Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 21 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 20

— Vocês dois. Esperem aí!

Eu e Ren congelamos. Ah, não. Parte de mim queria ir embora, mas outra parte ainda maior queria se virar. Então foi o que fiz. Lentamente.

Um homem de meia-idade estava no alto da escada. Usava uma camisa que parecia cara e calça social, e era mais baixo do que eu tinha imaginado, com uma barba e um bigode cuidadosamente aparados. Ele não tirava aqueles olhos escuros de mim.

— Vem, Lina, vamos embora — disse Ren.

— Carolina? Por favor, venha ao meu escritório.

— Não precisamos ir — sussurrou Ren. — Podemos ir embora. Agora.

Minha pulsação latejava nos ouvidos. Ele não só tinha me chamado de

“Carolina”, como tinha pronunciado corretamente. Segurei a mão do Ren.

— Por favor, venha comigo.

Ele assentiu e lentamente fomos até a escada.

 

Capítulo 20

— POR FAVOR, SENTEM-SE. — Matteo tinha um tom de voz educado, com um leve sotaque.

Ele foi para trás de uma mesa em forma de meia-lua e apontou para duas cadeiras idênticas a ovos cozidos. Pensando bem, tudo no escritório dele parecia outra coisa. Um grande relógio em forma de roda dentada tiquetaqueava alto no canto, e o tapete lembrava um mapa do genoma humano ou coisa do tipo. A sala inteira tinha um aspecto moderno e coloridíssimo que não combinava com o homem diante de nós.

Inquieta, eu me sentei num dos ovos cozidos.

— O que posso fazer por vocês?

Ok. Conto logo? Por onde começo?

— Eu... — Cometi o erro de olhar de relance para Ren, e de repente minha garganta se fechou como se estivesse sendo enforcada.

Ele me olhou de um jeito preocupado.

Matteo inclinou a cabeça.

— Vocês dois falam inglês, certo? Benjamin disse que queriam conversar comigo. Imagino que estejam interessados em alguma informação sobre os cursos.

Ren olhou para minha expressão petrificada, depois tomou a palavra.

— Ah... sim. Informações sobre os cursos. Humm, você tem alguma aula para iniciantes?

— Claro. Dou vários cursos para principiantes ao longo do ano. O próximo começa em setembro, mas acho que as vagas já acabaram. Todas as informações estão disponíveis no meu site. — Ele se recostou. — Gostaria de entrar para a lista de espera?

— Sim, boa ideia.

— Tudo bem. Benjamim vai ajudá-los com isso.

Matteo olhou para mim, e de repente fiquei consciente de todas as minhas terminações nervosas. Ele estava fingindo que não sabia, ou não percebia? Eu me sentia diante de um espelho. Um espelho mais velho, do sexo masculino, mas mesmo assim um espelho. Ele olhou para o meu cabelo por alguns instantes.

— Você tem uma boa câmera para recomendar a um iniciante? — perguntou Ren.

— Sim. Prefiro as Nikons. Roma tem várias lojas boas de fotografia. Posso passar os contatos para vocês com todo o prazer.

— Ótimo.

Matteo assentiu, e houve um longo momento de silêncio.

Ren pigarreou.

— Então... elas devem ser bem caras.

— Existem câmeras de vários preços. — Ele cruzou os braços e olhou para o relógio de roda dentada. — Bem, se vocês me dão licença...

— Você coleciona muitas fotos de outros fotógrafos? — soltei.

Matteo e Ren olharam para mim.

— Não muitas, mas viajo bastante, então faço questão de visitar estúdios e galerias em todos os lugares que vou. Se encontro algo especialmente tocante, compro e exibo na galeria junto com meu trabalho e o dos alunos.

— E quanto à foto de Hadley Emerson? Onde a comprou?

— Aquela foi um presente.

— De quem?

— Da própria.

Ele me encarou. Como se me desafiasse.

Perdi completamente o fôlego.

Ele afastou a cadeira da mesa.

— Lorenzo, por que não vamos até a recepção e pedimos a Benjamin que coloque seu nome na lista de espera? Carolina, antes de você ir, eu gostaria de mostrar a outra foto da Hadley que tenho.

Eu me levantei da cadeira sem jeito, e Ren segurou meu braço.

— Por que ele não está reconhecendo você? — sussurrou.

— Ele está. Sabia meu nome verdadeiro e a pronúncia correta.

Todo mundo errava meu nome. A não ser que já o tivessem ouvido.

Descemos com ele, meu coração quase saindo pela boca, e Matteo parou na recepção.

— Benjamin, você poderia ajudar Lorenzo a colocar o nome na lista de espera do próximo curso para iniciantes?

— Claro.

