Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 5 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 4

4

 

Paris

 

Os problem as surgem im ediatam ente. O lugar para guardar as m alas no subsolo da estação está fechado; os funcionários que trabalham nas m áquinas de raios X, pelas quais as m alas têm que passar antes de ir para o depósito, estão em greve. Consequentem ente, todos os arm ários autom áticos que com portam m inha m ala estão lotados. Willem diz que há outra estação não m uito longe dali que podem os tentar, m as, se os operadores de bagagem estiverem em greve, poderem os ter o m esm o problem a lá.

— Eu posso sim plesm ente puxá-la. Ou j ogá-la no Sena. — Estou brincando, apesar de haver algo tentador em abandonar todos os vestígios de Ally son.

— Tenho um a am iga que trabalha num a casa noturna não m uito longe daqui… — Ele enfia a m ão na m ochila e tira um caderninho de couro surrado. Estou prestes a fazer um a piada sobre aquele ser o pequeno livro negro dele, m as vej o todos os nom es, núm eros e endereços de e-m ail anotados ali, e ele acrescenta — Ela faz as reservas, então geralm ente está lá na parte da tarde.

Depois de encontrar o núm ero que estava procurando, Willem saca um celular antigo e pressiona a tecla “ligar” por alguns m inutos.

— Está sem bateria. O seu funciona?

Balanço a cabeça.

— Inútil na Europa. Exceto pela câm era.

— Podem os cam inhar. É perto daqui.

Voltam os até as escadas rolantes. Antes de passarm os pelas portas autom áticas, Willem se vira para m im :

— Está pronta para Paris?

Com todo o estresse de lidar com a bagagem , eu m eio que esqueci que o obj etivo de tudo isso era Paris. De repente, fico um pouco nervosa.

— Espero que sim — digo baixinho.

Saím os na frente da estação, no calor escaldante. Olho de lado, com o que m e preparando para um a decepção cega. A verdade é que, até agora neste tour, fiquei decepcionada com quase todos os lugares a que fom os. Talvez eu assista a film es dem ais. Em Rom a, queria m uito um a experiência do tipo Audrey Hepburn em A Princesa e o Plebeu, m as a Fontana di Trevi estava lotada, havia um McDonald’s ao pé da escadaria da Piazza di Spagna e as ruínas cheiravam a xixi de gato por causa dos m endigos. A m esm a coisa aconteceu em Praga, onde eu queria m uito um pouco da boem ia de A Insustentável Leveza do Ser. Mas não; não havia artistas fantásticos, nem caras que se parecessem rem otam ente com um j ovem Daniel Day -Lewis. Vi um tipo m eio m isterioso lendo Sartre num café, m as então seu celular tocou e ele com eçou a falar alto, com um forte sotaque texano.

E Londres. Melanie e eu nos perdem os com pletam ente no m etrô para poderm os visitar Notting Hill, m as tudo o que encontram os foi um a área sofisticada e cara, cheia de loj as de grife. Sem livrarias charm osas, sem grupos de am igos adoráveis com quem eu gostaria de sair para j antar. Parecia haver um a relação inversam ente proporcional entre o núm ero de film es que eu j á tinha visto sobre um a cidade e o nível de m inha decepção ao chegar lá. E eu j á vi m uitos film es sobre Paris.

A Paris que m e dá as boas-vindas do lado de fora da Gare du Nord não é a Paris dos film es. Não há nem a Torre Eiffel nem loj as de alta-costura por aqui. É apenas um a rua com um , com vários hotéis e casas de câm bio, repleta de táxis e ônibus.

Olho ao redor. Há filas e filas de antigos prédios cinza-am arronzados. São uniform es, parecendo se encaixar um no outro, as j anelas e as portas com pletam ente abertas, flores caindo para fora. Bem na frente da estação há dois cafés, na diagonal. Nenhum dos dois é sofisticado, m as am bos estão lotados, pessoas am ontoadas em volta de m esas de vidro redondas, em baixo do toldo e dos guarda-sóis. É ao m esm o tem po tão norm al e tão absolutam ente estrangeiro.

