Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 13 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 12

— Nunca ouvi falar disso, mas deve ser incrível. Pena que ela não anotou o endereço, eu adoraria comer um cornetto fresco.

O celular do Ren começou a tocar, ele o tirou do bolso e hesitou por um instante, depois apertou SILENCIAR. Na mesma hora, voltou a tocar e ele apertou SILENCIAR outra vez.

— Quem é?

— Ninguém.

Ele enfiou o celular no bolso, mas consegui ver o nome na tela. Mimi.

— Ei, quer tomar um gelato?

Franzi a testa.

— O que é isso?

Ele soltou um gemido.

— Gelato. Sorvete italiano. A melhor coisa que vai acontecer na sua vida. O

que você ficou fazendo desde que chegou?

— Indo pra lá e pra cá com você.

— E está me dizendo que só tenho um verão... — Ele balançou a cabeça, depois se levantou. — Vem, Lina. Temos muitas coisas pra fazer.

Capítulo 12

ENTÃO... GELATO ITALIANO. Imagine a delícia que é um sorvete de casquinha comum, multiplique por um milhão, depois arremate com pó de chifres de unicórnio. Ren me fez parar depois de tomar a quarta bola. Eu provavelmente teria continuado para sempre.

Quando cheguei, Howard estava assistindo a um filme antigo do James Bond com os pés descalços apoiados na mesinha de centro. Havia um balde de pipoca gigantesco ao lado dele.

— O filme acabou de começar... quer assistir?

Olhei para a tela. O James Bond das antigas nadava em direção a um prédio usando um disfarce que era basicamente um pato empalhado preso a um capacete. Em geral, eu adorava filmes antigos cafonas, mas naquela noite tinha outras coisas em mente.

— Não, obrigada. Vou descansar. — E espero conseguir respostas.

9 DE NOVEMBRO

Esta foi a melhor noite da minha vida, e devo isso a uma estátua.

Eu e X estávamos na Piazza della Signoria olhando a estátua de Giambologna chamada O rapto das sabinas. Fiquei muito confusa porque em inglês chamam de “The Rape of the Sabine Women“, e na imagem não fica claro o que está acontecendo. São três figuras: um homem segurando uma mulher no ar e um segundo homem agachado no chão olhando para ela. É evidente que a cena é angustiante, mas os três são muito graciosos, harmoniosos até.

Eu disse a X que achava que a mulher parecia estar sendo erguida, não violentada, e claro que ele conhecia a história. Quando Roma foi fundada, os homens perceberam que havia algo muito importante faltando em sua civilização: mulheres. Mas onde as encontrariam? As únicas mulheres que viviam a uma distância relativamente pequena pertenciam a uma tribo vizinha chamada sabinos, e quando os romanos foram pedir permissão para se casarem com algumas das filhas daquelas famílias, ouviram um retumbante não. Então, numa atitude tipicamente romana, eles convidaram os sabinos para uma festa e, no meio da noite, dominaram os homens e arrastaram as mulheres desesperadas para sua cidade. Enfim, os sabinos conseguiram invadir Roma, mas àquela altura, era tarde demais. As mulheres não queriam ser resgatadas. Tinham se apaixonado por seus captores e, no fim das contas, chegaram à conclusão de que a vida em Roma era ótima. A palavra em latim raptio se parece com rape, que quer dizer estupro, mas na verdade significa “rapto”. Só então entendi que o título da obra em inglês foi uma tradução equivocada.

Já estava tarde, e falei para X que precisava ir para casa, mas de repente ele se virou para mim e disse que me amava. Ele disse isso de um jeito casual, como se não fosse a primeira vez, e eu levei um instante para assimilar as palavras. Então o fiz repeti-las. Ele me AMA. Pode me raptar.

Eu me rendo.

10 DE NOVEMBRO

Fui para a aula hoje de manhã depois de dormir umas duas horas. X

chegou tarde, e embora eu soubesse que devia ter dormido ainda menos que eu, ele estava perfeito. Quebrou nossa regra de agir como simples amigos na escola e me abriu um enorme sorriso. Todos viram. Eu queria poder pausar esse momento e viver nele para sempre.

17 DE NOVEMBRO

Às vezes parece que meu tempo é dividido em duas categorias: o tempo com X e o tempo esperando para estar com X. Desde aquela noite na Piazza della Signoria, as coisas andam instáveis entre nós. Em certos dias, nos damos muito bem, e em outros, ele age como se eu realmente fosse apenas uma amiga. Ultimamente ele tem tomado cuidado demais para manter o segredo. Seria tão ruim assim se todo mundo soubesse? Acho que ficariam felizes por nós.

