Amor & gelato
Capítulo 14
Olhei a escada outra vez, me concentrando em respirar e começando a subir.
Ouvi gente aplaudindo atrás de mim.
— Muito tempo atrás havia um casal que não podia ter filhos. Eles passaram anos tentando, e o marido culpava a esposa. Certo dia, depois de uma briga, a mulher ficou na janela chorando e um grupo de javalis passou correndo. Os animais haviam acabado de ter filhotes, e a mulher falou que gostaria de poder ter um filho, assim como os javalis. Uma fada por acaso estava ouvindo e decidiu conceder a ela o desejo. Alguns dias depois, a mulher descobriu que estava grávida. Quando deu à luz, ela e o marido ficaram chocados porque o bebê nasceu parecendo mais um javali do que um humano. Só que o casal ficou tão feliz por ter um filho que o amou mesmo assim.
— Essa história não parece ser verdade — disse a mulher atrás de mim.
Eu estremeci. Mais quatrocentos degraus?
Capítulo 14
A SUBIDA VALEU muito a pena. A vista de Florença era tão deslumbrante quanto minha mãe descrevera, um mar de telhados vermelhos sob um céu azul imaculado e suaves colinas verdes envolvendo tudo como num abraço apertado e feliz. Ficamos lá em cima fritando por meia hora enquanto Howard apontava todos os prédios importantes da cidade, e eu criava coragem para descer a escada, o que acabou sendo mais fácil. Depois paramos para almoçar num café e saí de Florença com uma sensação estranha. Independentemente do que estava lendo no diário, eu meio que gostava do Howard. Seria uma traição?
A scooter do Ren chegou pouco depois das nove.
— Ren chegou! — avisou Howard do andar de baixo.
— Pode dizer a ele que ainda estou me arrumando? Sem assustá-lo.
— Vou fazer o possível.
Eu me olhei no espelho. Assim que cheguei em casa descobri como usar a máquina de lavar arcaica do Howard, depois pendurei um monte de coisas para secar na varanda. Por sorte, ainda estava um forno lá fora, então minhas roupas secaram logo. Era o fim das camisetas amarrotadas. Se Thomas ia estar lá, eu queria ficar maravilhosa. Não importava o que meu cabelo teimasse em fazer. Eu tinha tentado usar a chapinha de novo, mas os cachos estavam especialmente rebeldes e não se abalaram por ela. Pelo menos estavam quase verticais.
Por favor, por favor, por favor, que ele esteja lá. Dei uma voltinha. Estava com um vestido curto de malha que minha mãe comprara num brechó fazia mais de um ano. Era lindo e eu nunca havia tido oportunidade de usá-lo. Até aquele momento.
— Você está elegante hoje, Ren — disse Howard de um jeito assustador lá embaixo.
Soltei um gemido. Ren respondeu, mas não consegui ouvir o restante da conversa, com exceção de uns “sim, senhor”.
Depois de alguns minutos, bateram à porta do quarto.
— Lina.
— Só um minuto.
Terminei de passar rímel, depois me olhei no espelho uma última vez. Havia séculos que eu não demorava tanto tempo me arrumando. É melhor você estar lá hoje, Thomas Heath. Abri a porta. Ren estava com o cabelo molhado, como se
tivesse acabado de tomar banho, e usava uma camiseta verde-oliva que realçava seus olhos.
— Oi, Lina. Você... — Ele se calou. — Uau!
— Uau o quê?
Minhas bochechas enrubesceram.
— Você está tão...
— Tão o quê?
— Bellissima. Gostei do vestido.
— Obrigada.
— Você deveria usar vestido mais vezes. Suas pernas são muito...
Fiquei vermelha que nem um pimentão.
— Ok, é melhor você parar de falar das minhas pernas. E de olhar pra mim!
— Desculpa.
Ele olhou uma última vez, depois se virou para o canto, como se estivesse de castigo.
— Gosto mais quando seu cabelo está cacheado.
— Ah é?
— É. Ontem à noite achei você diferente.
— Ah. — Minhas bochechas queimavam.
Ele pigarreou.
— Então... como está o diário? Eles já estragaram tudo?
— Shh!
— Howard acabou de sair pra ver uma coisa no centro de visitantes. Não vai ouvir.
— Ah, bom. — Eu o puxei para dentro do quarto e fechei a porta. — E, não.
