Apenas um Dia
Capítulo 24
24
O feriado da sem ana do saco cheio term ina, e na aula de Shakespeare com eçam os a ler Cimbelino. Dee e eu estam os na m etade, na parte realm ente m ais interessante, quando Póstum o, m arido de Im ogênia, vê Giacom o com o bracelete secreto que ele havia dado a Im ogênia e im agina que aquela é a prova de que ela o traiu, m as, obviam ente, o bracelete tinha sido roubado por Giacom o, precisam ente para que pudesse vencer a aposta feita com Póstum o de que poderia convencer Im ogênia a traí-lo.
— Outra conclusão precipitada — afirm a Dee, olhando para m im obj etivam ente.
— Bem , ele teve um a boa razão para suspeitar — digo. — Giacom o sabia m uitas coisas sobre ela: com o era seu quarto, que ela tinha um a verruga no seio.
— Porque ele a espiava quando ela estava dorm indo — retruca Dee. — Havia um a explicação.
— Eu sei. Eu sei. Assim com o você diz que deve haver um a boa explicação para Willem ter desaparecido. Mas sabe com o é, às vezes você tem que aceitar a evidência com o ela é. Em um único dia, vi Willem flertar, ser despido e pegar o telefone de pelo m enos três garotas além de m im . Isso m e soa com o “j ogador”. E eu fui trapaceada.
— Para um j ogador, o garoto falava dem ais em se apaixonar.
— Se apaixonar, não ficar apaixonado — digo. — E por Céline. — Apesar de que, ao falar dos pais, de ficar m anchado para sem pre, lem bro-m e da expressão do rosto dele, de evidente m elancolia. E então sinto o calor em m eu pulso, com o se a saliva dele ainda estivesse lá.
— Céline — repete Dee, estalando os dedos. — A gostosona francesa.
— Ela não era tão gostosa assim .
Dee revira os olhos.
— Por que não pensam os nisso? Qual o nom e da boate em que ela trabalhava? Onde você deixou sua m ala?
— Não faço ideia.
— Tudo bem . Onde era?
— Perto da estação de trem .
Eu dou de om bros. Eu m eio que bloqueei tudo.
Dee pega m eu laptop.
— Agora você está sendo teim osa. — Ele digita. — Se veio de Londres, desem barca na Gare du Nord. — Ele pronuncia Gari dú Norde.
— E não é que você é esperto?
Ele entra no Google Maps e digita algum a coisa. Um a penca de bandeiras verm elhas aparece.
— Aqui.
— O quê?
— Essas são as boates perto da Gare du Nord. Você pode ligar para elas. Com certeza Céline trabalha num a delas. Encontre-a, e o encontrará.
— É, talvez na m esm a cam a.
— Ally son, você acabou de dizer que precisa m anter os olhos bem abertos.
— E preciso. Só que não quero ver Céline nunca m ais.
— Você quer m esm o encontrá-lo de verdade? — pergunta Dee.
— Não sei. Acho que, m ais que qualquer outra coisa, quero saber o que aconteceu.
— Um a razão ainda m aior para ligar para essa tal de Céline.
— Quer dizer que terei que ligar para todas essas boates e perguntar por ela? Esqueça. Eu não falo francês.
— Será que é tão difícil assim ? — Ele para e arrum a o rosto num a expressão com os lábios e sobrancelhas enrugados. — Bon lacroix monsoir oui, tres, chic chic croissant French Ho-bag. — Ele ri. — Vê? Fácil, fácil.
— Isso é francês tam bém ?
— Não, isso é latim . E pode perguntar pelo outro cara tam bém , o africano.
O Gigante. Com ele eu não m e im portaria de conversar, m as, claro, nem sei o seu nom e.
— Você faz isso. Você é m uito m elhor do que eu em tudo.
— O que está dizendo? Eu estudei espanhol.
— Eu quis dizer que é m elhor com as vozes, no faz de conta.
— Vi você fazer Rosalinda. E passou um dia inteiro fingindo ser Lulu, e está, no m om ento, fingindo para seus pais ser um a candidata à escola de m edicina.
Eu abaixo os olhos, cutuco a unha.
— Isso apenas faz de m im um a m entirosa.
— Não, não faz. Está apenas testando identidades diferentes, com o todos aqueles nas peças de Shakespeare. E as pessoas que fingim os ser j á estão dentro de nós. É por isso que fingim os ser essas pessoas, para com eçar.
