Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 3 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 2

2

 

Nosso trem para Londres parte às oito e quinze, ideia de Melanie para term os o m aior tem po possível para fazer com pras. Mas, quando o alarm e com eça a tocar às seis, ela cobre a cabeça com o travesseiro.

— Vam os pegar um trem m ais tarde — resm unga.

— Não. Já está tudo organizado. Você pode dorm ir no trem . De qualquer form a, prom eteu estar lá em baixo às seis e m eia para se despedir de todo m undo.

E eu prom eti m e despedir da Sra. Foley.

Arranco Melanie da cam a e a enfio em baixo do que o hotel cham a de chuveiro. Faço um café instantâneo para ela e falo rapidam ente com m inha m ãe, que havia ficado acordada até um a hora da m anhã, no horário da Pensilvânia, esperando a ligação. Às seis e m eia, nos arrastam os até o andar de baixo. A Sra. Foley, com seu j eans e sua cam iseta polo do Teen Tours! de sem pre, cum prim enta Melanie com um aperto de m ão. Depois, ela m e enlaça num abraço duro, m e dá seu cartão de visita e diz que não devo hesitar em ligar se precisar de algum a coisa enquanto estiver em Londres. O próxim o tour dela com eçará no dom ingo, e ela tam bém estará lá até então. Nisso, m e conta que agendou um táxi para as sete e m eia para levar Melanie e eu até a estação de trem , m e pergunta de novo se haverá alguém nos esperando em Londres (sim , haverá), m e diz outra vez que sou um a boa m enina e m e avisa para tom ar cuidado com trom badinhas no m etrô.

Deixo Melanie voltar para a cam a por m ais m eia hora, o que corresponde a dizer que ela pula seu ritual de arrum ação, e às sete e m eia nos enfiam os no táxi que está nos esperando. Quando nosso trem chega, carrego nossas m alas para dentro e encontro duas poltronas vazias. Melanie se j oga num a delas, próxim o à j anela.

— Me acorde quando chegarm os a Londres.

Olho fixam ente para Melanie por um m om ento, m as ela j á está toda acom odada, encostada à j anela, fechando os olhos. Suspiro profundam ente, acom odo a m ochila em baixo dos pés dela e coloco m eu cardigã sobre a poltrona para desestim ular ladrões ou velhos libidinosos. Então, cam inho até o vagão da cafeteria. Perdi o café da m anhã do hotel, e agora m eu estôm ago está roncando e m inha testa está com eçando a latej ar, principiando um a dor de cabeça de fom e.

Apesar de a Europa ser a terra dos trens, não tom am os nenhum durante o tour, apenas aviões para as distâncias longas e ônibus para nos levar de um lugar para o outro. Ao andar pelos vagões, as portas autom áticas se abrem com um ruído m acio e agradável e o trem balança suavem ente sob m eus pés. Do lado de fora, a paisagem verde do cam po passa rapidam ente.

No vagão da cafeteria, analiso as poucas opções e acabo pedindo um sanduíche de queij o, um chá e as batatas fritas com sal e vinagre nas quais m e viciei. Pego um a latinha de Coca para Melanie. Coloco a refeição num daqueles suportes de papelão e estou prestes a voltar para m inha poltrona quando um a das m esas perto da j anela fica disponível. Hesito por um segundo. Devo voltar para ficar com Melanie. Mas ela está dorm indo; e não está nem aí, então m e sento à m esa e olho pela j anela. O cam po parece tão tipicam ente inglês, tudo verde e organizado, separado com cercas vivas, as ovelhas peludas e m acias, espelhando as nuvens sem pre presentes no céu.

— Este é um café da m anhã bem estranho.

Aquela voz. Depois de tê-la ouvido durante quatro atos na noite passada, reconheço-a de im ediato.

Levanto os olhos, e ele está bem ali, com um tipo de m eio sorriso preguiçoso que o faz parecer ter acordado naquele exato segundo.

— Estranho com o? — pergunto. Deveria estar surpresa, m as, por algum a razão, não estou. Tenho que m order o lábio para não sorrir.

Mas ele não responde. Vai até o balcão e pede um café. Então, com a cabeça, faz um gesto em direção à m inha m esa. Eu assinto.

— De m uitas m aneiras — ele diz, sentando-se à m inha frente. — É com o um expatriado com problem as de fuso horário.

Olho para m eu sanduíche, m eu chá e m inhas fritas.

— Isto aqui é um expatriado com problem as de fuso horário? Com o você tirou essa conclusão olhando para isto?

