Apenas um Dia
Capítulo 29
29
cidade de Nova York
Meus pais querem m e levar de carro até o JFK, m as eu fiz planos de passar o dia com Dee antes de ir, então eles m e deixam na estação da Rua 30, na Filadélfia. Vou tom ar o trem , m eu prim eiro em um ano, até Manhattan, e Dee m e encontrará na Penn Station. Am anhã à noite pegarei m eu voo para Londres e, de lá, para Paris.
Quando anunciam m eu trem , cam inham os em direção à plataform a. Papai bate os dedões im pacientem ente, visões dos cam pos de golfe de Maui dançando em sua cabeça. Eles em barcam na segunda-feira. Minha m ãe apenas anda de um lado para o outro. Então, quando o letreiro do m eu trem é avistado a distância, ela tira um a caixa da bolsa.
— Pensei que não trocaríam os presentes desta vez. — Ano passado saím os para j antar fora, vários acessórios de últim a hora. A noite passada foi m ais tranquila. Lasanha feita em casa na sala de j antar. Tanto m am ãe quanto eu j ogando a com ida no prato de um lado para o outro.
— É m ais para m im do que para você.
Abro a caixa. Dentro dela está um pequeno celular com um carregador e um adaptador de tom ada.
— Você com prou um celular novo para m im ?
— Não. Quer dizer, sim . Quer dizer, do seu celular velho, nós suspenderem os o plano até você voltar. Mas este aqui é um telefone de quatro bandas. Definitivam ente funciona na Europa. Só precisa com prar um … com o cham am aquilo? — ela pergunta a papai.
— Um chip.
— Certo. — Ela se apressa para abrir a parte de trás. — Aparentem ente, eles são bem baratos. Assim você pode conseguir um núm ero local em qualquer lugar que estiver e ter um telefone caso precise, e pode nos ligar em caso de em ergência ou nos enviar um a m ensagem de texto, m as só se quiser. É m ais para você, para ter um j eito de falar conosco. Se precisar. Mas você não precisa…
— Mãe — interrom po —, está tudo bem . Vou m andar m ensagens de texto.
— Verdade?
— Claro que sim ! E você pode m e m andar m ensagens lá, do Havaí. E essa coisa tira foto? — Dou um a espiada na câm era. — Vou m andar fotos.
— Vai?
— Claro que vou.
Pela expressão no rosto dela, alguém poderia pensar que eu é que havia lhe dado o presente.
A Penn Station está lotada, m as eu encontro Dee logo de cara, em baixo do quadro de saídas, vestindo um short de náilon verde-lim ão e um a cam iseta curta com os dizeres UNICÓRNIOS EXISTEM MESMO. Ele m e envolve num grande abraço.
— Onde está sua m ala? — pergunta.
Eu m e viro e exibo a m ochila cor de oliva que com prei na loj a de excedentes do Exército e da Marinha na Filadélfia.
Dee assovia.
— Com o conseguiu guardar seu vestido de baile?
— Dobrei bem pequenininho.
— Achei que fosse ter um a m ala m aior, e disse à m inha m ãe que voltaríam os para casa antes de sairm os para nossa exploração, então ela fez alm oço.
— Eu gosto de alm oço.
Dee j oga as m ãos para cim a.
— Na verdade, m inha m ãe planej ou um a festa surpresa para você. Não diga que lhe contei.
— Um a festa? Ela nem m e conhece.
— A esta altura ela acha que j á conhece, de tanto que eu falo em você, e aproveita qualquer desculpa para cozinhar. Minha fam ília vem , inclusive m inha prim a Tany a. Já falei dela?
— Aquela que é cabeleireira
Dee concorda.
— Perguntei a ela se poderia fazer o seu. Ela faz cabelo de garota branca tam bém , trabalha num salão chique em Manhattan. Pensei que você talvez pudesse cortar o seu curto de novo, ir toda Louise Brooks. Ficar exatam ente com o estava quando se conheceram . Precisa fazer algum a coisa com essa vassoura. — Ele aponta para o m eu cabelo, para cim a, com o sem pre, com um a presilha.
Tom am os o m etrô em direção à parte norte da cidade, até a últim a estação. Saím os e pegam os um ônibus. Olho pela j anela, esperando as ruas desorganizadas e violentas do Sul do Bronx. No entanto, o ônibus passa por um a fila de lindos prédios de tij olos, todos som breados por árvores antigas.
— Isto é o Sul do Bronx? — pergunto a Dee.
— Eu nunca disse que m orava no Sul do Bronx.
Olho para ele.
— Está falando sério? Ouvi você dizer várias vezes que era do Sul do Bronx.
— Eu disse que era do Bronx. Tecnicam ente, isto é o Bronx. É Riverdale.
— Mas você disse a Kendra que era do Sul do Bronx. Disse a ela que frequentou a Escola Secundária do Sul do Bronx… — eu paro, lem brando aquela prim eira conversa. — Que nem m esm o existe.
— Eu deixei que a garota tirasse as próprias conclusões precipitadas. — Ele m e dá um sorrisinho arrogante. Toca a cam painha para sairm os do ônibus. A rua é m ovim entada, cheia de prédios altos de apartam entos. Nada sofisticado, m as agradável.