O relacionamento ainda é secreto e parece meio instável, mas ainda estou na parte boa. É bem meloso.
— Você se incomoda que eu leia?
— O diário?
— É. Talvez eu possa ajudar a entender o que deu errado. E poderia descobrir mais lugares em Florença aonde levar você.
Hesitei por três décimos de segundo. Aquela oferta era boa demais para recusar.
— Tudo bem, mas tem que prometer, prometer que não vai contar pro Howard. Quero terminar de ler antes de conversar com ele.
— Prometo. A Space só abre às dez. Posso começar agora?
— Boa ideia. — Peguei o diário no criado-mudo. — Tem textos e muitas fotos, então vai ser bem rápido. Eu marquei a página em que parei, então você também deve parar quando chegar nela. — Eu me virei e ele estava olhando para
minhas pernas de novo.
— Ren!
— Desculpa.
Fui até ele, abrindo o diário.
— Olha o que ela escreveu na primeira página.
Ele soltou um assobio baixo.
— “Eu tomei a decisão errada”?
— É.
— Que sinistro.
— Acho que ela escreveu isso como uma mensagem pra mim.
Ele foi passando as páginas.
— Devo levar mais ou menos meia hora pra terminar. Costumo ler bem rápido.
— Que bom. Então... por acaso você sabe quem vai à Space com a gente?
— Está perguntando se Thomas vai estar lá?
— E, humm, outras pessoas também.
— Não sei. Só sei que Elena mandou mensagem pra todo mundo. — Ele ergueu o rosto para mim. — E acho que Mimi vai.
— Ótimo.
Houve um silêncio, e nós dois desviamos o olhar no mesmo segundo.
— Então... vou esperar na varanda.
Peguei meu laptop e saí correndo do quarto. Eu meio que também não estava conseguindo parar de olhar para ele.
Estranho.
* * *
Ren me encontrou na varanda. Eu esperava que os deuses italianos da internet sorrissem para mim e eu conseguisse ler meus e-mails e ver um vídeo de gatinho ou coisa do tipo no YouTube, mas não tive essa sorte. Então estava deitada no balanço, dando impulso no guarda-corpo de vez em quando para me manter em movimento.
— Sua mãe me lembra você.
Eu me sentei.
— Como assim?
— Ela é engraçada. E corajosa. É legal ter assumido um risco tão grande, largando a faculdade de enfermagem e tudo mais. E as fotos dela são muito boas.
Embora só estivesse começando, dá pra ver que ela seria inovadora.
— Você viu os retratos das mulheres italianas?
— Vi. São legais. E você é muito parecida com ela.
— Obrigada.
Ele se sentou ao meu lado.
— São nove e meia. Pronta pra Space?
— Pronta.
— Falei pro Howard que buzinaria quando estivéssemos de saída. Tivemos uma boa conversa mais cedo. Acho que fizemos algum progresso.
— Eu falei pra ele ser legal com você.
— Era por isso que ele não parava de sorrir pra mim? Aquilo me deixou um pouco apavorado.
REGRAS DA LINA PARA ANDAR DE SCOOTER:
1. Nunca esteja encharcada.
2. Nunca ande de saia curta.
3. Tente prestar atenção aos sinais de trânsito. Senão, toda vez que o motorista acelerar você vai bater nele, e vai ser constrangedor ter que se desvencilhar e você ainda vai ficar com medo de ele achar que foi de propósito.
4. Se por acaso não estiver obedecendo à regra número dois, tome o cuidado de não fazer contato visual com motoristas do sexo masculino, ou então vão buzinar bastante animadinhos quando sua saia esvoaçar.
Ren dobrou numa rua de mão única, depois estacionou ao lado de um prédio de dois andares com uma longa fila de gente virando a esquina.
— É aqui.
A música pulsava pelas janelas. Meu estômago virou duas cambalhotas.
— É tipo uma boate de verdade?
— É.
— Eu vou ter que dançar?
— Ren! — Elena tentava atravessar a rua na nossa direção, mas seus saltos não tornavam a tarefa nada fácil. Ela parecia um Frankenstein mancando. —
Pietro colocou nossos nomes na lista. Ciao, Lina! Que bom ver você de novo. —
Ela pressionou a bochecha contra a minha e fez um som de beijo. — Seu vestido é muito lindo.