Willem e eu com eçam os a andar. Atravessam os a rua e passam os por um dos cafés. Há um a m ulher sentada sozinha a um a das m esas, tom ando vinho cor-de-rosa e fum ando um cigarro, um pequeno buldogue arfando ao lado de suas pernas. Quando passam os, o cachorro se levanta e com eça a cheirar em baixo de m inha saia, enrolando a m im e a ele na coleira.

A m ulher parece ter a idade de m inha m ãe, contudo está usando um a saia curta e sandálias anabela de salto alto que valorizam suas pernas bem torneadas. Ela repreende o cachorro e desenrosca a coleira. Eu m e abaixo para coçar atrás da orelha dele, e a m ulher diz algum a coisa em francês que faz Willem rir:

— O que ela disse? — pergunto, enquanto nos afastam os.

— Ela disse que o cachorro dela é com o um porco farej ador de trufas quando se trata de garotas bonitas.

— Verdade? — Sinto-m e ruborizar de prazer. O que é realm ente bobo, porque era um cachorro, e eu não sei m uito bem o que é um porco farej ador de trufas.

Willem e eu descem os por um quarteirão cheio de sex shops e agências de viagens, viram os um a esquina que dá num bulevar im pronunciável, e, pela prim eira vez na vida, entendi que boulevard é, na verdade, um a palavra francesa, que todas as ruas largas cham adas de bulevar, em casa, são sim plesm ente ruas m ovim entadas. Porque aqui é um boulevard: um rio de vida, enorm e, largo e fluido, um a praça no m eio e árvores graciosas arqueando-se um a para a outra na parte de cim a.

Num farol, um cara bonitinho de terno j usto dirigindo um a m otoneta na ciclovia para e m e olha de cim a a baixo, até que outra m oto atrás dele buzina e o obriga a seguir em frente.

Tudo bem , isso é, tipo, duas vezes em cinco m inutos. Verdade sej a dita, o prim eiro foi um cachorro, m as foi significativo. Durante as últim as três sem anas foi Melanie que recebeu todas as cantadas, resultado do cabelo louro e do figurino “olhe para m im ”, assum i m aliciosam ente. Um a ou duas vezes bufei sobre a “obj etificação” das m ulheres, m as Melanie virou os olhos e disse que eu não estava entendendo.

À m edida que essa alegria m e estim ula, m e pergunto se Melanie não está certa. Talvez não tenha a ver com parecer sexy para os garotos, m as com sentir que um lugar reconheceu sua presença, piscou para você, aceitou você. É estranho porque, de todas as pessoas em todas as cidades, im aginei que eu seria invisível para os parisienses, m as, pelo visto, não. Aparentem ente, em Paris, posso não apenas patinar com o praticam ente m e qualificar para as Olim píadas!

— É oficial — declaro. — Am o Paris!

— Foi rápido.

— Quando a gente sabe, a gente sabe. Ela acabou de se tornar a cidade que eu m ais adoro no m undo.

— Ela tende a surtir esse efeito.

— Devo acrescentar que não houve m uita concorrência, j á que não gostei da m aioria dos lugares que nós visitam os.

E, de novo, as palavras escapam . Pelo visto, quando se tem apenas um dia, pode-se dizer qualquer coisa e ver no que vai dar. A viagem foi uma porcaria! Que delícia finalm ente adm itir isso para alguém . Eu não poderia dizer aos m eus pais, que pagaram pelo que pensaram ser “a viagem de um a vida”. Nem à Sra. Foley, cuj a obrigação era garantir que eu tivesse “a viagem de um a vida”. Mas é verdade. Passei as últim as três sem anas tentando m e divertir. E não consegui.

— Acho que viaj ar talvez sej a um talento, com o assobiar ou dançar — continuo. — Algum as pessoas têm ; você parece ter. Quer dizer, há quanto tem po está viaj ando?

— Dois anos — responde ele.

— Dois anos com interrupções?

Ele balança a cabeça.

— Dois anos desde que deixei a Holanda.

— Mesm o? E era para você ter voltado hoj e? Depois de dois anos?

Ele j oga os braços para cim a.

— E o que é m ais um dia depois de dois anos?

Acho que, para ele, não m uito. Para m im , talvez sej a m uito.

