Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 11 de 40

Páginas do PDF

Apenas um Dia

Capítulo 10

10

 

 

Pego no sono. E então acordo, e tudo parece diferente. O parque está silencioso agora. O som das risadas e os ecos das bolas de handebol desapareceram no crepúsculo longo e m elancólico. Nuvens de chuva gordas e cinza tom aram conta do céu escurecido.

No entanto, algo m ais m udou, algo m enos quantificável, m as, ao m esm o tem po, elem entar. Sinto assim que acordo; os átom os e as m oléculas se rearranj aram , oferecendo um a m udança irrevogável ao m undo.

E é neste m om ento que percebo a m ão de Willem .

Willem tam bém pegou no sono; seu corpo longo está curvado num espaço ao redor do m eu, com o um ponto de interrogação. Não estam os nos tocando, exceto pela m ão dele, que está casualm ente enfiada em baixo da curva do m eu quadril, com o um cachecol caído, com o se tivesse sido soprada até lá pela brisa suave do sono. Mas agora que está lá é com o se fizesse parte dali. Com o se sem pre tivesse estado lá.

Perm aneço absolutam ente im óvel, ouvindo o vento passar por entre as árvores, a respiração ritm ada de Willem , para dentro e para fora. Concentro-m e na m ão dele, que sinto com o se estivesse passando um a linha de eletricidade das pontas dos dedos para algum a parte dentro de m im que até agora nem eu m esm a sabia existir.

Willem se m exe dorm indo, e eu m e pergunto se ele tam bém está sentindo aquilo. Com o não poderia? A eletricidade é tão real, tão palpável, que, se alguém pusesse um m edidor em volta, o ponteiro giraria.

Ele se m exe de novo, e as pontas dos seus dedos se enfiam bem ali na carne m acia da curva do m eu quadril, provocando um choque e um arrepio tão deliciosam ente intensos que dou um pulo, chutando a perna dele atrás de m im .

Juro que, de algum m odo, posso sentir os cílios dele batendo para se abrir, seguido do calor de seu hálito contra m inha nuca.

— Goeiemorgen — diz ele, a voz ainda em bargada de sono.

Viro-m e para olhá-lo de frente, agradecida pela m ão dele ainda continuar solta sobre m eu quadril. As bochechas averm elhadas têm algum as m arquinhas da gram a, com o cicatrizes de iniciação tribal. Quero tocá-las, sentir as dobras da pele m acia de antes. Quero tocar cada parte dele. É com o se o corpo dele fosse um sol gigante, irradiando sua própria força gravitacional.

— Acho que isso quer dizer bom -dia, apesar de tecnicam ente ainda ser de tarde. — Minhas palavras saem ofegantes. Esqueci com o falar e respirar ao m esm o tem po.

— Você esqueceu? O tem po não existe m ais. Você o deu para m im .

— Eu dei o tem po a você — repito. Há um a entrega tão deliciosa nessas palavras, e eu m e sinto escorregando até ele. Algum a pequena parte de m im m e aconselha contra isso. Isto é apenas um dia. Sou apenas um a garota. No entanto, a parte que consegue resistir, que deveria resistir, desta eu finalm ente m e libertei ao acordar.

Willem pisca para m im , seus olhos escuros, preguiçosos e sexy. Já consigo nos ver beij ando. Consigo sentir os lábios dele sobre m im . Consigo sentir a saliência dos ossos dos quadris dele contra m im . O parque está quase deserto. Há algum as garotas m ais j ovens de j eans e lenços na cabeça conversando com rapazes. Mas estão no canto deles. E eu não estou nem aí com a questão da propriedade.

Meus pensam entos devem ser com o um film e proj etado num a tela. Ele observa tudo. Posso dizer pelo seu sorriso sagaz. Chegam os um pouquinho m ais perto um do outro. Sob o canto das cigarras, praticam ente consigo ouvir a energia vibrando entre nós, com o as linhas de transm issão de energia que vibram nos cam pos.

