Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 9 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 8

Marquei a página e apaguei a luz, sentindo um aperto no peito. Sim, ouvir a voz dela era o equivalente emocional à água entrando num navio avariado, mas também era bom. Ela amava Florença. Talvez ler seu diário fosse como ver a cidade ao lado dela.

Eu só tinha que ir aos poucos.

 

Capítulo 8

PRECISO CONTAR A Addie sobre o diário. Na manhã seguinte, desci a escada ainda de pijama. Ren estava totalmente equivocado sobre o jet lag. Depois de ter lido o início do diário, eu o enfiara sob as cobertas comigo e dormira treze horas seguidas. Acordei me sentindo um beija-flor descansado.

Pouco antes de eu escapar para o quarto, Howard dissera que ia deixar o celular comigo, e fiquei ridiculamente grata por não ter que pedir. Se a volta para casa na noite anterior fosse um livro, o título seria algo como “A viagem mais longa, silenciosa e infeliz de todos os tempos”, e eu não estava nem um pouco ansiosa para ler a continuação. Quanto menos interação, melhor.

De volta ao quarto, fechei a porta e liguei o celular. Primeiro o código do país? O código de área? Onde estavam minhas instruções? Depois de três tentativas, finalmente começou a chamar. Ian atendeu.

— Alô?

— Oi, Ian. É a Lina.

Um videogame berrava ao fundo.

— Sabe... aquela que morou com vocês por cinco meses?

— Ah, sim. Oi, Lina. Onde você está mesmo? Na França?

— Na Itália. Addie está aí?

— Não. Não sei onde ela está.

— Não são tipo duas da manhã aí?

— São. Acho que ela foi dormir na casa de alguém. Agora dividimos o celular.

— Estou sabendo. Pode avisar que eu liguei?

— Claro. Não coma caracóis.

Clique.

Soltei um gemido. Pelo histórico de Ian, minha mensagem tinha menos de zero por cento de chance de chegar a Addie. E eu precisava muito falar com ela, sobre o diário, sobre o que Howard me contara, sobre... tudo. Andei pelo quarto como o gato com TOC da minha avó. Não me sentia pronta para voltar ao diário, mas também não podia ficar parada pensando de jeito nenhum. Vesti a roupa de corrida depressa e saí.

— Oi, Lina. Dormiu bem?

Eu me sobressaltei. Howard estava sentado no balanço da varanda com

olheiras e uma pilha de papéis no colo. Era uma emboscada.

— Sim. Acabei de acordar. — Apoiei o pé no corrimão e me concentrei total e completamente nos meus cadarços.

— Ah, quem me dera voltar a ser adolescente. Acho que nunca acordei cedo antes dos trinta. — Ele parou de se balançar e meio que soltou a seguinte frase, de repente: — Como você está se sentindo em relação ao que conversamos ontem à noite? Fiquei pensando se eu não poderia ter contado aquilo de um jeito melhor.

— Não estou zangada — falei, depressa.

— Gostaria muito de conversar mais com você sobre sua mãe e eu. Ela não lhe contou algumas coisas que...

Tirei o pé do corrimão como se fosse uma dançarina.

— Vamos deixar pra outra hora? Eu quero começar minha corrida. — E

saber primeiro a versão da minha mãe.

Howard hesitou.

— Tudo bem, claro. — Ele tentou fazer contato visual comigo. — Vamos fazer isso no seu tempo. É só me dizer quando estiver pronta.

Desci a escada correndo.

— Ligaram para o centro de visitantes procurando por você hoje de manhã.

Eu me virei.

— Era Addie? — Por favor, que seja Addie.

— Não, foi uma chamada local. O nome dele era estranho. Red? Rem? Um americano. Disse que conheceu você ontem durante sua corrida.

Foi como se tivessem jogado um punhado de confete em cima de mim. Ele ligou?

— Ren. É apelido de “Lorenzo”.

— Faz sentido. Ren disse que você ia a uma festa com ele hoje à noite.

— Ah, é. Talvez eu vá.

Toda aquela história de Howard/diário tinha feito meu cérebro esquecer do resto. Será que eu tinha coragem mesmo de ir?

Howard franziu a testa.

— Bem, quem é ele?

— Ren mora aqui perto. A mãe dele é americana, e ele estuda na escola internacional. Acho que tem a minha idade.

Percebi uma animação no rosto dele.

— Que ótimo. Só que... Ah, não.

— O que foi?

— Eu comecei a fazer um monte de perguntas a ele porque achei que era um dos caras que tinha perseguido você. Acho que posso ter assustado o rapaz.

— Eu conheci Ren atrás do cemitério. Ele estava jogando futebol na colina.

— Poxa, preciso pedir desculpas. Por acaso você sabe o sobrenome dele?

— Ferrari ou coisa parecida? A família mora numa casa que parece feita de doces.

Ele riu.

