Amor & gelato

Jenna Evans Welch · Capítulo 28 de 32

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Amor & gelato

Capítulo 27

— Tudo bem. Sim, eu estava tentando dizer uma coisa. Quando fomos ver a estátua, percebi que era o símbolo perfeito. Embora a nossa situação seja estranha, e sejamos meio diferentes, quero muito fazer parte da sua vida. Talvez não sejamos uma família comum, mas, se você quiser, serei sua família mesmo assim.

Olhei para ele e mil sentimentos tomaram conta de mim até eu ficar tão cheia quanto um balão. Minha mãe estava certa. Ninguém jamais chegaria perto de substituí-la, mas se eu tivesse que escolher uma pessoa no mundo, seria Howard.

Ela só estava um pouco à minha frente.

— O que você me diz, Carolina?

Hesitei. Não queria tomar nenhuma decisão por impulso, mas sabia que, naquele dia, era o que parecia certo. E teria que ser o bastante.

— Ok. — Assenti. — Eu topo se você topar.

Ele abriu um de seus sorrisos tortos para mim, depois se recostou no balanço.

— Que bom. Bem, agora que esclarecemos isso, o que aconteceu com Ren?

 

Capítulo 27

HOWARD INSISTIU DIZENDO que eu não podia desistir. Se quisesse ir até o fim, precisava ter certeza de que não houvera nenhum problema sério de comunicação entre mim e Ren.

Foi assim mesmo que ele falou. Problema sério de comunicação. Enfiei meus últimos farrapos de dignidade no fundo do armário e liguei para ele. Duas vezes. Minhas duas chamadas caíram direto na caixa postal e eu usei todas as minhas forças para não deixar uma mensagem.

Depois, Howard me ajudou a descobrir o número da casa dos Ferrara, então eu tentei de novo.

— Ciao, Lina! — cantarolou Odette.

Ficou claro que ela não tinha noção de como estavam as coisas entre a gente.

— Oi, Odette. Ren está em casa?

— Sim, só um instante. — Ela baixou o telefone. Depois houve alguns sons abafados. A voz dela finalmente voltou.

— Lina?

— Sim?

— Ren não pode falar agora.

Fiz uma careta.

— Será que você poderia perguntar uma coisa a ele por mim?

— O quê?

— Eu posso ir até aí? Preciso falar com ele.

Houve um momento de silêncio.

— Ren? Por que você está balançan... — Então ela deve ter colocado a mão sobre o fone, porque não consegui entender mais nada.

Foi humilhante demais. O que restara da minha dignidade ardeu até queimar.

Quando ela voltou a falar comigo, parecia confusa.

— Desculpe, Lina. Ele disse que está ocupado. Está se arrumando pra ir à festa da Valentina.

Eu me animei.

— Tem certeza de que ele vai? É da garota que se formou no ano passado, não é?

— Sim. Acho que é pra comemorar o aniversário de dezoito anos dela.

Pelo menos eu o veria cara a cara. Respirei fundo. Era melhor do que nada.

— Obrigada, Odette.

— Por nada.

Desliguei e enviei uma mensagem rápida a Thomas. Depois fui até o centro de visitantes. Eu precisava de um favor.

* * *

Quando entrei correndo no centro de visitantes, Howard e Sonia ergueram o rosto, assustados. Ambos estavam examinando uma pilha de papéis e Howard usava uns óculos de leitura minúsculos que nem um velhinho que o deixavam com cara de lenhador míope. Soltei uma risadinha.

Ele levou a mão ao peito.

— Lina! Um dia desses você acaba me fazendo sofrer um ataque do coração.

— Seus óculos são tão...

— Tão o quê?

Ele se levantou e comecei a rir de novo.

— É só... esquece. Olha, preciso de ajuda. Vou a uma festa hoje à noite e preciso estar linda. Acho que é minha melhor chance de recuperar Ren. Tenho que encontrar o vestido.

Ele tirou os óculos.

— Aquele vestido incrível que faz qualquer um se apaixonar por você?

— Sim! Exatamente. Como o que minha mãe teve. Só que espero usá-lo e que realmente funcione.