— Você é o m estre dos m entirosos, D’Angelo Harrison.
— É preciso ser um m entiroso para reconhecer outro. Eu sou do Bronx. E eu sou pobre. Se as pessoas querem traduzir isso com o um garoto do gueto, a escolha é delas. — Ele sorri. — Principalm ente se querem j ogar o dinheiro da bolsa de estudos em cim a de m im .
Chegam os a um lindo prédio de tij olos com gárgulas trincadas penduradas na porta da frente. Dee toca a cam painha “para que soubessem que estávam os chegando”, e então tom am os um daqueles elevadores antigos, que parecem um a gaiola, até o quinto andar. Do lado de fora da porta, ele olha para m im e coloca algum as m echas de cabelo desarrum adas atrás da m inha orelha.
— Aj a com se estivesse surpresa — sussurra ele, e abre a porta.
Entram os na festa; aproxim adam ente doze pessoas am ontoadas num a pequena sala de estar onde há um a placa BON VOYAGE, ALLYSON pregada sobre a m esa abarrotada de com ida. Olho para Dee com os olhos bem abertos, em choque.
— Surpresa! — diz ele, abrindo m ãos de j azz.
A m ãe de Dee, Sandra, vem até m im e m e envolve num abraço de urso com perfum e de gardênia.
— Ele te contou, não foi? Foi a pior expressão de surpresa que j á vi na vida. Meu bebê não conseguiria m anter um segredo nem que tivesse pregado nele. Bem , venha então, conheça as pessoas, com a um pouco.
Sandra m e apresenta a várias tias e tios e prim os e m e dá um prato de frango assado e m acarrão com queij o e algum as verduras e m e senta à m esa.
— Agora você tem toda a nossa atenção.
Dee basicam ente contou a todo m undo sobre Willem , então todos têm algum conselho sobre com o encontrá-lo. Com eçam a m e encher de perguntas sobre a viagem . Com o vou chegar lá — um voo de Nova York para Londres e de lá até Paris —, onde ficarei — num albergue na região de Villette, onde Willem e eu passam os um tem po j untos, 25 dólares por noite —, com o vou m e virar — com a aj uda de um guia e eu m e aventurando pelo m etrô. E eles perguntam sobre Paris, e eu digo o que vi no ano passado, e estão interessados em ouvir o quanto era diferente, sobre os bairros cheios de africanos, e então isso dá início a um grande debate sobre os países africanos colonizados pela França, até que alguém vai buscar um m apa para descobrir.
Quase todo m undo se debruça sobre o atlas, e Sandra chega com um prato de torta de pêssego.
— Tenho um a coisinha para você — diz ela, oferecendo-m e um pacote fininho.
— Ah, você não precisava…
Ela abana m inhas obj eções com o se fossem ar fedorento. Abro o pacote. Dentro há um m apa lam inado de Paris.
— O hom em da loj a disse que isso seria “indispensável”. Ela abre o m apa para m e m ostrar. — E D’Angelo e eu passam os tantas horas olhando para ele que ficou com nossas bênçãos.
— Então eu nunca vou m e perder de novo.
Ela dobra o m apa e o coloca na m inha m ão. Tem os m esm os olhos de Dee.
— Quero lhe agradecer por aj udar m eu garoto neste ano.
— Eu aj udando Dee? — Balanço m inha cabeça. — Acho que você está confundindo as coisas.
— Sei exatam ente do que estou falando — diz ela.
— Não, é sério. Tudo o que Dee tem feito é m e aj udar. É quase vergonhoso.
— Pare com tanta bobagem . D’Angelo é ao m esm o tem po brilhante e abençoado pelo cam inho que a vida lhe traçou. Mas não tem sido fácil para ele. Nos quatro anos de escola secundária e um ano de faculdade, você é a prim eira am iga da escola de quem ele falou, ainda a trouxe aqui em casa.
— Vocês duas estão falando de m im , não estão? — pergunta Dee, e coloca um braço em volta de cada um a. — Exaltando m eu esplendor?
— Exaltando algum a coisa sua — respondo.
— Nenhum a das duas acredite em nada! — Ele se vira para apresentar um a garota alta, m aj estosa, com a cabeça cheia de trancinhas intrincadas. — Estava falando de Tany a com você.
Trocam os um olá, e Sandra sai para pegar m ais torta de fruta. Tany a estica o braço para soltar m eu cabelo da presilha. Ela passa os dedos nas pontas e balança a cabeça, estalando a língua do m esm o j eito desaprovador que Dee sem pre faz.
— Eu sei. Eu sei. Já faz um ano — explico. E então percebo que realm ente faz. Um ano.
— Era curto ou com prido? — pergunta Dee. Ele se vira para Tany a. — Você tem que deixá-la com o estava antes. Para quando ela o encontrar.
— Se eu o encontrar — esclareço. — Estava m ais ou m enos aqui. — Aponto para a base da m inha nuca, onde o cabeleireiro em Londres cortou m eu cabelo no ano passado. Então deixo a m ão cair. — Mas, sabe, não sei se quero o corte curto.
— Você não quer cortar o cabelo? — pergunta Tany a.
— Não, eu adoraria cortar — respondo a ela. — Mas não curtinho. Quero tentar algo totalm ente novo.