Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 22 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 21

21

fevereiro

Faculdade

 

Durante as prim eiras sem anas de aula, Dee e eu tentam os nos encontrar na biblioteca, m as as pessoas nos olharam feio, especialm ente quando Dee com eçou a fazer suas vozes. E ele tinha m uitas vozes: sotaque inglês solene quando fazia Henrique; sotaque irlandês esquisito — o j eito dele de fazer o sotaque galês, acho — com o Fluellen; sotaque francês exagerado quando faz personagens franceses. Não ligo para sotaques. Para m im , pronunciar as palavras corretam ente j á é suficiente.

Depois de levarm os m uitas broncas na biblioteca, m udam os para o centro acadêm ico, m as Dee não conseguia m e ouvir com todo aquele barulho. Ele proj etava a voz tão bem que se poderia pensar que fosse um aluno de graduação de teatro ou algo parecido. Mas acho que ele estuda história ou ciência política. Não que ele tenha m e dito isso; não conversam os sobre nada além de nossa leitura. Mas j á dei um a olhada nos livros dele, e são todos sobre história do m ovim ento trabalhista ou tratados sobre o governo.

Assim , um pouco antes de com eçarm os a ler nossa segunda peça, Conto de Inverno, sugiro m udarm os para o m eu quarto, onde é geralm ente silencioso durante as tardes. Dee m e lança um olhar desconfiado, m as concorda. Digo a ele para vir depois das quatro.

Naquela tarde, coloco um prato com os biscoitos que vovó não para de m e m andar, m as esta é a prim eira vez que recebo alguém em m eu quarto; não tenho certeza se o que estou fazendo se qualifica com o entretenim ento ou se Dee é m esm o um a com panhia.

Quando Dee vê os biscoitos, m e dá um sorrisinho engraçado. Então tira o casaco e o pendura no closet, apesar de o m eu estar j ogado sobre um a cadeira. Ele tira as botas. Então dá um a olhada no m eu quarto.

— Você tem relógio? Meu telefone está sem bateria.

Eu m e levanto e m ostro a ele um a caixa de despertadores, que coloquei de volta no closet.

— Pode escolher.

Ele dem ora bastante tem po para escolher e finalm ente opta por um de m ogno art déco dos anos quarenta. Eu o ensino a dar corda. Ele m e pergunta com o se faz para program ar o despertador, e eu lhe m ostro. Então o program a para as cinco e m eia, explicando que tem que estar no trabalho no refeitório às seis. A leitura geralm ente não leva m ais que m eia hora, então não tenho certeza de por que ele está program ando o despertador. Mas não digo nada. Sobre aquilo. Ou sobre o em prego dele, apesar de estar curiosa.

Ele se senta na cadeira da escrivaninha. Eu m e sento na cam a. Ele pega um tubo de ensaio com m oscas-das-frutas da escrivaninha e o exam ina com um a expressão levem ente surpresa.

— São drosófilas — explico. — Estou cultivando para a aula.

Ele balança a cabeça.

— Se ficar sem , pode ir buscar m ais na cozinha da m inha m ãe.

Quero perguntar a ele onde é a cozinha. De onde ele é. Mas ele parece cauteloso. Ou talvez sej a eu. Talvez fazer am igos sej a um a habilidade especial, e eu tenha faltado a essa aula.

— Ok, hora de trabalhar. Vej o vocês m ais tarde, m inhas “dropisilas” — diz ele aos insetos. Eu não corrij o a pronúncia dele.

Lem os um a cena excelente no início de Conto de Inverno, quando Leontes enlouquece e acha que Herm ione o está traindo. Quando chegam os ao final, Dee guarda seu livro, e acho que ele vai em bora, m as, em vez disso, ele puxa um livro de alguém cham ado Marcuse. Me lança um olhar m uito rápido.

— Vou fazer m ais chá — digo.

Estudam os j untos em silêncio. É gostoso. Às cinco e m eia, o alarm e com eça a tocar, e Dee guarda tudo para ir trabalhar.

