Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 10 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 9

— O quê?

— Mais estiloso.

Ele inclinou a cabeça para trás, e nossos capacetes bateram.

— Obrigado.

 

Capítulo 9

O PERCURSO ATÉ a casa de elena levou uma eternidade. Uma e-ter-ni-da-de.

Quando Ren ligou a seta indicando que ia sair da estrada principal, minhas pernas estavam ficando dormentes.

— Estamos quase chegando.

— Até que enfim. Achei que iríamos até a França.

— A França não fica nessa direção. Se segura.

Ele acelerou e entramos numa rua longa e arborizada. Onde estávamos? Eu não via uma única casa ou prédio havia mais de dez minutos.

— Espera um pouquinho. Três... dois...

Fizemos uma curva e eu explodi.

— O quê?

— Uma loucura, não é?

— Isso é uma casa? Alguém mora em algum lugar normal por aqui? — Como assim? Você não conhece ninguém que mora numa casa de doces nos Estados Unidos?

A villa da Elena era um palácio. A casa tinha vários andares e era enorme, gigantesca como um museu, com torres que se erguiam de cada um dos lados de uma grande porta em arco. Comecei a contar todas as janelas, mas desisti. O

lugar era grande demais.

Ren desacelerou, contornando um grande chafariz circular que ficava no meio de uma entrada para carros do tamanho de uma quadra de tênis. Então saiu do asfalto para estacionar ao lado de várias outras scooters. Minha boca estava seca como o Saara. Comer churros no porão da casa do Dylan tinha muito mais a ver comigo.

— Você está bem? — perguntou Ren, me encarando.

Assenti do jeito menos convincente do mundo, em seguida passamos por uma parede de cercas vivas esculpidas até chegar a uma porta. Fiquei olhando a construção e imaginando que a qualquer momento os habitantes furiosos do vilarejo chegariam com tochas e aríetes. Eu estava prestes a vomitar.

Ele me cutucou.

— Tem certeza de que está bem?

— Ótima. — Respirei fundo. — Então... quantas pessoas moram aqui?

— Três. Elena, a mãe dela e a irmã mais velha, quando volta do colégio

interno. Elena me contou que nunca entrou em alguns cômodos, e às vezes ela e a mãe passam dias sem se ver. Há um sistema de interfone pra não precisarem atravessar a casa toda pra se falar.

— Sério?

— Sim, estou falando sério. Eu nunca nem vi a mãe dela. Algumas teorias dizem que ela não existe. Além disso, este lugar é mal-assombrado. Elena vê fantasmas praticamente uma vez por dia.

Ele apertou com força a campainha de bronze, que emitiu um som alto.

— Você acredita? Em fantasmas?

Ren deu de ombros.

— Elena acredita. Toda noite ela passa pelo fantasma da tataravó Alessandra na escada.

Fantasmas nunca tinham feito sentido para mim. Quando minha mãe se foi, ela simplesmente parou de existir. Eu daria tudo para que não fosse assim.

De repente, uma batida alta me fez soltar um grito. Eu tropecei para trás e Ren me segurou.

— Relaxa. É só a porta. Demora um tempão pra destrancar.

Depois do que pareceram dez minutos, a porta se abriu devagar, e eu dei um passo para trás, meio que esperando ser recebida pela tataravó Alessandra, mas uma adolescente com roupas modernas apareceu. Ela era curvilínea, tinha um piercing de brilhante no nariz e cabelo cheio e preto.

— Ciao, Lorenzo! — Ela abraçou Ren e encostou a bochecha na dele, fazendo um som de beijo. — Dove sei stato? Mi sei mancato.

— Ciao, Elena . Mi sei mancata anche tu. — Ren deu um passo para trás e apontou para mim. — Adivinha quem é esta?

Ela mudou do italiano para o inglês com a mesma velocidade que Ren.

— Quem? Fala logo.

— Carolina.

A garota ficou de boca aberta.

— Você é a Carolina?

— Sou, mas pode me chamar de Lina.

— Non è possibile! Venha!

Ela pegou minha mão e me puxou para dentro, fechando a porta com um chute. O saguão parecia um cenário do Scooby-Doo. A iluminação era fraca e vinha de algumas arandelas. Tapeçarias e pinturas, que davam um ar antigo ao lugar, cobriam cada centímetro da parede, e, espere aí... Aquilo era uma armadura? Elena estava olhando para mim.

— Sua casa é muito...

— Sim, sim. Bizarra. Assombrada, assustadora. Eu sei. Agora vem cá. — Ela

me deu o braço e me arrastou pelo saguão. — Eles vão ficar muito surpresos.

