Apenas um Dia
Capítulo 36
36
Am sterdã
Mom ento de seguir em frente. Esse é o m eu lem a. Sem arrependim entos. E sem voltar atrás.
Cancelo o trecho Paris-Londres do m eu voo para casa, a fim de poder voar direto de Londres. Não quero voltar a Paris. Quero ir a outro lugar. Tenho m ais cinco dias na Europa, e há todas essas com panhias aéreas de baixo custo. Eu poderia ir para a Irlanda. Ou a Rom ênia. Poderia pegar um trem para Nice e passar um tem po com a trupe australiana. Poderia ir a qualquer lugar.
Mas, para ir a qualquer desses lugares, preciso ir a Am sterdã. Então, é para lá que eu vou prim eiro. De bicicleta cor-de-rosa.
Quando fui devolver a bicicleta a Saskia, j untam ente com um a caixa de chocolates para dizer obrigada, disse a ela que não precisava que m e desse a inform ação de contato de Robert-Jan.
— Encontrou o que precisava? — perguntou.
— Sim e não.
Ela pareceu com preender. Pegou os chocolates, m as m e pediu para ficar com a bicicleta. Não pertencia a ninguém , e eu precisaria dela em Am sterdã, e poderia levá-la com igo no trem ou repassá-la para alguém .
— A Bicicleta Branca cor-de-rosa — disse eu.
Ela sorriu.
— Sabe sobre a Bicicleta Branca?
Confirm ei com um balanço de cabeça.
— Gostaria que ela ainda existisse.
Pensei em m inhas viagens, sobre todas as coisas que as pessoas m e repassaram : am izade, aj uda, ideias, coragem , macarons.
— Acho que ainda existe — disse a ela.
Anam iek escreveu instruções para ir de bicicleta de Utrecht até Am sterdã. São apenas 40 quilôm etros, e há pistas para bicicletas pelo cam inho inteiro e plano. Assim que chegar à parte leste da cidade, vou esperar pela linha de bonde nove e posso sim plesm ente segui-lo durante todo o traj eto até a estação central, onde a m aioria dos albergues baratos está localizada.
Assim que saio de Utrecht, a paisagem se torna industrial e então se transform a em fazendas. As vacas pastando preguiçosam ente nos cam pos verdes, grandes m oinhos de pedra; vej o até um fazendeiro usando os tam ancos de m adeira. Todavia, não dem ora m uito para o bucólico se m isturar com os estacionam entos de escritórios, e então estou nas redondezas de Am sterdã, passando por um estádio enorm e onde há um letreiro com o nom e Aj ax, e então a pista de bicicleta m e faz ir parar na rua e as coisas ficam um pouco confusas. Ouço o bring-bring de um bonde, e é o núm ero nove, exatam ente com o Anam iek garantira. Sigo as longas faixas passando pelo Oosterpark e o que presum o ser o zoológico — um bando de flam ingos cor-de-rosa no m eio da cidade —, e então as coisas se em baralham num cruzam ento com um grande m ercado de pulgas, e eu perco o bonde. Atrás de m im , m otocicletas estão buzinando e o tráfego de bicicletas parece duas vezes m aior que o de carros, e eu continuo tentando encontrar o bonde, m as os canais parecem todos fazer círculos, cada um se parecendo exatam ente com o o últim o, com beiradas altas de pedra e todo tipo de em barcação — de casa flutuante a barco a rem o até barcos turísticos cobertos de vidro — em suas águas salgadas. Passo por casas inacreditavelm ente estreitas e de telhas triangulares e pequenos cafés aconchegantes, as portas totalm ente abertas para revelar as paredes m arrons de centenas de anos. Viro à direita e dou num m ercado de flores, os buquês coloridos se abrindo na m anhã cinza.
Pego m eu m apa e o viro. Esta cidade inteira parece girar em círculos, e os nom es das ruas são com o se todas as letras do alfabeto tivessem sofrido um acidente de carro: Oudezij ds Voorburgwal. Nieuwebrugsteeg. Com pletam ente perdida, eu pedalo até um cara alto de j aqueta de couro que está colocando o cinto de segurança num a criança loura no banco da bicicleta. Quando olho para o rosto dele, observo m elhor, pois ele é outro, apesar de m ais velho, clone de Willem .
Peço as direções, e ele m e diz para segui-lo até a Praça Dam e de lá m e indica para pegar o tráfego estonteante em círculos até Warm oesstraat. Pedalo por um a rua cheia de sex shops provocadores, com suas vitrines sedutoras e cham ativas. Ao final do quarteirão, um dos albergues m ais baratos da cidade.
