Apenas um Dia
Capítulo 11
11
Há m ais dois trens para Londres hoj e à noite. Willem m e diz que j á passa das nove da noite, então provavelm ente não há m uito tem po para trocar m inha passagem e em barcar no próxim o, m as definitivam ente eu consigo pegar o últim o trem . Porque eu ganho um a hora voltando para a Inglaterra, e devo estar em Londres um pouco antes de o m etrô parar de circular. Willem m e diz tudo isso de um j eito am igável e prático, com o se eu fosse um a estranha que o parou na rua para pedir inform ação. E eu concordo com a cabeça, com o se fosse o tipo de pessoa que de fato pegasse o m etrô sozinha, de dia ou de noite.
Ele está estranham ente form al ao abrir a porta do hall de entrada do prédio para m im , com o se estivesse levando o cachorro para fazer o xixi da noite. É tarde, o início da noite de um longo crepúsculo de verão, e a Paris na qual entro parece m uito diferente daquela da qual saí m eia hora atrás, apesar de, m ais um a vez, eu saber que não é por causa da chuva ou de todas as luzes que se acenderam . Algo m udou. Ou talvez eu tenha voltado a ser o que era. Ou talvez, para com eçar, nada j am ais tenha m udado e eu só estivesse m e enganando.
Mesm o assim , ver esta nova Paris m e traz lágrim as aos olhos, transform ando todas as luzes num a grande cicatriz verm elha. Lim po o rosto com m eu cardigã ensopado, m eu relógio devolvido ainda na m inha m ão. Por algum m otivo, não suporto a ideia de colocá-lo de volta no pulso. Parece que ele vai m e m achucar, m uito m ais do que o corte no m eu pescoço. Tento cam inhar à frente de Willem , para deixar um espaço entre nós.
— Lulu — ele m e cham a.
Não respondo. Aquela não sou eu. Nunca foi.
Ele aperta o passo para m e alcançar.
— Acho que a Gare du Nord é para lá.
Ele m e leva pelo cotovelo, e eu m e protej o contra a atração, m as, assim com o ficar tenso ao receber um a inj eção de um m édico, aquilo só piora as coisas.
— Só m e diga com o chegar lá.
— Acho que tem que seguir esta rua alguns quarteirões e depois virar à esquerda. Mas antes precisam os ir até a boate de Céline.
Certo. Céline. Ele está agindo de um j eito tão norm al agora, não norm al com o Willem , m as norm al com parado a com o estava vinte m inutos atrás, sem m edo nos olhos, agora substituído por algum tipo de alívio. O alívio de se livrar de m im . Eu m e pergunto se o plano sem pre foi esse. Me deixar e dar m eia-volta até Céline para o turno da noite. Ou talvez sej a a outra garota, aquela cuj o núm ero está guardado confortavelm ente no bolso da calça dele. Com tantas opções, por que ele m e escolheria?
Você é uma boa garota. Isso foi o que o m eu paquera, Shane Michaels, m e disse quando cheguei o m ais próxim o possível de adm itir m eus sentim entos por ele. Você é uma boa garota. Esta sou eu. Sem pre achei que aquilo significasse algum a coisa. E então ele desapareceu com outra garota e fez coisas que realm ente tinham significado.
Seguim os por um grande bulevar em direção à estação, m as, depois de alguns quarteirões, entram os de volta às ruas m enores. Eu procuro a boate, m as este não é um bairro industrial. É residencial, cheio de prédios de apartam entos, as caixinhas de flores nos absorvendo a chuva, os gatos gordos tirando um a soneca gostosa do lado de dentro das vidraças. Há um restaurante na esquina, as j anelas em baçadas brilhando. Mesm o do outro lado da rua, consigo ouvir o som das risadas e dos talheres batendo nos pratos. Pessoas secas e aquecidas apreciando um j antar em um a quinta-feira à noite em Paris.
A chuva está caindo m ais forte agora. A água do m eu suéter chega até m inha cam iseta. Puxo as m angas por cim a dos punhos. Meus dentes com eçam a bater; prendo a m andíbula para evitar dem onstrar, m as aquilo sim plesm ente desvia o trem or para o restante do corpo. Tiro o lenço do pescoço. O sangram ento parou, m as m eu pescoço agora está suj o de sangue e suor.
Willem olha para m im com desânim o, ou talvez repulsa.
— Precisam os lim par você.
— Tenho roupas lim pas na m inha m ala.
Willem dá um a olhada no m eu pescoço e faz um a careta. Então pega m eu cotovelo, atravessa a rua e abre a porta do restaurante. Lá dentro, luzes de vela trem eluzem , ilum inando garrafas de vinho enfileiradas num bar de zinco e os m enus escritos num a lousa. Paro na passagem da porta. Não pertencem os a este lugar.
— Podem os lim par seu corte aqui. Vou ver se eles têm um kit de em ergência.
— Faço isso no trem . — Minha m ãe colocou um kit de prim eiros socorros na m ala, obviam ente.
