Apenas um Dia
Capítulo 27
27
j unho
Em casa
O curso de Introdução ao Francês acontece três dias por sem ana, durante seis sem anas, das onze e m eia à um a, m e dando m ais um a razão para sair da Casa da Desaprovação. Apesar de estar no Café Finlay cinco noites por sem ana nesses dias, e o dia todo durante os fins de sem ana, de segunda a sexta eu entro às cinco. E o restaurante está fechado às segundas e terças, assim tenho m uito tem po sem fazer nada para m am ãe e eu nos evitarm os.
No prim eiro dia de aula, chego m eia hora m ais cedo e pego um chá gelado do pequeno quiosque, encontro a sala de aula e com eço a folhear m eu livro. Há m uitas fotos da França, m uitas de Paris.
Os outros alunos com eçam a chegar. Eu esperava universitários, m as todo m undo, exceto eu, é da idade dos m eus pais. Um a m ulher loura com m echas brancas se j oga na cadeira perto da m inha, apresenta-se com o Carol e m e oferece um chiclete. Aceito o aperto de m ão com alegria, m as recuso o chiclete: não m e parece m uito francês m ascar chiclete na aula.
Um a m ulher m iúda com o um passarinho, com cabelo grisalho curto, entra na sala. Ela parece ter saído de um a revista, com sua saia lápis e um a blusinha de seda, am bas perfeitam ente passadas, o que parece im possível, considerando os noventa por cento de um idade do lado de fora. Além disso, ela está usando um lenço, tam bém estranho, considerando os noventa por cento de um idade.
Ela é claram ente francesa. Se o lenço por si só não a entregasse, há o fato de ela m archar até a frente da sala e com eçar a falar. Em francês.
— Estam os na sala errada? — sussurra Carol. — Então a professora vai até o quadro e escreve seu nom e, m adam e Lam bert, e o nom e da aula, introdução ao francês. Ela tam bém escreve em francês. — Ah, infelizm ente, não — diz Carol.
Madam e Lam bert se vira para nós e nos diz em inglês, com o sotaque m ais pesado que se possa im aginar, que isso é francês inicial, m as que a m elhor m aneira de aprender francês é falando e ouvindo. E esse é todo o inglês que ouço durante a próxim a hora e m eia.
— Je m’appelle Thérèse Lambert — diz ela, fazendo soar com o: Te-rrez. Lom b-ehr. — Comment vous appelez-vous?
A classe olha fixam ente para ela. Ela repete a pergunta, gesticulando para si m esm a, depois aponta para nós. Ainda assim , sem resposta. Ela vira os olhos e faz um barulhinho com os dentes. Aponta para m im . Clica os dentes de novo, gesticula para que eu m e levante.
— Je m’appelle Thérèse Lambert — repete, enunciando lentam ente e dando um tapinha no peito. — Comment t’appelles tu?
Fico em pé ali, paralisada por um segundo, sentindo com o se Céline estivesse tagarelando com igo com desdém . Madam e Lam bert repete a pergunta. Eu acho que ela está perguntando m eu nom e. Mas eu não falo francês. Se falasse, não estaria aqui. Em introdução ao francês.
Mas agora ela está esperando. Não m e deixará sentar.
— Je m’appelle Allyson? — tento.
Ela resplandece, com o se eu tivesse acabado de explicar a origem da Revolução Francesa em francês.
— Bravo! Enchantée, Allyson.
E dá a volta na sala de aula, perguntando o nom e de todo m undo do m esm o j eito.
Aquilo foi o prim eiro round. Então vem o segundo:
— Porquoi voulez-vous apprendre le français?
Ela repete a pergunta, escrevendo-a no quadro, circulando certas palavras e escrevendo as traduções em inglês. Porquoi: por que. Apprendre: aprender. Voulez-vous: você quer. Ah, agora entendo. Está perguntando por que querem os aprender francês.
Não faço ideia de com o com eçar a responder. É por isso que estou aqui.
Mas, então, ela continua.
— Je veux apprendre le français parce que… — Ela circula Je veux: eu quero. Parce que: porque. Ela repete três vezes. Então aponta para nós.
— Consigo fazer esta. Sei essa palavra de um film e — sussurra Carol. Ergue a m ão. — Je veux apprendre le français parce que — ela tropeça nas palavras e seu sotaque é horrível, m as m adam e apenas a observa ansiosam ente. — Parce que le divorce!