O saguão está vibrante de atividades: as pessoas estão j ogando bilhar e pingue-pongue, e está acontecendo um j ogo de cartas, e todos parecem ter cervej a na m ão, apesar de ainda m al ser a hora do alm oço. Peço por um dorm itório e, sem falar nada, a garota de olhos escuros na recepção pega m inhas inform ações do passaporte e m eu dinheiro. No andar de cim a, no m eu quarto, apesar da placa de PROIBIDO O USO DE DROGAS NOS QUARTOS, o ar está espesso com fum aça de m aconha e o cara de olhos turvos está fum ando algo com um tubo em um pedaço de papel-alum ínio, que tenho certeza de que não é m aconha nem algo perm itido. Tranco m inha m ochila no arm ário, desço as escadas e saio para a rua em direção a um café com acesso à internet.
Pago por m eia hora e dou um a olhada nos sites das com panhias aéreas baratas. Agora é quinta-feira. Voo para casa, saindo de Londres, na segunda. Há um voo de Lisboa por 46 euros. Um de Milão, e um de algum lugar na Croácia! Dou um busca pela Croácia e olho para fotos de praias rochosas e velhos faróis. Há até hotéis baratos nos faróis. Eu poderia m e hospedar num farol. Poderia fazer qualquer coisa.
Não sei quase nada sobre a Croácia, então resolvo ir até lá. Pego m eu cartão de débito para pagar a passagem , m as percebo que um novo e-m ail aparece na outra j anela que abri. Dou um a olhada. É de Wren. A linha do assunto diz ONDE VOCÊ ESTÁ?
Respondo rapidam ente que estou em Am sterdã. Quando disse adeus a Wren e à gangue australiana em Paris, na sem ana passada, ela estava planej ando pegar um trem para Madri, enquanto Kelly e a trupe iam para Nice, e conversavam sobre talvez se encontrarem em Barcelona, de m odo que fico um pouco surpresa quando, trinta segundos depois, recebo um e-m ail dela de volta que diz: NÃO ACREDITO! EU TAMBÉM! A m ensagem tem o núm ero do celular dela.
Estou fazendo um a careta ao ligar para ela.
— Eu sabia que você estava aqui — diz ela. — Podia sentir! Onde você está?
— Num café na Warm oesstraat. Onde você está? Achei que estivesse indo para a Espanha!
— Mudei m eus planos. Winston, estam os m uito longe de Warm oeestraat? — grita ela. — Winston é o cara bonitinho que trabalha aqui — sussurra para m im . Ouço um a voz m asculina ao fundo. Então Wren dá um gritinho. — Estam os, tipo, a cinco m inutos um a da outra. Encontre-se com igo na Praça Dam , em frente à torre branca que se parece com um pênis.
Fecho a j anela do navegador e dez m inutos depois estou abraçando Wren com o se ela fosse um a parente de quem perdi contato há m uito tem po.
— Cara, esse Santo Antônio trabalha rápido — diz ela.
— Eu é que o diga!
— Então, o que aconteceu?
Conto rapidam ente a história de encontrar Ana Lucia, quase encontrar Willem e resolver não encontrá-lo.
— Então agora vou para a Croácia.
Ela parece decepcionada.
— Vai? Quando?
— Ia voar am anhã de m anhã. Estava para reservar a passagem quando você ligou.
— Ah, fique m ais alguns dias. Podem os nos aventurar j untas. Podem os alugar bicicletas. Ou um a só bicicleta, e um a de nós vai sentada de lado na garupa, com o as garotas holandesas fazem .
— Eu j á tenho a minha bicicleta — inform o. — É cor-de-rosa.
— Tem um a garupa atrás onde posso m e sentar?
O sorriso dela é contagiante dem ais para resistir.
— Tem .
— Ah. Você tem que ficar. Estou num albergue perto de Jordaan. Meu quarto é do tam anho de um a banheira, m as é bonitinho e a cam a é dupla. Venha dividi-la com igo.
Levanto os olhos. Está am eaçando chover de novo, e está congelando para agosto e a internet inform a que na Croácia está fazendo em torno dos 20 graus e ensolarado. Mas Wren está aqui, e quais são as chances de isso acontecer? Ela acredita em santos. Eu acredito em acaso. Acho que, basicam ente, acreditam os nas m esm as coisas.
Tiram os as coisas do m eu quarto no albergue, onde aquele cara a esta altura j á desm aiou, e as transferim os para o outro albergue. É m uito m ais aconchegante que o m eu, principalm ente pelo fato de aquele Winston alto, m oreno e sorridente estar lá para cuidar de nós. No andar de cim a, a cam a dela está coberta de guias, não só da Europa, m as do m undo todo.
