Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 4 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 3

 

— OLHE, AQUELA JANELA está aberta. Deve ter alguém por ali.

A voz estava praticamente no meu ouvido, e me sentei de repente. Onde eu estava? Ah, sim. No cemitério. Só que agora a luz do sol tinha invadido o lugar, e dentro do quarto fazia um calor de oitocentos e noventa graus, mais ou menos.

— Não acha que deveria ter placas informando para onde ir? — Era a voz de uma mulher, com um sotaque tão forte quanto molho barbecue.

Um homem respondeu:

— Gloria, isto aqui parece uma residência. Acho que não deveríamos estar bisbilhotando...

— Iuu-huuu! Olá? Tem alguém em casa?

Tirei as cobertas e saí da cama, tropeçando em um monte de almofadas. Eu nem havia trocado de roupa antes de dormir. Estava tão cansada que nem sequer cogitei colocar o pijama.

— Ol-ááá — gorjeou outra vez a mulher. — Tem alguém aí?

Fiz um coque para não assustar ninguém, depois fui até a janela e vi duas pessoas que combinavam perfeitamente com suas vozes. A mulher tinha um cabelo vermelho-bombeiro e vestia uma bermuda de cintura alta, e o homem usava chapéu de pescaria e carregava uma câmera enorme pendurada no pescoço. Eles estavam até de pochete. Segurei uma risadinha. Uma vez, eu e Addie ganhamos um concurso de fantasias vestidas como Turistas Cafonas.

Aqueles dois poderiam ter sido nossa inspiração.

— Olá-á — disse lentamente a Turista Cafona da Vida Real. Ela apontou para mim. — Você fala inglês?

— Eu também sou americana.

— Graças aos céus! Estamos procurando Howard Mercer, o superintendente.

Onde podemos encontrá-lo?

— Não sei. Eu sou... nova aqui.

A vista chamou minha atenção e olhei para cima. As árvores do lado de fora da minha janela eram de um verde denso e aveludado, e o céu talvez fosse o mais azul que eu já tinha visto. Mesmo assim, eu continuava num cemitério.

Repito: continuava. Em. Um. Cemitério.

A Turista Cafona olhou para o homem, depois outra vez para mim, colocando as mãos na cintura como quem diz: “Você não vai se livrar de mim assim tão

fácil.”

— Vou ver se ele está em casa.

— Ah, isso aí — disse ela. — Vamos esperar lá na frente.

Abri a mala e vesti uma regata e um short de corrida, encontrei meus tênis e desci. O térreo era bem pequeno e, fora o quarto do Howard, o único cômodo que eu não tinha visto era o escritório. Bati na porta só por precaução antes de entrar. As paredes eram cobertas por discos dos Beatles e fotos emolduradas.

Parei para observar uma do Howard junto com algumas pessoas jogando baldes de água num elefante enorme e lindo. Ele estava de bermuda cargo e chapéu de safári e parecia o astro de algum programa de aventuras na natureza. Howard dá banho em animais selvagens. Era óbvio que ele não tinha passado os últimos dezesseis anos sentado com saudade da minha mãe e de mim.

Desculpem, Turistas Cafonas. Nem sinal do Howard.

Fui até a entrada, pronta para dizer aos Cafonas que não podia ajudá-los, mas quando entrei na sala, dei um pulo como se tivesse pisado num fio desencapado.

A mulher não apenas estava me esperando na frente, como tinha imprensado o rosto na janela e me olhava como um inseto enorme.

— Aqui. Aqui! — murmurou ela, apontando para a porta da frente.

— Você só pode estar brincando.

Coloquei a mão no peito. Meu coração batia um milhão de vezes por minuto.

Eu imaginava que a vida num cemitério fosse muito mais... morta. Ba dum tss!

Minha primeira piada oficial de cemitério. E o primeiro revirar de olhos oficial por causa da própria piada de cemitério.

Abri a porta e a mulher recuou alguns passos.

— Desculpe, querida. Assustei você? Parecia que seus olhos iam saltar.

Ela usava uma daquelas etiquetas de identificação. OLÁ, MEU NOME É GLORIA.