— Excellent — diz m adam e Lam bert, só que diz do j eito francês, o que deixa o som ainda m elhor. Le divorce, ela escreve no quadro. — Divorce. La même — diz ela. O mesmo, escreve. Então escreve le mariage e explica que é o antônim o.
Carol se inclina para a frente.
— Quando m e divorciei do m eu m arido, eu disse a m im m esm a que m e deixaria engordar e que aprenderia francês. Se m e sair tão bem no francês quanto estou m e saindo na engorda, serei fluente em setem bro!
Madam e Lam bert dá a volta na sala de aula, e as pessoas tropeçam para explicar por que querem aprender francês. Duas pessoas vão passar férias na França. Um a vai estudar história e precisa ter algum a noção de francês. Um a acha que é um a língua bonita. Em cada caso, m adam e escreve a palavra, a tradução e seu antônim o. Férias: vacances. trabalho: travail.
Fui a prim eira da últim a vez e agora sou a últim a. Neste m om ento estou um pouco assustada, tentando pensar no que vou dizer. Com o se diz acasos em francês? Ou porque acho que posso ter com etido um erro. Ou Romeu e Julieta. Ou para encontrar um a coisa perdida. Ou porque não quero com petir, apenas quero falar francês. Mas não sei dizer aquilo em francês. Se soubesse, não estaria ali.
Então m e lem bro de Willem . Da Nutella. Apaixonar-se versus ficar apaixonado. Com o ele disse? Mancha em francês? Sash? Tache?
— Ally son — diz ela. — Porquoi veux-tu apprendre le français?
— Je veux apprendre le français — com eço, repetindo o que acabei de ouvir todos dizerem . Essa parte eu consigo. — Parce que… — Paro para pensar. — Le tache — digo finalm ente.
É um a coisa tão estranha de dizer, se isso é o que eu realm ente disse. Um a m ancha. Não faz o m enor sentido. Mas m adam e Lam bert balança a cabeça firm em ente e escreve la tache no quadro. Então escreve objetivo. Eu m e pergunto se m e lem brei da palavra errada. Ela m e olha, e eu fico confusa. E então escreve outra palavra no quadro: la tache: m ancha.
Assinto. Sim , é isso. Ela não escreve o oposto. Não há oposto de m ancha.
Quando todos acabam , m adam e sorri e bate palm as.
— C’est courageux d’aller dans l’inconnu — ela diz e escreve no quadro. Ela nos faz escrever e desconstruir a frase usando um dicionário. Courageux nós sabem os que é coraj oso. Dans é dentro. L’inconnu é desconhecido. Levam os vinte m inutos, m as finalm ente descobrim os: “É coraj oso entrar em território desconhecido”. Quando descobrirm os isso, a classe está tão orgulhosa quanto m adam e.
Mesm o assim , passo a prim eira sem ana de aula vivendo em estado de pavor de ser cham ada, pois todos são m uito cham ados; som os som ente seis, e m adam e é um a grande fã da participação em classe. Toda vez que ficam os envergonhados, ela nos lem bra que C’est courageux d’aller dans l’inconnu. Algum tem po depois, eu sim plesm ente m e supero. Com eto erros crassos toda vez que falo, e sei que estou assassinando a gram ática, e m inha pronúncia é terrível, m as estam os todos no m esm o barco. Quanto m ais eu faço, m enos insegura fico e cada vez fica m ais fácil sim plesm ente tentar.
— Eu m e sinto com o um a m aldita idiota, m as acho que isso pode estar funcionando — diz Carol um a tarde depois da aula.
Ela, eu e alguns poucos alunos com eçam os a nos reunir para tom ar café ou alm oçar depois da aula para praticarm os, para nos recuperarm os do bom bardeio verbal de m adam e Lam bert, e para tentarm os descobrir o que ela realm ente quer dizer quando faz “pff” e solta ar pelos lábios. Há toda um a linguagem nos “pffs” dela.
— Acho que tive um sonho em francês — conta Carol. — Eu estava falando coisas terríveis ao m eu ex. — Ela dá um sorriso forçado ao se lem brar disso.
— Não sei se estou tão avançada assim , m as estou definitivam ente pegando o j eito — com ento. — Ou talvez estej a pegando o j eito de m e sentir um a idiota.
— Un idiot — diz Carol em francês. — Metade do tem po, acrescente um sotaque francês que funciona. Mas superar o fato de se sentir un idiot pode ser m etade da batalha.