21 DE NOVEMBRO

Quando vim para a Itália, em junho, seis meses pareciam uma eternidade.

Agora parece que estão escorregando por entre meus dedos. Só tenho mais

 

um mês! O diretor da escola, o Signore Petrucione, disse que adoraria que eu ficasse por mais um semestre, e eu faria de tudo para ter um pouco mais de tempo para estudar e ficar com X, mas e o dinheiro? E meus pais?

Será que ficariam arrasados? Toda vez que nos falamos, eles tocam no assunto da faculdade de enfermagem, e dá para perceber o quanto estão decepcionados.

Quando cheguei da aula hoje, havia uma carta deles. Eles tinham incluído dois avisos da universidade dizendo que se eu não voltar para o semestre seguinte, vou perder minha vaga. Só passei os olhos pelas correspondências, depois as enfiei no armário. Eu só queria que isso terminasse.

Ops. Primeiros sinais de problemas. Como aqueles minitremores sentidos antes de um terremoto. Como se chamam? Abalos? Sem dúvida eu os sentia naquelas páginas. Ele disse que a amava, mas não a deixava contar aos amigos sobre o relacionamento? Por que ele teimava tanto em manter o segredo? Minha mãe não parecia nem um pouco preocupada com isso.

Eu me recostei na cama e cobri os olhos com o braço. O jovem Howard parecia muito inconstante. Será que tinha usado toda aquela história de segredo como desculpa para não se comprometer de verdade? Será que ela gostava muito mais dele do que ele dela? Aquilo era deprimente demais. Coitada da minha mãe. Mas então como aquilo se encaixava no que Sonia dissera sobre Howard ser louco por ela?

Olhei a foto no criado-mudo. Não conseguia parar de pensar no que sentira na Ponte Vecchio. Depois que minha mãe morreu, muita gente me disse que ela estaria sempre perto de mim, mas eu nunca senti isso. Até aquela noite. Eu me revirei na cama e peguei o celular do Howard na cômoda.

— Pronto? — Ren estava com uma voz grogue.

— Desculpa, você está dormindo?

— Não mais. Vi o número do Howard no meu celular e tive um ataque de pânico.

Eu sorri.

— Howard deixou o celular dele comigo. Ele disse que posso usá-lo até a segunda ordem. Então tenho uma pergunta pra você.

— Quer saber se vou levá-la à Space?

 

Levei um susto.

— Humm... é. Como sabia que eu ia perguntar isso?

— Tive um pressentimento. E já me adiantei. Mandei uma mensagem pra Elena quando cheguei em casa. Ela acha que aquele amigo DJ vai trabalhar lá essa semana, o que significa que vamos entrar de graça. Quer ir amanhã? Posso ver se mais gente da escola também quer ir.

Sim.

— Ren, seria perfeito. E obrigada de novo por me levar à Ponte Vecchio.

— E por apresentar você ao amor da sua vida? Acho que você bateu o novo recorde mundial da maior quantidade de gelato devorada de uma só vez.

— Quero tentar bater outro recorde amanhã. Qual foi aquele último sabor? O

que tinha pedaços de chocolate?

— Stracciatella.

— Esse vai ser o nome da minha filha.

— Sorte a dela.

6 DE DEZEMBRO

Recebi um e-mail da faculdade de enfermagem declarando que minha matrícula foi oficialmente cancelada. Tentei solicitar uma prorrogação depois de receber aquelas cartas dos meus pais, mas, para ser sincera, não me esforcei muito. Meus pais estão zangados, mas eu só sinto alívio.

Agora não há nada me atrapalhando. Quando contei a notícia a X, ele pareceu surpreso. Acho que não sabia que eu tinha tanta vontade de ficar.

8 DE DEZEMBRO

Ótima notícia! A escola se dispôs a me deixar ficar mais um semestre pagando a metade da mensalidade. Petrucione disse que eu sou uma das alunas mais promissoras que já passaram por aqui (!!) e que ele e o restante do corpo docente acham que outro semestre de estudos vai ajudar muito na minha futura carreira. FUTURA CARREIRA. Como se fosse uma certeza! Mal posso esperar para contar a X. Eu quase contei pelo telefone, mas decidi esperar e falar pessoalmente. Só vamos conseguir nos encontrar amanhã à noite. Espero que eu aguente até lá.