— Eu não esperava que você estivesse... olhando aqui pra dentro. —

Balancei a cabeça. — Sinto muito, mas Howard não está. Ele comentou que tem um escritório por aqui. Talvez vocês possam procurar lá.

Gloria assentiu.

— Aham. Aham. Bem, o problema é o seguinte, florzinha. Daqui a apenas três horas o ônibus vai voltar para nos pegar, e queremos conhecer tudo. Acho que não temos tempo para ficar andando por aí à procura do sr. Mercer.

— Vocês foram ao centro de visitantes? A mulher que trabalha lá deve saber onde ele está.

— Eu falei que devíamos ter feito isso — disse o homem. — Isto aqui é uma residência.

— Qual é o centro de visitantes? — perguntou Gloria. — Era aquele prédio perto da entrada?

— Desculpe, eu não sei mesmo.

Talvez porque na noite anterior eu estivesse apavorada demais para notar qualquer coisa além do exército de lápides me encarando.

A mulher ergueu uma das sobrancelhas.

— Olha, detesto incomodá-la, querida, mas tenho certeza de que você conhece este lugar melhor que um casal de turistas do Alabama.

— Para ser sincera, não.

— O quê?

Eu suspirei, lançando mais um olhar esperançoso para dentro de casa, mas o lugar estava silencioso como um túmulo. ( Credo! Segunda piada de cemitério.) Parecia que eu ia ter que entrar de cabeça naquela coisa toda de morar num memorial. Então fui para a varanda e fechei a porta.

— Eu realmente não sei onde ficam as coisas por aqui, mas vou tentar ajudar.

Gloria abriu um sorriso extasiado.

— Gratziei.

Desci a escada, e os dois me seguiram.

— Cuidam muito bem deste lugar — observou Gloria. — Muito bem.

Ela estava certa. Os gramados eram tão verdes que pareciam pintados com tinta spray, e em praticamente todos os cantos havia um arranjo com as bandeiras italiana e americana cercadas de flores que pareciam saídas de O

mágico de Oz. As lápides eram brancas e reluzentes, um pouco menos sinistras durante o dia. Mas não me entenda mal: elas continuavam sendo sinistras.

— Vamos por aqui. — Fui em direção à rua pela qual Howard e eu tínhamos chegado.

Gloria me cutucou com o cotovelo.

— Eu e Hank nos conhecemos num cruzeiro.

Ah, não. Gloria ia me contar a história deles? Dei uma olhada rápida para ela, que abriu um sorriso simpático. Claro que ia.

— Ele tinha acabado de perder a esposa, Anna Maria. Ela era uma boa mulher, mas muito peculiar na forma de manter a casa... Uma daquelas pessoas que forram toda a mobília com plástico. Meu marido, Clint, tinha morrido alguns anos antes, então era por isso que eu e Hank estávamos no cruzeiro para solteiros. A comida era ótima... Montanhas de camarão e sorvete à vontade.

Você se lembra daquele camarão, Hank?

Ele não parecia estar ouvindo. Eu apertei o passo, e Gloria fez o mesmo.

— Havia um monte de velhos tarados no barco, uns caras nojentos, mas por sorte eu e Hank fomos colocados na mesma mesa no jantar. O navio nem tinha atracado e ele já tinha me pedido em casamento de tão decidido que estava. Nós nos casamos apenas dois meses depois. Eu já estava instalada na casa dele,

obviamente, mas apressamos as coisas porque não queríamos ficar, sabe... — Ela fez uma pausa, me olhando como se eu entendesse tudo.

— O quê? — perguntei, hesitante.

— Vivendo em pecado — disse ela, baixinho.

Olhei em volta, desesperada. Eu precisava encontrar Howard ou algum lugar para vomitar. Talvez os dois.

— A primeira coisa que fiz foi arrancar todo o plástico da mobília. Não dá para viver com o traseiro colado na droga do sofá. Não é, Hank?

O homem emitiu um som gutural.

— Esta viagem é como uma segunda lua de mel para nós. Passei a vida inteira querendo visitar a Itália, e consegui realizar meu sonho. Você é muito sortuda por morar aqui.