Im agino-m e sozinha em Paris. Haverá tantas batalhas que terei que enfrentar, viaj ando sozinha, encarando Céline, falando francês... É tudo tão assustador que alguns dias eu não consigo acreditar que estej a tentando fazê-lo. Mas acho que Carol talvez estej a certa com relação a isso, e, quanto m ais eu com eto erros e, de algum a m aneira, passo por cim a deles, m ais bem preparada eu m e sinto para a viagem . Não só com o francês. Com tudo. C’est courageux d’aller dans l’inconnu.
No restaurante, Babs solta para toda a equipe que eu estou econom izando para ir a Paris encontrar m eu am ante, e que estou aprendendo francês porque ele não fala inglês, então agora Gillian e Nathaniel assum iram a responsabilidade de serem m eus tutores. Babs está fazendo a parte dela acrescendo vários itens em francês ao cardápio de pratos especiais, inclusive macarons, os quais, aparentem ente, dem oram horas para ser feitos, m as, quando eu os com o — m eu Deus, consigo entender o m otivo de tanta com oção. Rosa pálido, duro do lado de fora, m as esponj oso, leve e delicado do lado de dentro, deliciosam ente recheado com fram boesa.
Entre um a aula e outra, m atando o tem po com m eus am igos estudantes e no trabalho, passo um bom tem po se não falando francês, ao m enos pensando nele. Quando Gillian traz os pratos para a cozinha, m e faz praticar os verbos.
— Com er — grita ela.
— Je mange, tu manges, il mange, nous mangeons, vous mangez, ils mangent — respondo. Nathaniel, que na verdade não fala francês, m as tinha um a nam orada francesa, m e ensina a xingar. Mais especificam ente, a brigar com a nam orada.
T’es toujours aussi salope? Você é sem pre essa m egera?
T’as tes règles ou quoi? Você está doido ou o quê?
E ferme ta gueule! O que ele diz significar: Cale a boca!
— Eles não podem dizer “feche essa m atraca” na França — digo.
— Bem , talvez não sej a a tradução literal, m as chega bem perto — responde ele.
— Mas isso é tão grosseiro. Os franceses têm bom gosto.
— Cara, aquele povo adorava o Jerry Lewis. Eles são hum anos, assim com o eu e você. — Ele faz um a pausa, depois dá um sorrisinho m alicioso. — Exceto pelas m ulheres. Elas são de outro planeta.
Penso em Céline e tenho um a sensação ruim no estôm ago.
Outro dos garçons m e em presta os CDs da Rosetta Stone e eu com eço a praticar com eles tam bém . Dentro de algum as sem anas, com eço a notar que m eu francês está m elhorando, que, quando m adam e Lam bert m e cham a na aula para descrever o que com i no alm oço, consigo dar conta do recado. Com eço a falar em frases, depois em sentenças, sentenças que não preciso decifrar antecipadam ente, com o faço com o m andarim . De algum a m aneira, está acontecendo. Estou conseguindo.
Um a m anhã, quase no fim do m ês, eu desço as escadas e encontro m am ãe à m esa da cozinha. Na frente dela está o catálogo da faculdade com unitária e o talão de cheques. Digo bom -dia e vou até a geladeira pegar um pouco de suco de laranj a. Mam ãe apenas m e observa. Estou a ponto de levar m eu suco para o pátio de trás, que é basicam ente o que tem os feito quando papai não está em casa funcionando com o m ediador — se ela está num côm odo, eu vou para outro. Mas ela m e pede para sentar.
— Seu pai e eu resolvem os lhe reem bolsar as aulas de francês — diz ela, destacando a folha de cheque. — Isso não quer dizer que estam os recom pensando qualquer parte dessa viagem . Ou que recom pensam os sua duplicidade. Nós absolutam ente não estam os fazendo isso. Mas as aulas de francês fazem parte de sua educação, e obviam ente você está levando a sério, então não deveria ter que pagar por elas.
Ela m e passa o cheque. É de 400 dólares. Muito dinheiro. Mas eu j á consegui guardar perto de m il dólares, m esm o com o dinheiro que paguei pelas aulas, e acabei de dar entrada num a passagem para Paris, e Babs vai m e adiantar o salário da sem ana, assim posso com prá-la na sem ana que vem . E ainda tenho um m ês inteiro para econom izar. Os 400 dólares m e tirariam da forca. Mas o fato é que talvez eu não precise ser tirada da forca.
