Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 34 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 33

33

 

 

No dia seguinte, aceito o convite de Kelly para m e j untar à trupe australiana. Hoj e eles vão desbravar o Louvre. Am anhã vão a Versalhes. No dia seguinte, pegarão o trem para Nice. Sou convidada para ir com eles a todos esses lugares. Ainda tenho dez dias antes de ir em bora, e é com o se tivesse encontrado tudo o que poderia encontrar. Descobri que ele m e deixou um bilhete. O que é quase m ais do que eu poderia esperar. Estou considerando ir com eles a Nice. E, depois do m eu dia m aravilhoso de ontem , tam bém estou considerando ir sozinha a outro lugar.

Depois do café da m anhã, todos nós entram os no m etrô em direção ao Louvre. Nico e Shazzer estão exibindo algum as das roupas novas que com praram na feira de rua, e Kelly está tirando sarro delas por virem a Paris com prar roupas feitas na China.

— Pelo m enos com prei algum a coisa. — Ela ergue o pulso para m ostrar o novo relógio digital high-tech feito na França. — Tem um a loj a enorm e perto de Vendôm e que só vende relógios.

— Para que você precisa de um relógio quando está viaj ando? — pergunta Nick.

— Quantos m alditos trens nós j á perdem os porque o despertador de alguém não tocou?

Nick deu o ponto para ela.

— Você deveria ver esse lugar. É um absurdo de grande! Eles vendem relógios de todo lugar; alguns custam cem m il euros. Im agine gastar isso num relógio.

Kelly continua, m as eu parei de ouvir porque subitam ente estou pensando em Céline. Sobre o que ela disse antes. Sobre com o eu poderia com prar outro relógio. Outro. Com o se soubesse que eu tinha perdido o últim o.

O m etrô está parando na estação.

— Sinto m uito — digo a Kelly e à trupe. — Preciso ir.

 

— Onde está m eu relógio? E onde está Willem ?

Encontro Céline no escritório da boate, rodeada por pilhas de relatórios, usando óculos grossos que, de algum a form a, a deixam m enos intim idante.

Ela levanta os olhos dos papéis, sonolenta e incrivelm ente im passível.

— Você disse que eu deveria com prar outro relógio, o que significa que sabia que Willem estava com o meu relógio — continuo.

Espero que ela negue tudo, que acabe com igo. Em vez disso, ela dá de om bros, zom beteiram ente.

— Por que fez isso? Dar a ele um relógio tão caro depois de apenas um dia? É um pouco desesperador, não?

— Tão desesperador quanto m entir para m im ?

Ela dá de om bros novam ente, digitando preguiçosam ente no com putador.

— Não m enti. Você perguntou se eu sabia onde encontrá-lo. Eu não sei.

— Mas tam bém não m e contou tudo. Você o viu, depois… depois de ele ter m e deixado.

Ela tipo nem assente, nem nega, algo entre as duas coisas. Um a expressão perfeita de am biguidade. Um a parede de pedra incrustada de diam antes.

E, naquele exato m om ento, outra das lições de francês de Nathaniel m e vem à cabeça:

— T’es toujours aussi salope? — pergunto.

Um a sobrancelha sobe, m as o cigarro dela vai parar no cinzeiro.

— Você fala francês agora? — ela pergunta, em francês.

— Un petit peu. — Um pouquinho.

Ela m exe nos relatórios, am assa o cigarro aceso.

— Il faut mieux être salope que lâche — diz ela.

Não faço ideia do que ela disse. Faço o m elhor que posso para conseguir m anter a expressão im passível enquanto tento encontrar as palavras-chave para desvendar a frase com o m adam e nos ensinara, salope, m egera; mieux, m elhor. Lâche. Leite? Não, isso é lait. Mas então m e lem bro do refrão de m adam e sobre se aventurar para dentro do desconhecido ser um ato de coragem e ela nos ensinando, com o sem pre, o oposto de courageux: lâche.

Será que Céline acabou de m e cham ar de covarde? Sinto a indignação percorrendo a parte de trás do pescoço até m inhas orelhas, e depois até m inha cabeça.

— Você não pode m e cham ar disso — retruco em inglês. — Não tem o direito de m e cham ar disso. Você nem m e conhece!

— Conheço o suficiente — responde em inglês. — Sei que foi você quem desistiu.

— Desisti? Com o desisti?

— Você fugiu.