— Quarta-feira? — pergunta.

— Com certeza.

Dois dias depois, passam os pela m esm a rotina, biscoito, chá, olá para as “dropisilas”, Shakespeare declam ado e estudo em silêncio. Não conversam os. Apenas trabalham os. Na sexta-feira, Kali entra no quarto. É a prim eira vez que ela vê Dee, que vê qualquer um no quarto com igo, então olha para ele dem oradam ente. Eu apresento os dois.

— Oi, Dee. Prazer em conhecê-lo — diz ela, com um a voz estranham ente charm osa.

— Ah, o prazer é todo m eu — responde ele, a voz exageradam ente anim ada.

Kali olha para ele e sorri. Em seguida, vai até o closet e tira um casaco de cam urça e um par de botas m arrom -am areladas.

— Dee, posso lhe perguntar um a coisa? O que acha destas botas com esta j aqueta? Muito “com binadinho”?

Olho para Dee. Ele está usando um a calça de m oletom azul-celeste e um a cam iseta com letras brilhantes form ando EU ACREDITO. Não tenho certeza de com o pode parecer “especialista em m oda” para Kali.

Mas Dee m ergulha de cabeça.

— Ah, garota, essas botas são legais. Talvez eu tenha que roubá-las de você.

Olho para ele, m eio chocada. Quer dizer, achei que Dee fosse gay, m as nunca antes o ouvi falar tão cheio de trej eitos.

— Ah, não, não vai, não — responde Kali, a estranha m ania dela com as palavras quebradas agora se m isturando a algum a tendência patricinha. — Elas custaram , tipo, quatrocentos dólares. Pode pegar em prestadas.

— Ah, você é um a bonequinha. Mas tem pés de Cinderela, e o Deezinho aqui é com o um a das irm ãs de Cinderela.

Kali ri, e eles continuam assim por algum tem po, falando de m oda. Me sinto um pouco m al. Acho que nunca percebi que Dee fosse tão interessado nesse tipo de coisa. Kali percebeu logo de cara. É com o se ela tivesse algum tipo de radar, que diz com o perceber as coisas nas pessoas, com o fazer am igos. Eu, sinceram ente, não ligo para m oda, m as, esta noite, quando o despertador toca e Dee pega as coisas para ir em bora, m ostro a ele a últim a saia que m inha m ãe m e m andou e pergunto se acha m uito arrum adinha. No entanto, ele m al olha para ela.

— É legal.

Depois daquilo, Kali com eça a aparecer m ais vezes, e ela e Dee fazem todo um Project Runway, e Dee sem pre m uda para aquela voz. Eu acho que aquilo é apenas um a coisa de m oda. Mas então, alguns dias depois, quando estam os saindo, Kendra entra e eu os apresento. Kendra olha Dee de cim a a baixo, do j eito que faz com as pessoas, estam pa no rosto seu sorriso de aerom oça e pergunta de onde ele é.

— Nova York — ele responde.

Eu anoto. Conheço-o há quase três sem anas e estou acabando de saber o básico.

— De onde em Nova York?

— Da cidade.

— Onde?

— Do Bronx.

O sorriso de aerom oça desaparece, substituído por um a linha cerrada que parece que foi desenhada.

— Ah, tipo o sul do Bronx? Bem , deve estar m uito feliz por estar vivendo aqui.

Agora é Dee quem dá o troco a Kendra. Estão se olhando com o cães, e m e pergunto se é por serem am bos negros. Então, ele m uda para um a voz diferente daquela que usa com Kali ou com igo.

— Você é do sul do Bronx?

Kendra se encolhe um pouco.

— Não! Sou de Washington!

— Tipo, onde tem aquela chuva e a m erda toda?

Chuva e merda?

— Não, não o Estado, o Distrito de Colúm bia.

— Ah. Tenho alguns prim os em Washington. Perto de Anacostia. Puta m erda, aqueles proj etos habitacionais noj entos. Piores até que dos de onde eu venho. Tem tiroteio na escola dele toda m aldita sem ana.