9 DE DEZEMBRO

Contei para X. Acho que a notícia o pegou de surpresa, porque por um

segundo ele só ficou me olhando. Depois me levantou no colo e me girou.

Estou muito feliz.

27 DE DEZEMBRO

X foi para casa passar as festas de fim de ano, e Francesca me salvou do que seria o Natal mais longo e triste da história ao me convidar para ir a Paris e ficar no apartamento vago do amigo dela.

Paris é o sonho de qualquer fotógrafo. Quando não estávamos ao ar livre tirando fotos, ficávamos na sacada do apartamento enroladas em cobertores e comendo caixas gigantescas de chocolate que dizíamos ter comprado para nossas famílias. Na véspera de Natal, convenci Francesca a ir ao rinque de patinação da Torre Eiffel, e, embora ela tenha ficado sentada na lateral reclamando do frio, eu patinei por mais de uma hora, tonta com a magia daquilo tudo.

O único lado ruim foi a saudade que senti de X. Francesca falou dele algumas vezes, e precisei de toda a minha força de vontade para não contar a ela o que está acontecendo entre nós. É como se estivéssemos levando uma vida dupla: somos amigos em público e namorados em particular. Detestei passar o Natal longe dele. E também estou preocupada. Como nosso relacionamento vai progredir se não podemos nem contar a ninguém que estamos juntos? Será que consigo sobreviver a mais seis meses de sigilo?

20 DE JANEIRO

As aulas voltaram com tudo, e agora que a empolgação inicial por ficar mais um semestre passou, estou presa à realidade, que significa calcular e recalcular. Toda noite pego meu caderno e experimento cenários diferentes. Quanto tempo na Itália meu dinheiro vai durar se eu fizer menos aulas? E se eu só comer espaguete com molho de tomate? E se eu conseguir um financiamento estudantil? (Dedos cruzados.) Todas as respostas são bastante incertas. Até posso ficar, mas vai ser apertado.

4 DE FEVEREIRO

O financiamento enfim saiu hoje. UFA. Fiz um jantar de comemoração. O

tempo estava perfeito (frio e sem chuva), e a comida, divina. Até Simone

e Alessio se comportaram bem: só tiveram uma discussão (o que é um recorde), e foi sobre quem comeria o último pedaço da caprese. Finn acabou não voltando para o semestre. Ele estava em dúvida e, no último instante, decidiu aceitar uma vaga de professor na Universidade do Maine.

Francesca colocou um exemplar de O velho e o mar na cadeira onde ele sempre se sentava, então pelo menos nosso amigo estava aqui de alma.

Senti aquela velha estranheza de sempre porque o pessoal ainda não sabia sobre X e eu, mas estou começando a aceitar. Ele não parece se importar, e as coisas são como são. Acho que estão fora do meu controle.

15 DE MARÇO

Aconteceu uma coisa estranha esta noite.

Adrienne não tem andado muito conosco neste semestre. Ela passa a maior parte das noites em casa e ultimamente parece nos evitar até nas aulas, então hoje alguns de nós a emboscamos em seu apartamento e a levamos para jantar. Depois, todo mundo foi lá para casa, mas quando chegamos ao prédio, ela ficou para trás. Finalmente fui procurá-la, e quando saí do apartamento, a vi na escada, conversando ao celular e soluçando como se seu coração tivesse sido partido ao meio. Tentei sair de fininho, mas as tábuas do piso rangeram, e quando ela me viu, me lançou um olhar que congelou até minhas entranhas. Ela foi embora sem se despedir.

20 DE MARÇO

Tive muito azar e acabei formando dupla com Adrienne para o trabalho

“Andando por Florença”. E eu digo “muito azar” porque as coisas têm andando muito desconfortáveis desde aquela noite.

Minha ideia para o projeto era ir até o Arno fotografar pescadores, mas Adrienne disse que já tinha o tema perfeito em mente. Ela falou de um jeito que não dava a menor abertura para discussão, então simplesmente peguei a câmera e fui com ela. Tentei perguntar se ela estava bem, mas ela deixou claro que não queria falar sobre aquela noite. Nem sobre mais nada. Enfim, desisti de tentar conversar e a segui pela cidade.