— Obrigada. E agradeço também por nos colocar pra dentro. Eu queria muito conhecer a Space.
— Ah, sim. Ren falou que seus pais vinham aqui, não é? Eles não vieram hoje, vieram?
Eu ri.
— Não. Com certeza, não.
— Quem vem hoje? — perguntou Ren.
— Todo mundo disse que vem, mas vamos ver quem aparece. Não se preocupe, Lorenzo, tenho certeza de que uma certa pessoa vai vir. Vieni, Lina.
Ela me deu o braço e me puxou para o outro lado da rua, até o começo da fila. Elena gostava de me arrastar.
— Dove vai? — gritou um homem na fila quando passamos à frente dele.
Ela jogou o cabelo para o lado.
— Ignora. Somos muito mais importantes, então nem se preocupe com esse pessoal. Ciao, Franco!
Franco usava uma camiseta preta e seu torso era desproporcionalmente musculoso, como se nunca malhasse as pernas. Ele tirou a corda de veludo que bloqueava a porta e nos deixou entrar.
Entramos num corredor mal iluminado com grandes araras de roupa. Será que aquilo era uma chapelaria?
— Sigam em frente — disse Elena. — A festa é pra lá.
Continuei andando com os braços esticados para a frente, totalmente cega.
Estava muito escuro. E barulhento. Enfim, saímos num ambiente retangular com um longo balcão de bar em um dos lados. Duas músicas diferentes tocavam ao mesmo tempo, uma em inglês e outra em italiano, e as pessoas cantavam uma terceira música num karaokê no fundo. Todo mundo estava ou calado ou gritando para ser ouvido.
— Lina, quer beber alguma coisa? — perguntou Elena, apontando para o bar.
Balancei a cabeça.
— Vamos esperar o pessoal aqui. Quando entrarmos na boate de verdade, vai ser impossível nos encontrarmos.
— Esta não é a boate? — perguntei.
Ela riu como se achasse que eu estava brincando.
— Não. Você vai ver.
Olhei em volta. Será que tinha sido naquele ambiente que Howard dissera o nome da minha mãe pela primeira vez? Eu meio que esperava vê-lo rindo encostado na parede, bem mais alto que todo mundo. Só que aquele lugar não tinha nada a ver com ele. Acho que nem o deixariam entrar ali de chinelo.
Ren me cutucou.
— Quer cantar no karaokê comigo? Podemos escolher algo em italiano, e posso fingir que também só falo inglês. Seria hilário. Que tal...
Então se calou porque Mimi e Marco se aproximavam de nós. Ela usava uma saia minúscula e uma trança. Não havia um único fio de cabelo fora do lugar.
Olhei para Ren. Será que ele também gostava das pernas dela?
Ok, sim, gostava. Alguém precisava ensinar a ele a arte da discrição.
— Oi, gente — gritou Marco. Ele só falava aos berros. — Lina! — E veio até mim com os braços estendidos, mas eu me abaixei. — Rápida demais pra mim.
— Todas as vezes que a gente se encontrar você vai tentar me levantar?
— Vou. — Ele se virou e levantou Elena. — Pergunta só pra Elena.
— Marco, basta! Me coloca no chão ou vou jogar você para um bando de cães selvagens famintos.
— Essa é nova. — Marco sorriu para mim. — Ela é criativa nas ameaças.
Mimi gritava por causa da música.
— Ren, por que você não retornou minhas ligações? Eu não sabia se você viria hoje.
Não consegui ouvir a resposta, mas ela sorriu e começou a brincar com os botões da camisa dele, o que não deveria me incomodar, mas meio que incomodou. Mimi não precisava ficar naquela agarração em público só porque gostava do Ren.
— Lina.
Eu me virei devagar. Por favor, que seja...
— Thomas!
Ele usava uma camiseta azul-marinho que dizia BANIDO DE AMSTERDÃ, e não sei como conseguia estar ainda mais bonito do que eu me lembrava. Se é que isso era possível. Eu me esqueci completamente da brincadeira da Mimi com os botões.
— Elena disse que você viria. Tentei ligar pro Ren...
— Oi, stalker.
De repente, Ren deu um encontrão nele, fazendo-o cambalear.
— Ren, tá maluco? — retrucou ele, se recompondo.