Kendra parece horrorizada.

— Nunca estive em Anacostia. Moro em Georgetown. E estudei em Sidwell Friends, onde as filhas do Obam a estudam .

— Eu estudei na Escola Secundária do Sul do Bronx. A pior escola dos Estados Unidos. Já ouviu falar dela?

— Não, infelizm ente nunca ouvi falar. — Ela m e dá um a olhada rápida. — Bem , tenho que ir. Vou m e encontrar com Jeb daqui a pouco. — Jeb é o novo nam orado dela.

— Vej o você m ais tarde, am iga — diz Dee enquanto Kendra desaparece para dentro do quarto. Quando pega a m ochila para ir em bora, ele está m orrendo de rir.

Resolvo acom panhá-lo até o refeitório, talvez com er por ali para m udar um pouco de ares. Com er sozinha é horrível, e há um lim ite para o núm ero de burritos de m icro-ondas que um a garota consegue engolir. Quando chegam os em baixo, pergunto a ele se realm ente frequentou a Escola Secundária do Sul do Bronx.

Ao voltar a falar, ele soa com o Dee. Ou o Dee que eu conheço.

— Acho que nem existe um a Escola Secundária do Sul do Bronx. Frequentei um a escola pública independente. Depois fiz um curso intensivo para os exam es preparatórios (coisas de bolsas de estudo) num a escola particular que é até m ais cara que Sidwell Friends. Engula isso, Senhorita Thang.

— Por que sim plesm ente não contou a ela que escola frequentou?

Ele m e olha e, voltando à voz que usou com Kendra, diz:

— Se as suas am igas querem m e ver com o um lixo do gueto — ele para e m uda para sua voz sibilante e arrogante — ou com o um a bicha de bunda grande — agora ele m uda para a voz m ais grave de Shakespeare —, não cabe a m im desm enti-las.

Ao chegarm os ao refeitório, sinto com o se precisasse dizer algo a ele. Mas não tenho certeza do quê. Por fim , apenas pergunto se da próxim a vez ele prefere biscoitos de chocolate ou de m anteiga. Vovó m e m andou os dois.

— Eu trarei os biscoitos. Minha m ãe m andou alguns de m elaço e gengibre feitos em casa.

— Que legal.

— Nada de legal nisso. É um convite para um duelo. Ela não quer ser desbancada pela avó de ninguém .

Eu rio. É um som estranho, com o o da partida de um carro velho depois de um longo tem po na garagem .

— Não contarem os isso à m inha avó. Se ela aceitar o desafio e assar seus próprios biscoitos, talvez tenham os intoxicação alim entar. Ela é a pior cozinheira do m undo.

 

Assim , aquilo vira um a rotina. Todas as segundas, quartas e sextas: biscoitos, chá, despertador, Shakespeare, estudo. Ainda não conversam os m uito sobre nós m esm os, m as pequenas coisas vão escapando. A m ãe dele trabalha num hospital. Ele não tem irm ãs ou irm ãos, m as tem um zilhão de prim os. Tem bolsa de estudo integral. Tem um a queda enorm e pelo professor Glenny. Está se graduando ao m esm o tem po em história e literatura, e talvez num curso técnico em ciências políticas. Ele cantarola quando está de saco cheio, e, quando está realm ente envolvido na leitura, torce o cabelo bem apertado em volta do dedo indicador, até ele ficar cor-de-rosa. E, exatam ente com o eu suspeitei naquele prim eiro dia de aula, ele é inteligente. Isso ele não m e diz, m as é óbvio. Ele é o único da classe inteira a tirar um A na prim eira redação do professor Glenny sobre Henrique V; o professor Glenny anuncia para a classe e lê em voz alta trechinhos da redação de Dee com o exem plo do que o restante de nós deveria alm ej ar. Dee parece aterrorizado, e eu m e sinto m eio m al, m as os puxa-sacos de Glenny olham Dee com um a invej a tão descarada que quase vale a pena. Eu, de m inha parte, recebo um sólido B por m inha redação sobre Perdita e outros tem as sobre achados e perdidos.