Muito! , pensei.

Fizemos uma curva e demos de cara com um pequeno prédio. Ficava ao lado da entrada principal e nele havia uma placa gigantesca dizendo VISITANTES, REGISTREM-SE AQUI. Fácil de confundir com VISITANTES, ENCONTREM A CASA MAIS

PRÓXIMA E GRITEM PARA QUEM ESTIVER LÁ DENTRO.

— Acho que é aqui — falei.

— Eu falei! — exclamou Hank para Gloria.

— Você não falou nada. — Gloria bufou. — Só ficou me seguindo que nem um vira-lata.

Eu praticamente corri para a entrada do prédio, mas antes que conseguisse tocar a maçaneta, Howard abriu a porta e saiu. Ele usava bermuda e chinelo, como se planejasse pegar um voo para o Taiti mais tarde.

— Lina. Não achei que você já estivesse acordada.

— Estes dois foram procurar você na casa.

Gloria deu um passo à frente.

— Sr. Mercer? Somos os Jorgansen, de Mobile, Alabama. Você deve se lembrar do e-mail que mandei. Somos aqueles que queriam um tour particular especial pelo cemitério. Sabe, meu marido, Hank, tem verdadeiro amor pela história da Segunda Guerra Mundial. Conte a eles, Hank.

— Verdadeiro amor — repetiu Hank.

Howard assentiu atenciosamente, mas os cantos de sua boca se curvaram.

— Bem, só existe um tour, mas tenho certeza de que Sonia ficaria feliz em guiá-los por aqui. Por que não entram para que ela comece?

Gloria bateu palmas.

— Sr. Mercer, estou vendo que você também é do Sul. De onde? Do Tennessee?

— Da Carolina do Sul.

— Foi o que eu quis dizer. Carolina do Sul. E quem é esta linda jovem que veio em nosso auxílio? Sua filha?

Ele não disse nem fez nada por um nanossegundo. Mas foi o suficiente para que eu percebesse.

— Sim. Esta é Lina.

E nos conhecemos ontem à noite.

Gloria balançou a cabeça.

— Deus me perdoe. Acho que nunca vi um pai e uma filha tão diferentes.

Mas às vezes é assim. Eu puxei este cabelo vermelho da minha tia-avó materna.

Às vezes os genes simplesmente pulam algumas gerações.

Tanto eu quanto Howard olhamos para ela com ceticismo. Aquele cabelo vermelho não podia ter vindo de nenhum outro lugar que não uma caixa de tinta, mas tínhamos que admirar seu empenho.

Ela estreitou os olhos para mim, depois se virou para Howard.

— Sua esposa é italiana? — Ela pronunciou “italhana”.

— A mãe dela é americana. Lina se parece muito com ela.

Lancei um olhar grato a ele. Falar no presente complicava menos as coisas, mas então me lembrei do que Howard falou para Sonia na varanda, e me virei, recolhendo minha gratidão.

Gloria colocou as mãos na cintura.

— Bem, Lina, você se encaixa muito bem aqui, não é? Veja só esses olhos escuros e todo esse cabelo deslumbrante. Aposto que todo mundo pensa que você é da região.

— Eu não sou daqui. Só estou visitando.

Hank finalmente recuperou a voz.

— Gloria, vamos andando. Se continuarmos nessa conversa, não vamos conseguir ver o maldito cemitério.

— Tudo bem, tudo bem. Não precisa falar assim comigo. Vamos, Hank. —

Ela nos lançou um olhar conspiratório, como se o marido fosse um irmão mais novo com quem todos nós estivéssemos sendo forçados a andar, e depois abriu a porta. — Vocês dois tenham um bom-dia, está bem? Arrivedente!

— Nossa — disse Howard quando a porta se fechou.

— Pois é.

Cruzei os braços.

— Desculpe por isso. As pessoas não costumam ir até a casa. E em geral são um pouco menos... — Ele hesitou, como se achasse que podia pensar numa palavra educada para descrever os Jorgansen, mas se limitou a balançar a cabeça.

— Parece que você ia sair para correr.