— Tinha umas dez chamadas suas perdidas no meu celular.
— E você só precisava atender uma.
Ren deu de ombros.
— Desculpa, cara. Eu ando ocupado.
Mimi se aproximou do Ren, me olhando como se nem imaginasse quem eu era.
— Oi, Mimi — falei.
— Ei. — Ela estreitou os olhos.
— Eu sou Lina. A gente se conheceu naquela noite na casa da Elena.
— Eu me lembro.
Elena se jogou no meio do nosso pequeno círculo em que pairava uma estranha tensão.
— Ragazzi, chega de conversa! Eu quero dançar.
— Você dança? — perguntou Thomas.
— Não.
— Nem eu. Podemos só ficar de bobeira, fazer um passeio pelo Arno ou coisa assim. Eu conheço um lugar legal que...
— Nem pensar! — Ren pegou minha mão. — Thomas, você não pode privá-la dessa experiência. Ela está na Space. Pra colocar a dança em dia.
— Eu não tenho muita dança pra botar em dia — protestei.
— Claro que tem. — Ele baixou a voz. — E foi aqui que tudo começou, não é?
Assenti, depois olhei para Thomas.
— É melhor eu ficar. Detestaria perder a chance de dar vexame na pista de dança.
— Na pior das hipóteses, você faz a coreografia de Dirty Dancing. Ninguém deixa Baby de lado, não é mesmo?
— Já disse... você sabe demais sobre esse filme.
— Ragazzi! — gritou Elena. — É sério, vamos!
Passamos com ela por uma porta estreita e Thomas apoiou uma das mãos nas minhas costas, causando todo tipo de sensação de êxtase. Logo todos começamos a subir uma rampa e entramos num grande ambiente. Por um segundo, não consegui ver nada sólido, tudo oscilava. Então as luzes de um refletor nos iluminaram e UAU!
O lugar era gigantesco, tinha um pé-direito com no mínimo seis metros de altura, e estava lotado, como se fosse um formigueiro, todo mundo usando roupas de grife. Havia várias plataformas pela pista, então algumas pessoas estavam um metro e meio mais altas que as outras. E todos dançavam. E não estou falando dos passinhos bobos que sempre dominavam os bailes de formatura da minha cidade. Eles dançavam de verdade. Todos se remexiam como se estivessem transando na pista.
Mãe, no que você me meteu?
— Bem-vinda à Space! — gritou Ren no meu ouvido. — Eu nunca a vi tão cheia. Deve ser porque é temporada de férias e a cidade está cheia de turistas.
— Gente, vem comigo! — Marco estendeu os braços para a frente como se fosse mergulhar e começou a atravessar a multidão, seguido por todos nós.
— Ciao, bela — sussurrou um homem no meu ouvido.
Afastei a cabeça depressa. Todo mundo em que eu esbarrava estava suado. O
lugar era meio nojento.
Finalmente, encontramos um pequeno espaço vazio no meio da pista e todo mundo começou a dançar. Na mesma hora. Será que ninguém mais precisava de
um aquecimento antes de entrar no clima?
Minhas mãos começaram a transpirar. Era hora de ter um papo encorajador comigo mesma. Lina, você é uma mulher autoconfiante e vai conseguir. Por que não experimenta a versão sexy das dancinhas que aprendeu quando era pequena. Mas não fique aí parada. Você está ridícula. Então cometi o erro fatal de olhar para Mimi, o que tornou tudo um milhão de vezes pior. Ela estava com os braços para cima, parecendo maravilhosa. Maravilhosa do tipo descolada-sexy-europeia. Eu queria me enfiar num buraco.
— Você consegue — gritou Ren, erguendo o polegar para mim.
Estremeci. Ok, começa a se mexer. Talvez dê para imitar Elena. Oscilar para a frente e para trás. Mexer os quadris. Fingir que não se sente uma completa idiota. Olhei para Thomas. Ele fazia um passinho sem jeito de um lado para o outro que meio que me fez querer sumir porque ele era fofo demais. E também não sabia dançar. Talvez mais tarde eu saísse para dar um passeio com ele por Florença.
Então aconteceu uma coisa louca. A música estava tão alta que esmurrava e chacoalhava meus ossos e dentes e todo mundo estava se divertindo tanto que, de repente, comecei a dançar. Tipo, dançar mesmo. E a me divertir de verdade.