Ficam os ali, um na frente do outro. Um garçom aparece. Im aginei que fosse ficar bravo por term os deixado entrar o ar frio, ou por parecerm os m altrapilhos suj os e ensanguentados. No entanto, ele se apressa em m e puxar para dentro, com o se fosse o anfitrião de um a festa, e eu, a convidada de honra. Exam ina, de longe, o m eu pescoço, e seus olhos se arregalam . Willem diz algo em francês, e ele concorda prontam ente, indicando um a m esa no canto.
O restaurante está quente, o ar cheirando forte a cebola e baunilha e eu estou cansada dem ais para resistir. Jogo-m e num a cadeira, cobrindo o corte com um a m ão. Minha outra m ão relaxa e solta m eu relógio sobre a toalha de m esa branca, fazendo um tique-taque m alevolente.
O garçom volta com um a caixinha branca de prim eiros socorros e um cardápio de lousa. Willem abre o kit e tira um a gaze um edecida com rem édio, m as eu a arranco da m ão dele.
— Eu posso fazer isso sozinha! — declaro.
Passo pom ada no m achucado e o cubro com um curativo enorm e. O garçom volta para olhar m eu trabalho. Ele balança a cabeça em aprovação. Então diz algo para m im em francês.
— Ele está perguntando se você quer pendurar seu suéter na cozinha para secar — traduz Willem .
Tenho que lutar contra a vontade de m ergulhar m eu rosto no avental longo, branco e im pecável dele e chorar de gratidão pela sua bondade. Em vez disso, entrego m eu suéter ensopado. Por baixo, m inha cam iseta m olhada gruda em m im ; há m anchas de sangue na gola. Tenho a cam iseta que Céline m e deu, a m esm a cam iseta obscura da banda legal-dem ais-pra-escola que Willem está usando, m as prefiro desfilar de sutiã a vesti-la. Willem diz algo m ais em francês, e, m inutos depois, um a grande garrafa de vinho tinto é colocada sobre nossa m esa.
— Achei que você tivesse que pegar o trem .
— Tenho tem po para com er um a coisinha. — Willem serve um copo de vinho e o entrega a m im .
Tecnicam ente, tenho idade para beber em toda a Europa, m as não bebi nem m esm o quando, em alguns alm oços pré-pagos, o vinho foi oferecido com o parte da refeição e algum as pessoas roubaram copos quando a Sra. Foley não estava olhando. Esta noite eu não hesito. O vinho reluz nuances de sangue sob a luz da vela, e bebê-lo é com o receber um a transfusão. A m ornidão vai da m inha garganta ao m eu estôm ago antes de com eçar a ter efeito sobre o frio que tom ou conta dos m eus ossos. Bebo m etade do copo num só gole.
— Vá com calm a — avisa Willem .
Engulo o restante e m ostro o copo com o se fosse o dedo do m eio. Willem m e observa por um segundo, depois enche o copo até a borda.
O garçom volta e faz um a apresentação form al, nos entregando o cardápio de lousa e um a cesta de pão com um a travessinha prateada.
— Et pour vous, le pâté.
— Obrigada — digo. — Quer dizer, merci.
Ele sorri.
— De rien.
Willem corta um pedaço de pão, espalha a pasta m arrom por cim a e o oferece a m im . Eu apenas olho fixam ente para ele.
— Melhor do que Nutella — ele brinca, com um a voz quase cantante.
Talvez sej a o vinho ou a perspectiva de se livrar de m im , m as Willem , o Willem que eu vi hoj e durante o dia inteiro, está de volta. E, por algum a razão, isso m e deixa furiosa.
— Não estou com fom e — digo, em bora estej a fam inta. Não com i nada desde aquele crepe. — E isso parece com ida de cachorro — acrescento, com bons m odos.
— Apenas experim ente.
Ele segura o pão com patê na altura da m inha boca. Arranco das m ãos dele, dou um a m ordidinha. O sabor é ao m esm o tem po delicado e intenso, com o m anteiga de carne. Mas eu m e recuso a lhe dar a satisfação de m e ver gostando daquilo. Dou um a m ordidinha e faço um a careta. Em seguida, em purro a m ão dele para baixo.
O garçom volta, vê nossa garrafa de vinho quase vazia e aponta para ela. Willem balança a cabeça. O hom em volta com um a cheia.
— O linguado está… est finis — diz ele em inglês, apagando a opção da lousa. Olha para m im . — Você está com frio e perdeu sangue. Recom endo algum a coisa com force. — Ele fecha o punho. — O bife bourguignon está excelente. Tam bém tem os o pot au feu, caçarola de peixe.
— Continue trazendo — digo, apontando para o vinho.
O garçom franze levem ente o cenho e olha para m im , depois para Willem , com o se eu estivesse, de algum m odo, sob a responsabilidade dos dois.
— De entrada, sugiro um a salada com aspargos e salm ão grelhado.
Meu estôm ago traidor se contorce. Willem concorda, então faz o pedido para nós dois, os dois pratos que o garçom recom endou. Ele nem se dá ao trabalho de m e perguntar o que eu quero. E não há problem a nenhum , pois neste m om ento tudo o que eu quero é vinho. Estico a m ão para outro copo, m as Willem cobre a boca da garrafa.