— O que é tudo isso?
— Winston m e em prestou. São para m inha lista de desej os.
— Lista de desej os?
— Todas as coisas que eu quero fazer antes de m orrer.
Aquela coisa obscura e curiosa que Wren disse assim que nos conhecem os em Paris m e vem à cabeça novam ente: eu conheço hospitais. Só conheço Wren há um dia e m eio, m as isso é suficiente para que a ideia de perdê-la sej a inconcebível. Ela deve ver algo em m eu rosto, pois toca m eu braço suavem ente.
— Não se preocupe. Tenho planos para viver m uito tem po — diz ela.
— Por que está fazendo um a lista de desej os, então?
— Porque, se esperar até estar realm ente m orrendo, será tarde dem ais.
Olho para ela. Conheço hospitais. Os santos.
— Quem ? — pergunto gentilm ente.
— Minha irm ã, Francesca. — Ela puxa um pedaço de papel. Ele tem vários títulos e localizações, La Belle Angèle (Paris), The Music Lesson (Londres), The Resurrection (Madri). E por aí vai.
— Não entendo — devolvo o papel a ela.
— Francesca não teve m uita chance de ser boa em várias coisas, m as era um a artista absolutam ente dedicada. Ela ficava no hospital, com um cateter de quím io num braço, um bloco de desenho no outro. Ela fez centenas de pinturas e desenhos, seu legado, e gostava de dizer que, quando m orresse, pelo m enos eles viveriam , m esm o que fosse no sótão.
— Nunca se sabe — digo, pensando em todas as pinturas e esculturas naquele squat de arte que um dia poderiam estar no Louvre.
— Bem , é exatam ente isso. Ela encontrou m uito conforto no fato de artistas com o Van Gogh e Verm eer serem obscuros na vida, m as fam osos na m orte. E queria ver a pintura deles pessoalm ente, então, da últim a vez que estava em rem issão, fizem os um a viagem até Toronto e Nova York para ver várias delas. Depois disso, ela fez um a lista ainda m aior.
Dou um a olhada de novo na lista.
— Qual pintura está aqui? Um Van Gogh?
— Havia um Van Gogh na lista dela. A Noite Estrelada, que vim os j untas em Nova York, e tem alguns Verm eers aqui, apesar de ela gostar m esm o de estar em Londres. Mas esta é a lista dela, e ficou em posição secundária desde Paris.
— Não entendo.
— Am o Francesca e verei essas pinturas para ela um dia. Passei grande parte da m inha vida à som bra dela. Tinha que ser assim . Mas agora ela se foi e é com o se eu ainda vivesse à som bra dela, sabe?
Estranham ente, eu m eio que sei. Concordo.
— Aconteceu algum a coisa quando a vi em Paris. Você é um a garota norm al fazendo algo m eio m aluco. Você m e inspirou. Eu m udei m eus planos. E agora com ecei a m e perguntar se conhecer você não seria o principal propósito de eu estar fazendo esta viagem . Que talvez Francesca, os santos, todos eles quisessem que nos encontrássem os.
Fico arrepiada com isso.
— Você acha m esm o?
— Acho que sim . Não se preocupe, não vou contar aos m eus pais que você é o m otivo de eu voltar para casa um m ês depois. Eles j á estão um pouquinho bravos.
Eu rio. Entendo isso tam bém .
— E então, o que tem na sua lista?
— É m uito m enos nobre do que a de Francesca. — Ela pega o diário de viagem e tira um pedaço de papel am assado. — Beijar um garoto no topo da Torre Eiffel. Rolar num campo de tulipas. Nadar com golfinhos. Ver as luzes do Norte. Escalar um vulcão. Cantar numa banda de rock. Costurar minhas próprias botas. Cozinhar um banquete para 25 amigos. É um trabalho contínuo. Continuo adicionando coisas a ela, e j á tive alguns obstáculos. Vim aqui por causa dos cam pos de tulipa, m as elas só florescem na prim avera. Então agora vou ter que fazer outra coisa. Ah, bem . Acho que consigo ver as luzes do Norte num lugar cham ado BodØ, na Noruega.
— Conseguiu beij ar um garoto no topo da Torre Eiffel?
Os lábios dela se curvam para cim a, num sorrisinho de duende levem ente enfeitiçado.
— Beij ei. Subi lá na m anhã em que você foi em bora. Havia um grupo de italianos. Eles são bem prestativos, esses italianos. — Ela abaixa a voz até o tom de m urm úrio. — Eu nem peguei o nom e dele.
— Às vezes não é necessário — m urm urei de volta.