— O vestido? — perguntou Sonia, olhando de um para outro. — Desculpem, não estou entendendo.

Howard se virou para ela.

— Sonia, teremos que fechar o cemitério mais cedo. Encontrar um vestido novo deve ser fácil, mas o vestido? Vai levar algum tempo. — Howard piscou para mim. — E, por falar nisso, eu me lembro de ter visto o vestido da sua mãe.

Acho que dei de cara com uma parede.

Sonia balançou a cabeça.

— Ainda estou meio confusa sobre o que vocês estão falando, mas você sabe que não podemos fechar o cemitério. É contra as regras.

— Tudo bem, não fechamos. Vamos abandoná-lo por algumas horas enquanto nós três fazemos uma viagem emergencial de compras a Florença.

Comecei a pular.

— Obrigada! Seria maravilhoso!

Sonia ainda não tinha se convencido.

— Howard, eu vou ficar aqui para o caso de algum visitante aparecer.

Ele balançou a cabeça.

— Não, você tem que vir com a gente. Sou completamente inútil quando o assunto são compras. Meu armário é como uma tumba. Precisamos de uma opinião feminina.

Ela estremeceu.

— Seu gosto é mesmo horroroso. Lembra quando fiz você jogar fora aquela calça de veludo cotelê? Estava crescendo pelo nela.

Juntei as mãos e pisquei os olhos, implorando.

— Por favor, Sonia. Eu nem sei onde ficam as lojas de vestidos, e vou precisar de toda a ajuda possível. Preciso ficar maravilhosa hoje à noite. Você me ajuda?

Ela olhou de mim para Howard, depois balançou a cabeça.

— Acho que vocês estão loucos, mas tudo bem. Vocês me pegam lá em casa?

— Sim!

Eu e Howard demos um high five, então esperei do lado de fora enquanto ele fechava o centro de visitantes e depois corremos até a casa.

A caminho de Florença, Howard e eu contamos a Sonia o nosso status de somos-parentes-mas-não-somos-parentes.

Ela ficou chocada.

— Estão me dizendo que vocês não são pai e filha?

— Tecnicamente, não — falei.

— E, Howard, você sempre soube?

— Sim.

Ela balançou a cabeça, depois começou a se abanar com a carteira.

— Só na Itália.

Howard olhou para ela.

— E, Sonia, no futuro, por favor, não entregue nenhuma das minhas correspondências a outra pessoa. Embora nesse caso acho que tenha funcionado bem.

— Juro por tudo que é mais sagrado. Nunca mais vou fazer nada parecido. —

Ela se virou para mim. — A que horas Ren vem pegar você?

— Às nove, mas eu não vou com Ren. Vou com Thomas.

— Ah. Mas achei que você e Ren... — Ela se calou.

— Achou que eu e Ren o quê?

Howard olhou para Sonia, depois me encarou pelo retrovisor.

— Sabe quando dizemos que uma pessoa “está de coração aberto”? Bem, em italiano se diz “avere il cuore in mano”. Você oferece seu coração na palma da mão. Toda vez que Ren olha para você, eu penso nessa expressão. Ele é louco

por você.

— Não é, não.

Sonia entrou na conversa.

— Claro que é. E você não pode culpá-lo. Olhe só pra você. O coitado não consegue se controlar.

— Ele tem namorada.

— Tem? — perguntou Howard.

Assenti.

— Bem, o que você sente por ele?

Ambos olharam para mim, e eu consegui ficar quieta por três segundos antes de explodir como um vulcão.

— Tudo bem. Eu estou apaixonada por Ren. Estou completamente apaixonada por ele. Além da Addie, ele é a única pessoa que faz com que eu me sinta normal, e é superengraçado, estranho e tem um espaço entre os dentes da frente que eu amo. Só que nada disso importa, porque ele tem namorada, e ontem eu devo ter sofrido um lapso momentâneo de sanidade, porque dei um beijo nele e ele surtou. Além disso, a namorada dele parece que saiu da capa de uma revista de moda e sempre que Ren me vê, eu estou suando ou chorando.