Mas, então, ouço outra coisa. A princípio não sei com o definir, de tão dissonante que é dos sons dentro dessa bolha de eletricidade que estam os gerando. Em seguida ouço pela segunda vez, frio, cortante e poderosam ente claro, e sei exatam ente o que é. O m edo não precisa de tradução. Um grito é um grito em qualquer língua.

Willem dá um salto. Eu salto.

— Fique aqui — ordena.

Antes de saber o que aconteceu, ele está se afastando a passos largos com aquelas pernas longas dele, deixando-m e presa entre o desej o e o terror.

Há outro grito. Um grito de m ulher. E então tudo parece tão devagar com o um a cena de film e em câm era lenta. Vej o as garotas, as que estavam com os lenços na cabeça, duas delas, só que agora um a não está m ais usando o lenço. O lenço está no chão, revelando um a m echa de cabelo negro despenteado e arrepiado, com o se o cabelo da garota tam bém estivesse assustado. Ela está agachada com a outra garota, com o se tentassem fugir dos garotos. Quem eu vej o agora estão longe de serem garotos: são hom ens do tipo que tem a cabeça raspada, uniform es de com bate e botas pretas im ensas. O erro essencial desses hom ens com essas garotas neste parque agora silencioso m e ocorre de um a vez. Pego a m ochila de Willem , que ele abandonou ali, e m e arrasto para m ais perto.

Ouço o choro baixinho das garotas e a risada gutural dos hom ens. Então eles falam de novo. Nunca im aginei que o francês pudesse soar tão feio.

No m om ento em que estou m e perguntando onde ele está, Willem se coloca entre os hom ens e as garotas e com eça a dizer algum a coisa. Ele está falando baixo, m as consigo ouvi-lo até aqui, o que deve ser algum truque de ator. Mas tam bém está falando em francês, então não faço ideia do que está dizendo. Sej a o que for o que ele diz, cham a a atenção dos skinheads. Eles respondem de volta, em vozes altas e m arcantes que ecoam pelas quadras vazias. Willem retruca com um a voz tão calm a e baixa quanto a brisa, e eu m e esforço para entender pelo m enos um a palavra, m as não consigo.

Ficam no vaivém , e, enquanto isso, as garotas se aproveitam dessa cobertura, com o era previsto, e fogem . Os skinheads nem percebem . Ou não se im portam . É em Willem que eles estão interessados agora. A princípio, im agino que os poderes do charm e de Willem não conheçam fronteiras. Que ele até faça am izade com os skinheads. No entanto, m eus ouvidos sintonizam no tom do que ele está dizendo, e não nas palavras. E eu reconheço o tom , porque m e acostum ei a ele. Ele está fazendo piada. Está tirando sarro deles de um a m aneira que nem m esm o eu sei se eles conseguem perceber com pletam ente. Pois há três deles e um Willem , e, se soubessem o que ele está fazendo, não estariam m ais ali conversando.

Consigo sentir o cheiro doce e enj oativo de bebida e o cheiro forte e ácido da adrenalina, e, ao m esm o tem po, posso sentir o que farão com Willem . Posso sentir com o se fossem fazer com igo m esm a. E isso deveria m e paralisar de m edo. Mas, não. Em vez disso, m e enche de algum a coisa quente, carinhosa e cruel.

Quem cuida de você?

Sem pensar, estou enfiando a m ão dentro da m ochila de Willem , pegando a coisa m ais pesada que consigo encontrar, o Rough Guide, e andando a passos largos na direção deles. Ninguém percebe que estou chegando, nem m esm o Willem , então tenho o elem ento surpresa do m eu lado. Além disso, aparentem ente, a força de m atar ou m orrer. Quando atiro o livro no cara m ais perto de Willem , o que está segurando um a garrafa de cervej a, atinj o-o com tanta força que ele derruba a garrafa. E, quando ele coloca a m ão na sobrancelha, há um fio de sangue aflorando, com o um a flor verm elha.

