Amor & gelato
Capítulo 25
Se eu pudesse voltar para um único momento, apenas um, eu retornaria à torre, com um mundo inteiro de possibilidades diante de mim. E embora meu coração doa mais do que jamais imaginei que fosse possível, eu não trocaria aquele nascer do sol nem este bebê por nada. Este é um novo capítulo. Minha vida. E vou recebê-lo de braços abertos. Qualquer outra coisa seria um desperdício.
Fim. O resto do diário estava em branco. Voltei devagar para a primeira página e li mais uma vez a primeira frase.
Eu tomei a decisão errada.
Sonia se enganou. Minha mãe não tinha enviado o diário ao cemitério para mim, e sim para Howard. Ela queria que ele soubesse o que realmente aconteceu, que ele soubesse que ela o amou esse tempo todo. E então, embora ela não pudesse voltar atrás e mudar a história deles, fizera o melhor que pôde.
Tinha me trazido até aqui.
Capítulo 25
EU PRATICAMENTE VOEI de volta para o cemitério. Estava muito nervosa, mas também me sentia mais leve. Não importava qual seria a reação do Howard, ia ficar tudo bem. E ele merecia ler a história da minha mãe. Naquele exato instante.
A luz do dia tinha transformado por completo o cemitério, dando brilho à atmosfera desbotada, e saí correndo, cortando caminho pelas lápides e ignorando a dor nas costelas. Eu precisava encontrar Howard antes que ele começasse a trabalhar.
Ele estava sentado na varanda com uma caneca de café e, quando me viu, se levantou, assustado.
— Você não está sendo perseguida de novo, não é?
Balancei a cabeça e parei, tentando recuperar o fôlego.
— Ah, que bom. — Ele voltou a se sentar. — Você sempre corre assim?
Achei que gostava mais de corrida de longa distância.
Balancei a cabeça outra vez e respirei fundo.
— Howard, preciso perguntar uma coisa.
— O quê?
— Você sabe que não é meu pai?
Por alguns longos segundos, minhas palavras pairaram no ar entre nós como bolhas de sabão cintilantes. Então ele sorriu.
— Defina “pai”.
Minhas pernas cederam e fui cambaleando em direção à varanda.
— Ei, ei. Você está bem? — Ele estendeu a mão para me equilibrar.
— Só preciso me sentar. — Eu desabei no degrau da varanda ao lado dele. —
E você sabe o que quero dizer com “pai”. Estou falando do homem que forneceu metade do meu DNA.
Ele esticou as pernas.
— Bem, nesse caso, não. Eu não sou seu pai, mas se usar outra definição, como “um homem que quer estar na sua vida e ajudar a criar você”, então, sim.
Sou.
Soltei um gemido.
— Howard, isso é muito bonito e tal, mas explica melhor. Porque passei as últimas vinte e quatro horas muito confusa e com medo de magoar você, mas
você sempre soube?
— Desculpe. Não imaginei que você sabia. — Ele me olhou por um instante, depois soltou um suspiro. — Tudo bem. Quer ouvir uma história?
— Quero.
Ele se acomodou, como se estivesse prestes a contar uma história pela milésima vez.
— Quando eu tinha vinte e cinco anos, conheci uma mulher que mudou tudo para mim. Ela era inteligente e alegre e sempre que eu estava com ela sentia que podia fazer qualquer coisa.
— Você está falando da minha mãe, não é?
— Me deixe terminar. Então, conheci essa mulher e me apaixonei perdidamente por ela. Eu nunca tinha sentido aquilo por ninguém, era como se eu sempre tivesse procurado por ela sem saber. Eu sabia que tinha que fazer tudo o que pudesse para que ela sentisse o mesmo, então comecei sendo seu amigo.
Fiz uma aula de italiano que não precisava só para passar mais tempo com ela...
— O curso para iniciantes?
— Shh. Lina, escute. Fizemos italiano juntos, eu assistia às outras aulas dela, e até consegui entrar em seu círculo de amigos, mas toda vez que tentava criar coragem para dizer o que sentia, eu virava uma gelatina.
— Gelatina? — falei, incrédula.
— Sim. Gelatina...
— Eu sei o que é gelatina!
Pelo visto ser um “cara legal” não significava ser também um “bom contador de histórias”.
— O que quero dizer é que eu gostava tanto dela que tremia de nervoso. E
então descobri que era tarde demais. Enquanto eu ficava gaguejando, carregando os livros dela e fingindo que gostava de dançar, outro homem entrou em cena e a levou embora.
— Matteo Rossi.
Ele hesitou.
— Como sabe o nome dele?
— Depois eu conto.
Ele pareceu confuso.
— Enfim. Eu disse a mim mesmo que, se esse outro cara fosse gente boa, gostasse mesmo dela e a fizesse feliz, eu deixaria pra lá. Mas eu conhecia o Matteo. Infelizmente, sua mãe ficou cega por ele por um bom tempo. Até chegamos a ter um breve relacionamento, mas ela o escolheu. Você foi concebida assim, enquanto eles estavam juntos, mas quando ficou doente, sua mãe pediu que eu aparecesse. Então foi o que fiz. Porque eu a amava. — Ele me
cutucou. — E até que estou começando a gostar de você.