Andamos rápido em silêncio por uns dez minutos e então ela virou numa

ruazinha e entrou numa pequena loja de suvenires. Havia dois homens de meia-idade sentados num canto jogando cartas e, quando a viram, assentiram para ela, que foi direto para os fundos da loja. Atrás da caixa registradora, havia uma porta com uma cortina de contas, e do outro lado ficava um quartinho com uma cozinha pequena e uma cama de solteiro.

Uma mulher de vestido florido estava sentada diante de uma TV em preto e branco e, quando nos viu, ergueu a mão e disse: “Aspetta. Cinque minuti.” (Tradução: “Esperem. Cinco minutos.” Viu? Estou aprendendo um pouco de italiano.)

Enquanto eu tentava descobrir o que estávamos fazendo ali, Adrienne pegou sua câmera e começou a tirar fotos do cômodo e da mulher, que não parecia notar. Enfim, Adrienne se voltou para mim e disse num inglês lento: “Esta é a Anna. Ela é médium. Os filhos dela são donos da loja ali na frente, e durante o dia ela joga tarô. Ninguém mais vai tirar fotos de uma médium de Florença. É um tema sem igual.”

Tive que admitir que ela estava certa. Era sem igual. E o cenário não poderia ser mais interessante: um quartinho dos fundos decrépito, a cortina de contas, a fumaça do cigarro de Anna espiralando para o teto.

Então peguei a câmera e também comecei a tirar fotos. Por fim, o programa terminou e a mulher se levantou para desligar a TV, indo devagar até uma mesa que ficava encostada na parede e gesticulando para nos sentarmos. Depois de nos apertarmos ao redor da mesa, ela pegou um baralho e começou a virar as cartas uma a uma, murmurando para si mesma em italiano. Adrienne largou a câmera e fez absoluto silêncio.

Depois de alguns minutos, Anna olhou para nós e disse com um forte sotaque: “Uma de vocês vai encontrar o amor. As duas vão sofrer.”

Fiquei meio perplexa. Não sabia que ela ia jogar tarô para nós. Minha reação não foi nada comparada à da Adrienne. Ela ficou arrasada. Depois que recuperou a compostura, começou a disparar perguntas em italiano até Anna se irritar e cortá-la. No final, Adrienne pagou e fomos embora. Ela não me dirigiu uma única palavra na volta.

23 DE MARÇO

Todos nós fomos a uma palestra na Galeria Uffizi. Howard se ofereceu

 

para me levar em casa, e acabei contando sobre Adrienne e a médium. Ele passou vários minutos sem dizer nada. Então começou a andar mais rápido e perguntou se podia me mostrar uma coisa. Fomos até a Piazza del Duomo, e quando chegamos lá, ele me levou para o lado esquerdo da catedral e falou para eu olhar para cima. O sol tinha começado a se pôr e a sombra do Duomo cobria metade da piazza. Eu não sabia o que estava procurando; só conseguia ver as lindas paredes detalhadas, mas ele continuou tentando me fazer ver alguma coisa. Finalmente, pegou meu dedo e o guiou, de forma que acabei apontando para algo que se projetava da parede da catedral. “Ali”, disse ele. E então eu vi: bem no meio de todos aqueles lindos entalhes e estátuas de santos, havia a escultura de uma cabeça de touro. Sua boca estava aberta e ele olhava para baixo como se observasse alguma coisa.

Ele contou que há duas histórias sobre a cabeça do touro. A primeira é que esses animais foram fundamentais para a construção do Duomo, e o touro foi acrescentado como forma de homenageá-los. A outra história tem um ar mais italiano.

Durante a construção do Duomo, um padeiro montou uma banca perto do canteiro de obras, e ele e sua mulher vendiam pão para os pedreiros e operários. A mulher do padeiro e um dos mestres de obra acabaram se conhecendo e se apaixonando, e quando o padeiro descobriu o caso, os levou para o tribunal, onde foram humilhados e sentenciados a passar a vida longe um do outro. Para se vingar, o mestre de obras esculpiu um touro e o colocou no Duomo, num ponto em que a escultura encarasse o padeiro em sua banca como um lembrete constante de que sua mulher amava outro homem.

Eu amo todo esse conhecimento que ele tem sobre Florença, e isso sem dúvida me distraiu do episódio com Adrienne, mas agora estou me perguntando sobre o momento em que ele resolveu me contar aquela história. Será que ele estava tentando me dizer alguma coisa?