Então agora vou me arrumar para a festa na esperança de chamar a atenção dele o suficiente pra ele ao menos falar comigo. Quem sabe assim eu tenho ao menos uma oportunidade de dizer o que sinto e tentar salvar no mínimo a nossa amizade. Então pronto. É isso o que eu sinto por Ren.

Tanto Howard quanto Sonia pareciam perplexos.

Eu me recostei no banco.

— É por isso que preciso do vestido perfeito.

Ficamos em silêncio por um segundo, então Sonia se virou para Howard.

— Temos limite de orçamento?

— Não.

— Então vire à esquerda. Sei aonde precisamos ir.

* * *

Howard nos levou direto para uma loja de vestidos perto do centro da cidade, e depois de deixarmos o carro, nós três corremos três quarteirões do estacionamento até a loja. Quando entramos de repente, a mulher atrás do balcão ergueu o rosto, assustada.

— Cos’è successo?

— Stiamo cercando il vestito più bello nel mondo. — Ele se virou para mim.

— Ela quer o vestido.

A mulher nos avaliou por um instante, depois bateu palmas.

— Adalina! Sara! Venite qui.

Duas moças vieram dos fundos da loja, e depois de ter a mesma conversa com Howard, pegaram suas fitas métricas e começaram a medir minha cintura, minha bunda, meu busto e... sim. Foi bem constrangedor.

Finalmente, elas começaram a pegar vestidos por toda a loja, depois me empurraram para um provador e me enfiaram lá dentro com os vestidos. Tirei a roupa de corrida e vesti o primeiro. Era um rosa algodão-doce e me lembrava da vez que eu vomitara numa roda-gigante. O segundo era um amarelo coberto de penas e tinha uma semelhança suspeita com a fantasia do personagem Garibaldo, de Vila Sésamo. O terceiro não era horrível, mas as alças eram tão grandes que sobravam quase três centímetros nos meus ombros, e a festa era naquela noite, então não dava tempo de ajustar. Eu me olhei no espelho, muito séria. Não entra em pânico. Mas meu cabelo entrou mesmo assim. Ou talvez fosse o normal dele.

— Como está aí? — perguntou Sonia, lá de fora.

— Nada ainda.

— Experimente este.

Ela jogou outro por cima da porta. Branco e armado. Fiquei igual a um marshmallow a caminho de um casamento.

— Ah, não — resmunguei. — Esses aqui não servem. E se eu não conseguir encontrar nenhum?

— Eu trouxe você aqui por um bom motivo. Vou ver se a filha mais velha da vendedora está aqui. Ela é uma fada madrinha para escolher vestidos. Já volto.

Eu me aproximei do espelho e me olhei de novo. Eu estava imperdoável, pior ainda, ridícula. Ren jamais voltaria para mim se eu estivesse parecendo uma guloseima que tinha sido assada na fogueira de um acampamento de escoteiras.

— Lina?

Sonia bateu na porta, que então se abriu e ela e outra mulher entraram.

A mulher tinha uns quarenta anos e um coque preso com um lápis. Ela parecia levar a profissão muito a sério. Com um gesto, mandou que eu desse uma voltinha.

— Não. Tutto sbagliato.

— D’accordo — disse Sonia. — Ela disse que esse está errado. — Pode pedir a ela para achar um certo?

— Não se preocupe. Ela tem talento para isso. Deixa com ela.

A mulher deu um passo à frente e segurou meu queixo. Em seguida virou meu rosto de um lado para o outro, analisando meus traços, depois deu um passo para trás e me mandou dar outra volta. Enfim, assentiu e ergueu uma das mãos.

— Ho il vestito perfetto. Espere.

Quando ela voltou, segurava um vestido nude-rosado com renda bordada em todo o torso e uma saia curta e solta. Eu segurei aquela peça diante de mim.

— Este? — perguntei.

— Sim. Este — disse ela, decidida.

E saiu do provador, fechando a porta.

Tirei o vestido de marshmallow e vesti o novo. O tecido era macio e sedoso e deslizou com facilidade sobre o peito e os quadris, parando no ponto exato.

