Amor & gelato
Capítulo 13
Howard. Seu nome praticamente brilhava no papel. Por que daquela vez ela não se referiu a ele como X? Será que fora um deslize, ou eles estavam a ponto de
tornar o relacionamento público? E havia alguma conexão entre Adrienne e o momento em que Howard contara a história?
Eu me levantei e fui até a janela. Ainda estava quente lá fora, quase abafado, e a lua banhava o cemitério como um refletor. Empurrei as violetas para o lado e me inclinei para a frente, apoiando os cotovelos no parapeito. Era estranho, mas em menos de uma semana as lápides já não me incomodavam tanto. Eram como pessoas pelas quais passamos na rua e mal notamos. Como um barulho de fundo.
Dois faróis apareceram acima das copas das árvores e observei o carro descer a estrada sinuosa. Por que Adrienne tinha levado minha mãe a uma leitura mediúnica da vida amorosa delas? Seria possível que ela também estivesse interessada em Howard? Talvez fosse com ele que ela estivesse falando na escada.
Suspirei. Até então, o diário não estava esclarecendo nada. Só confundia ainda mais as coisas.
Capítulo 13
— EU QUERO LHE mostrar tantos lugares em Florença que é difícil saber por onde começar.
Olhei para ele. Eu e Howard estávamos outra vez a caminho da cidade, e era muito difícil decidir o que eu sentia por ele. Talvez por ele estar ouvindo “Sweet Emotion”, do Aerosmith, no volume máximo com todas as janelas abertas e às vezes improvisar uma bateria no volante fosse muito complicado pensar nele como o misterioso destruidor de corações X. Além disso, ele cantava muito mal.
Eu me apoiei na porta, deixando meus olhos se fecharem só por um segundo.
Tinha ficado acordada até muito tarde pensando em Howard e na minha mãe, e depois um grupo incrivelmente exuberante, uma espécie de escoteiros italianos, atravessara o cemitério fazendo uma algazarra ao raiar do dia. Eu tinha dormido uns quatro minutos.
— Podemos começar de novo pelo Duomo? Podíamos ir até o topo e você veria a cidade inteira de uma só vez.
— Claro.
Abri os olhos. E se falasse do padeiro e do touro? Será que ele se lembraria?
— Achei que você ia convidar Ren também.
— Eu não sabia se podia.
— Ele é sempre bem-vindo.
— Mas ele morre de medo de você.
O que era ridículo. Eu lhe lancei um rápido olhar. Apesar de seu passado duvidoso, Howard parecia estar tentando imitar um perfeito pai dos anos 1950.
Rosto recém-barbeado, camiseta branca limpa, sorriso cativante.
Todos os itens batiam.
Ele acelerou para ultrapassar um caminhão.
— Eu não deveria ter implicado com ele ontem à noite. Dá para ver que é um bom menino, e acho ótimo você sair com alguém em quem confio.
— É. — Eu me ajeitei no banco, me lembrando de repente do nosso telefonema da noite anterior. — Ele também me convidou pra ir a um lugar hoje à noite.
— Onde?
Hesitei.
— Uma, humm, boate. Um monte de gente da festa vai estar lá.
— Para alguém que está aqui há menos de uma semana, você tem uma vida social bem agitada. Parece que todos os nossos programas terão que ser diurnos.
— Ele sorriu. — Fico muito feliz por você estar conhecendo os alunos da escola.
Liguei para a diretora poucos dias antes de você chegar e ela disse que seria um prazer lhe mostrar o lugar. Talvez Ren possa ir também. Tenho certeza de que ele pode responder a qualquer pergunta que você tenha.
— Não precisa — falei, depressa.
— Bem, talvez em outro momento. Não precisa ser agora.
Fizemos um retorno, e ele parou diante de uma fileira de lojas.
— Onde estamos?
— Loja de celulares. Você precisa de um só seu.
— Preciso?
Ele sorriu.
— Precisa. Estou sentindo falta de falar com as pessoas. Vamos.
As vitrines estavam cobertas de poeira e, quando entramos, um velhinho que parecia ser um personagem de contos de fadas ergueu o rosto do livro que estava lendo.
— Signore Mercer? — perguntou ele.
— Si.
O velhinho pulou com agilidade de seu banco e começou a vasculhar a prateleira que ficava atrás da mesa. Finalmente, entregou uma caixa a Howard.
— Prego.