— O que dizia o bilhete? — Estou praticam ente gritando agora.

No entanto, quanto m ais exaltada eu fico, m ais ela se fecha.

— Não sei de nada disso.

— Mas você sabe alguma coisa.

Ela acende outro cigarro e assopra a fum aça em cim a de m im . Eu abano.

— Por favor, Céline, durante um ano inteiro eu pensei no pior, e agora fico pensando se pensei no pior errado.

Mais silêncio. Então:

— Ele tinha, com o se diz, sue-tours.

— Sue-tours?

— Tipo um a costura na pele. — Ela aponta para a bochecha.

— Suturas? Pontos? Ele estava com pontos?

— Sim , e o rosto estava todo inchado, e o olho, preto.

— O que aconteceu?

— Ele não m e contou.

— Por que não m e falou isso ontem ?

— Você não m e perguntou.

Quero ficar furiosa com ela. Não só por causa disso, m as tam bém por ter sido um a cadela naquele prim eiro dia em Paris, por m e acusar de covardia. Mas finalm ente entendo que nada disso tem a ver com Céline; nunca teve. Fui eu quem disse a Willem que estava apaixonada por ele. Fui eu quem disse que cuidaria dele. Fui eu quem pagou para ver.

Olho para Céline, que m e observa com aquela expressão cautelosa de gato ao olhar para um cachorro dorm ente.

— Je suis désolé — digo, m e desculpando. E então tiro o macaron da bolsa e dou a ela. É de fram boesa, e eu o estava guardando com o um prêm io por confrontar Céline. Dar para outra pessoa é violar a regra de Babs, m as acho que, de algum a form a, ela aprovaria isso.

Ela olha para o macaron com desconfiança, em seguida o aceita, pegando-o entre a ponta dos dedos com o se fosse algo contagioso. Coloca-o com cuidado em cim a de um a pilha de capinhas de CD.

— Então, o que aconteceu? — pergunto. — Ele voltou aqui todo estourado?

Ela concorda, discretam ente.

— Por quê?

Céline franze o cenho.

— Ele não disse.

Silêncio. Ela abaixa os olhos, depois olha rapidam ente para m im .

— Ele m exeu na sua m ala.

O que havia lá? Um a lista de coisas para colocar na m ala. Roupas. Suvenires. Cartões-postais em branco. Minha etiqueta de bagagem ? Não, esta arrebentara na estação de m etrô em Londres. Meu diário? Que agora está com igo. Tiro-o da bolsa, folheio as páginas, olhando algum as anotações. Há algo sobre Rom a e gatos ferozes. Viena e o Palácio Schöbrunn. A ópera em Praga. Mas não há nada, nada de m im . Nem m eu nom e. Nem m eu endereço. Nem m eu e-m ail. Nem o endereço de qualquer pessoa que conheci no tour. Nem nos dem os ao trabalho de fingir que m anteríam os contato. Enfio o diário de volta na m ochila. Céline está espiando tudo com olhos sem icerrados, observando enquanto finge não fazê-lo.

— Ele pegou algum a coisa da m inha m ala? Encontrou algum a coisa?

— Não. Ele só cheirava… — Ela para, com o se estivesse sentindo dor.

— Ele cheirava o quê?

— Ele tinha um cheiro horrível. — Ela afirm a solenem ente. — Ele levou seu relógio. Eu pedi para deixá-lo. Meu tio é j oalheiro, então sei que é caro. Mas ele se recusou.

Eu suspiro.

— Onde posso encontrá-lo, Céline? Por favor. Você pode m e aj udar pelo m enos com isso.

— Pelo m enos com isso? Já aj udei você com tanta coisa — retruca ela, toda insolente, toda indignada. — E não sei onde encontrá-lo. Não m into. — Ela olha firm e para m im . — Digo a verdade, e a verdade é que Willem é o tipo de hom em que aparece quando aparece. E, na m aioria das vezes, não aparece.

Gostaria de poder dizer que ela está errada. Que entre nós foi diferente. Mas, se ele não ficou apaixonado por Céline, o que m e faz achar que depois de um dia, m esm o que ele tenha gostado de m im , eu não tenha sido usada?

— Quer dizer que não teve sorte? Na internet? — pergunta ela.

Com eço a j untar m inhas coisas.

— Não.

