Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 36 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 35

35

 

Ana Lucia Aureliano. Esse é o nom e dela. A nam orada de Willem . Ela frequenta algum a faculdade especial ligada à Universidade de Utrecht.

Durante todo o tem po em que estive procurando, nunca m e im aginei chegando a este ponto. Assim , nunca m e im aginei encontrando-o de verdade. E, ainda que o im aginasse tendo m uitas garotas, nunca pensei nele com um a só. O que, em retrospecto, parece absolutam ente ridículo.

Não que eu tenha vindo aqui para ficarm os j untos de novo. Não que haj a algo para o que voltar. Mas chegar tão perto e desistir m e causaria arrependim ento para o resto da vida.

Ironicam ente, são as palavras de Céline que finalm ente m e convencem a ir atrás da nam orada: Precisará de coragem.

Saskia m e explicou que o cam pus da universidade é pequeno e independente, diferente da Universidade de Utrecht, que se espalha pelo centro da cidade. Fica no subúrbio, e, ao m e dirigir até lá num a bicicleta cor-de-rosa que Saskia insistiu em m e em prestar, pratico o que vou dizer se encontrá-la. Ou encontrá-lo.

A escola tem alguns poucos alunos, e todos m oram no cam pus; é tam bém um a escola internacional, que atrai estudantes de todas as partes do m undo, com todas as aulas sendo m inistradas em inglês. O que significa que preciso perguntar a apenas duas pessoas sobre Ana Lucia para descobrir onde é o dorm itório dela.

Um dorm itório que parece m ais um showroom da Ikea do que um a m oradia de faculdade. Dou um a espiada para dentro da porta de vidro de correr; toda a m obília é de m adeira elegante e m oderna, um m ilhão de m ilhas de distância da porcaria industrial do quarto que divido com Kali. As luzes estão apagadas, e, quando bato à porta, ninguém responde. Há um pedaço de cim ento do lado de fora da porta com algum as alm ofadas bordadas, então eu m e sento e espero.

Devo ter pegado no sono, pois acordo caindo para trás. Alguém abriu a porta atrás de m im . Ergo os olhos. A garota — Ana Lucia, presum o — é bonita, com cabelos castanhos com pridos e ondulados e lábios rosados, acentuados pelo batom verm elho. Entre ela e Céline, eu deveria m e sentir lisonj eada por estar em tal com panhia, m as não é isso que estou sentindo neste m om ento.

— Posso aj udá-la? — pergunta ela, m e olhando de cim a a baixo, daquele j eito que se olha para um vagabundo encontrado dorm indo na varanda.

O sol saiu de trás das nuvens e reflete na j anela de vidro, criando um a claridade. Cubro os olhos com as m ãos e m e ergo.

— Desculpe. Devo ter pegado no sono. Estou procurando Ana Lucia Aureliano.

— Eu sou Ana Lucia — confirm a ela, enfatizando a pronúncia correta com a força da sua língua espanhola apoiada nos dentes: Ana Lu-ci-a. Ela sem icerra os olhos, m e analisando. — Já nos conhecem os?

— Ah, não. Sou Ally son Healey. Eu… m e desculpe. Sou dos Estados Unidos e estou tentando encontrar alguém .

— Este é seu prim eiro sem estre aqui? Há um diretório de estudantes na internet.

— O quê? Ah, não. Eu não estudo aqui. Estudo em Boston.

— Quem está procurando?

Quase não quero dizer o nom e dele. Poderia inventar um nom e, e ela nunca descobriria. Não teria que ouvi-la m e perguntar naquele sotaque adorável por que eu quero saber onde está o nam orado dela. Mas, então, eu iria para casa e teria vindo até aqui e nunca saberia. Então, digo o nom e.

— Willem de Ruiter.

Ela m e olha por um longo m om ento, e seu lindo rosto se contrai, seus lábios pintados se abrem . E então daqueles lábios sai um a enxurrada do que presum o serem inj úrias. Não tenho certeza. Está em espanhol. No entanto, ela está abanando os braços e falando um m onte por m inuto, e seu rosto está verm elho. Vate! Déjame, puta! E ela m e pega pelos om bros e m e j oga para fora da varanda, com o um segurança que expulsa um bêbado. Ela j oga m inha m ochila atrás de m im , e tudo se esparram a. Em seguida bate a porta, tanto quanto se pode bater um a porta de vidro de correr. Tranca-a. E abaixa as cortinas.