— Grazie. — Howard lhe entregou um cartão de crédito, depois me deu a caixa. — Eu pedi que eles configurassem tudo, então está pronto para ser usado.
— Obrigada, Howard.
Tirei o celular da caixa e o olhei com alegria. Agora eu tinha meu próprio número para dar a Thomas. Caso ele pedisse. Por favor, que ele esteja na Space hoje. E, por favor, que ele peça meu número. Porque, sinceramente? Mesmo com todo o drama dos meus pais, eu não conseguia parar de pensar nele.
* * *
Howard estacionou na mesma área em que paramos na noite em que fomos à pizzaria, e quando chegamos ao Duomo ele soltou um gemido.
— A fila está maior que o normal. Parece até que estão distribuindo Ferraris lá em cima.
Olhei para a fila que ia até o Duomo. Tinha uns dez mil turistas suados e metade deles parecia estar à beira de um colapso nervoso. Ergui o rosto para
olhar o prédio, mas não havia nem sinal do touro. Provavelmente eu não conseguiria achá-lo sozinha. Ele se virou para mim.
— O que acha de tomarmos um gelato antes, para ver se a fila diminui um pouco?
— Você conhece algum lugar que tenha de stracciatella?
— Qualquer gelateria que se preze tem stracciatella. Quando você experimentou?
— Ontem à noite com Ren.
— Achei mesmo que você estava diferente. É uma experiência que transforma a vida de qualquer um, não é? Bem, vamos comprar uma casquinha e começar o dia direito. Depois enfrentaremos a fila.
— Acho ótimo.
— Meu lugar preferido é meio longe. Você se importa de andar?
— Não.
Levamos quinze minutos para chegar à gelateria. A loja era mais ou menos do tamanho do carro do Howard, e embora ainda estivesse no horário do café da manhã, o lugar estava lotado de gente devorando alegremente o que, conforme aprendi no dia anterior, era a substância mais deliciosa da face da Terra. Todos pareciam extasiados.
— Nossa, faz sucesso — falei para Howard.
— Esta gelateria é a melhor. Sério.
— Buon giorno.
Uma mulher com um corpo em forma de pera acenou para nós de trás do balcão e eu me aproximei. Aquela loja tinha muitas opções. Havia montanhas enormes de gelato colorido com pedacinhos de frutas ou espirais de chocolate em recipientes de metal, e todas pareciam ter a capacidade de melhorar meu dia em novecentos por cento. Chocolate, frutas, nozes, pistache... Como escolher?
Howard apareceu ao meu lado.
— Você se importa se eu escolher para você? Prometo que compro outro se não gostar.
Isso resolvia o problema.
— Claro, provavelmente não existem sabores ruins de gelato, não é?
— Sim. Acho que até um gelato sabor terra ficaria bom.
— Eca.
Ele olhou para a mulher.
— Un cono con bacio, per favore.
— Certo.
Ela pegou uma casquinha no balcão e fez um montinho alto com um gelato que parecia ser de chocolate, depois entregou a Howard, que por sua vez
entregou para mim.
— Não é sabor terra, é?
— Não. Experimente.
Dei uma lambida. Denso e cremoso. Parecia seda, só que em forma de gelato.
— Hum. Chocolate com... nozes?
— Chocolate com avelãs. O nome é bacio. Também conhecido como o sabor preferido da sua mãe. Acho que viemos aqui umas cem vezes.
Antes que eu conseguisse detê-lo, meu coração despencou até os pés, deixando um imenso buraco no meu peito. Era incrível como às vezes eu seguia em frente, me sentia bem, e de repente... Bam, sentia tanta saudade dela que até minhas unhas doíam.
Olhei para minha casquinha com os olhos ardendo.
— Obrigada, Howard.
— De nada.
Ele pediu outra, depois fomos para a rua, e eu respirei fundo. Ouvir Howard falar da minha mãe tinha me desanimado, mas era verão em Florença, e eu estava tomando um gelato sabor bacio. Ela não ia querer que eu ficasse triste.
Howard me olhou com atenção.
— Queria mostrar uma coisa no Mercato Nuovo. Já ouviu falar do chafariz porcellino?
— Não, mas por acaso minha mãe nadou nele?
Ele riu.
— Não. Foi em outro. Ela contou do turista alemão?
— Sim.
— Acho que nunca ri tanto na vida. Vamos lá qualquer dia desses, mas não vou deixar você entrar na água.