Kali está fazendo o prim eiro ano de francês, então pergunto a ela, tão casualm ente quanto possível, com o faço para perguntar sobre Céline ou sobre um garçom senegalês cuj o irm ão vive em Rochester. A princípio ela m e olha chocada. Provavelm ente é a prim eira vez que lhe pergunto algo m ais íntim o do que “Essas m eias são suas?” desde que as aulas com eçaram .
— Bem , isso dependeria de vários fatores — responde ela. — Quem são essas pessoas? Qual é o seu relacionamento com elas? O francês é um a língua de nuances.
— Hum m , será que podem apenas ser pessoas com quem quero falar ao telefone?
Kali sem icerra os olhos para m im e volta ao trabalho.
— Tente um program a de tradução na internet.
Inspiro profundam ente, expiro um a lufada.
— Tudo bem . Elas são, respectivam ente, um a vagabunda linda e um cara m uito legal que encontrei um a vez. Os dois trabalham num a boate parisiense e sinto que talvez eles tenham a chave para a m inha… m inha felicidade. Será que isso aj uda com a sua nuance?
Kali fecha o livro e se vira para m im .
— Sim . E não. — Ela pega um pedaço de papel e o bate na ponta do queixo. — Por acaso sabe o nom e do irm ão de Rochester?
— Ah, m eu Deus, eu nem pensei nisso. Talvez possa lem brar e tentar isso tam bém . Obrigada!
— Coisas surpreendentes acontecem quando se pede aj uda. — Ela m e olha, enfática.
— Quer saber da história toda?
As sobrancelhas levantadas dela dizem “Macaco quer banana?”.
E então conto a ela, Kali, a confidente m ais im provável, um a breve versão da saga.
— Ah, m eu Deus. Isso explica tudo.
— Explica o quê?
— Você sem pre ser tão sozinha, sem pre dizendo não. Acham os que você nos odiasse.
— O quê? Não! Não odeio vocês. Só m e senti rej eitada e m uito m al por vocês terem que m e engolir.
Kali vira os olhos.
— Eu term inei com m eu nam orado um pouco antes de chegar aqui, e Jenn term inou com a nam orada. Por que acha que tenho tantas fotos de Buster? Todo m undo estava triste e com saudade. É por isso que íam os a tantas festas.
Balanço a cabeça. Eu não sabia. Nem pensei em saber. E então rio.
— Tenho a m esm a am iga desde que tinha sete anos. Ela é a única am iga com quem eu realm ente ficava, então, é com o se eu tivesse perdido todos os anos de aprendizado de com o fazer am izade com as pessoas.
— Não perdeu nada. A não ser que tenha pulado o j ardim de infância.
Olho para ela com desânim o. Claro que fui ao j ardim de infância.
— Se frequentou o j ardim de infância, aprendeu a fazer am igos. É, tipo, a prim eira coisa que eles ensinam . — Ela m e olha fixam ente. — Para fazer am igos… — com eça.
— É preciso ser um am igo… — term ino, m e lem brando dos dizeres ensinados durante as aulas da Sra. Finn. Ou talvez tenham sido do Barney.
Ela sorri enquanto pega um a caneta.
— Acho que será m ais sim ples se você perguntar som ente por essa perua Céline e pelo barm an do Senegal. Deixe o irm ão de fora... quantos barm en senegaleses existem por aí? Então, se conseguir o barm an, pode perguntar se ele tem um irm ão em Rochester.
— Roché Estair — corrij o. — É assim que ele falava.
— Posso entender por quê. É m uito m ais classudo desse j eito. Aqui. — Ela m e passa um pedaço de papel. Je voudrais parler à Céline ou au barman qui vient du Senegal, s’il vous plaît. Ela escreveu tanto o francês com o a transcrição fonética. — É assim que você vai perguntar por eles. Se quiser aj uda para fazer as ligações, m e avise. Am igas fazem isso.
Je voudrais parler à Céline ou au barman qui vient du Senegal, s’il vous plaît. Um a sem ana depois, eu tinha pronunciado tantas vezes essa frase, prim eiro para praticar, depois num a série de ligações cada vez m ais desanim adoras, que j uro que a recitei durante o sono. Faço vinte e três ligações. Je voudrais parler à Céline ou au barman qui vient du Senegal, s’il vous plaît… É o que eu digo. E então um a das três coisas acontece: Um : desligam na m inha cara. Dois: recebo algum tipo de non, e depois desligam . Esses eu risco da lista, um não definitivo. Mas a terceira coisa é quando as pessoas disparam a falar francês, ao que não consigo responder. Céline? Barman? Senegal? Repito ao telefone, as palavras afundando com o barcos salva-vidas defeituosos. Não faço ideia do que estão dizendo. Talvez estej am dizendo que Céline e o Gigante saíram para alm oçar e voltarão logo. Ou talvez que Céline está aqui, m as está lá em baixo fazendo sexo com um holandês alto.