— Carolina, a foto está na sala ao lado. Lorenzo, vamos esperar você lá.

Nós nos entreolhamos. Ok? , murmurou ele.

Ok.

Ok, ok, ok.

— Por aqui.

Matteo foi para a sala ao lado, e eu o segui, com a mente confusa como uma TV com sinal ruim. O que estava acontecendo? Ele queria conversar em

particular?

Ele foi até a parede mais distante e apontou para a foto de uma jovem com o rosto meio sombreado. Sem dúvida minha mãe.

— Está vendo?

— Sim. — Respirei fundo, mantendo os olhos na foto para criar coragem.

— Matteo, eu estou aqui porque sou...

— Eu sei quem você é.

Ergui o rosto depressa. Ele me olhava como se eu fosse um chiclete grudado na sola do seu sapato.

— Você é sua mãe de calça jeans e All Star. A verdadeira pergunta é: o que está fazendo aqui?

— O que estou... fazendo aqui? — Dei um passo para trás, tentando pegar o diário na bolsa. — Eu li sobre você no diário da minha mãe.

— E daí?

— Ela... estava apaixonada por você.

Ele soltou uma risada amarga.

— Apaixonada. Ela era uma criança boba, que caiu de amores pelo instrutor.

Não conhecia a vida fora daquela cidadezinha de onde veio e quando chegou aqui achou que sua vida viraria um conto de fadas. Mas, as fantasias da Hadley não importam, o que importa é que eu era professor dela, só isso. E seja lá o que estiver passando por sua cabeça agora, é melhor esquecer logo, Carolina. — Ele cuspiu meu nome como se fosse um pedaço de fruta podre.

Uma onda de calor se espalhou pelo meu corpo.

— Não foi só isso. Vocês namoraram. Você escondeu o relacionamento de todo mundo e depois terminou tudo quando ela veio visitá-lo em Roma.

Ele balançou a cabeça devagar.

— Não. Isso é mentira. Ela criou uma fantasia de que tínhamos um relacionamento e foi tão longe que chegou a acreditar em si mesma. — Os lábios dele se curvaram num sorriso horrível. — Sua mãe era desequilibrada. Uma mentirosa.

— Não era, não. — Minha voz ecoou pela sala. — Ela não fantasiou essas coisas. Não inventou o relacionamento de vocês.

— Ah, é mesmo? — Matteo ergueu a voz. — Pergunte a qualquer um que estava lá. Alguém nos viu juntos? Você já falou com alguém que tenha confirmado essa história?

— Francesca Bernardi.

Ele revirou os olhos.

— Francesca. Era a melhor amiga da sua mãe. Claro que acreditava nela, mas alguma vez ela nos viu juntos? Francesca tem algo mais em que se basear além

do conto de fadas ridículo da sua mãe?

Será que tinha? Um carrossel de pensamentos começou a rodopiar pela minha cabeça. Francesca parecia ter certeza...

— Imaginei. Mas como você se deu ao trabalho de vir aqui, vou contar exatamente o que aconteceu. Sua mãe estava tendo dificuldades com o trabalho do curso e perguntou se eu poderia ajudá-la fora da escola. A princípio, fiquei contente em ajudar, mas depois ela começou a me ligar em horários estranhos.

Durante a aula, ficava me encarando e deixava coisas na minha mesa para mim.

Às vezes eram versos; outras, fotos dela mesma. — Ele balançou a cabeça. — A princípio, achei que era só uma paixonite, inofensiva, mas aquilo foi ficando mais intenso. Certa noite, Hadley foi até meu apartamento e disse que tinha se apaixonado por mim, que sua vida não teria sentido se não ficássemos juntos.

Tentei ser gentil. Disse que, como professor, eu não poderia me relacionar com uma aluna. Disse que ela seria mais feliz com alguém da idade dela. Como aquele Howard Mercer.

Howard. Estremeci, mas Matteo não notou, ele estava com o olhar distante, como se visse a cena acontecer numa grande tela de TV.

— E foi aí que ela surtou. Começou a gritar, dizendo que iria procurar o diretor da escola para contar que eu tinha abusado dela. Eu falei que ninguém acreditaria. E então ela pegou um diário, imagino que seja esse aí mesmo, e me disse que estava tudo registrado. O que ela escreveu aí é uma fantasia, uma visão, do que ela queria que acontecesse entre nós. Ela disse que escreveria um final infeliz e mostraria para todo mundo como prova. No dia seguinte, tive uma conversa com o diretor, e concordamos que, embora eu não tivesse cometido nenhum erro, era melhor me demitir. Mais tarde, fiquei sabendo que ela começou a dormir com qualquer um que aparecesse. Imagino que você seja fruto disso. — Ele olhou no fundo dos meus olhos, e eu senti um calafrio. — Eu não queria nada com sua mãe e não quero nada com você.