Nem tive que me olhar no espelho para saber que era o certo.

* * *

Quando Thomas chegou no carro do pai, uma BMW prateada conversível, eu tinha conseguido me transformar por completo. Sonia me ajudara a arrumar o cabelo, deixando os cachos suaves e com menos cara de Medusa, também me emprestou sapatos altos e brinquinhos de diamante. Eu tinha passado maquiagem e perfume e ensaiado meu discurso para Ren várias vezes. Ren, preciso dizer uma coisa. Quando me olhei no espelho, quase não acreditei. Eu parecia muito italiana.

— Ele chegou! — gritou Howard lá de baixo.

— Estou indo!

Respirei fundo para me acalmar, depois cambaleei escada abaixo. Os saltos da Sonia eram deslumbrantes, mas muito altos. Por um milagre, cheguei ao primeiro andar sem executar nenhum movimento involuntário de ginástica artística, e quando ergui o rosto, Howard me observava com os olhos cheios d’água.

— Você está linda. Não quero saber como é a namorada do Ren. Ela não tem a menor chance.

— Isso seria bom, mas se ele voltar a falar comigo já ficarei feliz.

— Aposto que ele vai escolher você.

Bateram à porta e Howard atravessou a sala para abrir.

— Olá. Thomas?

— Sim. Prazer em conhecê-lo.

Fui até a porta batendo os saltos.

— Uau! Lina, você está... — O queixo do Thomas caiu, mas aí ele percebeu que Howard o olhava como se ele fosse um cervo durante a temporada de caça, e pigarreou às pressas. — Desculpa. Que vestido lindo. Você está muito bonita.

— Você também.

Terno cinza bem ajustado. Cabelo desgrenhado de propósito. Eu praticamente consegui ouvir Addie entrando em combustão espontânea.

— Pronta pra ir? — perguntou ele.

— Pronta. — Eu me aproximei do Howard e o abracei. — Até que horas posso ficar na festa?

— Até a hora que quiser. Bem, dentro do limite razoável. — Ele piscou para mim. — Vai dar certo.

— Obrigada.

Fui com Thomas para o carro e ele abriu a porta para mim.

— Você está deslumbrante.

— Obrigada.

— O que seu pai quis dizer com “vai dar certo”?

— Humm, não sei.

Olhei para meu celular pela milionésima vez. Tinha passado a tarde inteira esperando que Ren ligasse. E durante a tarde inteira ele não ligou.

Thomas se sentou no banco do motorista e enfiou a chave na ignição.

— É um carro bonito, não é?

— Muito bonito.

— Meu pai também tem uma Lamborghini. Ele disse que se eu passar um ano sem receber nenhuma multa, vai me deixar usá-la.

— Pena que não é hoje.

— Concordo. — Ele saiu com cuidado da entrada para carros e seguiu pelo caminho. — Sabia que na Itália só dá pra tirar carteira depois dos dezoito anos?

Acho que sou o único da escola que pode dirigir.

— Ren vai tirar a dele ano que vem.

— Mas ele ainda está no penúltimo ano.

— Ele faz dezoito em março.

— Ah.

Ele pegou a estrada e acelerou, deixando a música alta demais para conversar.

Tenho certeza de que percorrer a região rural italiana num carro de luxo conversível com um jovem britânico que parecia um agente secreto deve ser uma experiência mágica, mas não para mim. Eu estava ocupada demais repassando mentalmente o que dizer ao Ren. E tentando afastar a mão do agente secreto.

— O pai da Valentina trabalha com o meu, só que o cargo dele é ainda mais alto. Já fui a várias festas na casa deles e são sempre uma loucura. Teve um ano em que deram um grande jantar japonês e havia mulheres deitadas sobre as mesas de comida. Você tinha que comer o sushi direto do corpo delas.

— Eca. Sério?

— É, foi incrível.

Ele colocou a mão no meu joelho, de novo, e fiz questão de mudar de posição para obrigá-lo a tirá-la de lá. De novo. Olhei para ele e suspirei. Qualquer outra garota trocaria todo o gelato de Florença por uma chance de estar sentada ali.

