Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 7 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 6

6

 

 

— Lulu, tem os um assunto m uito im portante para discutir.

Willem olha para m im solenem ente, e eu sinto m eu estôm ago revirar de ansiedade diante de outra surpresa desagradável.

— O que foi desta vez? — pergunto, tentando não parecer nervosa.

Ele cruza os braços na frente do peito e então passa a m ão no queixo. Será que vai m e m andar de volta? Não! Já surtei por causa disso hoj e.

— O quê? — pergunto de novo, a voz ficando m ais alta apesar do m eu esforço.

— Perdem os um a hora vindo para a França, então j á passa das duas da tarde. Hora do alm oço. E esta é Paris. E só tem os um dia. Assim , tem os que analisar isso m uito seriam ente.

— Ah! — Expiro, aliviada. Será que agora está tentando m exer com igo? — Eu não ligo. Qualquer coisa, exceto chocolate e pão, por favor. Eu sei que gosta, m as não parecem m uito franceses — retruco, sem ter m uita certeza do m otivo da m inha irritação, ainda que, apesar de j á term os nos afastado vários quarteirões da boate de Céline, de algum m odo sinto que ela está nos seguindo.

Willem finge estar ofendido.

— Pão e chocolate não são m inhas especialidades culinárias. — Ele ri. — Digo, não são as únicas. E são muito francesas, fique sabendo. Croissant de chocolate? Podem os com er isso am anhã, no café.

Café da m anhã. Am anhã. Depois de hoje à noite. Céline parece estar um pouco m ais distante agora.

— A não ser que você prefira sucrilhos — continua ele. — Ou panquecas. Isso é am ericano. Talvez sucrilhos com panquecas?

— Eu não com o sucrilhos no café. De vez em quando com o panquecas no j antar. Assim , sou rebelde.

— Crepes — ele diz, estalando os dedos. — Vam os com er crepes. Tipicam ente francês. E você pode se rebelar.

Cam inham os um ao lado do outro, olhando os m enus dos cafés até encontrarm os um , num a esquina triangular, que serve crepes. O m enu está escrito a m ão, em francês, m as não peço a Willem para traduzi-lo. Depois daquela história toda com Céline, m inha falta de fluência m e faz m e sentir um a aleij ada. Assim , debruço-m e sobre o m enu, fixando-m e no citron, que tenho quase absoluta certeza de que significa lim ão, ou laranj a, ou algum tipo de fruta cítrica. Escolho um citron crêpe e um citron pressé para beber, torcendo para que sej a algum tipo de lim onada.

— O que vai pedir? — pergunto.

Ele coça o queixo. Há um pequeno tufo dourado ali.

— Estava pensando em pedir crepe de chocolate, m as é tão parecido com chocolate e pão que tenho m edo de você perder o respeito por m im . — E abre aquele m eio sorriso preguiçoso.

— Eu não m e preocuparia com isso. Já perdi o respeito por você quando o encontrei tirando a roupa para Céline no escritório dela — brinco.

E lá está aquele olhar: surpresa, encanto.

— Lá não era o escritório dela — ele explica devagar, desenhando as palavras. — E eu diria que era ela que estava m e despindo.

— Ah, então deixa para lá. Fique à vontade, peça o chocolate.

Ele m e olha dem oradam ente.

— Não. Para m e redim ir, vou pedir o m eu com Nutella.

— Isso está longe de ser rem issão. Nutella é praticam ente chocolate.

— É feito de avelã.

— E chocolate. É horrível.

— Você só diz isso porque é am ericana.

— Não tem nada a ver um a coisa com a outra! Você parece ter um apetite sem fim por chocolate e pão, m as eu não acho que sej a porque é holandês.

— Por que seria?

— Cacau holandês? Vocês são especialistas nisso.

Willem ri.

— Acho que você está nos confundindo com os belgas. Eu herdei m eu gosto por doces da m inha m ãe, que nem é holandesa. Ela diz que sentiu desej o de com er doce durante toda a gravidez, e é por isso que gosto tanto de chocolate.

— Eu sabia. Agora a culpa é da m ulher.

— Quem está culpando?

A garçonete vem anotar o pedido das bebidas.

— Então, a Céline — com eço, sabendo que deveria deixar essa história para lá, m as, por algum m otivo, não consigo. — Ela é, tipo, a hostess? Na boate?

— Sim .

Sei que parece ofensivo, m as fico satisfeita que sej a um trabalho tão chato. Até que Willem elabora.