Conto a Dee algum as coisinhas sobre m im , contudo, na m etade do tem po m e pego censurando o que quero dizer. Gosto dele. De verdade. Mas estou tentando cum prir m inha prom essa da folha em branco. Mesm o assim , m eio que desej o poder perguntar a opinião de Dee sobre Melanie. Mandei para ela a prim eira peça que fiz em m inha aula de cerâm ica, j untam ente com um bilhete dizendo que tinha m udado com pletam ente m inha carga horária. Mandei por correspondência rápida, m as um a sem ana se passou e não tive notícias. Então liguei para saber se ela tinha recebido a encom enda — era um a tigela feiosa, feita à m ão, m as tinha um a linda cam ada de verniz craquelado turquesa —, e ela se desculpou por não ter respondido, alegando estar ocupada.

Contei a ela sobre m inhas novas aulas e sobre os m alabarism os que estava fazendo para que m eus pais não descobrissem : não só lhes m andando testes de biologia com notas m elhores (m inhas sessões de estudo com Dee estão valendo a pena), m as tam bém enviando os testes do m eu antigo parceiro do laboratório de quím ica com m eu nom e neles. Achei que ela fosse rir m uito disso, m as sua voz perm aneceu inalterada, e ela m e avisou sobre o tipo de problem a em que estaria m etida se fosse descoberta — com o se eu j á não soubesse disso. Então m udei de assunto, contando tudo sobre o professor Glenny e Dee e declam ar e quanto im aginei ser horrível ler em frente à classe e com o todos fazem e não é tão ruim assim . Esperei que ela fosse ficar anim ada por m im , m as a voz dela perm aneceu inalterada, e eu m e peguei ficando m uito brava. Não nos falam os ou trocam os e-m ails durante algum as sem anas, e eu estou tanto chateada quanto aliviada por isso.

Tenho vontade de contar isso a Dee, m as não tenho certeza de com o fazê-lo. Tirando Melanie, nunca tive um am igo íntim o de verdade e não estou certa sobre com o é. É um a coisa boba, eu sei. Já vi outras pessoas fazerem isso. E fazem tudo parecer tão fácil: se divertir, se abrir, com partilhar histórias. Mas com o fazer isso quando a única história que realm ente quero contar é a que devo apagar? Além disso, a últim a vez que m e abri com alguém … bem , é exatam ente por isso que preciso da folha em branco, para com eçar. Sim plesm ente parece m ais seguro m anter as coisas assim — am igáveis, cordiais, agradáveis e sim ples.

 

Ao final de fevereiro m eus pais vêm para o fim de sem ana do Dia do Presidente. É a prim eira vez que eles m e visitam desde o fim de sem ana dos pais, e, tendo aprendido m inha lição, faço m alabarism os para m anter a im agem que eles esperam de m im . Coloco m eus relógios para fora das caixas. Sublinho páginas dos m eus livros de quím ica sem usar e copio fórm ulas do livro do m eu antigo parceiro de laboratório. Faço m uitos planos para nós em Boston, para nos m anter longe do cam pus, longe das provas incrim inatórias e do Trio Fantástico (que agora se transform ou m ais na Dupla Dinâm ica, pois Kendra está sem pre com o nam orado). E inform o a Dee, com quem eu agora estudo às vezes nos fins de sem ana, que não estarei por lá e que não poderei m e encontrar com ele nem na sexta nem na segunda-feira.

— Você está m e trocando pelo Drew? — Drew é o segundo m elhor leitor de Shakespeare da classe.