Bem, talvez não tanto quanto Ren, que se esfregava com Mimi, mas mesmo assim. O DJ aproximou o microfone da boca, gritou algo em italiano e todos aplaudiram, erguendo os drinques.
— Ele é meu amigo! É mio amico! — gritou Elena.
— Lina, você está arrasando! — gritou Ren.
Mimi balançava os quadris loucamente, de um jeito que parecia exigir uma concentração intensa, mas quando ouviu Ren, ela ergueu o rosto, me lançando o olhar mais frio que alguém já me lançou.
Eu estava começando a desconfiar que ela não gostava de mim.
Thomas me cutucou com o ombro.
— Já esteve num lugar como este?
— Não.
— É estranho, nos Estados Unidos só dá pra entrar numa boate dessas a partir dos vinte e um.
Estávamos tão perto que eu via as minúsculas gotas de suor no cabelo do Thomas. Até o suor dele era sexy. Eu era mesmo uma nojenta.
Ren se desvencilhou da Mimi e apareceu do meu outro lado.
— Está se divertindo? — Ele estava ofegante.
— Estou.
— Que bom. Já volto. — Mimi segurou a mão dele, e os dois desapareceram no meio da multidão.
Thomas fez uma careta.
— Ele é meio superprotetor com você, não é?
— É por causa do meu pai, que está sempre implicando com ele. Então Ren tem medo de que aconteça alguma coisa comigo e ele tenha que se ver com meu pai.
— Não vai acontecer nada... você está comigo.
Meio brega, mas eu sorri. Feito uma idiota. Thomas tinha acabado com quase todo o meu controle sobre os músculos faciais.
Ele ergueu o queixo, olhando por cima da multidão.
— Lá está ele. Parece que está conversando com Mimi.
Fiquei na ponta dos pés, aproveitando a oportunidade para apoiar a mão no ombro do Thomas. Ren e Mimi tinham se encostado numa parede, e ela estava de braços cruzados e parecia zangada, mas talvez aquela fosse sua expressão normal.
— Então, os dois estão ficando, não é?
— É. O Ren gosta dela há uns dois anos. Parece que quem acredita sempre alcança, não é?
Assenti.
— É.
— Ei, preciso ligar pro meu pai, depois vou pegar uma bebida. Quer também? — perguntou Thomas.
— Quero, obrigada.
Ele abriu um daqueles sorrisos de derreter os ossos e desapareceu entre as pessoas.
— Lina, dança comigo! — Elena segurou minhas mãos e me girou. — O que está acontecendo entre você e Thomas? É amore?
Eu ri.
— Não sei. É a segunda vez que o vejo.
— É, mas ele gosta de você. Dá pra notar. Ele nunca se interessa por ninguém, e naquela noite, depois que você foi embora, ele me perguntou se eu tinha seu número.
— Uh la la! — exclamou Marco. — A garota nova e Thomas.
Elena revirou os olhos.
— Você parece uma criança.
— Ah, é? Uma criança consegue fazer isto? — Ele dobrou os cotovelos e começou a imitar um robô.
— Marco, basta! Você é horrível nisso.
— Quer que eu imite uma minhoca?
— Não!
A música ficou mais rápida, e logo nós três pulávamos de mãos dadas feito um bando de criancinhas. Não era de estranhar que minha mãe gostasse dali. Era muito divertido. Tirando o fato de que a temperatura não parava de subir. Será que havia ar-condicionado naquele lugar?
— Cadê o Thomas? — perguntou Elena.
Sua franja suada estava grudada na testa.
— Foi pegar uma bebida.
— Já faz um tempão. — Ela se abanou. — Fa troppo caldo. Estou derretendo.
De repente, o chão oscilou sob meus pés e eu tropecei.
Elena me pegou pelo braço.
— Está tudo bem?
— Só fiquei tonta. Está quente demais.
— O quê?
— Está quente. Demais.
— Eu também! — gritou Marco. — Eu sou demais!
— Preciso me sentar um pouco.
— Lina, ali tem uns sofás. — Ela apontou para onde Ren e Mimi estavam. —
Quer que eu vá com você?
— Não precisa.
— Vou dizer a Thomas onde você está.
— Obrigada.
Fui para a lateral da boate. Os sofás pareciam o lugar perfeito para a propagação de alguma doença contagiosa, mas eu estava desesperada. De repente, achei que fosse desmaiar.
