Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 25 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 24

NA MANHÃ SEGUINTE, acordei um pouco antes do amanhecer. Eu tinha apagado na cama sem nem trocar de roupa, e havia um prato de espaguete na cômoda, com o molho de tomate aglomerado em partículas oleosas. Parecia que Howard tinha levado o jantar para mim.

Uma luz cinzenta e nebulosa atravessava a janela, eu me levantei e fui até a mala sem fazer barulho, procurando por roupas de corrida limpas. Depois peguei o diário e andei em silêncio pela casa, saindo pelos fundos.

Fui até o portão. Àquela hora nem os passarinhos tinham despertado ainda, e o orvalho cobria tudo como uma grande e leve teia de aranha. Minha mãe estava certa. O cemitério ficava diferente dependendo da hora do dia. Antes do amanhecer ele era desbotado, como se o cinza tivesse se misturado ao restante das cores.

Saí do quintal e comecei a correr, passando pelo lugar em que conhecera Ren.

Esquece. O. Ren. Era meu novo mantra. Talvez o imprimisse num adesivo de para-choque.

Tirei aquilo da cabeça e respirei fundo, dando passadas moderadas. O ar estava frio e tinha um cheiro puro, como o de sabão em pó com fragrância de “ar de montanha”, e correr trazia um grande alívio. Pelo menos não era só minha mente que estava acelerada.

Um quilômetro. Depois dois. Eu seguia uma trilha estreita feita na grama por alguém que tornara aquela rota um hábito, mas não fazia ideia se o destino era o mesmo que o meu. Até onde eu sabia, estava indo na direção errada. Talvez ela não existisse mais e então... BAM. A torre. Ela surgiu sobre a colina como um cogumelo selvagem. Parei de correr e fiquei olhando para a construção por um minuto. Era como encontrar algo mágico, como um pote de ouro ou uma casa de biscoito no meio da Toscana.

Nem pensar em casas de biscoito.

Comecei a correr de novo, sentindo meu coração acelerar ainda mais conforme me aproximava da silhueta escura. Era um cilindro perfeito, cinzento e antigo, com menos de dez metros. Parecia o tipo de lugar onde as pessoas se apaixonavam havia anos.

Corri direto até a base, depois coloquei a mão na parede, deslizando-a pela pedra enquanto rodeava a torre até a entrada. A porta de madeira que Howard

tirara do caminho para minha mãe não existia mais, deixando um vão arqueado aberto, tão baixo que precisei me curvar para passar. O interior estava vazio, com exceção de algumas teias de aranha frouxas e uma pilha de folhas que deviam ter durado mais que a árvore da qual vieram. Uma escada em espiral em mau estado subia pelo centro da torre, deixando um fraco círculo de luz entrar no ambiente.

Respirei fundo e fui até ela, esperando que todas as minhas respostas estivessem lá em cima.

Tive que subir com cuidado; metade dos degraus parecia estar só esperando uma desculpa para desmoronar, e também precisar dar um pulo acrobático sobre o espaço onde um dia fora o último degrau, até que finalmente cheguei. O topo da torre era uma plataforma aberta, com a circunferência protegida por uma mureta de um metro. Fui até a beira. Ainda estava bastante escuro e cinzento ali, mas a vista era deslumbrante. Como num cartão-postal. À minha esquerda, fileiras de vinhas estendiam-se em finas cordas prateadas. Ao redor delas, o campo fértil da Toscana, com uma ou outra casa isolada como navios em meio a um mar de colinas. Suspirei. Não era de surpreender que aquele tivesse sido o lugar onde minha mãe finalmente notara Howard. Mesmo que ainda não tivesse se apaixonado por seu senso de humor e seu maravilhoso gosto por gelato, ela teria olhado a vista e se apaixonado perdidamente. Era o tipo de lugar que faria um estouro de boiada parecer romântico.

Coloquei o diário no chão e contornei a plataforma lentamente, observando cada centímetro. Queria muito encontrar algum sinal da minha mãe, uma pedra na qual tivessem arranhado H+H ou algumas páginas perdidas do diário que ela tivesse enterrado em algum lugar ou coisa assim, mas só encontrei duas aranhas que me lançaram um olhar sério e impassível de guardas reais britânicos.