— Willem de Ruiter é um nom e com um , n’est-cepas? — diz ela. Em seguida faz um a coisa que nunca im aginei que fosse capaz de fazer. Ela fica verm elha. E é assim que eu sei que ela tam bém j á procurou por ele. E que tam bém não o encontrou. E, de repente, m e pergunto se eu não teria j ulgado Céline, não de todo, m as ao m enos um pouquinho errado.

Pego um dos m eus cartões-postais de Paris. Escrevo m eu nom e, endereço, todos os m eus detalhes, e entrego a ela.

— Se vir Willem . Ou se algum dia estiver em Boston e precisar de um lugar para ficar, ou para guardar suas coisas.

Ela pega o cartão-postal e o olha. Então o enfia na gaveta.

— Boss-tone. Acho que prefiro Nova York. — Ela funga. Fico quase aliviada por ela voltar a ser a Céline esnobe de sem pre.

Penso em Dee. Ele daria conta de Céline.

— Isso provavelm ente pode ser arranj ado.

Quando chego à porta, Céline cham a m eu nom e. Eu m e viro. Vej o que ela deu um a m ordida no macaron; o biscoito redondo é agora um a m eia-lua.

— Desculpe por tê-la cham ado de covarde — diz ela.

— Tudo bem — digo. — Às vezes eu sou m esm o. Mas estou tentando ser m ais coraj osa.

— Bon. — Ela faz um a pausa, e, se eu não a conhecesse, diria que talvez estivesse considerando dar um sorriso. — Se encontrar Willem de novo, precisará de coragem .

 

Sento-m e na beirada de um a fonte para ponderar sobre o que Céline disse. Não consigo com preender exatam ente se aquilo foi apoio ou aviso, ou talvez as duas coisas. Mas, de qualquer form a, tudo parece teoria, pois cheguei a um beco sem saída. Ela não sabe onde ele está. Posso tentar fazer m ais pesquisa na internet e enviar outra carta ao Will Guerrilheiro, m as, fora isso, estou de m ãos atadas.

Precisará de coragem.

Talvez sej a m elhor. Talvez eu term ine aqui. Am anhã vou a Versalhes com a trupe australiana. E tudo bem . Tiro o m apa que Dee e Sandra m e deram para descobrir m inha rota de volta para o hotel. Não está m uito longe. Posso andar. Traço a rota com o dedo. Ao fazê-lo, m eu dedo passa sobre não um , m as dois grandes quadrados cor-de-rosa. Os grandes quadrados cor-de-rosa neste m apa são hospitais. Coloco o m apa m ais perto do rosto. Há quadrados rosa espalhados por todo lugar. Paris é cheia de hospitais. Passo m eu dedo até o squat de arte. Tam bém há vários hospitais na área encoberta pela ponta do m eu dedão, ao redor do squat.

Se Willem se m achucou perto do squat de arte e levou pontos, há um a boa chance de que tenha acontecido num desses hospitais.

— Obrigada, Dee! — grito na tarde de Paris. — E obrigada, Céline — acrescento um pouco m ais baixo. Então m e levanto e saio andando.

No dia seguinte, Kelly m e cum prim enta friam ente, e eu posso ver quanto é difícil para ela. Eu m e desculpo por ter “desaparecido em com bate” ontem .

 

— Tudo bem — diz ela —, m as você vem conosco hoj e a Versalhes?

Faço um a careta.

— Não posso.

A expressão endurece com m ágoa.

— Se não quer ficar com a gente, não tem problem a, m as não faça planos para desperdiçar nossos sentim entos.

Não tenho certeza de por que não contei a ela. Parece m eio bobo estar aqui, passar por tudo isso por um cara com quem passei apenas um dia. Mas, ao contar a Kelly um a versão resum ida de um a longa história, incluindo a busca m aluca de hoj e, o rosto dela fica cada vez m ais sério. Quando term ino, ela sim plesm ente balança a cabeça.

— Eu com preendo — diz solenem ente. — Encontro você lá em baixo no café.

Quando chego à sala do café da m anhã, Kelly e o grupo estão am ontoados em volta de um a daquelas grandes m esas de m adeira, m apas espalhados em frente a eles. Pego m eu croissant, o chá e o iogurte e m e j unto a eles.

— Vam os com você — declara ela. — Todos nós.

— O quê? Por quê?