— Isso apenas com prova o m eu ponto de vista. Você tem talento para viaj ar. Não tenho certeza se eu tenho. Fico ouvindo todo m undo falar que as viagens am pliam os horizontes. Nem sei m uito bem o que isso quer dizer, m as não am pliou nada para m im , pois não sou boa nisso.

Ele perm anece em silêncio enquanto passam os por um a longa ponte sobre dezenas de trilhos de trem , grafite por todo lado. Então, ele diz:

— Viaj ar não é algo em que as pessoas são boas. É algo que se faz. Com o respirar.

— Não acho. Eu respiro m uito bem .

— Tem certeza? Já pensou sobre isso?

— Provavelm ente m ais do que a m aioria das pessoas. Meu pai é pneum ologista. Médico de pulm ão.

— O que eu quero dizer é: você algum dia j á pensou sobre como é que faz isso? Dia e noite? Enquanto dorm e. Enquanto com e. Enquanto fala.

— Não m uito.

— Pense agora.

— Com o se pensa em respirar? — Mas então, subitam ente, penso. Fico enrolada em pensam entos sobre a respiração, a m ecânica, com o é que m eu corpo sabe o que fazer m esm o quando estou dorm indo, ou chorando, ou soluçando. O que aconteceria se por acaso o m eu corpo esquecesse? Minha respiração fica um pouco m ais ofegante, com o se eu estivesse subindo um a colina, m esm o estando descendo a ram pa da ponte.

— Ok, isso foi estranho.

— Está vendo? — pergunta Willem . — Pensou dem ais. A m esm a coisa é viaj ar. Não se pode se esforçar dem ais, senão parece trabalho. Você tem que se entregar ao caos. Ao acaso.

— Tenho que entrar na frente de um ônibus para m e divertir?

Willem gargalha.

— Não esse tipo de acaso. Estou falando das pequenas coisas que acontecem . Às vezes elas são insignificantes; outras vezes, m udam tudo.

[1]

— Isso tudo parece m uito Jedi . Pode ser m ais específico?

— Um cara dá carona para um a garota que está viaj ando num país distante. Um ano depois, ela fica sem dinheiro e acaba na porta dele. Seis m eses depois, eles se casam . Acasos.

— Você se casou com um a m ochileira ou coisa parecida?

O sorriso dele se abre com o um a vela.

— Estou dando exem plos.

— Me conte um de verdade.

— Com o você sabe que esse não é de verdade? — ele brinca. — Tudo bem , isso aconteceu com igo. Ano passado eu estava em Berlim , perdi o trem para Bucareste e acabei pegando um para a Eslováquia. As pessoas com quem eu estava viaj ando pertenciam a um grupo de teatro; um dos caras tinha acabado de quebrar o tornozelo e eles precisavam de um substituto. Na viagem de seis horas até Bratislava, decorei a parte dele. Fiquei com a trupe até o tornozelo dele m elhorar e pouco depois conheci algum as pessoas da Will Guerrilheiro. Eles estavam desesperados por alguém que conseguisse fazer Shakespeare em francês.

— E você conseguia?

Ele concorda com a cabeça.

— Você é algum tipo de estudioso de línguas?

— Sou apenas holandês. Então m e j untei à Will Guerrilheiro. — Ele estala os dedos. — Agora sou ator.

Isso m e surpreende.

— Pensei que estivesse fazendo isso há m uito m ais tem po.

— Não. É só por acaso, apenas tem porário. Até que o próxim o acaso m e m ande para outro lugar. É assim que a vida funciona.

Algo se acelera em m eu peito.

— Você acha m esm o que é assim que funciona? Que a vida pode m udar deumahorapraoutra?

— Acho que tudo está acontecendo o tem po todo, m as, se você não se coloca no cam inho, acaba perdendo. Quando viaj a, você se coloca lá. Nem sem pre é bom . Às vezes é terrível. Mas outras… — Ele ergue os om bros e aponta para Paris, depois olha de esguelha para m im . — Não é tão ruim assim .

— Desde que não sej a atropelado por um ônibus — digo.

Ele ri. Então m e dá razão.

— Desde que não sej a atropelado por um ônibus — repete.