Sei que deveria estar assustada, m as não estou. Estou estranham ente calm a, feliz por estar de volta à presença de Willem depois daqueles m inutos interm ináveis em que ficam os separados. Willem , porém , está m e encarando com olhos bem abertos e de queixo caído. Os skinheads estão olhando por cim a de m im , analisando o parque, com o se não conseguissem realm ente acreditar que eu pudesse ser a fonte daquele ataque.

É o m om ento de confusão deles que nos salva, porque neste exato instante a m ão de Willem encontra a m inha. E correm os.

Fora do parque, passam os pela igrej a e voltam os à louca m istura do bairro, passam os pelas loj as de chá, pelos cafés e pelas carcaças de anim ais. Saltam os por cim a das sarj etas lotadas, pelo encontro de m otocicletas e pelos suportes de bicicletas, esquivando-nos das vans de entrega que despej am araras de roupas pesadam ente bordadas com glitter e vidrilho.

Os m oradores do bairro param para nos olhar, abrindo-se para nos deixar passar com o se fôssem os atletas com público num evento olím pico — A Corrida dos Brancos Malucos.

Eu deveria estar assustada. Estou sendo seguida por skinheads furiosos; a única pessoa que um dia correu atrás de m im antes foi m eu pai, quando fom os correr. Consigo ouvir a batida das botas em sincronia com as batidas do m eu coração na cabeça. Mas não estou assustada. Sinto m inhas pernas m agicam ente se esticarem , m e perm itindo acom panhar os passos largos de Willem . Sinto o chão ondulando sob m eus pés, com o se ele tam bém estivesse do nosso lado. Sinto com o se m al estivéssem os tocando o chão, com o se pudéssem os sair voando pelo céu e correr por cim a dos tetos de Paris, onde ninguém nunca poderá nos tocar.

Ouço-os gritando atrás de nós. Escuto o som de vidro se quebrando. Ouço algo passando zunindo pela m inha orelha e então algo m olhado em m eu pescoço, com o se m inhas glândulas sudoríparas tivessem sido abertas e colocadas para fora de um a vez só. E então ouço m ais risadas e as pisadas de botas param abruptam ente.

Mas Willem continua a correr. Ele m e puxa pelas ruelas de quebra-cabeça até elas se abrirem num grande bulevar. Atravessam os apressadam ente enquanto as luzes dos faróis m udam , passando correndo por um carro de polícia. Está m ovim entado agora. Tenho quase certeza de que não estam os sendo perseguidos. Estam os em segurança. Mesm o assim , Willem continua correndo, m e puxando aqui e ali por um conj unto de ruas m ais silenciosas até que, com o um a prateleira revelando um a porta secreta, um a passagem em erge na paisagem da rua. É um a pequena passagem para um daqueles condom ínios de apartam entos. Um velho com um carrinho sai do pátio interno no m om ento em que Willem nos puxa para dentro da entrada. Nosso momentum foi de 60 a zero quando batem os j untos contra um a parede de pedra no exato instante em que a porta se fecha atrás de nós.

Ficam os parados ali, nossos corpos grudados, m enos de um centím etro nos separando. Consigo sentir a batida rápida e constante do coração dele, a respiração pesada, para dentro e para fora. Consigo ver o fio de transpiração escorrendo pelo seu pescoço. Sinto m eu sangue latej ando, com o um rio prestes a inundar suas bordas. É com o se m eu corpo não pudesse m ais m e conter. De algum m odo, m e tornei m uito grande para ele.

— Willem — com eço. Há tanta coisa que preciso dizer a ele.

Ele coloca um dedo no m eu pescoço, e eu fico em silêncio, o toque dele é ao m esm o tem po tranquilizador e energizante. Então ele tira o dedo, que está verm elho de sangue. Ergo o braço para tocar m eu pescoço. Meu sangue.