Ele assopra o café.

— Fácil. Para com eçar, ainda não são nove horas da m anhã. Então, o chá faz sentido. Mas sanduíche e batatas fritas... Isso é com ida de alm oço. E não vou nem falar da Coca. — Ele dá um tapinha na lata. — Está vendo? O fuso horário está todo m isturado. Seu café da m anhã está com jet lag.

Tenho que rir.

— As rosquinhas pareciam horríveis. — Eu aponto para o balcão.

— Com certeza. É por isso que eu trago m eu próprio café da m anhã. — Ele enfia a m ão na m ochila e com eça a tirar algum a coisa de um em brulho de papel-m anteiga am assado.

— Espere, isso é suspeitam ente parecido com um sanduíche — com ento.

— Na verdade, não é. É pão e hagelslag.

— Hague o quê?

— Hach-el-slach. — Ele abre o sanduíche para eu ver. Dentro há m anteiga e um chocolate em floquinhos.

— E você cham a o m eu café da m anhã de estranho? Está com endo sobrem esa no café da m anhã.

— Na Holanda, isto é café da m anhã. Bem típico. Isto ou uitsmijter, que é basicam ente ovo frito com presunto.

— Não vai cair na prova, vai? Porque não consigo nem tentar dizer isso.

— Out. Smy. Ter. Podem os praticar m ais tarde. Mas isso m e leva a um segundo ponto. Seu café da m anhã se parece com um expatriado. Vá em frente, com a. Posso falar enquanto você com e.

— Obrigada. Fico feliz por saber que consegue fazer várias coisas ao m esm o tem po — digo. Depois rio. E é a coisa m ais esquisita do m undo, pois tudo está acontecendo tão naturalm ente. Na verdade, acho que estou paquerando no café da m anhã. Sobre o café da m anhã. — O que realm ente você quer dizer com expatriado?

— Alguém que m ora fora da sua terra natal. Sabe com o é, tem um sanduíche. Tipicam ente am ericano. E o chá, tipicam ente inglês. Mas então tem as batatas fritas, ou chips, ou sej a lá com o você as cham a, e elas se encaixam dos dois lados, m as estão com sal e vinagre, o que é m uito inglês, m as você as está com endo no café da m anhã, o que parece ser m uito am ericano. E a Coca no café da m anhã. Coca e batatas fritas; é isso o que com em no café da m anhã nos Estados Unidos?

— Com o você sabe que sou dos Estados Unidos? — desafio.

— Tirando o fato de estar com um grupo de turistas am ericanos e falar com sotaque am ericano? — Ele dá um a m ordida no hague-sei-lá-o-quê e bebe m ais café.

Mordo o lábio para m e im pedir de rir novam ente.

— Certo. Tirando isso.

— Essas eram as únicas pistas, na verdade. Para ser sincero, você não parece tão am ericana assim .

— Mesm o? — Abro o saquinho de batatas fritas, e um bafo forte de vinagre artificial se espalha pelo ar. Ofereço um a. Ele não aceita e dá outra m ordida no sanduíche. — E o que parece am ericano?

Ele dá de om bros.

— Loura — diz. — Peitões… — Ele im ita seios grandes. — Traços delicados. — Ele passa as m ãos na frente do rosto. — Bonita. Com o a sua am iga.

— E eu não sou assim ? — Não sei por que m e dou ao trabalho de perguntar. Sei m uito bem com o sou. Cabelo escuro. Olhos escuros. Traços m ais fortes. Sem curvas, sem m uita coisa no departam ento de peitos. Parte do plano vai por água abaixo. Aquilo tudo foi só para dourar a pílula para que ele pudesse dar em cim a de Melanie?

— Não. — Ele m e espia com aqueles olhos negros. Ontem eles pareciam tão negros, m as agora que estou perto posso ver que há neles todas as cores: cinza, m arrom , até um leve dourado dançando na escuridão. — Sabe com quem você se parece? Louise Brooks.

Olho para ele sem entender.

— Não a conhece? A estrela dos film es m udos?

Balanço a cabeça. Nunca m e interessei por film es m udos.

— Ela foi um a grande estrela nos anos vinte. Am ericana. Atriz fantástica.

— E não era loura. — Quero que saia com o um a piada, m as não funciona.

Ele dá outra m ordida no sanduíche. Um pequeno floquinho de chocolate está preso no canto de sua boca.