Mas elas não eram eu. E não conheciam Ren.

Quando finalmente chegamos à festa, fiquei chocada. Não porque a casa parecesse o castelo do Drácula — claro que parecia! —, mas por causa da quantidade de gente. Carros e táxis disputavam espaço para entrar enquanto uma multidão de convidados extasiados ziguezagueava até a porta da frente. Levamos dez minutos e precisei descruzar e cruzar as pernas mais três vezes só para alcançarmos o manobrista.

Quando chegou a nossa vez, Thomas jogou as chaves para o cara e me ajudou a sair do carro como se ele fosse alguém importante. Um tapete vermelho cobria os grandes degraus de pedra que levavam à porta e um monte de gente entrava.

Eu tinha ficado com um pouco de medo de estar arrumada demais, mas todo mundo parecia estar indo a uma première de festival de cinema. Sem dúvida era uma ocasião para o vestido.

— Este lugar é muito maior do que eu tinha imaginado — falei, segurando o braço do Thomas antes que perdesse o equilíbrio na escada.

— Eu avisei. Vai ser incrível.

— Todos os seus amigos moram em casas como esta?

— Só os que dão festas.

A entrada tinha uma longa escadaria curvada e um lustre extravagante feito de vidro colorido. Um homem com uma grande pilha de papéis nos parou.

— Nome, por favor. — Seu sotaque era tão forte quanto seus bíceps.

— Thomas Heath. — Ele se virou e sorriu para mim. — E minha acompanhante.

O homem folheou os papéis, marcando o nome do Thomas.

— Benvenuti.

— Tudo bem se eu checar sua lista rapidinho? — perguntei. — Queria saber se meu amigo está aqui.

— Não. — Ele franziu a testa para mim, cobrindo a lista com a mão. — É

privato.

Eu não estava numa festa no Pentágono nem nada do tipo.

— Eu só preciso dar uma olhadi...

— Vamos.

Thomas segurou minha mão e me puxou para longe da lista e para dentro da casa. Todo mundo se espremia numa sala enorme e rebuscada demais, com pé-direito alto e mais uns cinco lustres. Tivemos que abrir caminho para entrar, tropeçando em todos os vestidos chiques e esbarrando nos homens que suavam

de paletó.

Toda a mobília havia sido afastada para os cantos da sala, e um palco improvisado fora montado num dos cantos. Já havia um monte de instrumentos em cima dele, mas nas caixas de som tocava música num volume que poderia matar passarinhos. Estava tão lotado! Como encontrar o Ren?

— Lina! Thomas! — Elena saiu da multidão e agarrou meu braço. Ela estava com um vestido cinza curto e um rabo de cavalo alto. — Uau, Lina, você está bella. Essa cor ficou ótima em você.

— Obrigada, Elena. Você viu Ren?

— Ren? Não. Nem sei se ele vem. Acho que Mimi o mataria.

— Por quê?

Thomas começou a rir.

— Gente, olhem. Lá está Selma.

Ele apontou para uma mulher alta de meia-idade que tinha subido no palco e mexia nos fios. Ela usava uma tiara e um minivestido rosa-shocking, que dava a sensação de que a qualquer momento seus peitos pulariam para fora.

— Uiii — disse Elena, balançando a cabeça. — É a mãe da Valentina. Ela foi modelo nos anos 1990 e exibe fotos sexy dela mesma pela casa. Acho que eu preferiria morrer a ver minha mãe com um decote desses todos os dias.

— Sua mãe com um decote biônico desses — acrescentou Thomas. — É

melhor tentarmos arrumar um bom lugar perto da banda. Valentina disse que vão começar a tocar às dez.

Elena balançou a cabeça.

— Estou esperando Marco.

— Marco, hein?

Elena franziu a testa para ele.

— Dai. É que eu disse que esperaria. Não significa nada.

— Aham.

— Elena, se você vir Ren, pode dizer que preciso muito falar com ele? —

pedi.

— Claro, sem problemas. — Ela olhou para Thomas e depois se aproximou.