Soltei outro gemido.
— Ok, bela história, mas você entendeu uma parte errado. E por que você e minha avó disseram que eu era sua filha?
— Agora percebo que foi um erro, e peço desculpas. Eu não planejava dizer isso a princípio. Sua avó e eu começamos a nos comunicar depois da morte da Hadley, e após algumas semanas, percebi que ela presumia que eu era seu pai.
Eu sabia a verdade, mas tive medo de que, se contasse, ela não deixasse mais você vir, e sua mãe tinha me feito prometer que a traria. Além disso, achei que seria melhor para você. Achei que, se acreditasse que eu era seu pai, seria mais provável que me desse uma chance.
— Só que eu me comportei de um jeito horrível.
— Não. Pela sua situação, você foi ótima.
— Mentiroso.
Ele sorriu.
— Acho que eu simplesmente não sabia mais o que fazer. Seu avô já estava passando por um momento difícil, e eu não sabia qual era a situação com a família da Addie. Tive medo de que você não tivesse para onde ir. Então, quando sua avó perguntou se podia contar que eu era seu pai, eu disse que sim.
— Ele balançou a cabeça. — Eu planejava dizer a verdade mais cedo ou mais tarde, mas depois daquela noite na pizzaria achei melhor esperar você se acomodar antes. Só que você não parece do tipo que se acomoda. Eu deveria ter imaginado que você ia perceber.
— Você é tipo duas vezes mais alto que eu. E é louro. E não temos nada a ver um com o outro.
— Verdade. — Ele hesitou. — Então agora é minha vez. Há quanto tempo você sabe?
— Há um dia, mais ou menos.
— Como descobriu?
Eu peguei o diário na escada e entreguei a ele.
— Aqui.
— Seu diário?
— Não, é da minha mãe. É o diário que ela escreveu quando estava morando aqui.
— Esse é o diário dela? Eu notei que eram parecidos, mas achei que fosse só coincidência. — Ele o virou.
— Ela escreveu sobre todas as coisas que aconteceram entre ela e Matteo. Só que durante a maior parte ela o chamou de X. Então, a princípio achei que estava lendo sobre você, mas aí você não sabia sobre a padaria secreta.
— Espere um instante. A padaria secreta? O lugar sobre o qual Ren perguntou?
— É. Ele queria me surpreender e tentou descobrir onde era.
— Então Ren também sabe de tudo?
— Sabe. Na verdade, ele me ajudou a encontrar Matteo. — Eu desviei o olhar. — Nós, hum, o conhecemos.
Parece que ele se ergueu uns quinze centímetros no ar.
— Você o conheceu?
Mantive os olhos fixos no chão.
— Aham.
— Onde?
— Em Roma.
Ele estava me olhando como se eu tivesse acabado de dizer que era metade humana e metade avestruz.
— Quando você foi a Roma?
— Ontem.
— Ontem?
— É, pegamos o trem expresso. Primeiro Ren veio me buscar. Depois fomos à ABAF e eu liguei para Francesca...
— Francesca Bernardi? Como você sabia da existência dela?
— O diário. Ela me disse o sobrenome do Matteo, nós o encontramos na internet e fomos à galeria dele e foi... Bem, foi um desastre.
Howard estava boquiaberto.
— Por favor, diga que você está brincando.
Balancei a cabeça.
— Desculpa. Mas não estou.
Ele esfregou o queixo.
— Ok. Então vocês encontraram Matteo. E depois? Ele sabia quem você era?
— Ele inventou uma história, dizendo que minha mãe era louca e tinha forjado o diário. Foi ridículo. Quer dizer, nós somos idênticos, e ele ficou me dizendo que nunca teve nada com ela. Acabamos indo embora.
Howard bufou.
— Sua mãe me mataria. Eu aqui pensando que você e Ren só tinham saído para tomar gelato e dançar, mas você estava procurando seu pai em outra cidade?
— Sim, mas não vou mais fazer isso — falei, às pressas. — Foi a primeira e última vez. A não ser que você esteja escondendo mais alguma coisa de mim.
— Nada. Todas as minhas cartas estão na mesa.
— Ok, que bom.
— Mas onde conseguiu o diário? Você o encontrou depois que sua mãe faleceu?
— Não. Sonia me entregou.
— Sonia? Minha Sonia?
— É. Minha mãe o enviou pelo correio em setembro e, quando foi entregue, Sonia ficou com medo de que você ficasse triste, então o guardou por alguns dias. Só que aí você contou que eu viria morar aqui e ela presumiu que minha mãe tinha enviado o diário pra mim, mas não. Era para você.
Howard segurava o caderno com cuidado, como se fosse um passarinho que não queria deixar voar.
— Você deveria ler.
— Se importa se eu começar agora?
— Por favor.