— Tem os m uitas louras na Holanda. Vej o louro quando olho no espelho. Louise Brooks era m orena. Ela tinha aqueles olhos incrivelm ente tristes, traços m uito definidos e o cabelo igual ao seu. — Ele toca o próprio cabelo, tão em aranhado quanto na noite passada. — Você se parece tanto com ela. Eu deveria cham ar você de Louise.

Louise. Gosto disso.

— Não, Louise, não. Lulu. Esse era o apelido dela.

Lulu. Gosto ainda m ais.

Ele estica a m ão.

— Oi, Lulu, sou Willem .

A m ão dele é m orna, e seu toque, firm e.

— Prazer em conhecê-lo, Willem . Mas acho que posso cham á-lo de Sebastian, se é que vam os assum ir novas identidades.

Quando ele ri, pequenas rugas se form am em volta dos olhos.

— Não. Prefiro Willem . Sebastian é m eio, qual é a palavra… passivo, se pensar bem . Ele se casa com Olívia, que realm ente quer ficar com a irm ã dele. Isso acontece m uito com Shakespeare. As m ulheres vão atrás do que querem ; os hom ens acabam engolidos pelas coisas.

— Não sei, não. Fiquei feliz quando todo m undo teve seu final feliz ontem à noite.

— Ah, é um conto de fadas legal, m as é isso que é. Um conto de fadas. Acho que Shakespeare tem a obrigação de dar um final feliz aos personagens de suas com édias porque é m uito cruel nas tragédias. Quero dizer, Hamlet. Ou Romeu e Julieta. É quase sádico. — Ele balança a cabeça. — Sebastian é legal, só não tom a m uito as rédeas de seu próprio destino. Shakespeare dá esse privilégio a Viola.

— Então você é dono do seu próprio destino? — pergunto. Ouço a m im m esm a e m al posso acreditar. Quando era pequena, costum ava ir à pista de patinação de gelo. Na m inha cabeça, sem pre achei que poderia rodopiar e saltar, m as, quando estava em cim a do gelo, m al podia m anter as lâm inas dos patins em linha reta. Quando fiquei m ais velha, era assim que acontecia com as pessoas: na m inha cabeça, sou inteligente e obj etiva, m as o que sai sem pre parece ser resignado e educado. Mesm o com Evan, m eu nam orado durante o prim eiro e quase todo o últim o ano do ensino m édio, nunca consegui ser de fato aquela pessoa que patinava, rodopiava e pulava que eu im aginava ser. Mas hoj e, pelo visto, consigo patinar.

— Não, longe disso. Vou para onde o vento m e leva. — Ele faz um a pausa para reconsiderar. — Talvez essa sej a um a boa razão para eu interpretar Sebastian.

— E para onde o vento está levando você agora? — pergunto, torcendo para que ele fique em Londres.

— De Londres, pego um trem de volta para a Holanda. Ontem foi o final da tem porada para m im .

Eu m urcho.

— Ah!

— Você j á com eu seu sanduíche. Tom e cuidado, eles colocam m anteiga nos sanduíches de queij o daqui. Daquela falsa, eu acho.

— Eu sei. — Coloco de lado os tom ates tristes e m urchos e tiro o excesso de m anteiga/m argarina com o guardanapo.

— Seria m elhor com m aionese — diz Willem .

— Só se tiver peito de peru por cim a.

— Não, queij o com m aionese é m uito bom .

— Isso parece noj ento.

— Só se você nunca com eu o tipo certo de m aionese. Ouvi dizer que a que vocês têm nos Estados Unidos não é a m ais apropriada.

Rio tão alto que o chá sai num j ato pelo m eu nariz.

— O quê? — pergunta Willem . — O quê?

— A m aionese m ais apropriada — repito entre um a risada e outra. — Me faz pensar que há um a m aionese ovelha negra da pá virada, vagabunda e ladra, e um a m aionese boazinha, educada e que cruza as pernas, e m eu problem a é que eu nunca fui apresentada à certa.

— Isso está correto — ele concorda. E com eça a rir tam bém .

Estam os gargalhando quando Melanie entra arrastando os pés no vagão da cafeteria, carregando as coisas dela m ais o m eu suéter.

— Não conseguia achar você — ela diz, em tom triste.

— Você m e pediu para acordá-la em Londres. — Olho para fora da j anela. A linda paisagem do cam po inglês dera lugar às feias redondezas cinzentas da cidade.

Melanie olha para Willem , e os olhos dela se arregalam .

— Você não afundou com o navio, afinal — ela brinca.

— Não — ele responde, m as está olhando para m im . — Não fique brava com Lulu. É culpa m inha. Eu a m antive aqui.

— Lulu?