Espera só.

No fim do corredor, ela abriu uma porta dupla e me fez entrar. A sala era muito mais moderna, com um sofá de couro em L, uma TV de tela plana enorme e uma mesa de totó. Ah, tinha umas vinte pessoas. Mais ou menos. E todas olhavam para mim como se eu fosse algum bicho que fugiu do zoológico.

Engoli em seco.

— Humm, oi, gente.

Elena ergueu minha mão, triunfante.

— Vi presento, Carolina. Ragazzi, ela existe!

A sala explodiu em aplausos, e de repente todos me cercaram.

— Você está aqui. Você está aqui de verdade! — Um garoto alto com sotaque francês dava tapinhas animados no meu braço. — Olivier. Bem-vinda.

— Ganhei a aposta! Disseram que você nunca ia aparecer.

— Antes tarde do que nunca.

— Che bella sorpresa!

— Eu sou Valentina.

— Livi.

— Marcello.

Metade deles estendeu a mão para um high-five. Será que achavam que eu era um holograma?

Eu cambaleei para trás.

— É um prazer... conhecer todos vocês.

— Gente, sai de cima dela! — Ren empurrou algumas pessoas para trás. —

Vocês estão agindo como se nunca tivessem visto ninguém novo.

— Nunca vimos — retrucou um garoto de aparelho.

Então começaram a me fazer várias perguntas.

— Há quanto tempo você está aqui?

— Você vai pra EAIF?

— Por que não entrou na escola ano passado?

— Aquele altão é seu pai?

Dei outro passo para trás.

— Humm... O que eu respondo primeiro?

Todos riram.

— Onde você mora? Em Florença? — perguntou uma garota ruiva que estourava uma bola enorme de chiclete ao meu lado.

Pelo sotaque, ela parecia ser de Nova Jersey ou algo assim.

— Moro mais ou menos perto do Ren.

— Ela mora no cemitério americano.

Olhei para ele. Assim você vai me fazer parecer uma esquisitona.

Ele me deu um tapinha no braço.

— Relaxa. Todo mundo aqui mora em lugares estranhos.

Todos começaram a falar.

— Minha família está alugando um castelo medieval em Chianti.

— Nós moramos numa fazenda.

— O William mora no consulado americano. Lembram quando a irmã dele passou por cima do pé de um dignitário estrangeiro com o patinete?

Um garoto italiano com cabelo na altura do ombro deu um passo à frente.

— Ragazzi, ela vai achar a gente um bando de esquisitos. Desculpa por todas essas perguntas.

— Tudo bem — falei.

— Não, nós somos esquisitos mesmo. Nunca conhecemos gente nova.

Estamos cheios da cara uns dos outros — disse uma garota que parecia hispânica.

De repente, alguém me abraçou e me ergueu.

— Ei!

— Marco! Calma, cara! — gritou Ren.

— Senta! — disse a garota de chiclete.

Seria Marco um rottweiler? Eu me soltei e me virei. Era um cara musculoso de cabelo preto e curto.

— Ren, me apresenta. Agora — urrou ele.

— Lina, este é o Marco. Agora esquece que você o conheceu. Pode acreditar em mim, vai ser melhor pra você.

Ele sorriu.

— Você está aqui mesmo! Eu sabia que viria. Sempre soube.

— Espera um instante. Você é minha dupla na aula de biologia?

— Sou!

Ele deu um soquinho no ar e depois me abraçou de novo.

— Não consigo respirar — falei, ofegante.

— Solta ela — mandou Ren.

Marco afrouxou os braços, balançando a cabeça, tímido.

— Desculpa. Em geral eu não sou assim.

— É, sim — retrucou a garota de cabelo preto.

— Não, é culpa dessa cerveja. — Ele me mostrou a lata. — Não sei quem comprou, mas é nojenta. Tem um gosto de mictório, sabe?

— Na verdade, não.

— Não tem problema, eu ofereceria um gole, mas acabei de dizer que tem gosto de xixi. Aliás, você é muito bonita. Tipo, muito mais bonita do que eu

imaginava.

— Hum... Obrigada?

— Ei! Margo! Quem é seu papa? — Ele se virou e saiu correndo.

— Nossa — falei.

Ren balançou a cabeça.

— Desculpa. Eu queria poder dizer que isso aconteceu porque ele está bêbado, mas na verdade quando está sóbrio ele é pior.

— Muito, muito pior — disse um garoto baixinho de óculos.