— Não precisa dizer mais nada. Os Ferrara. Que sorte você ter esbarrado com o garoto. Eu não sabia que o filho deles tinha sua idade, se soubesse teria tentado apresentá-los antes. A festa é com seus outros colegas de turma?

— Possíveis colegas de turma — corrigi depressa. — Não sei se quero ir.

O sorriso dele só ficou ainda maior, como se não tivesse me ouvido.

— Ren pediu para avisar que ele só vai conseguir chegar aqui às oito e meia.

O jantar vai estar pronto antes para você não ter que comer correndo. E

deveríamos arrumar um celular para você... assim seus amigos não precisarão ligar para o centro de visitantes.

— Obrigada, mas acho que seria um exagero. Eu só conheço uma pessoa.

— Depois desta noite, vai conhecer mais. E enquanto isso pode passar meu número para as pessoas não precisarem ligar para o telefone do cemitério. Ah, e uma boa notícia. Nossa conexão com a internet finalmente foi consertada, então o FaceTime deve estar funcionando muito bem. — Ele colocou os papéis na varanda. — Preciso ir para o centro de visitantes, mas vejo você mais tarde.

Aproveite a corrida. — Ele se virou e entrou em casa, assoviando baixinho.

Eu o olhei com desconfiança. Será que Howard era a decisão errada da minha mãe? E quanto à festa? Será que eu queria mesmo encontrar um monte de desconhecidos?

* * *

— O que acha desta? — Eu me aproximei do laptop e dei uma voltinha para Addie ver minha roupa.

Ela se aproximou, e seu rosto preencheu a tela. Tinha acabado de acordar e estava parecendo uma vampira loura com aquele delineador todo borrado.

— Humm. Quer que eu seja legal ou sincera?

— As duas coisas, pode ser?

— Não. Parece que essa camisa passou três dias amassada no fundo de uma mala.

— E passou mesmo.

— Exatamente. Eu voto na saia preta e branca. Suas pernas são lindas e acho que aquela saia é a única coisa que você tem que não é horrível.

— E de quem é a culpa? Foi você que me convenceu a fazer maratona de America’s Next Top Model em vez de lavar as roupas.

— Olha, tudo é uma questão de prioridade. Qualquer dia desses vou crescer dois metros e entro naquele programa. — Ela soltou um suspiro dramático, tentando tirar um pouco da maquiagem dos olhos. — Não acredito que você vai a uma festa. Na Itália. E eu aqui. Aposto que minha noite vai acabar na casa do Dylan de novo.

— Você gosta de ir lá.

— Não gosto nada. A galera só fica sentada falando das coisas que a gente poderia fazer, mas ninguém toma uma decisão, e acaba todo mundo jogando totó a noite inteira.

— Veja pelo lado bom. Ele tem aquele freezer no porão cheio de burritos e churros. São deliciosos.

— Ah, tem razão. Comer churros industrializados é muito melhor do que ir a uma festa na Itália.

Peguei o laptop e me joguei na cama, apoiando-o na barriga.

— Só que eu não gosto de festas, lembra?

— Não diz isso. Você gostava.

— E aí minha mãe ficou doente e ninguém mais sabia o que dizer pra mim.

Addie contraiu os lábios.

— Eu acho sinceramente que parte disso é imaginação sua. As pessoas só não querem dizer nada errado, sabe? E você tem que admitir que acaba se fechando.

— Como assim? Eu não me fecho pra ninguém.

— Humm, e Jake?

— Que Jake?

— Jake Harrison. O jogador de lacrosse veterano e gato. Ele passou tipo uns dois meses tentando convidar você pra sair.

— Ele não me convidou pra sair.

— Porque você evitava o garoto.

— Addie, eu mal conseguia passar meia hora sem pensar na minha mãe e chorar. Acha que ele ia se interessar por alguém assim?

Ela franziu a testa.

— Desculpa. Eu sei que tem sido difícil, mas acho que agora você está pronta. Na verdade, vou até fazer uma profecia: hoje à noite você vai conhecer o cara mais gato da Itália e se apaixonar por ele. Só não cai de amores a ponto de não querer voltar pra casa, ok? Os últimos três dias já foram os mais longos da minha vida.

— Da minha também. Então, vou com a saia preta e branca?

— Isso. Você vai me agradecer depois. E me liga assim que chegar em casa.

Quero conversar mais sobre o diário. Acho que vou contratar uma equipe de filmagem pra começar a seguir você. Sua vida daria um programa de TV

sensacional.

* * *

— Lina! O jantar está pronto.

Eu me olhei no espelho. Tinha recusado o conselho da Addie e colocado minha calça jeans preferida. E estava nervosa demais para comer.

Existe uma primeira vez para tudo.

— Você me ouviu?! — gritou Howard.

— Estou indo!

Coloquei um pouco de gloss e ajeitei o cabelo uma última vez. Eu tinha passado uns bons quarenta e cinco minutos fazendo chapinha, mas pelo menos tinha ficado com um cabelo apresentável. Não que isso garantisse alguma coisa.