— Uau! Thomas está incredibile. — Ela pronunciou do jeito italiano. — Bela escolha. Ele é troppo sexy. Tenho certeza de que todas as garotas que já esbarraram com ele tentaram conquistá-lo. Você foi a felizarda. Que pena que Ren terminou com Mimi por sua causa, mas entendo perfeitamente por que você está aqui com Thomas.

Oitocentos pontos de exclamação surgiram na minha cabeça.

— Ren terminou com Mimi? Quando? Hoje?

Ela franziu as sobrancelhas.

— Não sei. Talvez tenha sido ontem, mas Mimi disse que está feliz. Sem querer ofender, mas Ren é muito estranho às vezes. Ele sempre diz tudo o que vem à cabeça.

— É, mas é isso que é legal nele.

Ela deu uma olhada para Thomas.

— É, talvez. Vejo vocês mais tarde. Vou lá pra frente.

— Tchau. Diga a Ren onde estou se você o vir, ok?

— Você está bem? — perguntou Thomas depois que Elena foi embora.

— Estou, claro.

Talvez melhor do que bem. Ren tinha terminado com Mimi por minha causa?

Então o que fora tudo aquilo em Roma? Minha missão de encontrar Ren tinha se tornado ainda mais urgente.

— Vamos pegar uma bebida e ir para perto do palco — sugeriu Thomas.

— Claro.

As duas horas seguintes se passaram inacreditavelmente devagar. A banda era espanhola, e a cada duas músicas o baterista se empolgava e jogava as baquetas para a plateia, de onde tinham que ser resgatadas antes da música seguinte.

Thomas sumia toda hora para buscar mais bebidas e Ren ainda não tinha aparecido. Onde ele estava? E se ele não estivesse na festa? Será que toda aquela coisa de encontrar o vestido na verdade era uma maldição? Se fosse, eu preferia ter ido de roupa de corrida.

Finalmente, pedi licença.

— Thomas, vou ao banheiro. Já volto.

Ele fez um sinal de ok distraído e eu abri caminho pela multidão, dando uma olhada na festa. Pelo que pude ver, Ren não estava no salão principal. Nem na escada da frente nem na entrada. Onde ele tinha se enfiado? Então decidi ir mesmo ao banheiro, mas havia uma fila enorme, e eu não parava de esticar o pescoço para procurar.

Quando chegou minha vez, tranquei a porta ao entrar, depois me olhei no espelho e suspirei. Meu vestido ainda era lindo, mas eu estava suada e sabia que meu cabelo tramava um motim. Fiz um rabo de cavalo, depois verifiquei meu celular de novo. Nada. Onde ele estava?

Thomas estava me esperando na porta do banheiro.

— Aí está você. Precisamos correr. Todo mundo tem que ir lá pra fora. É

uma grande surpresa.

Desisti dos sapatos, tirando-os e carregando-os enquanto seguíamos a multidão em direção às portas dos fundos. Quando saímos, tomei um susto. O

jardim era do tamanho de um campo de futebol americano, e havia vários cobertores brancos com as bordas iluminadas por pequenas velas. Toda aquela cena era enjoativamente romântica. Metade das pessoas ali se deixaria levar e começaria a declarar seu amor eterno umas pelas outras.

— Thomas, você não viu Ren enquanto eu estava no banheiro, viu?

— Não, não, não. — Ele parou no pé da escada, colocando as mãos nos meus ombros. — Vamos fazer um pacto. Chega de falar do Ren. Eu só quero falar de você. — Ele sorriu. — E de mim. Vamos.

Ele me puxou, e eu tropecei um pouco enquanto atravessávamos o gramado.

— Aonde estamos indo?

— Já falei, é surpresa.

Andamos até um cobertor vazio no limite do jardim e Thomas se sentou, afrouxando a gravata e tirando o paletó. Sua camisa e seu cabelo estavam amarrotados e desejei pela milésima vez que Addie estivesse ali para aproveitar toda aquela beleza. O que eu estava fazendo era um desperdício.

— Agora, deita aqui — disse ele.

— O quê?