— Porque vai precisar de um exército para isso. — O restante do grupo m e cum prim enta distraidam ente e depois todos com eçam a falar de um a vez só. Bem alto. As pessoas olham para nós, m as esse pessoal é incorrigível. Só a garota pálida na ponta de nossa m esa nos ignora, m antendo o nariz enfiado num livro.

— Têm certeza de que querem perder Versalhes?

— Versalhes é um a relíquia — insiste Kelly. — Não vai sair dali. Mas isto é vida real. Rom ance de verdade. O que poderia ser m ais francês do que isso?

— Vam os com você, quer goste, quer não. Mesm o que tenham os que seguir você a cada hospital francês daqui até Nice — declara Shazzer.

— Não acho que isso será necessário — digo. — Olhei no m apa. Reduzi as opções a três hospitais prováveis.

A garota-duende levanta os olhos. Os olhos dela são tão pálidos que parecem feitos de água.

— Desculpe, vocês disseram que vão a um hospital? — pergunta ela.

Olho para os australianos, m eu exército m altrapilho, todos elas anim adíssim os.

— Aparentem ente, sim .

A garota-duende olha para m im com um a intensidade estranha.

— Eu conheço hospitais — diz ela em voz baixa.

Olho de volta para ela. Sinceram ente, não consigo im aginar nada m ais chato do que isso, exceto talvez um a visita ao departam ento de desem prego francês. Não consigo im aginar que ela queira vir conosco. Exceto, talvez, por estar sozinha. E isso eu consigo entender.

— Você, você gostaria de vir conosco? — pergunto.

— Não particularm ente — responde ela —, m as acho que deveria.

O prim eiro do m apa acaba sendo algum tipo de hospital particular onde, depois de um a hora sendo m andada de um setor para outro, descubro que, ainda que tenha um a sala de em ergência, ela não recebe a m aioria dos casos que vêm da rua; em vez disso, encam inha-os para os hospitais públicos. Eles nos m andam ao Hôpital Lariboisière. Vam os direto para o urgences, a versão francesa dos prontos-socorros, e, depois de nos darem um núm ero e nos pedirem para esperar, nos sentam os durante horas em cadeiras desconfortáveis, j untam ente com todas as pessoas com cotovelos quebrados e tosses que parecem realm ente feias e contagiosas.

O entusiasm o inicial do grupo com eça a dim inuir quando eles percebem que ir a prontos-socorros é tão chato na França quanto em qualquer outro lugar do m undo. Estão fadados a se divertir com bolinhas de papel com saliva e j ogos de baralho de War, o que não os faz benquistos pelas enferm eiras. Wren, a garota-duende estranha e pálida que trouxem os conosco, não participa de nenhum a bobagem . Apenas continua lendo seu livro.

Quando som os cham ados ao balcão da recepção, as enferm eiras estão nos odiando, e o sentim ento é praticam ente m útuo. Shazzer, que aparentem ente fala o m elhor francês, é nom eada em baixadora, e não sei se por falta de habilidade com o francês ou por falta de habilidades diplom áticas, em cinco m inutos ela está discutindo furiosam ente com a enferm eira, e, em dez, som os acom panhadas até a rua.

Agora são três da tarde. Metade do dia j á se passou e eu posso ver que o grupo está im paciente, cansado, fam into e desej ando que tivessem ido a Versalhes. Agora que reflito sobre isso percebo quanto é ridículo. A recepção do consultório do m eu pai é adm inistrada por um a enferm eira cham ada Leona, que não perm ite nem que eu m esm a entre no consultório, a não ser que m eu pai estej a lá dentro esperando por m im . Leona nunca daria um arquivo a m im , a filha de seu patrão que fala a m esm a língua que ela, quanto m ais a um a estrangeira desconhecida.

— Foi um fiasco — digo a eles quando saím os na calçada. A cam ada nebulosa que esteve sobre Paris nos últim os dias desapareceu enquanto estávam os sentados do lado de dentro, e o dia agora está quente e claro. — Pelo m enos vocês ainda podem salvar o restante da tarde. Com prem com ida e vão fazer um piquenique nos Jardins de Luxem burgo.

Posso perceber que a ideia é tentadora. Ninguém a contesta.

— Mas prom etem os ser sua equipe de apoio — diz Kelly. — Não podem os deixá-la fazer isso sozinha.

Levanto as m ãos em sinal de desistência.

— Não vão. Já acabei. Esta é um a causa perdida.