— Não hostess. Ela contrata todas as bandas, então conhece todos os m úsicos. — E, com o se aquilo não fosse o bastante, ele acrescenta: — Ela tam bém faz um pouco da parte artística dos pôsteres.

— Ah — digo, desanim ada. — Ela deve ser m uito talentosa. Você a conhece por causa do teatro?

— Não.

— Com o vocês se conheceram ?

Ele brinca com a em balagem do m eu canudinho.

— Já entendi — digo, m e perguntando por que estou m e dando ao trabalho de perguntar um a coisa que é dolorosam ente óbvia. — Vocês tinham um relacionam ento.

— Não, não é isso.

— Ah. — Surpresa. E alívio.

E então Willem diz, m uito casualm ente:

— Um a vez nós nos apaixonam os.

Tom o um gole do m eu citron pressé — e engasgo. Descubro que aquilo não é lim onada, m as água com lim ão esprem ido. Willem m e passa um cubinho de açúcar e um guardanapo.

— Um a vez? — pergunto quando m e recupero.

— Foi um tem po atrás.

— E agora?

— Som os bons am igos. Com o você viu.

Não tenho certeza do que vi, exatam ente.

— Quer dizer que não está m ais apaixonado por ela? — Passo os dedos pela borda do copo.

Willem m e olha.

— Eu nunca disse que estava apaixonado por ela.

— Você acabou de dizer que vocês se apaixonaram um a vez.

— Eu m e apaixonei. Existe um a enorm e diferença, Lulu, entre ficar apaixonado e estar apaixonado.

Sinto m eu rosto esquentar, e não tenho bem certeza do porquê.

— Não entendi.

— É preciso se apaixonar para estar apaixonado, m as se apaixonar não é o m esm o que estar apaixonado. Você j á seu apaixonou?

Evan e eu term inam os um dia depois de ele ter feito o depósito da m atrícula da faculdade. Não foi inesperado. Não totalm ente. Já tínham os concordado em term inar quando fôssem os para a faculdade, se não acabássem os na m esm a área geográfica. E ele iria para a faculdade em St. Louis. Eu iria para Boston. A única coisa que eu não esperava era o m om ento. Evan resolveu que era m elhor “arrancar a m ordaça” e term inar não em j unho, quando nos form am os, ou em agosto, quando iríam os em bora para a faculdade, m as em abril.

No entanto, tirando o fato de eu ter sido m eio que hum ilhada pelas fofocas de ter levado um pé na bunda e de ter ficado decepcionada por não ir à festa de form atura, não fiquei exatam ente triste por perder Evan. Fiquei surpreendentem ente neutra com relação a term inar com m eu prim eiro nam orado. Foi com o se ele nunca tivesse estado ali. Não senti saudade, e Melanie rapidam ente preencheu sej a lá quais foram os vazios que ele havia deixado na agenda.

— Não — respondo. — Nunca estive apaixonada.

Neste exato m om ento a garçonete chega com nossos crepes. O m eu é m arrom -dourado, exalando o agridoce perfum e do lim ão e do açúcar. Concentro-m e naquilo, cortando um pedaço e enfiando-o na boca. Ele derrete na ponta da m inha língua com o um floco de neve doce e quente.

— Não foi isso que eu perguntei — diz Willem . — Perguntei se algum dia você j á se apaixonou.

O tom de brincadeira na voz dele é com o um a coceira que eu não posso coçar. Olho para ele m e perguntando se sem pre analisa a sem ântica desse j eito.

Willem abaixa o garfo e a faca.

— Isto é se apaixonar. — Com o dedo, ele tira um pouquinho de Nutella de dentro de seu crepe e coloca um a gota do lado de dentro do m eu pulso. O chocolate está quente e m olenga e com eça a derreter na m inha pele grudenta, m as, antes de ter a chance de escorrer, Willem lam be o dedão, passa-o pela m ancha de Nutella e enfia o dedo de volta na boca. Tudo acontece rapidam ente, com o um lagarto abocanhando um a m osca. — Isto é estar apaixonado. — E aqui ele tom a m eu outro pulso, aquele onde tenho o relógio, e m exe na pulseira até ver o que está procurando. Mais um a vez, ele lam be o dedão, só que, agora, ele o esfrega sobre a m inha m arca de nascença, com força, com o se tentasse rem ovê-la.

— Estar apaixonado é um a m arca de nascença? — eu brinco e puxo m eu braço. Minha voz, porém , tem um trem or, e o lugar onde a im pressão digital do dedão dele está secando na m inha pele, de algum m odo, queim a.

