Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 3 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 2

SADIE DANES PODE até ser uma das piores pessoas do planeta, mas sempre ocupará um lugar especial no meu coração. Afinal de contas, devo a ela minha melhor amiga..

Eu estava começando o sétimo ano. Addie tinha acabado de se mudar de Los Angeles para Seattle, e um dia, depois da aula de educação física, ouviu Sadie comentar que algumas meninas da turma não precisavam usar sutiã. Só que, na boa... estávamos no sétimo ano... Só um por cento da sala precisava usar sutiã. E

eu, no caso, precisava menos ainda, então todo mundo sabia que ela estava falando mim. Tudo o que fiz foi ignorar Sadie (em outras palavras, enfiei minha cabeça pré-adolescente no armário, piscando para conter as lágrimas), já Addie empurrou a garota na saída do vestiário. Desde então, ela nunca mais parou de me defender.

— Sai. Pode ser a Lina. — A voz da Addie estava distante, como se ela estivesse segurando o celular afastado do rosto. — Alô?

— Addie, sou eu.

— Lina! IAN, SAI DE PERTO DE MIM.

Ouvi gritos abafados e depois o que pareceu uma briga de facas entre ela e o irmão. Addie tinha três irmãos mais velhos, mas não tinha nada de irmãzinha mais nova mimada. Na verdade, eles pareciam mais ter feito um pacto para tratá-la como um garoto. Isso explicava muito sobre a personalidade dela.

— Desculpa — disse ela quando finalmente voltou a falar comigo. — O Ian é um idiota. Passaram com o carro por cima do celular dele e agora meus pais querem que a gente divida o meu. Não me interessa o que aconteceu. Não vou dar meu número para os amigos trogloditas dele.

— Ah, qual é, eles não são tão ruins assim.

— Nem vem. Você sabe que são. Hoje de manhã peguei um deles comendo o nosso cereal. Ele tinha despejado uma caixa inteira numa tigela e estava comendo com uma concha de sopa. Acho que o Ian nem estava em casa.

Eu sorri e fechei os olhos por um instante. Se Addie fosse uma super-heroína, seu poder seria a capacidade de fazer sua melhor amiga se sentir normal.

Naquelas primeiras semanas sombrias depois do enterro, era ela quem me tirava de casa para correr e insistia que eu fizesse coisas como comer e tomar banho.

Aquele tipo de amiga que a gente sabe que não merece.

— Espera um pouco. Por que estamos perdendo tempo falando dos amigos do Ian? Você já deve ter conhecido o Howard.

Abri os olhos.

— Meu pai, você quer dizer?

— Eu me recuso a chamar de seu pai. Nem sabíamos que ele existia até dois meses atrás.

— Menos até.

— Lina, estou morrendo de curiosidade. Como ele é?

Olhei para a porta do quarto. Ainda dava para ouvir a música lá de baixo, mas mesmo assim baixei a voz.

— Digamos apenas que preciso sair daqui. Imediatamente.

— Como assim? Ele é bizarro?

— Não. Na verdade, ele até que é legal. É, tipo, alto que nem um jogador da NBA, o que me surpreende. Mas essa não é a parte ruim. — Respirei fundo.

Addie precisava daquela pausa dramática. — Ele é administrador de um cemitério. Ou seja, eu tenho que morar num cemitério.

— O QUÊ?

Eu já estava segurando o celular a uns bons dez centímetros da orelha, esperando sua reação.

— Você está morando num cemitério? Ele é coveiro ou coisa do tipo? — Ela sussurrou a última parte.

— Acho que não enterram mais ninguém aqui. Todos os túmulos são da Segunda Guerra Mundial.

— Como se isso melhorasse as coisas! Lina, precisamos tirar você daí. Não é justo. Primeiro você perde a mãe, e agora tem que se mudar pro outro lado do mundo e morar com um cara que de repente diz ser seu pai? E a casa dele é num cemitério? Fala sério, isso já passou dos limites.

Eu me sentei à escrivaninha, virando a cadeira de costas para a janela.

— Juro, se eu imaginasse no que estava me metendo, teria resistido mais ainda. Este lugar é estranho. Tem lápides por todo lado, e parece que estamos muito longe da civilização. No caminho até aqui vi algumas casas pela estrada, mas fora isso parece que ao redor do cemitério não tem nada além de mato.

— Não acredito. Vou buscar você. Quanto custa uma passagem de avião?

Mais de trezentos dólares? Porque é tudo o que eu tenho depois do nosso probleminha com o hidrante.

— Você nem bateu com tanta força!

— Diz isso pro mecânico. Pelo visto, ele teve que trocar o para-choque inteiro. E a culpa é toda sua. Se você não estivesse dançando que nem uma louca, provavelmente eu não teria sido obrigada a dançar também.