— Prim eiro precisa com er algum a coisa — diz ele. — O patê é de pato, não de porco.
— E daí? — Enfio um pedaço inteiro de baguete com patê na boca, m astigando barulhenta e desafiadoram ente, escondendo qualquer tipo de satisfação que estej a realm ente sentindo. Então estico a m ão com o copo.
Willem m e olha dem oradam ente. Então, faz o favor de encher o copo novam ente e m e dá aquele m eio sorriso dem orado. Em apenas um dia passei a am ar aquele sorriso. E agora quero acabar com ele.
Sentam os em silêncio até o garçom voltar trazendo a salada com um a m esura apropriada ao lindo prato: um a natureza-m orta de salm ão cor-de-rosa, aspargos verdes, m olho de m ostarda am arelo e pontinhos de torradas espalhados ao redor do prato, com o flores. Minha boca se enche de água, e é com o se m eu corpo estivesse acenando com a bandeira branca, m e dizendo para desistir, desistir enquanto estou ganhando, aceitar o dia agradável que tive e que, na verdade, é m uito m ais do que eu tinha o direito de desej ar. Mas há outra parte de m im que ainda está fam inta, fam inta não só por com ida, m as por tudo o que m e foi apresentado hoj e. Em nom e dessa garota fam inta, eu recuso a salada.
— Você ainda está brava — diz ele. — Não foi tão ruim quanto eu pensei. Nem vai ficar cicatriz.
Sim , vai ficar. Mesm o que sare na sem ana que vem , vai ficar um a cicatriz, ainda que não da m aneira com o ele está falando.
— Você acha que eu estou brava por causa disto? — Toco o curativo no m eu pescoço.
Ele não olha para m im . Sabe m uito bem que não estou brava por causa daquilo.
— Vam os apenas com er algum a coisa, está bem ?
— Você está m e m andando de volta. Faça o que tem que fazer, m as não m e peça para ficar feliz com isso.
Sobre a luz sibilante da vela, vej o as expressões passarem pelo rosto dele com o nuvens: surpresa, encantam ento, frustração e carinho — ou talvez sej a pena.
— Você iria em bora am anhã, então que diferença faz? — Ele tira algum as m igalhas de pão de cim a da toalha.
A diferença, Willem ? A diferença é a noite.
— Tanto faz. — É m inha resposta brilhante.
— Tanto faz? — pergunta Willem . Ele passa o dedo pela borda do copo, faz um som abafado, com o um a buzina de neblina. — Você pensou no que poderia acontecer?
É tudo em que tenho pensado, e tudo em que tenho tentado não pensar: o que aconteceria hoj e à noite.
Mas, de novo, não o entendo direito.
— Você pensou no que poderia ter acontecido se eles tivessem nos pegado? — continua.
Eu senti o que eles queriam fazer com ele. Sentir o gosto da violência em m inha própria boca.
— Foi por isso que j oguei o livro neles; eles queriam m achucar você — explico. — O que você disse a eles para ficarem tão bravos?
— Eles j á estavam bravos — diz ele, fugindo da m inha pergunta. — Eu só lhes dei um a razão diferente.
No entanto, pela resposta e pela expressão do seu rosto, posso dizer que não estou errada. Eles iam m achucá-lo. O que eu senti, pelo m enos, foi real.
— Consegue im aginar se eles nos pegassem ? Você? — A voz de Willem está tão baixa que tenho que m e inclinar para ouvi-lo. — Vej a o que eles fizeram . — Ele estica o braço para tocar m eu pescoço, então o puxa de volta.
Na adrenalina da perseguição e na estranha euforia que seguiu, não pensei neles me pegando. Talvez por não parecer possível. Tínham os asas nos pés; eles tinham botas pesadas. Mas agora, aqui com Willem sentado à m inha frente, estam pando sua expressão estranha e som bria, com seu lenço ensanguentado am assado num a bola do lado da m esa, consigo ouvir aquelas botas chegando m ais perto, consigo ouvi-las batendo, consigo ouvir ossos se quebrando.
— Mas eles não nos pegaram . — Engulo o trem or na m inha voz com outro gole de vinho.
Ele term ina o vinho e olha fixam ente para o copo vazio por um m om ento.
— Não foi para isso que eu trouxe você aqui.
— Para que você m e trouxe aqui? — Ele nunca respondeu a essa pergunta. Nunca disse por que m e convidou para vir a Paris com ele por um dia.
Willem esfrega os olhos com as costas das m ãos. Ao tirar as m ãos, ele, de algum m odo, parece diferente. Com pletam ente livre de todas as m áscaras.
— Não para as coisas saírem de controle.
— Bem , é tarde dem ais para isso. — Estou tentando ser sarcástica, inteligente, j untar todos os sedim entos de Lulu que ainda m e restam . Porém , ao falar, a verdade daquilo m e dá um soco no estôm ago. Nós, ou pelo m enos eu, há m uito tem po j á passam os do ponto de não ter m ais volta.
Olho de novo para ele. Seus olhos estão presos aos m eus. A corrente elétrica está de volta.
— Acho que é — concorda Willem .