Mais à frente, na rua, o Mercato Nuovo estava mais para um aglomerado de lojas para turistas ao ar livre: muitas barraquinhas de suvenires, como camisetas com frases engraçadas:
SOU ITALIANO, NÃO CONSIGO FICAR CALMO.
NÃO ESTOU GRITANDO, SOU ITALIANO.
E minha favorita:
PODE APOSTAR SUAS ALMÔNDEGAS QUE SOU ITALIANO.
Eu queria parar e ver se conseguia encontrar algo ridículo para enviar a Addie, mas Howard passou direto pelo mercado e me levou até onde um círculo de pessoas se reunia em volta da estátua de um javali de bronze cuspindo água.
O bicho tinha presas e um focinho longo, dourado e brilhante, como se estivesse gasto.
— “Porcellino” significa “javali”?
— Sim. Esta é a Fontana del Porcellino. Na verdade, é só uma reprodução da original, mas existe desde o século XVII. Diz a lenda que se você esfregar o nariz dele, terá a garantia de voltar a Florença. Quer tentar?
— Claro.
Esperei até que uma moça com um filho pequeno se afastasse e fui até lá, usando a mão que não segurava o gelato para esfregar bem o nariz do javali. E
então fiquei ali parada. O javali me encarava com seus olhinhos redondos e os molares assustadores, e não precisei perguntar para saber que minha mãe tinha estado bem ali, molhando as pernas com aquela água nojenta e torcendo com todo o coração para ficar em Florença para sempre. E veja o que aconteceu. Ela nunca tinha voltado nem para visitar, e nunca mais voltaria.
Eu me virei e olhei para Howard. Ele me observava com uma expressão triste e feliz ao mesmo tempo, como se estivesse pensando a mesma coisa e de repente também não conseguisse mais sentir o gosto do seu gelato.
Será que devo perguntar a ele?
Não. Eu queria saber por ela.
* * *
Nada melhorou lá no Duomo. Na verdade, a fila aumentara ainda mais, e crianças pequenas choravam por todo lado. Além disso, como Florença decidira que todos podíamos aguentar um pouco mais de calor, maquiagem, filtro solar e toda a esperança de se refrescar escorriam pelo rosto das pessoas.
— A gente devia ter ficado em casaaaaaa — chorou o garotinho atrás de nós.
— Fa CALDO — disse a mulher a nossa frente.
Caldo. Eu reconhecia aquela palavra.
Howard me encarou. Ambos estávamos muito silenciosos desde o porcellino, mas era mais um silêncio triste que constrangedor.
— Prometo que vai valer a pena. Mais dez minutos, no máximo.
Assenti e voltei a tentar ignorar toda a tristeza que se revirava no meu estômago. Por que Howard e minha mãe não tiveram um final feliz? Ela merecia muito. E, para ser sincera, ele também.
Enfim foi chegando a nossa vez de entrar. As pedras do Duomo tinham a capacidade milagrosa de gerar ar frio, e quando entramos foi difícil resistir à vontade de me deitar no chão de pedra e chorar de alegria. Então vi de relance a escada de pedra para a qual todos se dirigiam e senti vontade de chorar por um motivo bem diferente. Minha mãe dissera que havia muitos degraus, mas omitira o pequeno detalhe de que era bem estreita. Estreita como um túnel feito por uma toupeira.
Fiquei nervosa.
— Você está bem?
Não. Assenti.
A fila entrava devagar pela escada, mas, quando cheguei à base, meus pés pararam de se mover. Tipo, pararam. Simplesmente se recusaram a subir.
Howard se virou e olhou para mim. Ele precisava se curvar um pouco para entrar na escada.
— Você não tem claustrofobia, tem?
Fiz que não. É que eu nunca tinha enfrentado a possibilidade de me espremer num tubo de pedra com um bando de turistas suados.
As pessoas atrás de mim começavam a se aglomerar, e um homem murmurou alguma coisa. Minha mãe dissera que a vista era incrível. Forcei meu pé a subir o degrau. Uma escada tão estreita assim não seria perigosa em caso de incêndio?
E se houvesse um terremoto? Ei, moça atrás de mim aspirando spray nasal, será que você poderia me dar um pouco mais de espaço?
— Lina, eu não contei toda a história do porcellino.
Olhei para ele. Howard tinha descido até o degrau acima do meu e me olhava de um jeito encorajador. Ele estava tentando me distrair.
Boa jogada, Howard. Boa jogada.
— Então conta.