— Não. Claro que não — respondo, m inha voz presa e assustada. — É que tenho um a daquelas viagens com m inha turm a de cerâm ica na sexta. — Isso não é totalm ente m entira. Minha turm a de cerâm ica faz algum as viagens de cam po de vez em quando. Estam os fazendo experim entações com vitrificação, usando tipos diferentes de m ateriais orgânicos na fornalha e, às vezes, até queim ando nossa cerâm ica do lado de fora em fornos de terra que construím os. Eu tenho viagens de cam po, só que não nas próxim as duas sem anas.

— E eu provavelm ente vou trabalhar num texto neste fim de sem ana. — Outra m entira; a única aula em que faço redações é na de Shakespeare. É surpreendente com o fiquei boa em m entir. — Vej o você na quarta-feira, ok? Trarei os biscoitos.

— Diga à sua avó para m andar m ais daqueles torcidos com sem entes de papoula.

— Rugelach.

— Não consigo falar. Só com er.

— Direi.

 

O fim de sem ana com m eus pais foi bem decente. Fom os ao Museu de Artes, ao Museu da Ciência. Fom os esquiar no gelo (não consigo m anter m inhas lâm inas em linha reta). Fom os ao cinem a. Tiram os m ilhares de fotos. Houve alguns m om entos estranhos quando m am ãe tirou um catálogo do ano seguinte e com eçou a passar os program as de aulas com igo e a m e perguntar sobre m eus planos para o verão, e eu sim plesm ente ouvi as sugestões dela com o sem pre faço e não disse nada. Ao térm ino do fim de sem ana, m e senti absolutam ente sem energia, do m esm o m odo que m e sinto depois de um a m aratona de leitura de Shakespeare e de tentar ser todas aquelas pessoas diferentes.

No dom ingo à tarde, estam os de volta ao dorm itório, antes do j antar, quando Dee aparece. Apesar de eu não ter dito um a só palavra sobre m inha fam ília, nem m esm o que eles vinham , quanto m ais o que eles sabiam sobre m im , ele aparece usando um a calça j eans norm al e um suéter, algo que nunca o vi vestir antes. Seu cabelo está puxado para trás dentro de um boné, e ele não está usando batom . Quase não o reconheço.

— Então, com o vocês dois se conheceram ? — pergunta m am ãe depois de eu apresentá-los com nervosism o.

Eu congelo, em pânico.

— Som os parceiros do laboratório de biologia. — diz Dee, sem pestanej ar. — Estam os criando as drosófilas j untos. — É a prim eira vez que o vej o pronunciar a palavra corretam ente. Ele pega o tubo. — Criando todo tipo de anorm alidade genética aqui.

Meu pai ri.

— Nos m andaram fazer a m esm a experiência quando eu estava aqui. — Ele olha para Dee. — Tam bém é candidato à escola de m edicina?

As sobrancelhas de Dee se levantam , um a pequena ruga de surpresa.

— Ainda não m e decidi.

— Bem , não há pressa — diz m am ãe. O que quase m e faz rir alto.

Papai se volta para colocar o tubo de volta perto de um cilindro de cerâm ica que m e esqueci de esconder.

— O que é isto?

— Ah, eu fiz isso — fala Dee, pegando a peça. E então com eça a explicar que está fazendo as aulas de cerâm ica e que neste ano estão fazendo experim entos com tipos diferentes de vitrificação e m étodos de queim a; para essas peças, queim aram tudo num a fornalha de barro alim entada por restos de vaca.

— Restos de vaca? — pergunta m am ãe. — Quer dizer… fezes?

Dee concorda.

— Sim . Fom os a fazendas locais e perguntam os se podíam os coletar o estrum e das vacas. Sinceram ente, não cheira tão m al assim . São vacas que se alim entam de gram a.

E então percebo que Dee está usando outra voz, m as, desta vez, a pessoa a quem está enganando sou eu. Eu lhe contei tudo sobre as fezes de vaca, o cheiro de terra, a coleta das fazendas, apesar de que, enquanto eu contava, ele estava se m atando de rir ao pensar em nós, crianças ricas em nossa escola de 40 m il dólares por ano, pagando por um a aula na qual íam os a fazendas e coletávam os bosta de vaca. Pelo visto, contei m ais a Dee sobre m im m esm a do que pude perceber. E ele ouviu. Prestou atenção, absorveu um pouco de m im . E agora está salvando a m inha pele com isso.