Eu sorri e cruzei as pernas na cadeira.

— Se você não consegue se controlar quando toca um clássico da Britney no rádio não é culpa minha. Mas você precisa de ajuda pra pagar? Meus avós estão tomando conta do meu dinheiro, mas tenho mesada.

— Não, claro que não. Você vai precisar do dinheiro pra ir embora da Itália.

E acho mesmo que meus pais vão adorar se você voltar a morar aqui. Minha mãe acha você uma boa influência. Ela ficou um mês comentando que você coloca os pratos na lava-louças.

— Pois é, sou extraordinária.

— Não me diga. Tudo bem, vou conversar com eles em breve. Só preciso esperar minha mãe se acalmar. Ela está cuidando de um evento beneficente de futebol americano pro Ian, mas parece que está organizando um baile de debutantes. Sério, ela está superestressada. Surtou completamente ontem à noite porque nenhum de nós comeu o macarrão gratinado que ela fez.

— Poxa, eu gosto do macarrão gratinado dela. Aquele com atum, né?

— Eca, duvido. Você devia ter acabado de correr cento e cinquenta quilômetros e estar morrendo de fome quando comeu. Sem falar que você não recusa comida nenhuma.

— Isso é verdade — admiti. — Mas, Addie, não se esquece de que é minha avó quem precisamos convencer. Ela está adorando que eu more aqui.

— O que não faz o menor sentido. Por que ela mandou você pro outro lado do mundo para ficar com um desconhecido? Ela nem conhece o cara.

— Acho que ela não sabia mais o que fazer. A caminho do aeroporto ela me disse que estava pensando em ir morar com meu avô num lar pra idosos. Cuidar dele está sendo pesado pra ela.

— E é por isso que você deve morar com a gente. — Addie bufou. — Não esquenta. Deixa comigo. Vou levar a vó Rachelle pra comprar aquelas balas de caramelo que os velhinhos gostam e aproveito pra falar que a casa dos Bennet é a melhor opção pra você.

— Obrigada, Addie.

Ambas paramos de falar, e o som dos insetos e da música do Howard preencheu o breve silêncio entre nós. Eu queria entrar pelo celular e voltar para Seattle. Como ia sobreviver sem minha melhor amiga?

— Por que você está tão quieta? O Coveiro está aí?

— Estou no meu quarto, mas tenho a sensação de que o som se propaga nesta casa. Não sei se ele consegue me ouvir ou não.

— Que ótimo. Então você não pode nem falar com privacidade. Seria melhor criarmos um código pra eu saber se você está bem. Diga “azulão” se estiver sendo mantida como refém.

— Azulão? Não deveria ser uma palavra mais comum?

— Droga. Agora fiquei confusa. Você disse a palavra, mas não sei se estava falando sério. Você está ou não sendo mantida como refém?

— Não, Addie. Não estou sendo mantida como refém. — Eu suspirei. —

Talvez eu seja refém apenas da promessa que fiz pra minha mãe.

— É, mas será que as promessas valem mesmo se forem feitas com base numa mentira? Sem querer ofender, mas sua mãe não foi exatamente honesta sobre por que queria que você fosse para a Itália.

— Eu sei. — Respirei fundo. — Espero que haja um motivo pra isso.

— Talvez.

Eu me virei para trás e olhei pela janela. A lua tocava a copa escura das árvores, e se eu não soubesse onde estava, teria achado a vista deslumbrante.

— Preciso desligar. Estou usando o celular dele e devo ter gastado uma fortuna.

— Tudo bem. Liga de novo assim que puder. E, sério, não se preocupa.

Tiraremos você daí logo logo.

— Obrigada, Addie. Espero conseguir falar com você pelo FaceTime amanhã.

— Vou esperar ao lado do computador. Como as pessoas se despedem na Itália? “Chou”? “Chau”?

— Não faço a menor ideia.

— Mentirosa. Era você que sempre falava em viajar pelo mundo.

— Eles cumprimentam e se despedem com “ciao”.

— Eu sabia. Ciao, Lina.

— Ciao.

Nossa ligação terminou e coloquei o celular na escrivaninha, sentindo um nó na garganta. Eu já estava com saudade dela.

— Lina?

Howard! Quase caí da cadeira. Será que ele estava escutando a conversa?

Eu me levantei às pressas e abri uma fresta da porta. Howard estava parado no corredor segurando várias toalhas brancas dobradas, empilhadas como um bolo de casamento.

— Espero não ter interrompido — disse rapidamente. — Só lembrei que precisava lhe entregar isto.

Eu observei seu rosto, mas estava inexpressivo como água parada. Ao que parecia, o parentesco não significava nada. Eu não sabia se ele tinha ouvido minha conversa com Addie.

Hesitei por um segundo, depois abri a porta um pouco mais e peguei as toalhas.