Um cara esquelético tinha se deitado e ocupava quase todo o primeiro sofá.
Ele usava correntes de ouro e óculos escuros enormes e estremecia de vez em quando, como se uma mosca tivesse pousado nele. Um homem mais velho fumava na outra ponta e, quando me viu, sorriu e disse algo em italiano.
— Desculpa, não entendo.
Passei por ele, abrindo caminho. Minha cabeça latejava junto com a música.
Eu esperava que houvesse uma vaga em algum lugar. Senão, teria que fazer amizade com o aspirante a rapper desmaiado.
Ali tem um! Corri para o lugar vago, mas, no instante em que cheguei lá, parei, porque senti duas mãos na minha bunda. E não foi sem querer. Eu me virei. Era o cara velho do sofá. Seu cabelo era comprido e oleoso, e ele cheirava, entre outras coisas, a rato morto conservado em vodca. Ou, pelo menos, aquele era o cheiro que eu imaginava que um rato morto conservado em vodca teria.
— Dove vai, bella?
— Me deixa em paz.
Ele esticou o braço, passando os dedos pelo meu ombro, e eu me afastei.
— Não encosta em mim.
— Perche? Non ti piaccio?
Um de seus dentes da frente era cinza. E ele era bem mais velho do que eu tinha pensado a princípio. Tipo, dez anos mais velho que todo mundo que estava ali.
Esquece o sofá. Eu me virei para correr, mas ele pulou em cima de mim e agarrou meu braço. Com força.
— Para com isso! — Puxei o braço, mas ele o apertou mais. — Elena!
Marco! — Eu nem conseguia mais enxergar. Onde estava Ren?
Tentei me soltar outra vez, mas o homem me segurou pela cintura e me puxou até minha pelve estar grudada na dele.
— Me. Solta.
Dar uma cabeçada? Joelhada na virilha? O que se deve fazer ao ser atacada?
Ele sorriu, se esquivando de todos os meus movimentos desesperados.
Como eu ia sair daquela situação? Havia muita gente em volta, mas absolutamente ninguém prestava atenção.
— Socorro!
De repente, alguém segurou meus ombros, me puxando para trás, e o homem me soltou um pouco por tempo suficiente para eu me desprender. Era Mimi e parecia uma guerreira linda e furiosa.
— Vai via, fai schifo — gritou ela para o homem. — Vai.
Ele ergueu as mãos, depois sorriu e se afastou.
— Lina, por que você não gritou pra ele ir embora?
— Eu tentei. Ele não me soltava.
— Da próxima vez, tenta mais. Basta chamá-los de stronzo e empurrá-los. Eu tenho que fazer isso toda hora.
— Stronzo?
Meu corpo inteiro tremia. Parecia que eu tinha acabado de entrar numa lixeira. Aquilo tinha sido repugnante.
Ela cruzou os braços.
— O que está acontecendo entre você e Ren?
Tentei manter a mente focada.
— Desculpa, o quê? — Esfreguei os braços, tentando apagar a sensação do toque do Dente Cinza na minha pele.
— O que está acontecendo entre você e Lo-ren-zo? — Ela falou devagar, exagerando as palavras como se achasse que eu não conseguia entendê-la.
— Não sei do que você está falando. — Onde ele estava?
Ela ficou me olhando por um instante.
— Você sabe que eu e Ren estamos juntos, não é? Ele só está andando com você porque sente pena por sua mãe ter morrido.
Talvez fosse a adrenalina restante do conflito com o Velho Bizarro, mas do nada eu falei a primeira coisa que me veio à mente.
— É por isso que ele estava ignorando suas ligações ontem à noite?
Ela arregalou os olhos e se aproximou de mim com uma expressão assassina.
— Ele estava em casa com a irmã mais nova.
— Não, ele estava na Ponte Vecchio comigo. — Por favor, que eu tenha pronunciado direito.
— Aí está você! — Thomas se enfiou entre nós com um refrigerante em cada mão. Ele deu uma olhada para Mimi e perdeu a animação. — Nossa. O que eu perdi?
— Cala a boca, Thomas.
Mimi se virou e se afastou a passos largos.
— O que aconteceu? — perguntou ele.
— Não faço ideia.