— Deita. — Ele deu um tapinha no cobertor.

— Thomas...

— Relaxa. Não vou fazer nada. Deita aqui só um segundo. Prometo que vou ficar bem aqui.

Eu olhei para ele por um momento, depois me deitei no cobertor, ajeitando o vestido à minha volta.

— E agora?

— Fecha os olhos. Vou dizer quando deve abri-los.

Olhei para ele e soltei o ar, sem fechar completamente os olhos. Ele precisava ser tão gato? Aquilo estava complicando muito a minha vida.

Ele começou a contar devagar.

— Vinte... dezenove... dezoito... — Quando chegou ao “um”, eu estava deitada ali havia meio século, e abri os olhos sob o som de um aplauso coletivo no gramado.

A nossa volta, erguiam-se lanternas brancas de papel iluminadas por velas.

Havia centenas delas.

Thomas sorriu ao ver minha expressão perplexa.

— Valentina me falou que eles iam fazer isso. Legal, não é?

— Muito legal.

Observamos em silêncio por um tempo, as lanternas rodopiavam em direção às estrelas como graciosas águas-vivas. A noite estava linda e mágica e aiii... Eu estava tão triste que poderia até chorar. Ali estava eu, na Itália, testemunhando uma cena saída de um conto de fadas, e só conseguia pensar em Ren. Será que

eu ia ficar igual a Howard? Com o coração partido para sempre? Eu teria que comprar um skate e começar a fazer muffins de blueberry no meio da noite?

— Eu disse que você ia gostar. Também vão soltar fogos mais tarde.

Thomas se apoiou em um dos cotovelos, aproximando o rosto do meu.

Lanternas se refletiam em seus olhos, e por um segundo esqueci por que não estava a fim dele. Então me lembrei.

— Thomas, preciso dizer uma coisa.

— Shh. Você pode dizer depois.

Antes que eu pudesse reagir, ele rolou para cima de mim, pressionando a boca contra a minha e me imprensando no chão. Por um segundo, foi como o Natal, meu aniversário e as férias de verão ao mesmo tempo, aquilo estava errado. Eu me contorci para me livrar dele e me sentei.

— Thomas, não posso fazer isso.

— Por quê?

Ele também se sentou, com uma expressão confusa. Devia ser a primeira vez que alguém o rejeitava. Coitadinho.

Balancei a cabeça.

— Você é incrível. E lindo. Mas simplesmente não posso.

— Por causa do Ren?

— É.

— Por que veio comigo se gosta dele?

— Desculpa. Foi horrível da minha parte. E eu deveria ter falado antes.

Ele se levantou e pegou o paletó, limpando a grama que grudara na calça.

— Por sorte, seu namoradinho está bem ali.

— O quê?

Eu me virei. Ren estava a poucos metros de distância, de costas pra mim. Eu me levantei às pressas.

— A gente se vê — disse Thomas.

— Thomas, desculpa mesmo! — gritei, mas ele já estava voltando para a casa.

Eu respirei fundo, peguei os sapatos e meio que corri até Ren. Ele vestia um terno azul-marinho e parecia que alguém precisara segurá-lo para cortar seu cabelo.

Toquei suas costas.

— Ren?

Ele se virou e senti os cacos do meu coração partido virarem pó. Ele estava tão lindo! Mas tão lindo!

— Oi. — Nem mesmo um leve tom de surpresa.

— Eu estava torcendo muito pra encontrar você aqui. Podemos conversar?

De repente, Mimi surgiu do meio de um grupo de garotas perto dali. Ela usava um vestido preto justo com fendas nas costelas e delineador preto. Parecia um tigre. Eu nunca vira nada tão aterrorizante.

Ela deu o braço ao Ren.

— Oi, Lina. Como está Thomas?

— Ele está bem — falei, em voz baixa.

— Ren, vamos voltar lá pra dentro. Acho que a banda vai recomeçar.

— Ren, posso falar com você um minuto? — pedi.

Ele estava com o olhar distante.

— Estou meio ocupado.

— Por favor! Vai levar só um minuto. Só preciso falar uma coisa com você.