— Sim , abreviação de Louise. É o m eu alter ego, Mel. — Olho para ela, m eus olhos im plorando para não m e delatar. Estou gostando de ser Lulu. Ainda não estou pronta para desistir.

Melanie esfrega os olhos, com o se ainda estivesse dorm indo. Então dá de om bros e se j oga na cadeira ao lado de Willem .

— Tudo bem . Sej a quem quiser. Eu gostaria de ser alguém com um a cabeça nova.

— Ela é novata nessa coisa de ressaca — explico a Willem .

— Cala a boca — retruca Melanie.

— O quê? Quer que eu diga que j á conhece isso há m uito tem po?

— Olhe só quem está sendo a senhorita atrevida esta m anhã!

— Aqui. — Willem enfia a m ão na m ochila, tira um recipiente branco e coloca algum as bolinhas brancas na m ão de Melanie. — Coloque isso debaixo da língua para dissolver. Vai se sentir m elhor logo, logo.

— O que é? — ela pergunta, desconfiada.

— É de ervas.

— Tem certeza de que não é algum tipo de droga do estupro?

— Claro. Porque ele quer que você desm aie no m eio do trem — ironizo.

Willem m ostra a etiqueta a Melanie.

— Minha m ãe é m édica naturopata. Uso isso para dor de cabeça. Acho que nunca fui estuprado.

— Ei, m eu pai tam bém é m édico. — conto. Mas o oposto de naturopata. Ele é pneum ologista, m edicina absolutam ente ocidental.

Melanie olha para as pílulas por um segundo antes de finalm ente enfiá-las na boca. Quando o trem entra na estação soltando estam pidos, dez m inutos depois, ela j á está m elhor.

Em um acordo não verbal, nós três desem barcam os j untos: Melanie e eu com nossas m alas de rodinhas superlotadas, Willem com sua m ochila com pacta. Saltam os na plataform a sob o sol j á quente do verão e entram os na estação Mary lebone, relativam ente fresca.

— Veronica passou um a m ensagem , está atrasada — inform a Melanie. — Ela pediu para nos encontrarm os perto da WHSm ith. Sej a lá o que for isso.

— É um a livraria — diz Willem , apontando para o interior da estação.

Lá dentro é bonito, de tij olinhos verm elhos, m as m e decepciono por não ser um a daquelas grandes estações com os painéis de destino ruidosos pelos quais eu estava esperando. Em vez disso, há apenas um m onitor de TV indicando as partidas. Vou até lá para olhá-lo. Os destinos estão longe de ser exóticos: lugares com o High Wy com be e Banbury, que, até onde sei, podem ser bem agradáveis. É pura bobagem , na verdade. Acabei de fazer um tour pelas grandes cidades europeias — Rom a, Florença, Praga, Viena, Budapeste, Berlim , Edim burgo — e agora estou em Londres de novo, e, na m aior parte do tem po, estive contando os dias para voltarm os para casa. Não sei por que agora, repentinam ente, sou tom ada pelo desej o de viaj ar.

— Algum a coisa errada? — pergunta Melanie.

— Ah, estava apenas esperando ver um daqueles painéis de partidas e chegadas, com o em alguns aeroportos.

— A estação central de Am sterdã tem um desses — inform a Willem . — Eu gosto de ficar na frente dele e im aginar que posso escolher qualquer lugar para ir.

— Isso m esm o! Exatam ente!

— Qual é o problem a? — pergunta Melanie, e olha para os m onitores de TV. — Não gosta da ideia de Bicester North?

— Não é tão legal quanto Paris — respondo.

— Ah, pare com isso. Ainda está reclam ando por causa disso? — Melanie se vira para Willem . — Era para irm os para Paris depois de Rom a, m as os controladores de voo entraram em greve e todos os voos foram cancelados, e era m uito longe para irm os de ônibus. Ela ficou chateada.

— Na França eles sem pre estão em greve por algum a coisa — diz Willem , balançando a cabeça.

— Colocaram Budapeste no lugar de Paris — conto. — Eu gostei de Budapeste, m as não posso acreditar que estou tão perto de Paris e não vou lá.

Willem olha intensam ente para m im . Ele enrola o cadarço da m ochila em volta dos dedos.

— Então vá — ele diz.

— Para onde?

— Paris.

— Não posso. Foi cancelado.

— Então vá agora.

— O tour j á acabou. E, de qualquer form a, eles ainda devem estar em greve.