— Obrigada. E aqui está seu celular. — Eu o peguei na escrivaninha e entreguei a ele.

— Então... o que você acha?

Eu enrubesci.

— Sobre...?

— Sobre seu quarto.

— Ah. Ficou ótimo. Lindo.

Um grande sorriso de alívio se abriu no rosto dele. Sem dúvida era o primeiro sorriso genuíno da noite, e ele pareceu uns cinquenta quilos mais leve. Além disso, seu sorriso era meio assimétrico.

— Que bom. — Ele se apoiou no batente da porta. — Sei que meu gosto não é dos melhores, mas queria que ficasse bonito. Uma amiga me ajudou a pintar a escrivaninha e a cômoda, e Sonia e eu encontramos o espelho numa feira de antiguidades.

Putz. Comecei a imaginar Howard passeando pela Itália à procura de objetos que achava que eu ia gostar. Por que o interesse repentino? Até onde eu sabia, ele nunca tinha enviado nem um cartão de aniversário.

— Não precisava ter se incomodado.

— Não foi incômodo nenhum. Sério.

Ele sorriu outra vez, e houve um momento de silêncio longo e desconfortável. A noite inteira parecera um encontro às cegas com alguém com quem eu não tinha nada em comum. Não, era ainda pior. Porque nós tínhamos algo em comum. Só não estávamos tocando no assunto. Quando vamos tocar nesse assunto?

Tomara que nunca.

Howard balançou a cabeça.

— Bem, boa noite, Lina.

— Boa noite.

Seus passos desapareceram pelo corredor e eu tranquei novamente a porta.

Minhas dezenove horas de viagem tinham me atingido bem no meio da testa, e eu estava com uma dor de cabeça insana. Já era hora de aquele dia terminar.

Coloquei as toalhas em cima da cômoda, tirei os sapatos e pulei na cama, jogando as almofadas para todos os lados. Finalmente. O colchão era tão macio quanto parecia, e os lençóis tinham um cheiro maravilhoso, o mesmo cheiro de quando minha mãe pendurava os nossos na corda para secar. Eu me enfiei embaixo das cobertas e desliguei o abajur.

Uma gargalhada veio lá de baixo. A música continuava alta e, ou eles estavam lavando pratos ou jogando uma partida barulhenta de críquete na sala.

Mas não importa. Depois do dia que tive, eu poderia dormir em qualquer lugar.

Eu havia acabado de cair naquela fase nebulosa, apenas ligeiramente adormecida, quando a voz do Howard me trouxe de volta à consciência.

— Ela é muito quieta.

Meus olhos se abriram de repente.

— É compreensível, considerando as circunstâncias — disse Sonia.

Não movi um músculo. Ao que parecia, Howard não achava que o som viajasse pelas janelas abertas.

Ele baixou a voz.

— Claro. Foi meio que uma surpresa. Hadley era tão...

— Cheia de vida? Era mesmo, mas Lina pode surpreender você. Eu não ficaria nem um pouco surpresa se ela acabasse demonstrando um pouco do vigor da mãe.

Ele soltou uma risada baixa.

— Vigor. É uma definição interessante.

— Dê um tempinho a ela.

— Claro. Obrigado outra vez pelo jantar... Estava delicioso.

— O prazer foi todo meu. Estou planejando ficar no centro de visitantes amanhã de manhã. Você vai estar no escritório?

— Só vou dar uma passada. Queria sair cedo para levar Lina à cidade.

— Ótima ideia. Boa noite, chefe.

Os passos da Sonia ressoaram no cascalho da entrada para carros, e logo depois a porta da frente se abriu e se fechou de novo.

Eu me obriguei a fechar os olhos, mas parecia que tinha refrigerante correndo por minhas veias. O que Howard esperava? Que eu ficasse radiante por me mudar para a casa de alguém que não conhecia? Que ficasse animada por morar num cemitério? Ninguém sabia que eu não queria ir para a Itália. Eu só concordei quando minha avó apelou para “Você prometeu à sua mãe”.

E por que ele tinha que dizer que eu era “quieta”? Eu detestava ser chamada assim. As pessoas sempre diziam isso como se fosse algum tipo de deficiência, como se só porque eu não contava minha vida toda logo de cara eu fosse antipática e arrogante. Minha mãe me entendia. “Você pode até demorar para se soltar, mas quando se solta emana alegria.”

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu me virei, enfiando o rosto no travesseiro. Já fazia mais de seis meses, e às vezes eu conseguia passar horas fingindo que estava bem sem ela, mas isso nunca durava muito. No fim das contas, a realidade era tão dura e implacável quanto aquele hidrante no qual eu e Addie tínhamos batido.

E eu teria que passar o resto da vida sem ela. Teria mesmo.