Aceito a oferta de Kali para aj udar, e às vezes ela consegue descobrir que não há nenhum a Céline, nenhum garçom senegalês, m as, geralm ente, ela fica tão perdida quanto eu. Enquanto isso, ela e Dee com eçam a procurar no Google todo nom e potencialm ente senegalês em Rochester. Fazem os algum as ligações em baraçosas, m as saím os de m ãos vazias.
Depois da 24ª ligação terrível, não tenho m ais boates em nenhum lugar próxim o às redondezas da Gare du Nord. Então m e lem bro do nom e da banda na cam iseta que Céline estava usando na boate, a que deu a Willem e a m im . Pesquiso Sous ou Sur no Google e olho todas as datas das apresentações. Mas, se eles tocaram na boate de Céline, foi há m uito tem po, e agora são bem fam osos, se apresentando em grandes ginásios, teatros gigantescos, não em boates.
A esta altura, m ais de três sem anas se passaram desde que enviei m inha carta. Tam bém estou perdendo as esperanças nesse front. As chances de encontrá-lo, que nunca foram grandes, dim inuem . No entanto, a coisa m ais estranha é que aquele sentim ento de estar fazendo a coisa certa não dim inui. Ao contrário, aum enta cada vez m ais.
— Com o vai a sua busca por Sebastian? — pergunta o professor Glenny certo dia depois da aula, quando estam os fazendo fila para pegar de volta nossos relatórios sobre Cimbelino. Os puxa-sacos olham para m im com invej a. Desde que lhe contei sobre Will Guerrilheiro, ele tem um novo tipo de respeito por m im . E, claro, ele sem pre am ou Dee.
— Não m uito bem — digo a ele. — Não tenho m ais pistas.
Ele franze o cenho.
— Sem pre há m ais pistas. O que é m esm o que os detetives dos film es dizem ? “É preciso pensar fora da caixa.” — Ele diz a últim a parte com um sotaque nova-iorquino horroroso. Entrega m eu relatório. — Bom trabalho.
Olho para o relatório, para o grande A- em verm elho, e sinto um enorm e fluxo de orgulho. Enquanto Dee e eu cam inham os até nossa próxim a aula, fico olhando para ele, para ter certeza de que não se transform ará num C, apesar de saber que não vai. Mesm o assim , não consigo parar de olhar. E sorrir. Dee m e pega no pulo e ri.
— Para alguns de nós, essas notas A são novidade — digo.
— Ah, não venha com chororô. Vej o você às quatro?
— Ficarei contando os m inutos.
Quando Dee chega, às quatro horas, está pulando de felicidade.
— Esqueça essa história de pensar fora da caixa; tem os que olhar dentro da caixa. — Ele segura dois DVDs do centro de m ídia. O título num deles diz A Caixa de Pandora, e há a foto de um a linda m ulher com olhos tristes e escuros e um elegante capacete de cabelo preto. Im ediatam ente sei quem ela é.
— Com o isso vai nos aj udar?
— Não sei. Mas, quando se abre a Caixa de Pandora, nunca se sabe o que vai sair. Podem os assistir hoj e à noite. Depois que eu sair do trabalho.
Balanço a cabeça.
— Farei pipoca.
— Levarei algum a sobra de bolo do refeitório.
— Sabem os com o fazer um a festa num a sexta à noite.
Mais tarde, enquanto estou m e aprontando para encontrar Dee, vej o Kali na sala. Ela olha para a pipoca.
— Está se em panturrando de porcaria?
— Dee e eu vam os assistir a alguns film es. — Nunca convidei Kali para nada. E ela quase sem pre sai nas noites de fim de sem ana. Mas penso na oferta que ela m e fez, e no que ela disse sobre ser um a am iga, então a convido para se j untar a nós. — É m eio um a m issão de assistir a um film e/encontrar fatos. Você poderia nos aj udar. Foi tão esperta com sua ideia de tentar encontrar o irm ão em Rochester.
Os olhos dela se arregalam .
— Eu adoraria aj udar. Estou tão cansada dessas festas regadas a cervej a. Jenn, quer assistir a um filme com Allyson e Dee?
— Antes de dizer sim , tom e cuidado. São film es m udos.