— Aí está você. — Uma voz fria atravessou o barulho, e eu me virei, ficando cara a cara com uma garota extraordinariamente linda.

Ela era alta e magra, com grandes olhos azuis e um cabelo quase branco de tão louro. Seu olhar me perfurou.

— Oi, Mimi. Você voltou, bem-vinda. — De repente, a voz do Ren baixou tipo três oitavas.

— Eu estava com medo de que você não viesse hoje — disse ela, com um sotaque... sueco? Norueguês? Algum lugar onde todo mundo tinha pele linda e cabelo sedoso e controlado?

— Todo mundo disse que você não tem aparecido muito.

— Estou aqui agora.

— Que bom. Senti saudade de você. — Ela ergueu o queixo para mim, ainda com os olhos fixos no Ren. — Quem é essa?

— Carolina. Acabou de se mudar pra cá.

— Oi. O pessoal me chama de Lina.

Ela desviou o olhar para mim por um décimo de segundo, depois se inclinou para perto do Ren e sussurrou alguma coisa:

— Si, certo. — Ele olhou para mim. — Mas... Mais tarde. Preciso de uns minutos.

Ela se afastou, e foi como se o grupo inteiro voltasse a respirar.

— Rainha do gelo — sussurrou alguém.

— Ela é deslumbrante — falei para Ren.

— Sério? Eu não tinha percebido.

Ele sorriu como se alguém tivesse lhe oferecido um suprimento vitalício de balas. Estava na cara que eu tinha interpretado mal o momento em que ele segurara minha mão na casa de doces. Se Mimi era o parâmetro de beleza dele, já era para mim.

— Ei, vem aqui. Quero mostrar uma coisa.

— Ok. Então... Até daqui a pouco? — falei para os outros.

— Ciao, ciao — disse um deles.

Ren já estava no meio da sala.

— Para onde estamos indo?

— É surpresa. Vem. — Ele segurou a porta para mim. — Primeiro as damas.

Entrei pelo corredor escuro, e Ren fechou a porta. Estávamos diante de uma escadaria enorme.

— Ai, não. É aqui que a tataravó da Elena aparece?

— Não, é na outra ala. Vem. Quero mostrar o jardim.

Ele começou a subir a escada, mas fiquei para trás.

— Humm, Ren? Aí em cima é assustador.

— É mesmo. Anda.

Eu me virei para a porta. Escada assustadora ou adolescentes estrangeiros exageradamente simpáticos? Achei melhor apostar no Ren. Corri atrás dele, e meus passos ecoaram no teto alto. No topo da escada, ele abriu uma porta alta e estreita, e eu passei depois dele com relutância.

— Este lugar é incrível — murmurei.

A sala era lotada de móveis, como se a mobília de dez cômodos tivesse sido reunida num único lugar, e tudo estava coberto com lençóis grossos e empoeirados. Havia até uma lareira gigantesca vigiada pelo retrato de um homem sério usando chapéu de penas.

— É sério isso? — Apontei para o retrato.

— Com certeza.

— Isso é coisa de casa mal-assombrada. Parece que vai se mexer se eu virar de costas.

Ren sorriu.

— E isso vindo de alguém que mora num cemitério.

— Acho que dois dias não configura “morar”.

— Aqui. — Ele foi até as portas de vidro e soltou o trinco, depois as abriu para a sacada. — Era pra mostrar os jardins, mas na verdade o que eu queria mesmo era que você se livrasse um pouco da multidão enlouquecida.

— É, eles ficaram meio agitados ao me conhecer.

— Muitos de nós estudam juntos desde o ensino fundamental, então ficamos loucos pra conhecer gente nova. Acho que deveríamos aprender a nos fazer de difíceis.

— Ei, as cercas vivas formam um labirinto.

Eu me inclinei sobre a sacada. As cercas vivas que ladeavam a porta da frente na verdade faziam parte de um desenho entremeado com estátuas e bancos antigos.

— Legal, não é? Tem um jardineiro muito velho que passou metade da vida podando essas plantas.

— Acho que dá pra se perder lá dentro.

— Dá, sim. Uma vez, Marco saiu andando e levamos umas três horas pra encontrá-lo. Tivemos que subir aqui com um refletor. Ele estava dormindo em cima dos sapatos.

— Por quê?

— Não faço ideia. Quer ouvir algo realmente assustador?

Balancei a cabeça.

— Na verdade, não.

— A irmã mais velha da Elena, Manuela, se recusa a morar aqui porque desde pequena ela vê um de seus antepassados pela casa. A parte sinistra é que o fantasma aparece sempre com a mesma idade que Manuela.