— Você pode ir de trem . São duas horas de Londres a Paris. — Ele olha para o grande relógio na parede. — Você pode estar em Paris na hora do alm oço. Os sanduíches são m uito m elhores lá, por falar nisso.

— Mas... eu não falo francês. Não tenho guia. Não tenho nem m esm o dinheiro francês. Eles usam euros lá, não é? — Estou dando todos esses m otivos com o se fossem a razão para eu não ir, com o se, na verdade, Willem estivesse sugerindo que eu entrasse num foguete e fosse à Lua. Sei que a Europa é pequena e que as pessoas fazem coisas desse tipo. Mas eu, não.

Ele ainda está olhando para m im , a cabeça levem ente inclinada para o lado.

— Não daria certo — concluo. — Não conheço nada de Paris.

Willem dá um a olhada no relógio na parede. E então, um segundo depois, vira-se para m im .

— Eu conheço Paris.

Meu coração com eça a dar as reviravoltas m ais ridículas do m undo, m as m inha m ente sem pre lógica continua a ticar todas as razões para isso não dar certo.

— Não sei se tenho dinheiro suficiente. Quanto custa a passagem ? — Enfio a m ão na m ochila para contar o dinheiro que ainda resta. Tenho algum as libras para passar o fim de sem ana, um cartão de crédito para em ergências e um a nota de cem dólares que m inha m ãe m e deu para em ergências absolutas, se o cartão de crédito não funcionar. Mas isso está longe de ser um a em ergência. E usar o cartão alertaria m eus pais.

Willem enfia a m ão no bolso e tira um m aço de cédulas estrangeiras.

— Não se preocupe com isso. Foi um verão bom .

Olho para as notas. Será que ele faria isso m esm o? Me levaria a Paris? Por que ele faria isso?

— Tem os ingressos para Let it Be am anhã à noite — diz Melanie, assum indo a voz da razão. — E vam os em bora no dom ingo. E sua m ãe surtaria. É sério, ela m ataria você.

Ela olha para Willem , que dá de om bros, com o se não pudesse negar a verdade.

Estou a ponto de desistir, agradecer pela oferta, m as, então, é com o se Lulu tom asse o controle, pois m e viro para Melanie e digo:

— Ela não pode m e m atar se não souber de nada.

Melanie ironiza.

— Sua m ãe? Ela descobriria.

— Não se você m e der cobertura.

Melanie não diz nada.

— Por favor. Eu lhe dei m uita cobertura nesta viagem .

Melanie suspira dram aticam ente.

— Isso foi no pub. Não num país totalm ente diferente.

— Você acabou de m e criticar por nunca fazer coisas desse tipo.

Eu a coloco contra a parede. Ela m uda de tática.

— Com o vou poder lhe dar cobertura quando ela ligar no m eu telefone procurando você? Ela vai ligar, você sabe disso.

Minha m ãe vai ficar furiosa pelo fato de m eu celular não funcionar lá. Disseram que funcionaria, e, quando isso não aconteceu, ela ligou para a em presa dando um ataque, m as aparentem ente não havia nada a ser feito, algo relacionado a estar na frequência errada. No fim , não adiantou nada. Ela tinha um a cópia do nosso itinerário e sabia com o m e encontrar nos quartos dos hotéis. Quando não conseguia m e achar, ligava no celular de Melanie.

— Talvez você possa deixar seu telefone desligado, daí as ligações vão para a caixa postal — sugiro. Olho para Willem , que ainda está com o dinheiro escapando da m ão. — Tem certeza? Achei que você fosse voltar para a Holanda.

— Tam bém achei. Talvez os ventos estej am m e levando para outra direção.

Eu m e viro para Melanie. Agora está nas m ãos dela. Ela sem icerra os olhos verdes para Willem .

— Se você estuprar ou m atar m inha am iga, eu m ato você.

Willem desdenha.

— Vocês am ericanos são tão violentos. Eu sou holandês. A pior coisa que eu posso fazer é atropelá-la com um a bicicleta.

— Enquanto está drogado! — acrescenta Melanie.

— Tudo bem , talvez — adm ite Willem . Então ele olha para m im , e sinto um a onda de trem or m e atravessar. Vou m esm o fazer isso?

— E então, Lulu? O que m e diz? Quer ir a Paris? Por um dia?

Isso é absoluta loucura. Nem o conheço. Eu poderia ser pega. E quanto de Paris se pode ver em apenas um dia? Poderia sair desastrosam ente errado de tantas m aneiras. Tudo verdade. Mas nada m uda o fato de eu querer ir.

Desta vez, tento algo diferente.

Digo sim .