— Não tem problem a — digo a m am ãe, devolvendo o cheque. — Mesm o assim , obrigada.
— O que, você não quer?
— Não é isso. Eu não preciso.
— É claro que precisa — retruca ela. — Paris custa caro.
— Eu sei, m as venho econom izando m uito dinheiro do trabalho e não estou gastando quase nada neste verão. Não tenho nem m esm o que pagar a gasolina. — Tento fazer um a piada.
— Isso é outra coisa. Se continuar trabalhando até altas horas, é m elhor pegar o carro à noite.
— Não tem problem a. Não quero deixá-la presa.
— Bom , você pode m e ligar pedindo carona.
— É m uito tarde. E eu geralm ente pego carona com alguém .
Ela pega o cheque de volta e, com um a violência que m e surpreende, pica-o em pedacinhos.
— Bem , não posso fazer m ais nada por você, não é?
— O que quer dizer com isso?
— Você não quer nem m eu dinheiro, nem m eu carro, nem m inha carona. Tentei aj udá-la a conseguir um em prego, e você não precisa m ais de m im para isso.
— Tenho dezenove anos — digo.
— Sei quantos anos você tem , Ally son. Eu pari você! — A voz dela estala com o um chicote, e o estalo parece assustar até ela própria.
Às vezes, só se pode sentir algo quando se perde. Pelo espaço vazio deixado para trás. Ao olhar para m am ãe, toda irritada e ofendida, finalm ente com preendo que ela não está apenas zangada. Está m agoada. Um a onda de com paixão tom a conta de m im , dissipando um pouquinho a m inha fúria. Assim que ela passa, m e dou conta de quanto a tenho em m im . Do quanto estou furiosa com ela. Do quanto estive furiosa durante o últim o ano. Talvez m uito m ais tem po.
— Sei que você m e pariu — digo.
— Passei dezenove anos criando você, e agora estou sendo deixada de fora da sua vida. Não posso saber de nada sobre você. Não sei quais as m atérias que tem . Não sei m ais quem são seus am igos. Não sei por que está indo para Paris. — Ela deixa escapar algo entre um trem or e um suspiro.
— Mas eu sei — digo a ela. — E, por ora, será que isso não basta?
— Não, não basta — retruca.
— Bem , terá que bastar — respondo de volta.
— Quer dizer que você dita as regras agora, é isso?
— Não há nenhum a regra. Não estou ditando nada. Só estou dizendo que você precisa confiar na criação que m e deu.
— Dei. Passado. Gostaria que você parasse de falar com o se j á estivesse m e dispensando do m eu trabalho.
Fico chocada com isso, não por ela pensar em m im com o um trabalho, m as por considerar que estou na posição de dispensá-la.
— Achei que você fosse voltar para algum tipo de trabalho de RP.
— Eu ia, não é? — Ela gargalha. — Eu disse que faria isso quando você com eçasse a escola prim ária. Quando com eçasse a escola secundária. Quando tirasse a carteira de m otorista. — Ela esfrega os olhos com a parte de baixo das m ãos. — Você não acha que, se eu quisesse fazer isso, a esta altura j á teria feito?
— Então por que não voltou?
— Não era o que eu queria.
— E o que você quer?
— Que as coisas sej am com o eram antes.
Por algum a razão, aquilo m e deixa furiosa. Porque aquilo é tanto um a verdade — que ela m e queira fossilizada — quanto um a m entira.
— Mesm o quando as coisas “eram com o eram ”, nunca era suficiente. Eu nunca fui suficiente.
Mam ãe olha para cim a, os olhos cansados e surpresos ao m esm o tem po.
— Claro que era — diz. — Era, sim .
— Sabe o que m e incom oda? Você e papai sem pre disseram que desistiram enquanto estavam ganhando. Não existe essa coisa de desistir enquanto se está ganhando. Desiste-se quando se está perdendo. É por isso que se desiste!
Mam ãe franze o cenho, exasperada; é a expressão de “ter que lidar com um a adolescente”, que eu j á m e acostum ei a ver durante o últim o ano, m eu últim o ano com o adolescente. Por incrível que pareça, não era algo que ela precisasse fazer com igo com m uita frequência antes. O que, eu agora percebo, talvez fosse parte do problem a.
— Você queria m ais filhos — continuo. — E teve que se contentar só com igo. E passou m inha vida inteira tentando m e fazer ser o bastante.