— Não é de estranhar que ela esteja no colégio interno. — Eu me inclinei sobre o parapeito. — Este lugar está me fazendo adorar minha casa-cemitério.

— Contando histórias de fantasmas?

Levei um susto e quase caí lá embaixo.

— Lina! Você parece a Incrível Garota Assustada — disse Ren.

— Desculpa, gente. Não quis assustar vocês. — Um garoto se sentou num dos sofás e esticou os braços para cima.

— Oi, Thomas. Espionando?

— Estou com dor de cabeça. Só estava tentando fugir um pouco do barulho.

Quem é esta com você?

Ele se levantou e se aproximou de nós preguiçosamente.

Ai, meu... Até esqueci o que ia dizer, porque ninguém é tão lindo assim!

Thomas era alto e magro, com cabelo castanho-escuro e sobrancelhas grossas, e tinha aquela coisa do maxilar pronunciado da qual eu já ouvira falar, mas nunca tinha visto. E a boca. Praticamente acabou com qualquer chance que eu tinha de dizer alguma coisa.

— Lina. — Ren estava com uma das sobrancelhas erguida.

Droga. Será que tinham me perguntado alguma coisa?

— Desculpa, o que você disse?

O garoto sorriu.

— Só falei que meu nome é Thomas. E imagino que você seja a misteriosa Carolina. — Ele tinha sotaque britânico.

Sotaque. Britânico.

— Sou. É um prazer conhecer você. Pode me chamar de Lina.

Apertei a mão dele, fazendo o máximo de esforço para ficar de pé. Ao que tudo indicava “pernas bambas” era uma condição real.

— Americana?

— Sim. Seattle. E você?

— De todo canto. Eu moro aqui há dois anos.

A porta se abriu, e Elena e Mimi entraram.

— Ragazzi, dai. Minha mãe vai surtar se descobrir que vocês estão aqui em cima. Eu tomei um sermão de quarenta e cinco minutos depois da última festa.

Algum idiota deixou um pedaço de pizza num aparador de duzentos anos.

Vamos descer, per favore!

— Desculpa, El — disseram Thomas e Ren em uníssono.

— Eu só estava mostrando o jardim pra Lina — explicou Ren. — E Thomas queria tirar um cochilo.

— Quem dorme numa festa? Sua sorte é parecer um deus, porque você é veramente strano. Sério, Thomas.

Parecer um deus. Eu dei outra olhada para Thomas. Sim. Eu poderia tranquilamente imaginá-lo relaxando no Monte Olimpo.

Mimi deu o braço a Ren e todo mundo saiu da sala, menos eu e Thomas. Será que era imaginação minha ou ele também estava olhando para mim?

Thomas cruzou os braços.

— Alguns de nós fizeram uma aposta pra saber se você ia mesmo aparecer um dia. Pelo visto vou perder vinte euros.

— Eu deveria ter me mudado pra cá antes, mas decidi terminar o ano letivo em Seattle.

— Certo, mas mesmo assim você me deve vinte euros.

— Não devo nada. Na próxima, você deveria ter um pouco mais de fé em mim.

Ele sorriu, erguendo uma das sobrancelhas.

— Vou deixar passar desta vez.

Meus ossos tinham mais ou menos a consistência de geleia de morango. Eu tinha certeza de que ele estava me dando mole.

— Ouvi dizer que você mora num cemitério.

— Meu pai é administrador do cemitério americano de Florença. Vim passar o verão com ele.

— O verão inteiro?

— É.

Um sorriso lento se abriu no rosto dele. Eu também estava sorrindo.

— Thomas! — gritou Elena, à porta.

— Desculpa.

E nós dois saímos com ela.

* * *

Então ser normal é assim. Quer dizer, mais ou menos normal.

— O primeiro show a que você foi na vida.

A maioria das pessoas tinha ido para a piscina, e Thomas e eu estávamos sentados com os pés mergulhados na parte funda. A água azul cintilava, e ou as estrelas tinham descido até nós ou havia vagalumes por todo lado.

— Jimmy Buffett.

— Sério? O cara do Margaritaville?

— Fico surpresa por você saber quem é. E, sim, foi basicamente um mar de blusas havaianas. Minha mãe me levou.

Nós nos abaixamos quando jogaram água na nossa direção. Metade dos convidados estava meio embriagada e mergulhando numa brincadeira agitada, e Marco era sempre... Bem, Marco. Foi muito mais engraçado do que deveria.

— Ok, filme preferido.

— Você vai rir de mim.

— Não vou, não, prometo.