Desisti da minha pequena caça ao tesouro e voltei para o centro da plataforma, envolvendo meu corpo com os braços. Eu precisava que uma pergunta fosse respondida, e tinha a sensação de que aquele era o melhor lugar para fazê-la.

— Mãe, por que você me mandou para a Itália? — Minha voz interrompeu a tranquilidade de tudo ao redor, mas fechei os olhos com força para ouvir.

Nada.

Tentei de novo.

— Por que me mandou ficar com Howard?

Nada ainda. Então o vento soprou mais forte e bateu na grama e nas árvores, e de repente toda a solidão e o vazio que eu carregava comigo cresceram tanto que me engoliram. Pressionei a palma das mãos contra os olhos, sentindo a dor

 

percorrer todo o meu corpo. E se minha mãe, minha avó e a psicóloga estivessem erradas? E se eu fosse continuar sofrendo assim pelo resto da vida? E

se a cada segundo de cada dia eu sentisse menos o que tinha e mais o que perdera?

Eu desabei no chão, sentindo ondas grandes e irregulares de dor. Minha mãe me dissera várias vezes que minha vida seria maravilhosa. Que tinha orgulho de mim. Que queria estar presente, não só para os grandes momentos, mas para os mais simples. E aí disse que encontraria um jeito de ficar perto de mim. Mas ela continuava morta. E cada vez mais distante. Toda aquela perda se estendia diante de mim como um horizonte interminável, assustador e vazio. Eu estava percorrendo a Itália na tentativa de solucionar o mistério do diário, tentando entender tudo o que ela fizera, mas na verdade só estava procurando por ela. E

não ia encontrá-la. Nunca mais.

— Eu não vou conseguir — falei em voz alta, cobrindo o rosto com as mãos.

— Não posso ficar aqui sem você.

Foi quando levei um tapa. Bem, talvez não tenha sido bem um tapa, foi mais um empurrãozinho, mas de repente me levantei porque uma palavra abria caminho pela minha mente.

Olha.

Protegi os olhos com a mão. O sol nascia sobre as colinas, aquecendo as nuvens e incendiando-as em tons incríveis de cor-de-rosa e dourado. Tudo ao meu redor estava iluminado, lindo e, repentinamente, muito claro.

Eu não ia deixar de sentir saudades dela. Nunca. Dali em diante a vida seria assim, e por mais pesado que isso fosse, seria algo do qual eu jamais me livraria, mas não significava que eu não conseguiria me reerguer. Nem que não seria feliz. Eu ainda não conseguia imaginar muito bem, mas talvez chegasse um dia em que o buraco dentro de mim não doesse tanto e eu pudesse pensar nela, me lembrar dela, e ainda assim ficar tudo bem. Esse dia parecia a anos-luz de distância, mas naquele momento eu estava numa torre no meio da Toscana, e o nascer do sol doía de tão lindo.

E isso era importante.

Peguei o diário. Estava na hora de terminar.

19 DE JUNHO

Every new beginning comes from some other beginning’s end. Eu tinha a letra dessa música escrita num pedaço de papel sobre minha mesa havia quase um ano, e só hoje fez sentido para mim. Todo novo começo vem de

 

um fim. Passei a tarde inteira perambulando pelas ruas, pensando, e algumas coisas ficaram claras.

Primeiro, preciso ir embora da Itália. Em setembro passado, conheci uma americana que estava presa num casamento horrível porque a lei italiana diz que os filhos devem ficar com o pai. Duvido que Matteo vá querer algo com o bebê, mas não posso correr esse risco.

E, segundo, não posso contar a Howard o que sinto. Ele acha que já escolhi outra pessoa e precisa continuar pensando isso. Senão, vai deixar para trás a vida que planejou por uma chance de começar algo comigo. Eu quero muito isso, mas não o bastante para deixar que ele abra mão de seu sonho de viver e trabalhar em meio a tanta beleza. É o que ele merece.

Então é isso. Por amar Howard, preciso deixá-lo. E, para proteger meu bebê, tenho que afastá-la o máximo possível de seu pai. (Sim, eu acho que é uma menina.)