— Lina! — Ren abria caminho até mim. — Aí está você. Quer ir embora?
Está fazendo uns mil graus aqui dentro. Acho que o ar-condicionado deve estar quebrado.
Senti uma onda de alívio, mas de repente precisei segurar as lágrimas que pareciam vir de um lago fervente.
— Onde você estava?
— Procurando você. — Ren se aproximou. — Tudo bem?
— Quero ir embora. Agora.
— Também preciso ir — disse Thomas. — Vou sair com vocês.
Levamos o que pareceu uma hora para sair de lá, e quando enfim chegamos à calçada, respiramos o ar fresco como se tivéssemos acabado de emergir do fundo do mar.
— Liberdade! — exclamou Thomas. — Parecia que estávamos sendo sufocados lentamente lá dentro.
Eu me encostei à parede e fechei os olhos. Nunca mais voltaria lá. Nunca.
Ren tocou meu braço.
— Lina, você está bem?
Eu fiz meio que sim, meio que não.
Bem? Eu ainda sentia aquele cheiro de rato em conserva.
— Então, o que achou da Space? O lugar perfeito para começar um relacionamento?
— Que relacionamento? — perguntou Thomas. — O meu e da Lina? — Ele
me lançou um olhar cheio de significado, mas mal notei.
— Ele está falando dos meus pais. — Respirei fundo. — Um velho me atacou. Ele me agarrou e não soltava.
— Como assim? Na Space? — Ren se virou como se pudesse ver através das paredes. — Quando?
— Logo antes de você me encontrar. Mimi me salvou.
— Era isso que estava acontecendo — disse Thomas. — Você está bem? Que tarado!
— Você se machucou? — perguntou Ren.
— Não. Só foi horrível.
Ren estava furioso.
— Por que não gritou me chamando? Eu teria acabado com a raça dele.
— Eu não sabia onde você estava.
O celular do Thomas começou a tocar e ele soltou um gemido ao olhar a tela.
— Meu pai não para de ligar. Nossa família está na cidade e eu disse que não ia demorar muito. — Ele me olhou. — Mas não vou embora sem pegar o seu número.
— Ah, claro. — Eu tinha treinado para aquilo, mas quando fui dizer meu número a ele, esqueci e tive que olhar no papel em que o anotara.
— Ótimo. Ligo pra você amanhã. — Ele me deu um abraço apertado, depois um tapinha no ombro do Ren. — A gente se vê.
— Até mais.
Ren se virou para observar Thomas se afastando, e eu aproveitei a oportunidade para enxugar os olhos. Meu rímel tinha se espalhado pelo rosto inteiro.
— Que camisa idiota a dele, não acha? — comentou ele.
— O quê?
— Banido de Amsterdã. Ninguém é banido de Amsterdã. Até parece.
— Não tenho como saber.
— Sinto muito pelo que aconteceu lá dentro. Eu não devia ter deixado você sozinha. — Ele me olhou com mais atenção. — Espera um pouco. Você está chorando?
— Não.
Uma lágrima gigantesca rolou pelo meu rosto. E depois outra.
— Ah, não. — Ele colocou as mãos nos meus ombros e olhou nos meus olhos. — Sinto muito. Muito mesmo. Nunca mais vamos voltar lá.
— Desculpa. Estou me sentindo uma idiota. Aquele cara era muito nojento.
— Mas não era só por isso que eu estava chorando. Respirei fundo. — Ren, por que você contou pra Mimi que minha mãe morreu?
Ele arregalou os olhos.
— Não sei. Simplesmente saiu. Ela estava perguntando por que você tinha se mudado pra cá e eu contei. Por quê? Ela disse alguma coisa?
— Sabe, não precisa sentir pena de mim. Eu não preciso que você leia o diário e me leve aos lugares. Posso me virar sozinha. Entendo que você tem sua vida.
— Ei, o quê? Eu não tenho pena de você. Quer dizer, é triste você ter perdido sua mãe e tudo, mas eu saio com você porque gosto. Você é... diferente.
— Diferente?
— Tipo, o que a gente conversou ontem à noite. Nós somos parecidos, sabe?
Enxuguei o rosto com o braço. Porque aquilo ia ajudar muito a não espalhar ainda mais o rímel borrado, sabe?
— Jura?
— Sim, juro. De onde você tirou isso?
— Mimi...