Olhei para minhas roupas. Era um hábito tão forte me vestir daquela forma

que nem tinha reparado.

— Normalmente é a primeira coisa que faço.

— Como falei, fique à vontade para correr pelo cemitério, mas se quiser sair e explorar, é só atravessar aqueles portões. Só existe uma estrada, então acho que você não vai se perder.

A porta do centro de visitantes se abriu e Gloria enfiou a cabeça para fora.

— Sr. Mercer? Esta mulher aqui está dizendo que o tour só dura meia hora.

Eu solicitei especificamente duas horas ou mais.

— Já estou indo aí. — Ele olhou para mim. — Boa corrida.

Quando Howard se afastou, impulsivamente dei um passo à frente para poder ver os reflexos de nós dois na porta de vidro. Gloria podia ser ridícula, mas não tivera receio de dizer o óbvio. Howard tinha mais de um metro e oitenta, cabelo louro-avermelhado e olhos azuis. Eu era morena e tinha que comprar todas as minhas roupas na seção infantil. Às vezes os genes pulam algumas gerações.

Não é mesmo?

* * *

Saí pelos portões da frente e comecei a correr, cruzando o estacionamento de visitantes. Para que lado ir? Não importava. Eu só precisava me afastar do cemitério por um tempo. Esquerda. Não, direita.

A estrada que passava pelo memorial tinha apenas duas pistas, e me mantive na faixa de grama lateral, acelerando cada vez mais. Em geral, eu corria até esquecer os pensamentos que me perturbavam, mas aquele era muito difícil de tirar da cabeça. Por que eu não me pareço em nada com Howard?

Devia ser uma daquelas coisas sem explicação, quer dizer, muita gente não se parece em nada com os pais. Addie era a única loura da família, e eu conhecia um garoto que, quando estava no sexto ano, já era mais alto que o pai e a mãe.

Mesmo assim. Será que eu e Howard não deveríamos ser pelo menos um pouquinho parecidos?

Continuei olhando para o chão. Você vai se adaptar bem rápido. Ele é um sujeito muito legal. Eram palavras da minha avó, que até onde eu sabia não conhecia Howard. Pelo menos não pessoalmente.

Um enorme ônibus azul passou em alta velocidade, lançando uma rajada de ar quente no meu rosto, e quando olhei para cima, perdi o fôlego. Que droga é...? Eu estava correndo pelo cenário do cardápio de um restaurante italiano? Era tão idílico. A estrada era ladeada por árvores e serpenteava levemente entre casas e prédios rústicos, pintados em cores suaves. Colinas em vários tons surgiam ao

longe e havia vinhedos de verdade atrás de metade das casas. Então aquela era a Itália da qual as pessoas falavam. Dava para entender por que o lugar encantava tanta gente.

Outro veículo apareceu correndo atrás de mim, buzinando alto e me arrancando do meu momento de admiração da beleza italiana. Eu me afastei da rua e me virei para olhar para trás. Era um carrinho vermelho que parecia estar se esforçando muito para parecer mais caro do que na verdade era e que diminuiu a velocidade quando se aproximou de mim. O motorista e o passageiro tinham cabelo escuro e uns vinte e poucos anos. Quando nos encaramos, o motorista sorriu e começou a buzinar outra vez.

— Ei, calma. Eu nem estou no seu caminho — murmurei.

Então ele pisou no freio com força, como se tivesse conseguido me ouvir, depois parou bem no meio da estrada. O outro cara, talvez um ou dois anos mais velho, abriu a janela do banco de trás com um grande sorriso no rosto.

— Ciao, bella! Cosa fai stasera?

Balancei a cabeça e voltei a correr, mas o motorista avançou alguns metros, parando ao meu lado na estrada.

Que ótimo. Depois de quatro anos de corrida, eu conhecia muito bem aquele tipo de cara. Não sei quem disse a eles que “sair para correr sozinha” era um código para “quero ouvir cantadas”. Eu tinha aprendido que falar “não estou interessada” não bastava. Eles simplesmente achavam que eu estava me fazendo de difícil.

