Apenas um Dia
Capítulo 19
19
j aneiro
Faculdade
Meio m etro de neve cai em Boston enquanto estou no México e a tem peratura nunca sobe acim a de zero. Então, quando volto, duas sem anas depois, o cam pus parece um a tundra cinza deprim ente. Chego alguns dias antes de as aulas com eçarem , com a desculpa de m e preparar para o novo sem estre, m as, na verdade, não aguentava ficar em casa nem m ais um dia sob os olhos observadores da guardiã. Foi ruim o suficiente em Cancún, m as em casa, sem Melanie para m e distrair — ela partiu para Nova York no dia seguinte ao que chegam os, antes de term os a chance de resolver a estranheza que se instalou entre nós —, ficou insustentável.
O Trio Fantástico volta dos feriados cheio de histórias e piadinhas entre si. Passaram o Ano-Novo j untas no condom ínio da fam ília de Kendra, em Virginia Beach, e foram nadar enquanto nevava, agora estavam encom endando cam isetas de urso-polar. Elas até foram sim páticas, perguntando sobre a viagem , m as tenho dificuldade para respirar em m eio a toda essa cam aradagem . Em pilho m eus suéteres e parcas e m e arrasto até a biblioteca da faculdade para pegar m eu novo livro de m andarim .
Estou na seção de línguas estrangeiras quando m eu telefone toca. Não preciso nem olhar para o identificador de cham adas. Mam ãe tem m e ligado pelo m enos duas vezes por dia desde que voltei.
— Oi, Mãe.
— Ally son Healey. — A voz do outro lado da linha é alta e agradável, o oposto da de m am ãe.
— Sim , aqui é Ally son.
— Ah, olá, Ally son. Aqui é Gretchen Price, do escritório de apoio.
Eu paro, respirando por causa da sensação nauseante em m eu estôm ago.
— Sim ?
— Gostaria de saber se você pode dar um a passada no m eu escritório. Pra dizer “oi”.
Agora sinto que vou vom itar bem em cim a das pilhas de Buongiorno Italiano.
— Minha m ãe ligou para você?
— Sua m ãe? Acho que não. — Ouço o som de algo cair. — Porcaria. Espere um pouco. — Há m ais vaivém e, em seguida, ela está de volta à linha. — Vej a, peço desculpas por ser tão em cim a da hora, m as essa parece ser a m inha sina esses dias. Eu adoraria que pudesse vir antes de o sem estre com eçar.
— Hum m , as aulas com eçam depois de am anhã.
— É verdade. Que tal hoj e, então?
Eles vão m e expulsar. Joguei tudo pelos ares em apenas um sem estre. Sabem que não sou um a Universitária Feliz. Não faço parte do catálogo. Nem daqui.
— Estou m etida em algum tipo de encrenca?
Aquela risada aguda de novo.
— Não com igo. Por que não passa aqui… espere um pouco. — Há m ais barulho de papel. — Que tal às quatro?
— Tem certeza de que m inha m ãe não ligou?
— Sim , Ally son, eu tenho absoluta certeza. Então, às quatro?
— Sobre o que é?
— Ah, só para nos conhecerm os m elhor. Vej o você às quatro.
O escritório de Gretchen Price fica num a esquina m ovim entada de um dos prédios adm inistrativos cobertos de hera. Pilhas de livros, papéis e revistas estão espalhadas por toda parte, sobre a m esa redonda e pelas cadeiras perto da j anela, sobre a nam oradeira e em cim a de sua escrivaninha bagunçada.
Ela está ao telefone quando m e pede, apressadam ente, para entrar, então eu fico em pé no m eio da porta. Ela gesticula para eu entrar.
— Você deve ser Ally son. Tire um a pilha de cim a das cadeiras e se sente. Estarei com você em um segundo.
Retiro um a boneca Raggedy Ann suj a, com um a das tranças cortada, e um a pilha de arquivos de um a das cadeiras. Alguns dos arquivos têm um post-it neles: Sim. Não. Talvez. Relatórios escapam de um deles. É a cópia de um a solicitação de m atrícula, com o a que enviei um ano atrás. Enfio-a de volta dentro do arquivo e o coloco na outra cadeira.
Gretchen desliga o telefone.
— Então, Ally son, com o estão as coisas?
— Tudo bem . — Dou um a olhada para as solicitações de m atrícula, todas as pessoas que querem um a vaga com o a m inha. — Fantásticas, para falar a verdade.
— É m esm o? — Ela pega um arquivo, e eu tenho a nítida im pressão de que a casa caiu.