Se alguém o olhasse com uma cara estranha, ele retomaria sua loucura natural em meio segundo. “Você é meio parecida com a Medusa”, dissera Addie uma vez, o que foi muito útil.

Howard me encontrou ao pé da escada e me entregou uma tigela enorme de macarrão. Dava para notar que ele estava se esforçando para deixar as coisas menos tensas, e até aquele momento estava funcionando.

— Você está bonita.

— Obrigada.

— Desculpe por demorar tanto para preparar o jantar. Tivemos um problema com a manutenção. Achei que ia passar a noite inteira trabalhando.

— Tudo bem. — Eu coloquei a tigela na mesa. — E obrigada pelo jantar, mas estou sem fome.

Ele ergueu uma das sobrancelhas.

— Sem fome? Quantos quilômetros você correu hoje?

— Onze.

— Você está bem?

— Acho que estou meio nervosa.

— Eu entendo. Conhecer gente nova às vezes é estressante, mas eles vão amar você.

BIIP! Olhamos pela janela e vimos Ren vindo pela estrada numa scooter vermelha brilhante. Meu estômago se contraiu. Por que eu tinha aceitado ir?

Será que ainda dava tempo de desistir?

— Aquele é o filho dos Ferrara?

— É.

— Está chegando antes da hora. Ele não vai levar você de scooter, vai?

— Acho que sim.

Lancei um olhar esperançoso a Howard. Talvez ele dissesse que eu não podia ir! Isso resolveria tudo. Mas será que caras que haviam acabado de se descobrir pais podiam dizer o que os filhos tinham ou não permissão de fazer?

Howard atravessou a sala a passos largos e abriu a porta.

— Lorenzo?

Corri atrás dele.

— Oi, Howard. Oi, Lina. — Ren vestia calça jeans e tênis que pareciam caros. Ele estacionou a scooter e subiu a escada com a mão estendida para Howard. — É um prazer conhecer você.

— O prazer é todo meu. Sinto muito pela confusão no telefone hoje. Achei que fosse outra pessoa.

— Tudo bem. Que bom que você não vai mais me perseguir com uma serra elétrica.

Nossa, Howard estava mesmo levando aquele novo papel a sério.

— Está pronta, Lina? — perguntou Ren.

— Humm, acho que sim. Howard? — Olhei para ele, esperançosa.

Ele observava a scooter do Ren com uma expressão severa.

— Já faz tempo que você pilota?

— Desde os quatorze anos. Sou um motorista muito cauteloso.

— Você trouxe um capacete para ela?

— Claro.

Howard assentiu devagar.

— Tudo bem. Dirija com cuidado. Principalmente na volta. — Ele me indicou com a cabeça. — È nervosa. Stalle vicino.

— Si, certo.

— Humm, com licença. O que vocês falaram? — perguntei.

— Papo de homem — respondeu Ren. — Vamos. Estamos perdendo a festa.

Howard me entregou seu celular e uma nota de vinte euros.

— Leve isto só por precaução. O número do cemitério está aí. Se eu não atender, Sonia atende. A que horas vocês vão voltar?

— Não sei — respondi.

— Posso trazê-la na hora que você quiser — disse Ren.

— Então uma hora.

Eu olhei para Howard. Uma da manhã? Ele queria muito que eu fizesse amigos.

Ele se sentou no balanço da varanda, e eu fui com Ren até a scooter, onde ele

me entregou um capacete que estava guardado no compartimento sob o banco.

— Pronta? — perguntou Ren.

— Pronta.

Subi na traseira meio sem jeito, e de repente eu e Ren estávamos percorrendo a estrada com o ar frio batendo no nosso rosto. Segurei a cintura do Ren com força, sorrindo feito uma idiota. Era como andar numa poltrona motorizada, super-rápida e bastante confortável. Olhei para trás e vi Howard nos observando da varanda.

— Por que você o chama de “Howard”? — gritou Ren, por causa do barulho da scooter.

— Do que mais eu o chamaria?

— “Pai”?

— De jeito nenhum. Eu não o conheço há tanto tempo assim.

— Não?

— É que... É uma longa história. — E mudei logo de assunto. — Onde é a festa?

Ele hesitou e ligou a seta na estrada principal, depois virou na direção oposta a Florença.

— Na casa da minha amiga Elena. Sempre vamos para lá porque a casa dela é a maior de todas. A mãe é descendente dos Médici, e a família tem uma villa gigantesca. A gente sempre percebe que Elena está bêbada quando ela começa a dizer que, em outras épocas, todo mundo teria sido súdito dela.

— Quem são os Médici?

— Uma família florentina muito poderosa. Foram eles que basicamente fundaram o Renascimento.

De repente, imaginei uma adolescente vestindo uma toga.

— Eu estou bem-vestida para a ocasião?

— O quê?

Repeti a pergunta.

Ele desacelerou por causa de um sinal vermelho, depois se virou para me olhar.

— Você está linda. Estamos usando a mesma coisa.

— É, mas você está...