— Legal — diz Jenn. — Nunca vi um antes.
Nem eu, e no final acaba sendo com o assistir a Shakespeare. É preciso se aj ustar a ele, pegar o ritm o. Não há palavras, m as tam bém não é com o um film e estrangeiro, onde todos os diálogos têm legenda. Só pedaços im portantes dos diálogos são transcritos. O restante você tem que adivinhar a partir das expressões dos atores, do contexto, do aum ento do volum e da m úsica orquestrada. É preciso se esforçar um pouco.
Assistim os a Caixa de Pandora inteiro, que fala sobre um a linda garota de program a cham ada Lulu, que pula de hom em em hom em . Prim eiro ela se casa com o am ante, então dá um tiro nele na noite do casam ento. É acusada de assassinato, m as foge da cadeia, indo para o exílio com o filho do assassinado. Ela acaba vendida com o escrava sexual. O film e term ina com ela sendo assassinada na noite de Natal, por ninguém m enos que Jack, o Estripador. Nós todos assistim os ao film e com o se assiste a um trem bater em câm era lenta.
Depois que term inam os, Dee pega o próxim o film e, Diário de uma Garota Perdida.
— Este aqui é um a com édia — brinca ele.
Não é tão ruim assim . Lulu, apesar de não ter esse nom e nesse film e, não m orre no final. Mas é seduzida, tem um filho fora do casam ento, o bebê é tirado dela, acaba à m argem da sociedade e j ogada num reform atório terrível. Ela tam bém se envolve com a prostituição.
São quase duas horas da m anhã quando acendem os as luzes. Olham os uns para os outros, olhos turvos.
— Então? — pergunta Jenn.
— Eu gosto das roupas — diz Kali.
— As roupas eram o m áxim o, m as não exatam ente esclarecedoras. — Dee se volta para m im . — Algum a pista?
Olho em volta.
— Não peguei nada. — E, de fato, não peguei. Todo esse tem po fiquei pensando que era com o Lulu. No entanto, não sou nada com o a garota nos film es. Nem gostaria de ser.
Jenn bocej a, abre um laptop e acessa um a página sobre Louise Brooks, que aparentem ente teve um a vida tão tum ultuada quanto a de Lulu, indo de estrela de cinem a de prim eira categoria a atendente da Saks, passando por am ante sustentada por um hom em e finalm ente vivendo em reclusão.
— Mas diz aqui que ela sem pre foi um a rebelde. Sem pre fez as coisas do seu j eito. E teve um caso com Greta Garbo! — Jenn sorri diante disso.
Kali pega o com putador e lê.
— Além disso, ela foi a pioneira do corte de cabelo curto.
— Eu tinha acabado de cortar m eu cabelo curto quando nos conhecem os. Eu deveria ter m encionado isso.
Kali coloca o com putador de lado e desm ancha m eu rabo de cavalo, dobrando m eu cabelo na altura do queixo.
— Hum m . Com o cabelo curto você se parece um pouco com ela.
— É, foi o que ele m e disse. Que eu m e parecia com ela.
— Se ele a viu desse j eito — diz Jenn —, significa que achou você m uito bonita.
— É. Talvez. Ou talvez isso tudo tenha sido um j ogo para ele. Ou m e cham ar de Lulu foi um j eito de se distanciar, assim ele nunca teria que saber nada sobre m im .
No entanto, à m edida que m e desfaço dos cenários m enos rom ânticos, e, sej am os honestos, m ais prováveis, não sinto aquele aperto costum eiro de vergonha e hum ilhação. Com esse bando m e dando cobertura, nada parece tão estressante.
Kendra passará a noite com Jeb, então Kali oferece sua cam a para Dee, e ela se j oga na cam a de Kendra. Quando todos nós nos aconchegam os debaixo das cobertas, dizem os boa-noite um para o outro, com o se estivéssem os num acam pam ento de verão ou algo parecido, e sinto aquela sensação de norm alidade m ais forte do que nunca.
Dee com eça a roncar logo de cara, m as eu dem oro para pegar no sono, pois ainda estou m e questionando sobre Lulu. Talvez tenha sido só o nom e. Talvez tenha sido apenas faz de conta. Naquele dia, eu realm ente m e transform ei em Lulu. Talvez não a Lulu do film e ou a verdadeira Louise Brooks, m as m inha própria ideia do que Lulu representava. Liberdade. Ousadia. Aventura. Dizer sim .
Percebo que não estou só em busca de Willem ; tam bém estou procurando Lulu.