— Tudo bem. Dirty Dancing.

— Dirty Dancing... — Ele deixou a cabeça tombar para trás. — Ah, sim.

Aquele filme horrível dos anos oitenta em que o Patrick Swayze era professor de dança.

Tive que jogar água nele.

— Não é horrível. E como você sabe tanto sobre o filme, afinal?

— Duas irmãs mais velhas.

Ele se aproximou de mim até nossos corpos se tocarem do ombro ao quadril.

Foi como levar um choque.

— Então você é corredora, nasceu numa das cidades mais legais dos Estados Unidos, tem um gosto horrível pra cinema, já desmaiou esquiando e nunca experimentou sushi.

— Nem escalada — acrescentei.

— Nem escalada.

Addie, você estava totalmente certa. Alegre, bati os pés na água, dando outra olhada para Thomas. A visão iria me atormentar para sempre. Quem diria que caras tão bonitos existiam? E, por falar nisso, ele tinha acabado de colocar o braço em cima dos meus ombros. Como se não fosse nada de mais.

— Então por que se mudou pra cá? — perguntou.

— Eu vim ficar com meu pai. Ele é, humm... meio novo na minha vida.

— Peguei você.

Com um estrondo repentino, Ren saiu correndo da escuridão atrás de nós.

— Lina, é meia-noite e meia!

— Já?

Tirei os pés da água, e Thomas baixou o braço. Eu me levantei com relutância.

— Precisamos ir. Ele vai me matar! Ele vai me matar.

Ren levou as mãos ao peito e caiu na grama.

— Não vai nada — falei.

— Quem vai matar você? — perguntou Thomas.

— O pai da Lina. Na primeira vez que nos falamos, ele disse que tinha uma bala com meu nome riscado nela.

— Não disse nada. — Olhei para ele. — Espera aí. Ele disse isso?

— Praticamente. — Ren ficou de joelhos e se levantou. — Vamos.

Precisamos ir agora.

— Seu cabelo está cheio de grama — avisei.

Ele balançou a cabeça como um cachorro, fazendo a grama voar para todo lado.

— Eu estava rolando na colina.

— Uma colina sueca? — perguntou Thomas.

— Não perguntei a nacionalidade dela.

Soltei um gemido.

— É mesmo meia-noite e meia? Talvez possamos ficar mais uns vinte minutos?

Ren ergueu as mãos.

— Lina. Você não liga se eu morrer?

— Claro que ligo. Só não queria ter que ir embora.

Thomas também se levantou, depois me abraçou, apoiando o queixo no meu ombro.

— Mas, Lina, está muito cedo. Eu vou ficar muito entediado sem você. Seu pai não deixa você ficar até mais tarde?

Ren ergueu uma das sobrancelhas.

— Estou vendo que as coisas progrediram nas últimas horas.

Eu não conseguia tirar o sorriso do rosto e virei para o lado para Ren não ver.

— Desculpa, Thomas. Preciso mesmo ir.

Ele soltou uma bufada.

— Tudo bem. Então vamos ter que sair de novo outro dia.

— Ciao, tutti — gritou Ren para o grupo. — Preciso levar Lina em casa. Ela tem hora pra chegar.

Houve um coro de “Ciao, Lina”.

— Ciao! — gritei em resposta.

— Espera! — Marco saiu da piscina. — E a iniciação? Lina precisa passar por ela.

— Que iniciação? — perguntei.

— Ela tem que andar na prancha.

Ren soltou um gemido.

— Marco, que idiotice. Paramos de fazer isso tipo... no sétimo ano.

— Ei, vocês me obrigaram a fazer, e foi no ano passado — protestou Olivier.

— Além disso, era inverno. Eu quase congelei.

— Sim, ela precisa fazer — concordou outra garota. — É a tradição.

— Ela está de calça jeans — retrucou Elena. — È troppo cruel .

— Não importa! Regras são regras!

Thomas se aproximou, ficando ao meu lado.

— Se você pular, eu também pulo.

Corta para a imagem mental do Thomas todo molhado.

Eu me virei para Ren.

— Quanto você vai me odiar se tiver que me levar pra casa toda molhada?

— Não tanto quanto você vai odiar a si mesma.

Tirei as sandálias e fui até o trampolim.

— A garota nova vai mesmo! — gritou Marco.

O grupo inteiro começou a aplaudir alto quando subi no trampolim, depois fiz uma reverência. Essa sou eu? Tarde demais para perguntar. Corri pelo trampolim, pulei e me encolhi na bola de canhão mais perfeita do mundo.