— É algo que nunca desaparece, independentem ente do quanto você queira que sum a.

— Está com parando o am or a… um a m ancha?

Ele se encosta tão fundo em seu assento que as pernas da frente da cadeira desencostam do chão. Parece m uito satisfeito, com o crepe ou consigo m esm o, não tenho certeza.

— Exatam ente.

Penso na m ancha de café na calça j eans. Penso em Lady Macbeth e sua “Sai, m ancha m aldita”, outra das falas que tive de decorar para as aulas de inglês.

— “Mancha” parece ser um a palavra feia para descrever o am or — digo a ele.

Willem dá de om bros.

— Talvez em inglês. Em holandês é vlek. Em francês, tache. — Ele balança a cabeça e ri. — Não, m esm o assim é feio.

— Em quantas línguas você j á se m anchou?

Ele lam be o dedão de novo e estica a m ão sobre a m esa para alcançar m eu pulso novam ente, onde deixara um pouquinho de Nutella. Desta vez tira tudo de m im .

— Nenhum a. Sem pre desaparece. — Ele coloca um a garfada de crepe na boca, pegando a ponta sem corte da faca para raspar a Nutella do prato. Então passa o dedo ao redor da borda, lim pando tudo o que resta.

— Certo — digo. — Por que ter um a m ancha quando ficar suj o é tão m ais divertido? — Sinto o gosto dos lim ões em m inha boca novam ente e m e pergunto para onde foi toda a doçura.

Willem não diz nada. Apenas tom a um gole do café.

Três m ulheres entram no café. São todas absurdam ente altas, quase tão altas quanto Willem , e m agras, com pernas que parecem term inar nos seios. São com o um a estranha raça de girafas hum anas. Modelos. Nunca vi a espécie fora do cativeiro antes, m as é evidente o que elas são. Um a delas está usando short bem curto e sandálias plataform a; ela dá um a olhada em Willem , e ele lhe dá aquele m eio sorrisinho, então é com o se caísse a ficha, e ele olha de volta para m im .

— Sabe o que isso tudo m e parece? — pergunto. — Parece que você gosta de aprontar por aí. O que não tem problem a nenhum . Mas pelo m enos adm ita isso para você m esm o. Não fique fazendo distinções idiotas entre se apaixonar e ficar apaixonado.

Ouço m inha própria voz. Pareço a Little Miss Muffet, toda certinha e cerim oniosa. Nada a ver com Lulu. E não sei por que estou tão brava. Que diferença faz se ele acredita em se apaixonar em vez de ficar apaixonado, ou se acredita que o am or é algo que a fada do dente enfia debaixo do travesseiro?

Quando levanto o rosto, os olhos de Willem estão sem icerrados e sorridentes, com o se eu fosse a boba da corte e estivesse ali para entretê-lo. Sinto-m e encium ada, um a criança prestes a ter um chilique por lhe negarem algo — um pônei — que ela sabe que não pode ter.

— Você provavelm ente não acredita no am or. — Minha voz é petulante.

— Acredito, sim . — A voz dele é baixa.

— Verdade? Defina am or. O que seria “ficar m anchado”? — Faço aspas no ar e viro os olhos.

Ele não faz nem um a pausa para pensar.

— Com o Yael e Bram .

— Quem são? Algum tipo de Brangelina holandês? Isso não vale, porque ninguém sabe o que isso significa para eles. — Olho a tropa de m odelos desaparecer dentro do café, onde, com certeza, se deliciarão com café preto e ar. Im agino-as um dia gordas e com uns, pois nada tão belo dura para sem pre.

— Quem é Brangelina? — pergunta Willem , sem a m enor noção. Enfia a m ão no bolso para procurar um a m oeda e a equilibra entre os ossinhos da m ão, depois j oga de um ossinho para outro.

Olho para a m oeda, olho para as m ãos dele. São grandes, m as os dedos são delicados.

— Deixa para lá.

— Yael e Bram são m eus pais — ele responde baixinho.

— Seus pais?

Ele com pleta um a evolução com a m oeda e então a j oga pelo ar.

— Manchado. Gosto do j eito com o você coloca. Yael e Bram , m anchados por vinte e cinco anos.

Ele diz aquilo com carinho e tristeza ao m esm o tem po, e algo em m eu estôm ago revira.

— Os seus pais são assim ?