Isso cham a a atenção dela.
— Do que você está falando? Você é o bastante!
— Não, não sou. Com o posso ser? Sou o único tiro, a herdeira e a gastadeira, então você tem que ter a m aldita certeza de que seu único investim ento valha a pena, porque não existe backup.
— Isso é ridículo. Você não é um investim ento.
— Você m e trata com o se eu fosse. Você descarregou todas as suas expectativas em cim a de m im . É com o se eu tivesse que carregar a carga de esperanças e sonhos por todos os filhos que você não conseguiu ter.
Ela balança a cabeça.
— Você não sabe do que está falando — diz ela em voz baixa.
— É m esm o? Escola de m edicina com treze anos. Ah, por favor! Quem aos treze anos de idade quer ir para a escola de m edicina?
Por um m om ento, m am ãe parece ter levado um soco no estôm ago. Então coloca a m ão sobre a barriga, com o se cobrisse o lugar do im pacto.
— Esta adolescente de treze anos.
— O quê? — Agora eu estou absolutam ente confusa. Mas então lem bro que, na escola secundária, papai sem pre m e m andava falar com m am ãe quando precisava de aj uda com quím ica ou biologia, ainda que ele fosse o m édico. E consigo ouvir m am ãe recitando de m em ória os pré-requisitos da escola de m edicina quando o catálogo da faculdade chegou. E penso no trabalho que ela teve um a vez, fazendo relações públicas, m as para um a em presa de rem édios. Então m e lem bro do que vovó disse no Seder desastroso: Esse sempre foi o seu sonho.
— Você? — pergunto. — Você queria ser m édica?
Ela concorda.
— Eu estava estudando para o MCAT quando conheci seu pai. Ele estava com eçando o prim eiro ano na escola de m edicina e, de algum m odo, encontrava tem po livre para ser tutor. Tentei entrar em dez escolas, e não entrei em nenhum a. Seu pai disse que foi porque eu não tinha experiência com laboratório. Então fui trabalhar na Glaxo, e pensei em tentar novam ente, m as depois seu pai e eu nos casam os, e acabei m udando. Alguns anos se passaram e resolvem os com eçar um a fam ília, e eu não queria que seu pai e eu estivéssem os am bos no m eio da faculdade e fazendo residência com um bebezinho, e então tivem os os problem as de fertilidade. Quando desistim os de ter outro filho, parei de trabalhar, pois conseguíam os viver com o salário do seu pai. Pensei em m e inscrever na faculdade novam ente, m as então descobri que gostava de passar o tem po com você. Não queria ficar longe.
Minha cabeça está girando.
— Você sem pre disse que você e papai tiveram um encontro às cegas.
— E tivem os. Foi arranj ado pelo centro tutorial do cam pus. Eu nunca quis lhe contar tudo porque não queria que se sentisse com o se eu tivesse desistido por sua causa.
— Você não queria que eu soubesse que você desistiu quando estava perdendo — esclareço. Pois não foi exatam ente isso o que ela fez?
Mam ãe estica o braço para agarrar m eus pulsos.
— Não, Ally son! Você está enganada sobre desistir enquanto se está ganhando. Isso significa ser agradecida. Parar quando se percebe que o que tem j á é o suficiente.
Não acredito totalm ente nela.
— Se isso é verdade, talvez você devesse desistir enquanto está ganhando agora, antes que as coisas entre nós fiquem ruins de verdade.
— Está m e pedindo para desistir de ser sua m ãe?
A princípio, acho que a pergunta é retórica, m as então a vej o olhando para m im , os olhos arregalados e am edrontados, e um pedacinho de m eu coração se parte ao pensar que ela pudesse, de fato, achar isso.
— Não — digo baixinho. Há um m om ento de silêncio enquanto m e fortaleço para dizer a próxim a coisa. Mam ãe enrij ece, com o se talvez estivesse se fortalecendo tam bém . — Mas estou lhe pedindo para ser um tipo diferente de m ãe.
Ela se j oga de volta na cadeira, não consigo dizer se aliviada ou arrasada.
— E o que eu ganho com isso?
Por um breve segundo consigo nos im aginar um dia, tom ando chá, eu contando a ela tudo o que aconteceu em Paris no últim o verão, o que acontecerá nesta viagem na qual estou prestes a em barcar. Um dia. Ainda, não.
— Um tipo diferente de filha — respondo.