Sento-m e por um m om ento, boquiaberta. Num transe, com eço a colocar m inhas coisas de volta dentro da m ochila. Exam ino m eu cotovelo, que tem um arranhão onde eu bati ao cair, e m eu braço, com as m arcas de m eia-lua das unhas dela.

— Você está bem ? — Ergo os olhos e vej o um a linda garota com cabelo rastafári que se aj oelha ao m eu lado e está m e passando m eus óculos de sol.

Eu balanço a cabeça.

— Precisa de gelo ou qualquer coisa? Tenho um pouco no m eu quarto. — Ela com eça a cam inhar de volta à varanda.

Toco m inha cabeça. Há um galo tam bém , m as nada sério.

— Acho que estou bem . Obrigada.

Ela olha para m im e balança a cabeça.

— Você não estava, por acaso, perguntando sobre Willem ?

— Você o conhece? — pergunto. — Conhece Willem ? — Vou até a varanda. Há um laptop e um livro largados lá. É um livro de física. Está aberto na seção de entrelaçam ento quântico.

— Já o vi por aqui. Este é só o m eu segundo ano, então não o conheci quando ele estudou aqui. Mas só um a pessoa deixa Ana Lucia m aluca desse j eito.

— Espere um pouco. Aqui? Ele fazia faculdade? Aqui? — Tentei conciliar o Willem que conheci, o ator itinerante e viaj ante, com um estudante de um a faculdade com honrarias, e, m ais um a vez, m e dou conta do pouco que conheço essa pessoa.

— Durante um ano. Antes de eu vir para cá. Ele estudava econom ia, acho.

— E o que aconteceu? — Quero dizer com a faculdade, m as ela com eça a m e contar sobre Ana Lucia. Que ela e Willem reataram no ano passado, m as então ela descobriu que, o tem po todo, ele a estava traindo com um a garota francesa. Ela é m uito casual sobre o assunto, com o se nada disso fosse m uita surpresa.

No entanto, m inha cabeça está rodando. Willem fazia faculdade aqui. Estudava econom ia. Assim , levo alguns m inutos para digerir a últim a parte. A parte de trair Ana Lucia com um a garota francesa.

— Um a garota francesa? — repito.

— É. Aparentem ente, Willem se encontraria com ela em algum lugar secreto na Espanha, eu acho. Ana Lucia o viu com prando passagens no com putador dela, e achou que estivesse planej ando levá-la de surpresa, pois ela tem parentes lá. Então ela cancelou as férias na Suíça e contou à fam ília sobre isso, e daí eles planej aram um a grande festa para, no final, descobrirem que as passagens não eram para ela. Eram para a garota francesa. Ela surtou, confrontou-o bem no m eio do cam pus; foi um a cena e tanto. Desde então ele não apareceu m ais, obviam ente. Tem certeza de que não precisa de gelo para sua cabeça?

Afundo na varanda ao lado dela. Céline? Ela alegou que não o via desde o ano passado. Mas ela disse m uitas coisas. Incluindo que nós duas éram os apenas portos que Willem visitava de vez em quando. Talvez houvesse m uitas de nós por aí. Um a garota francesa. Ou duas, ou três. Um a espanhola. Um a am ericana. Um a ONU de garotas acenando de seus portos. Penso nas palavras de despedida de Céline para m im , e agora elas parecem am eaçadoras.

Eu sem pre soube que Willem era um j ogador e que eu era um a entre m uitas. Mas agora tam bém sei que ele não m e abandonou naquele dia. Ele m e escreveu um bilhete. Ele tentou m e encontrar, por m ais indiferente que fosse.

Penso no que m inha m ãe disse. Sobre ser grata pelo que se tem em vez de desej ar aquilo que se im agina querer. Aqui, no cam pus por onde um dia ele cam inhou, acho que finalm ente entendo do que ela estava falando. Acho que finalm ente com preendo o verdadeiro significado de desistir quando se está ganhando.