— Eles ainda são casados depois de vinte e cinco anos, m as m anchados? — Não consigo fazer outra coisa além de rir. — Nem sei se um dia foram . Marcaram um encontro às escuras para eles na faculdade. Eles sem pre pareceram m enos um casal de pom binhos que parceiros de negócios am igáveis, dos quais eu sou o único produto.

— Única. Então você é sozinha?

Sozinha? Acho que ele deve ter querido dizer filha única. E nunca estou sozinha, com m inha m ãe e o calendário de códigos coloridos na geladeira, fazendo questão de que todo tem po livre da m inha agenda sej a útil para algum a coisa, fazendo questão de que cada um dos aspectos da m inha vida sej a adm inistrado com sucesso. Exceto quando paro por um segundo e penso em com o m e sinto, em casa, à m esa de j antar, com m inha m ãe e m eu pai falando para m im , não com igo, na escola, com um bando de pessoas que na verdade nunca foram m eus am igos, com preendo que, m esm o que ele não tenha querido dizer aquilo, acabou acertando.

— Sim — digo.

— Eu tam bém .

— Nossos pais desistiram quando estavam ganhando — com ento, repetindo a fala que m inha m ãe e m eu pai usam quando as pessoas perguntam se eu sou filha única. Nós paramos quando estávamos ganhando.

— Nunca consigo entender algum as expressões em inglês — retruca Willem . — Se a pessoa está na frente, por que desistiria?

— Acho que tem a ver com o j ogo.

Mas Willem está balançando a cabeça.

— Acho que faz parte da natureza hum ana continuar avançando quando se está na frente, independentem ente de qualquer coisa. Você só desiste quando se está atrás. — Então ele olha para m im de novo, e, com o se percebesse que talvez possa ter m e insultado, se apressa em dizer: — Mas tenho certeza de que com você foi diferente.

Quando eu era pequena, m eus pais tentaram ter m ais filhos. Prim eiro seguiram pelo cam inho natural, depois foram pelo cam inho da fertilização, m inha m ãe passando por vários procedim entos horríveis que nunca funcionaram . Então pensaram em adoção, e estavam no processo de preencher todos os papéis quando m inha m ãe engravidou. Ela ficou tão feliz... Na época, eu estava na prim eira série, e ela trabalhava desde que eu era bebê, m as, quando ficou grávida de novo, iria pedir licença estendida de seu trabalho num a indústria farm acêutica, e talvez voltar trabalhando m eio período. Então, no quinto m ês, ela perdeu o bebê. E m am ãe e papai resolveram desistir enquanto estavam ganhando. Foi isso o que m e disseram . No entanto, m esm o naquela época eu j á achava que aquilo era m entira. Eles queriam m ais filhos, m as tiveram que se contentar só com igo, e eu tinha que ser boa o bastante para que todos fingissem que estávam os conform ados.

— Talvez você tenha razão — falo para Willem agora. — Talvez ninguém realm ente desista quando está ganhando. Meus pais sem pre disseram isso, m as a verdade é que eles pararam em m im porque não conseguiam ter m ais filhos. Não porque eu fosse suficiente.

— Tenho certeza de que você era suficiente.

— Você era?

— Talvez m ais do que suficiente — ele diz, com ar m isterioso. Soa quase com o se ele estivesse se gabando, m as não está.

Ele com eça a fazer o negócio com a m oeda de novo. Enquanto sentam os em silêncio, observo a m oeda, sentindo algo suspenso crescer dentro do estôm ago, m e perguntando se ele a deixará cair. Mas ele não deixa. Apenas continua girando. Quando term ina, gira-a no ar e a j oga para m im , exatam ente com o fez na noite passada.

— Posso perguntar um a coisa? — digo depois de um m inuto.

— Pode.

— Aquilo foi parte do show?

Ele pende a cabeça para o lado.

— Quero dizer, você j oga um a m oeda para um a garota em toda apresentação ou eu era especial?

A noite passada, depois que voltei ao hotel, passei um tem pão exam inando a m oeda que ele havia j ogado para m im . Era um a coroa tcheca que valia um centavo. Mesm o assim , coloquei-a num lugar separado na m inha carteira, longe de todas as outras m oedas estrangeiras. Puxo-a da carteira agora. Ela reluz sob o sol brilhante da tarde.

Willem tam bém olha para ela. Não tenho certeza se a resposta dele é verdadeira ou não, ou apenas absurdam ente am bígua, ou talvez as duas coisas. É exatam ente isto o que ele diz:

— Talvez as duas coisas.