de fininho da sala.
— Nossa. A alegria dela é contagiante — comentou Ren. — Acha que ela vai voltar?
— Espero que sim.
Logo depois a mulher reapareceu, seguida por um senhor de aparência enérgica e muito elegante de terno e gravata e com cabelo branco arrepiado.
Quando me viu, teve que olhar de novo.
— Non è possibile!
Olhei para Ren.
— Humm, oi. Signore Petrucione?
Ele estava perplexo.
— Sim. E você é...
— Lina. Minha mãe estudou aqui e...
— Você é a filha da Hadley.
— ... Sim.
— Achei que estava vendo coisas. — Ele atravessou a sala, estendendo a mão. — Que surpresa. Violetta, sabe quem é a mãe desta garota?
— Quem? — A mulher estava determinada a não se deixar impressionar.
— Hadley Emerson.
O queixo dela caiu.
— Ah.
— Lina, venha comigo. — Ele olhou para Ren. — E traga seu amigo.
Eu e Ren seguimos Petrucione por um corredor até um pequeno escritório
abarrotado de fotos. Ele se sentou e, com um gesto, nos convidou a fazer o mesmo. Tive que tirar uma caixa de negativos da cadeira.
— Lina, sinto muito por sua mãe. Que tragédia. E não só por causa da contribuição dela para o mundo da arte. Ela também era uma pessoa maravilhosa.
— Eu agradeço.
— Quem é esse? — Ele apontou para Ren.
— É meu amigo Lorenzo.
— Prazer em conhecê-lo, Lorenzo.
— Igualmente.
Petrucione se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Que ótimo você estar visitando Florença. E que prazer recebê-la na ABAF. Violetta disse que você está pedindo informações sobre os colegas de turma da sua mãe.
Respirei fundo.
— Sim. Bem, tenho tentado descobrir um pouco sobre a época que ela passou na escola, e esperava entrar com contato com uma de suas antigas amigas.
— Claro. Quem?
— O nome dela é Francesca. Ela estudava fotogr...
— Francesca Bernardi. Essa foi outra que ficou bastante famosa. Saiu uma matéria sobre ela de página dupla na Vogue Italia na primavera passada. — Ele tamborilou dois dedos na própria cabeça. — Eu nunca esqueço um nome.
Deixem-me pedir a Violetta que verifique nossos registros de ex-alunos. Já volto.
Petrucione saiu depressa do escritório, deixando a porta entreaberta.
— Quantos anos esse cara tem? — sussurrou Ren. — Sua mãe não disse que ele tinha uns duzentos anos? E isso foi naquela época.
— Sim, disse. Então acho que agora ele tem duzentos e dezessete.
— No mínimo. E ele é superativo. Acho melhor ele maneirar na quantidade de espressos.
— Será que devo perguntar sobre o X? Eles mantiveram segredo na escola, mas eu podia tentar descobrir se alguém abandonou o emprego no meio do segundo semestre da minha mãe aqui.
— Pergunta, sim.
Olhei para a parede, e a foto de uma velha olhando direto para a câmera chamou minha atenção. Fui até ela.
— Foi minha mãe que tirou essa foto.
— Sério? Como você sabe?
— Simplesmente sei.
Petrucione voltou saltitando para a sala.
— Ah, estou vendo que você encontrou a foto da sua mãe.
— Em geral eu consigo reconhecer o trabalho dela. — Pela dor que sinto no peito.
— Bem, sem dúvida é um trabalho singular. Hadley tinha um verdadeiro dom para retratos. — Ele me entregou um pedaço de papel, e voltamos a nos sentar.
— Anotei o nome todo de Francesca e o telefone da empresa dela. Tenho certeza de que ela ficará muito feliz em conversar com você.
— Obrigada. Isso vai ajudar muito.
— Não tem de quê. — Ele sorriu para mim.
Achei que íamos apenas pegar as informações e ir embora, mas de repente eu não queria mais sair dali.
— Como minha mãe era? Quando estava aqui?
Petrucione sorriu.
— Como um ponto de exclamação humano. Nunca tinha visto ninguém tão empolgada para fazer alguma coisa. Esta escola é muito seletiva, mas mesmo assim às vezes deixamos passar um perdido, sabe, alunos meio desinteressados, mas com um talento natural. Sua mãe não era uma dessas. Ela era muito talentosa. Talentosíssima, na verdade, mas isso era apenas parte da equação. É
preciso ser talentoso e motivado. Acho que só pela motivação ela poderia ter sido bem-sucedida. — Ele sorriu. — Todos os alunos gostavam dela. Eu me lembro de que era muito popular. Certa vez ela me pregou uma peça. Tirou uma foto abstrata da Ponte Vecchio para um trabalho. Àquela altura, eu já tinha visto um bocado de fotos da Ponte Vecchio e avisara à turma que qualquer um que se atrevesse a usar aquela paisagem como inspiração seria reprovado na hora. Mas ela foi lá e usou, e claro que amei a foto, e só depois ela me disse que se tratava da ponte... — Ele soltou uma risadinha, balançando a cabeça.
Uma sensação quente e pegajosa borbulhou dentro de mim. Eu amava ouvir gente que realmente conhecia minha mãe falar dela. Era como segurar sua mão por um breve instante.
“X”, Ren fez com os lábios, sem ousar falar em voz alta.
— Ah. — Respirei fundo. — Sr. Petrucione? Tenho mais uma pergunta.
— Prego.
— Minha mãe mencionou que houve um... membro do corpo docente, professor ou algo assim, que deixou o cargo no meio do segundo semestre. Sabe quem pode ser?
O clima alegre do escritório evaporou com um puf. Petrucione fez uma cara enojada, como se alguém tivesse acabado de lhe oferecer cocô de cachorro para comer.
— Não. Não sei.
Eu e Ren nos entreolhamos.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Eu me ajeitei na cadeira.