— Ele está ocupado — disse Mimi, apertando o braço do Ren com mais força.

Ele olhou para a mão dela, depois para mim.

— Ok. Um minuto.

— Sério, Ren? — reclamou Mimi.

— Só vai levar um segundo. Já volto.

Ela se virou e saiu rebolando. A garota sabia rebolar.

— O que foi? — perguntou Ren calmamente.

— Podemos andar um pouco?

Quando chegamos a um canto do jardim, as lanternas já haviam se tornado pequenos pontos no céu, e eu tinha cem por cento de certeza de que Ren não havia esquecido o que acontecera em Roma. Ele ia se arrastando atrás de mim como um robô bem-vestido e eu me sentia cada vez pior. Será que ia dar certo?

O jardim tinha vários níveis, e descemos alguns degraus, passando por um casal que dava uns amassos encostado numa árvore e um grupo de garotos cavalgando bastões de críquete como se fossem jóqueis. Com certeza daríamos boas gargalhadas ao ver aquelas cenas. Quer dizer, se estivéssemos numa boa.

Chegamos a um banco de pedra branca, e Ren se sentou. Eu me sentei ao lado dele.

— Que festa incrível — falei.

Ele apenas deu de ombros.

Bem, ele não ia facilitar as coisas para mim.

— Acho que vou falar logo. — Minha voz estava falhando. — Eu nunca conheci ninguém como você, Ren. Você é inteligente, engraçado e muito fácil de conviver, e é a única pessoa que conheci depois da morte da minha mãe com quem sinto que não preciso agir de um jeito artificial. E eu sinto muito, muito mesmo, pelo que aconteceu em Roma. Aquele beijo não foi justo porque você tem namorada... ou tinha namorada... — Eu olhei para ele, esperando um

esclarecimento, mas ele não disse nada. — Enfim. Até aquele momento, eu não sabia o que sentia, mas deveria ter falado, em vez de ter pulado em cima de você. Bom, o que estou tentando dizer é que gosto muito de você. Muito, mas se não sentir o mesmo por mim, tudo bem, porque você é muito importante pra mim, e espero que a gente ainda possa ser amigo.

De repente, uma segunda rodada de aplausos começou no gramado e houve um chiado seguido pelo estouro de fogos de artifício vermelhos explodindo no céu.

Teria sido o momento perfeito para Ren me tomar nos braços e declarar seu amor eterno.

Só que ele não fez isso.

Eu me ajeitei, desconfortável. Soltaram mais fogos de artifício, mas Ren nem olhou para cima.

— Seria muito bom se você dissesse alguma coisa.

Ele balançou a cabeça.

— Eu não sei o que você quer que eu diga. Por que não me contou antes? E

em Roma, por que disse que nunca tinha pensado em mim como mais que um amigo?

Droga. Eu não deveria ter falado aquilo.

— Acho que foi por orgulho. Estava na cara que você não queria me beijar, e eu fiquei morrendo de vergonha. Só estava tentando consertar as coisas.

Ele ergueu o rosto.

— Bem, você está errada. Eu queria muito beijar você, mas parei porque tive medo de que você não quisesse fazer aquilo de verdade. Conhecer Matteo foi uma loucura, e eu não queria que acontecesse nada porque você estava passando por altos e baixos na sua vida emocional. E depois você disse que não queria ter me beijado.

— Mas eu queria. É isso o que eu estou...

Ele me interrompeu.

— Eu gostei da Mimi por muito tempo. Por uns dois anos. Eu pensava nela o tempo todo, e quando as coisas finalmente começaram a acontecer entre nós, me achei o cara mais sortudo do mundo. Só que aí conheci você e de repente comecei a evitar as ligações dela e tentar pensar em jeitos de te convencer a sair comigo. Então, na noite em que fomos à Space, eu liguei pra ela e terminei o namoro. Eu não sabia se ia dar certo entre a gente, mas queria muito ter uma chance.

Ele balançou a cabeça.

— Aí fomos a Roma. E tudo aquilo aconteceu. E hoje... — Ele se levantou.