— Claro — digo com toda a em polgação que consigo dem onstrar.
— Vej a bem , o negócio é que eu dei um a olhada em suas notas do prim eiro sem estre.
Sinto lágrim as brotarem nos m eus olhos. Ela m e fisgou até aqui com falsas intenções. Ela disse que eu não estava encrencada, que seria apenas um encontro para nos conhecerm os m elhor. E eu não bom bei. Só tirei C!
Ela olha para o m eu rosto transtornado e faz um gesto com as m ãos para eu m e acalm ar.
— Relaxe, Ally son — ela diz, com um a voz tranquilizadora. — Não estou aqui para acabar com você. Só queria saber se está precisando de aj uda, e oferecê-la, se for o caso.
— É só o m eu prim eiro sem estre. Eu estava m e adaptando. — Usei tanto essa desculpa que quase cheguei ao ponto de acreditar nela.
Ela se reclina na cadeira.
— Sabe, as pessoas tendem a achar que as m atrículas da faculdade são basicam ente inj ustas. Que não se podem j ulgar as pessoas por um papel. Mas o negócio é que o papel pode, na verdade, dizer m uita coisa. — Ela tom a um gole de um a dessas xícaras de café pintadas por crianças. A dela está coberta com im pressões digitais em tom pastel borrado. — Já que eu não a conheço e estou avaliando pelo que vej o no papel, eu diria que você está tendo um pouco de dificuldade.
Ela não está m e perguntando se eu estou tendo dificuldades. Não está perguntando por quê. Ela sim plesm ente sabe. As lágrim as vêm , e eu as deixo vir. O alívio é m ais poderoso do que a culpa.
— Deixe-m e ser bem clara — continua Gretchen, m e passando um a caixa de lenços de papel. — Não estou preocupada com o seu GPA. A escorregada no prim eiro sem estre é tão com um quanto os quinze quilos dos calouros. Ah, m eu Deus, você deveria ter visto o GPA do m eu prim eiro sem estre. — Ela balança a cabeça e ri. — Geralm ente, os estudantes com dificuldades aqui estão em duas categorias: aqueles que estão se adaptando à liberdade, talvez passando tem po dem ais nas festas regadas a cervej a e pouco tem po na biblioteca. Eles geralm ente entram na linha depois de um ou dois sem estres. — Ela olha para m im . — Tem tom ado m uitas doses de Jägerm eister, Ally son?
Balanço a cabeça, m esm o sabendo que, pelo tom da pergunta, ela parece j á saber a resposta.
Ela assente.
— Então, o outro padrão é um pouco m ais traiçoeiro. Mas é, na verdade, um a previsão para desistentes. E é por isso que eu quis vê-la.
— Você acha que eu vou desistir?
Ela m e olha duro.
— Não. Mas, olhando para seus relatórios da escola secundária e do seu prim eiro sem estre, acho que você se encaixa nessa categoria. — Ela passa a m ão sobre um fichário, que obviam ente contém m eu histórico escolar com pleto. — Alunas com o você, m oças principalm ente, vão extraordinariam ente bem na escola secundária. Vej a suas notas. São excelentes, de ponta a ponta. Aulas especiais, aulas de ciências, aulas de hum anas, tudo A. Notas de SAT extrem am ente altas. Então elas entram na faculdade, que era na verdade a razão pela qual estudaram tanto, correto?
Assinto.
— Daí chegam aqui e desabam . Você não im agina quantos alunos que só tiram A, alunos CDFs, acabam desistindo. — Ela balança a cabeça, desanim ada. — Odeio quando isso acontece. Aj udo a escolher quem vem para cá. Reflete m uito m al em m im se eles desistem .
— É com o um m édico perder um paciente.
— Ótim a analogia. Vê o quanto você é inteligente?
Ofereço um sorriso triste.
— A questão, Ally son, é que a faculdade é para ser…
— Os m elhores anos da m inha vida?
— Eu ia dizer algo nutritivo. Um a aventura. Um a exploração. Estou olhando para você e não m e parece m uito nutrida. E estou olhando para a sua program ação… — Ela dá um a olhada rápida para a tela do com putador. — Biologia. Quím ica. Física. Mandarim . Laboratório. É m uito am bicioso para o seu prim eiro ano.
— Sou candidata à escola de m edicina. Tenho que ter essas aulas.
Ela não diz nada. Tom a outro gole de café. Então diz:
— Essas são as aulas que você quer frequentar?