— Fezes de vaca. Que fascinante — diz m inha m ãe.

 

No dia seguinte, m eus pais vão em bora e, na quarta-feira, nossa aula de Shakespeare com eça com Noite de Reis. Dee pegou duas versões diferentes do centro de m ídia para assistirm os. Ele considera isso um a penitência por não term os feito nossa lição de casa; deveríam os pelo m enos assistir a algum as versões. Ele m e passa a versão do teatro enquanto ligo m eu laptop.

— Obrigada por pegá-las — digo. — Eu ia fazer isso.

— Eu j á estava no centro de m ídia.

— Bem , obrigada. E tam bém obrigada por ter sido absolutam ente fantástico com m eus pais. — Pauso por um segundo, m ais do que envergonhada. — Com o sabia que eles viriam ?

— Minha am iga Kali. Ela m e conta. Ela m e conta tudo, porque som os melhores amigas. — Ele sem icerra os olhos. — Vê? Não tinha necessidade de esconder a Senhorita Dee do pessoal. Me saí bem .

— Ah, certo. Sinto m uito por isso.

Dee olha fixam ente para m im , esperando m ais.

— De verdade. São só m eus pais. Há m uita… bem , é com plicado.

— Não é tão com plicado. Entendo perfeitam ente. Tudo bem desprezar Dee, m as não gastar os cobres com ele.

— Não! Você entendeu errado! — exclam o. — Não estou desprezando. Gosto m esm o de você.

Ele cruza os braços e m e encara.

— Com o foi sua viagem de cam po? — ele pergunta acidam ente.

Quero explicar, de verdade. Mas com o? Com o faço isso sem m e entregar? Porque estou tentando. Estou tentando ser um a nova pessoa aqui, um a pessoa diferente, folha em branco. Mas, se explicar sobre m eus pais, sobre Melanie, sobre Willem , se m ostrar quem eu realm ente sou, será que não estarei presa de volta onde com ecei?

— Desculpe por ter m entido. Juro que não tem nada a ver com você. Não posso dizer o quanto estou agradecida pelo que fez.

— Não foi grande coisa.

— Não, de verdade. Você foi m aravilhoso. Meus pais adoraram você. E você foi tão sutil com tudo. Eles não suspeitaram de nada.

Ele saca o batom do bolso e, com um a precisão cirúrgica, aplica-o prim eiro no lábio de cim a, depois no de baixo. Então gruda um no outro, barulhento, com o em tom de censura.

— O que há para suspeitar? Não sei de nada sobre ninguém . Sou só o aj udante.

Quero consertar as coisas. Para que ele saiba que gosto dele. Que não sinto vergonha dele. Que está seguro com igo.

— Sabe — com eço —, não precisa fazer isso com igo. As vozes. Pode sim plesm ente ser você m esm o.

Eu quis dizer aquilo com o um elogio, assim ele saberá que gosto dele com o é. No entanto, Dee não entende dessa form a. Ele franze os lábios e balança a cabeça.

— Este sou eu, querida. Todos os m eus eus. Sou cada um deles. Sei quem estou fingindo ser e quem eu sou. — O olhar que m e lança é seco. — Você sabe?

Eu, de propósito, tentei m anter tudo aquilo escondido dele, m as Dee — esperto e perspicaz — descobriu. Estou tão envergonhada que nem sei o que dizer. Mom entos depois, ele coloca Noite de Reis no m eu com putador. Assistim os a tudo em silêncio, sem vozes, sem com entários, sem risadas, apenas quatro olhos olhando fixam ente para a tela. E é assim que eu descubro que “pisei na bola” com Dee.

Fico tão triste com isso que m e esqueço de ficar chateada com Willem .