Atravessei a estrada e me virei na direção do cemitério, parando um segundo para apertar os cadarços. Depois, respirei fundo e ouvi o tiro imaginário de uma pistola dando a largada. Corre!

Eles soltaram um grito de surpresa.

— Dove vai?

Nem olhei para trás. Com a motivação certa, eu conseguia correr mais rápido que qualquer um, mesmo homens italianos em latas-velhas vermelhas. Eu até escalaria uma cerca se fosse preciso.

Quando cheguei ao cemitério, os caras tinham passado por mim mais duas vezes e depois desistiram, e eu tinha quase certeza de que até minhas pálpebras estavam suando. Howard e Sonia, de costas para o portão, se viraram depressa quando me ouviram, provavelmente porque eu parecia um lobisomem asmático.

— Você voltou rápido. Está tudo bem? — perguntou Howard.

— Eu... fui... perseguida.

— Por quem?

— Um carro... cheio de caras.

— Ah, eles só devem ter se apaixonado — disse Sonia.

— Calma aí. Um carro cheio de caras perseguiu você? Como eles eram?

Howard contraiu o maxilar e olhou para a estrada como se estivesse pensando em ir até lá com um taco de beisebol ou coisa do tipo. Aquilo meio que compensou o “Ela é muito quieta” da noite anterior.

Balancei a cabeça, enfim recuperando o fôlego.

— Não foi nada de mais. Da próxima vez, fico dentro do cemitério.

— Ou pode correr atrás do cemitério — sugeriu Sonia. — Há um portão que dá para os fundos do terreno. Deve ser ótimo se exercitar naquelas colinas, e a paisagem é linda. Além disso, não haveria carros para persegui-la.

Howard ainda parecia furioso, então mudei de assunto.

— Onde estão os Jorgansen?

Sonia sorriu.

— Houve um pequeno... conflito. Eles optaram por fazer o tour sozinhos. —

Ela apontou para o outro lado do cemitério, onde Gloria caminhava com Hank por uma fileira de lápides. — Seu pai estava me dizendo que quer levá-la para jantar em Florença hoje à noite.

Howard assentiu, finalmente relaxando o rosto.

— Achei que podíamos ver o Duomo e depois comer uma pizza.

Será que eu deveria saber o que era aquilo? Fiquei meio sem jeito. Se eu dissesse sim, estaria concordando com o que sem dúvida seria um jantar constrangedor só com Howard. Se dissesse não, provavelmente ficaria presa ali no mesmo cenário. Pelo menos daquele jeito eu teria oportunidade de ver a cidade. E o Duomo. Seja lá o que isso fosse.

— Tudo bem.

— Ótimo. — Ele parecia animado, como se eu tivesse falado que queria muito ir. — Assim vamos ter a chance de conversar. Sobre as coisas.

Eu me contraí. Será que eu não merecia uma espécie de prazo de carência antes de ter que lidar com qualquer que fosse a grande explicação que Howard me reservara? Só estar ali já era demais para mim.

Eu me virei para limpar o suor da testa, torcendo para que não percebessem como eu estava contrariada.

— Vou voltar pra casa.

Comecei a me afastar, mas Sonia correu atrás de mim.

— Você se importaria de passar lá em casa antes? Tenho uma coisa que era da sua mãe e eu gostaria de lhe entregar.

Dei um passo para o lado, colocando mais uns quinze centímetros entre nós.

— Desculpa, mas preciso muito tomar um banho. Pode ficar pra outra hora?

— Ah. — Ela franziu as sobrancelhas. — Claro. Avise quando tiver um minuto. Na verdade, eu poderia...

— Obrigada. A gente se vê.

Comecei num trote, sentindo o olhar da Sonia em mim quando me virei de costas. Eu não queria ser grosseira, mas também não queria de jeito nenhum o que ela tinha para me entregar. As pessoas estavam sempre me dando coisas que haviam pertencido a minha mãe, sobretudo fotos, e eu nunca sabia o que fazer com elas. Eram como lembranças da minha vida anterior.

Olhei para o cemitério e suspirei. Eu não precisava de mais nenhum lembrete de que as coisas tinham mudado.