— Você é um mentiroso. — Minha voz falhava. — E covarde. Olha pra mim.

Eu sou a sua cara.

Ele balançou a cabeça lentamente, com um sorriso triste.

— Não, Carolina. Você é a cara dela. E do pobre homem que ela atraiu para uma de suas fantasias patéticas. — Num movimento rápido, ele deu um passo à frente, tirando o diário das minhas mãos.

— Ei! — Tentei recuperá-lo, mas ele se virou, me bloqueando com o ombro.

— Ah, sim. O famoso diário. — Começou a folheá-lo. — Parece que ela me chamava de X. Inteligente, não? “A única parte difícil de estar apaixonada por X

é não contar a ninguém”... “Às vezes parece que meu tempo é dividido em duas categorias: o tempo com X e o tempo esperando para estar com X”... — Ele se

virou, passando as páginas lentamente. — Carolina, você tem cara de ser uma garota inteligente. Pensa bem, isso parece real? Acha que sua mãe teve um relacionamento que conseguiu manter totalmente em segredo?

— Ela não inventou nada disso.

Matteo olhou para a primeira página do diário e mostrou para mim. “Eu tomei a decisão errada.”

— Está vendo? Mesmo em meio à loucura, ela sabia que forjar o diário era errado. Ela era muito talentosa, mas folle. Detesto dizer isso, Carolina, mas a ciência provou que as partes do cérebro responsáveis pela criatividade e pela loucura são as mesmas. Pelo menos você tem o conforto de saber que não foi culpa dela. Sua mãe era um gênio, mas a mente dela era fraca.

De repente, tudo ficou vermelho, de tanta raiva em ebulição. Sem pensar direito, parti para cima dele, arrancando o diário de suas mãos e correndo para o saguão.

— Lina? — Ren desviou o olhar da mesa. Ele segurava uma prancheta. —

Você está bem?

Abri a porta e saí, seguida por Ren. Eu me virei e corri pela rua, com as pernas pesadas como sacos de areia. A mente dela era fraca.

Finalmente, Ren me alcançou, agarrando meu braço.

— Lina, o que aconteceu? O que aconteceu lá dentro?

Uma onda de enjoo me dominou e corri para a beira da calçada, com ânsia de vômito. Enfim, a sensação passou e me abaixei, sentindo o calçamento duro sob os joelhos.

Ren se ajoelhou ao meu lado.

— Lina, o que aconteceu?

Eu me virei, encostei o rosto no peito dele e de repente comecei a chorar. Não apenas chorar. Eu soluçava. Um choro explosivo e descontrolado. O peso dos últimos dez meses caíra sobre mim e eu não podia fazer nada.

Eu chorei, chorei e chorei. Lágrimas quentes e barulhentas escorriam, e eu não me importava que os outros vissem. O tipo de coisa que eu nunca tinha feito na frente de ninguém.

— Lina, está tudo bem — dizia Ren, me abraçando. — Vai ficar tudo bem.

Mas, não, não ia. Nunca mais. Minha mãe estava morta. E eu sentia tanta saudade dela que às vezes me perguntava como conseguia respirar. Howard não era meu pai. E Matteo... Não sei por quanto tempo chorei, mas finalmente senti ter chegado ao fundo do poço, e meus últimos soluços me fizeram estremecer.

Abri os olhos. Nós dois ainda estávamos ajoelhados no chão. Abracei Ren, enfiando o rosto no seu pescoço, a pele dele quente e pegajosa. Eu me afastei.

Sua camisa tinha uma enorme mancha molhada, e ele estava aflito.

Ren não merecia ter que lidar com isso.

— Desculpa — falei com a voz rouca.

— O que aconteceu?

Enxuguei o rosto, depois o puxei e ficamos de pé.

— Matteo disse que minha mãe inventou tudo aquilo. Que era obcecada por ele e que escreveu um diário falso pra arruinar a vida dele na escola.

— Che bastardo. Nem é uma história tão boa assim. — Ele olhou para mim com mais atenção. — Espera. Você não acreditou nele, né?

Hesitei por um instante, depois balancei a cabeça com vigor, fazendo meu cabelo grudar nas bochechas.

— Não. No começo fiquei assustada, mas ela não era assim. Nunca teria magoado alguém que amava.

Ele soltou um suspiro.

— Você me deu um susto.

— Só não consigo acreditar que ela amava alguém como ele. Ele é horrível. E

Howard é tão... — Ergui o rosto.

O rosto do Ren estava a quinze centímetros do meu, e de repente nos encaramos e parei de pensar em Matteo e Howard.