— Godverdomme! — xinga ele, num sussurro. Com um a m ão, estica o braço até a m ochila para procurar um lenço e, com a outra, lam be o sangue do dedo.

Ele segura o lenço contra o lado do m eu pescoço. Estou definitivam ente sangrando, m as não m uito. Nem m esm o tenho certeza do que aconteceu.

— Jogaram um a garrafa quebrada em você. — A voz de Willem é pura fúria.

Mas não dói. Não estou m achucada. Não de fato. É só um cortezinho.

Ele está em pé m uito perto de m im agora, pressionando suavem ente o lenço contra o m eu pescoço. E, de repente, o corte no m eu pescoço não é o ponto de saída para o sangue, m as o ponto de entrada para essa estranha linha de eletricidade que está surgindo entre nós.

Eu o quero, por inteiro. Quero sentir o gosto de sua boca, a boca que acabou de experim entar m eu sangue. Me encosto nele.

Mas ele m e em purra e se afasta para trás. A m ão dele cai do m eu pescoço. O lenço, agora endurecido de sangue, continua lá, frouxo.

Então ergo os olhos até dentro dos olhos dele. Toda a cor foi drenada, de form a que eles parecem apenas negros. No entanto, m ais desconcertante é o que vej o neles, algo instantaneam ente reconhecível: m edo. E, m ais do que qualquer outra coisa, quero fazer algo, afastar aquilo. Deveria estar assustada. Hoj e, porém , não estou.

— Está tudo bem — com eço. — Eu estou bem .

— O que você estava pensando? — ele interrom pe, a voz gélida com o a de um estranho. E talvez isso ou talvez sej a só alívio, m as agora sinto que vou chorar.

— Eles iam m achucar você — digo. Minha voz falha. Olho para ele, para ver se m e com preende, m as a expressão apenas se intensifica, o m edo se uniu ao seu irm ão gêm eo, o ódio. — E eu prom eti.

— Prom eteu o quê?

Um instante se passa de novo pela m inha cabeça: não houve troca de socos. Eu nem m esm o fui capaz de entender o que eles estavam dizendo. Mas eles iriam , sim , m achucá-lo. Eu podia sentir em m eus ossos.

— Que eu cuidaria de você. — Minha voz silencia à m edida que a certeza se afasta de m im .

— Cuidar de m im ? Com o isso pode ser cuidar de m im ? — Ele abre a m ão, que está m anchada com o m eu sangue.

Ele dá um passo grande para se afastar de m im . Com o crepúsculo agora brilhando entre nós, com preendo que estive profundam ente errada em relação a isso. Não apenas invadi as pistas de esqui m ais difíceis, com o saí voando pelo desfiladeiro. Foi um a piada aquele pedido para cuidar dele. Quando é que um dia eu tom ei conta de alguém ? E ele certam ente nunca disse que precisava ser cuidado.

Ficam os parados ali, o silêncio coagulando ao nosso redor. O últim o raio de sol se vai, e então, quase com o se estivesse esperando pela escuridão entrar, a chuva com eça a cair. Willem olha para o céu e, em seguida, para o relógio dele, o m eu relógio, ainda preso ao seu pulso.

Penso naqueles 20 quilos que deixei para trás. Im agino um quarto de hotel lim po e silencioso. Penso em nós dois dentro dele, não com o im aginei um a hora antes naquele parque em Paris, m as apenas em silêncio, escutando a chuva. Por favor, im ploro em silêncio. Vamos a algum lugar fazer isso ficar melhor.

Logo depois Willem está enfiando a m ão dentro da m ochila para procurar a tabela de horários do Eurostar. Em seguida está desabotoando m eu relógio. E, então, m e dou conta, está m e devolvendo o tem po. O que, na verdade, significa que o está tirando de m im .