Faço um a pausa. Ninguém nunca m e perguntou isso. Quando recebem os o catálogo do curso pelo correio, sim plesm ente presum i que teria que dar um a pincelada em todos os pré-requisitos de m edicina. Minha m ãe sabia o que eu deveria fazer e quando. Olhei algum as m atérias opcionais, m as foi a m esm a coisa que dizer que estaria m e form ando em trançar cestas debaixo d’água.
— Não sei o que quero fazer.
— Por que não dá um a olhada e pensa em m udar um pouco as coisas? O processo de m atrícula ainda está em curso, e pode ser que eu tenha que m exer uns pauzinhos. — Ela para e em purra o catálogo pela m esa. — Mesm o que acabe sendo um a candidata de m edicina, tem quatro anos para frequentar essas aulas, e tam bém tem m uitos pré-requisitos de hum anas para fazer. Não precisa j untar tudo de um a vez. Aqui não é a escola de m edicina.
— E os m eus pais?
— O que é que tem os seus pais?
— Não posso decepcioná-los.
— Mesm o que isso signifique decepcionar a si m esm a? Duvido que eles fossem querer isso para você.
As lágrim as vêm novam ente. Ela m e passa outro lenço de papel.
— Entendo que queira agradar a seus pais, deixá-los orgulhosos. É um im pulso nobre, e eu a parabenizo por isso. Mas, no fim , é a sua educação, Ally son. Você precisa tom ar posse dela. E deveria apreciá-la. — Ela faz um a pausa, engole um pouco m ais de café. — E, de algum a form a, im agino que seus pais ficarão m ais felizes se virem seu GPA subir.
Ela tem razão quanto a isso. Concordo com um balanço de cabeça. Ela se vira para a tela do com putador.
— Então, faz de conta que vam os dar um a m udada nas aulas. Algum a ideia do que gostaria de fazer?
Balanço a cabeça.
Ela pega o catálogo e o folheia.
— Vam os lá. É um bufê intelectual. Arqueologia. Salsa. Desenvolvim ento infantil. Pintura. Introdução às finanças. Jornalism o. Antropologia. Cerâm ica.
— Isso é tipo trabalho com argila? — interrom po.
— É. — Ela arregala os olhos e digita no com putador. — Cerâm ica iniciante, terça-feira às onze. Tem vaga. Ah, m as é no m esm o horário do seu laboratório de física. Que tal deixarm os o laboratório, e talvez física, para o próxim o sem estre?
— Pode cortá-los. — Dizer isso é m aravilhoso, com o soltar um m onte de balões de gás e observá-los desaparecer no céu.
— Viu? Já está pegando o j eito da coisa — diz Gretchen. — Que tal algum as de hum anas para balancear? Você vai precisar delas de qualquer m aneira para se form ar, com o parte de seu currículo principal. Tem m ais interesse em história antiga ou m oderna? Há um a pesquisa m aravilhosa sobre a Europa. E um sem inário fantástico sobre a Revolução Russa. E um a aula fascinante sobre a pré-revolução norte-am ericana, que pode ser m uito bem aproveitada por estarm os tão perto de Boston. Ou poderia com eçar com algum as de nossas aulas de literatura. Você passou no teste avançado para os requisitos de escrita. Sabe com o é, poderíam os ser diabólicas e colocá-la em alguns sem inários m ais interessantes. — Ela dá um a olhada no com putador. — Poesia de Beat. Literatura do Holocausto. Política em prosa. Poesia m edieval. Declam ação de Shakespeare.
Sinto algo subir pelas costas. Um velho disj untor há m uito esquecido sendo testado e faiscando no escuro.
Gretchen deve ter visto m inha expressão, pois com eça a m e explicar que não é qualquer aula de Shakespeare, com o o professor Glenny tem opiniões contundentes sobre a m aneira com o Shakespeare deve ser ensinado e que tem um a seita que o segue no cam pus.
Não consigo fazer outra coisa a não ser pensar nele. E então penso na folha em branco. A resolução que fiz na noite de Ano-Novo. O fato de ser candidata à escola de m edicina.
— Acho que não posso fazer essa aula.
Isso a faz sorrir.
— Às vezes, a m elhor m aneira de descobrirm os o que tem os que fazer é fazendo a coisa que não é para fazerm os. — Ela digita no teclado. — Está lotada, com o sem pre, então você vai ter que brigar na lista de espera. Por que não tentar? Deixe por conta do destino.
Destino. Acho que essa é outra palavra para acaso.
Palavras nas quais eu não acredito m ais.
No entanto, deixo-a m e m atricular na aula, de qualquer form a.