Pegam -se os m apas. Debatem -se as rotas de m etrô. Discutem -se os itens para o piquenique.

— As pessoas m isturam os santos padroeiros, sabiam ?

Levanto os olhos. Wren, nossa duende carona, que ficou em silêncio o dia inteiro, finalm ente fala.

— Misturam ?

Ela balança a cabeça.

— Santo Antônio é o padroeiro das coisas perdidas. Mas São Judas é o padroeiro das causas perdidas. Você precisa ter certeza de que está pedindo aj uda ao santo certo.

Há um m om ento em que todos olham para Wren. Será que ela é um algum tipo de m aluca religiosa?

— Quem seria o responsável por um a pessoa perdida? — pergunto.

Wren faz um a pausa para pensar.

— Isso depende. Que tipo de perda?

Não sei. Não sei nem se ele está perdido. Talvez estej a exatam ente onde quer estar. Talvez a perdida sej a eu, procurando alguém que não tem nenhum a vontade de ser encontrado.

— Não tenho certeza.

Wren gira o bracelete, passando os dedos pelos pingentes.

— Talvez você devesse sim plesm ente rezar para os dois. — Ela m e m ostra os pequenos pingentes com cada santo padroeiro. Há vários outros deles, um com um a data, outro com um trevo, um com um pássaro.

— Mas eu sou j udia.

— Ah, eles não se im portam . — Wren olha para m im . Os olhos dela não parecem azuis, m as ter um a falta de azul. Com o o céu um pouco antes do am anhecer. — Apenas peça aj uda aos santos. E você deveria ir àquele terceiro hospital.

O Hôpital Saint-Louis tem 400 anos. Wren e eu entram os no anexo m oderno. Mandei os outros para os Jardins de Luxem burgo sem m uita discussão. O átrio de vidro filtra a luz do sol, j ogando prism as de luz sobre o chão.

O pronto-socorro está silencioso; apenas algum as pessoas sentadas por entre as filas de cadeiras vazias. Wren vai direto aos dois enferm eiros atrás do balcão, e aquela voz estranham ente m elodiosa dela sai num francês perfeito. Fico em pé atrás dela, pegando o suficiente do que ela diz para saber que está contando m inha história, encantando-os com ela. Até as pessoas nas cadeiras se inclinam para ouvir a voz suave de Wren. Não faço nem ideia de com o ela sabe da história; eu não lhe contei. Talvez tenha ouvido no café da m anhã ou entre as outras garotas. Ela term ina, e o silêncio se instala. Os enferm eiros olham firm es para ela, então abaixam os olhos e com eçam a digitar.

— Com o sabe falar francês tão bem ? — sussurro.

— Sou de Quebec.

— Por que não traduziu no outro hospital?

— Porque não era o hospital certo.

Os enferm eiros m e perguntam o nom e dele. Eu digo. Soletro. Ouço o barulho das teclas do com putador conform e eles o digitam .

— Non — diz um dos enferm eiros — pas ici. — Ele balança a cabeça.

— Attendez — diz o outro. Espere.

Ele digita m ais algum a coisa. Diz um m onte de coisas para Wren, e eu perco o fio da m eada, m as então um a palavra vem à tona: um a data. O dia depois do dia que Willem e eu passam os j untos. O dia em que nos separam os.

Minha respiração para. Ele levanta os olhos, repete a data para m im .

— Sim — confirm o. Esse seria o dia em que ele esteve aqui. — Oui.

O enferm eiro diz um a e outra coisa que eu não entendo. Viro-m e para Wren.

— Eles podem nos dizer onde encontrá-lo?

Wren faz a pergunta, então traduz a resposta.

— Os arquivos são confidenciais.

— Mas eles não precisam nos dar nada por escrito. Devem ter algum a inform ação sobre ele.

— Estão dizendo que está tudo no departam ento de cobrança agora. Não ficam com m uita coisa aqui.

— Tem que haver algum a coisa. Agora é a hora de pedir aj uda a São Judas.

Wren pega o pingente em seu bracelete. Dois m édicos com aventais e j alecos de laboratório atravessam as portas vaivém com copos de café na m ão. Wren e eu olham os um a para a outra. São Judas aparentem ente resolvendo conceder dupla inspiração.

— Posso falar com um m édico? — pergunto aos enferm eiros com m eu francês horroroso. — Talvez o… — Viro-m e para Wren. — Com o se diz “m édico de plantão” em francês? Ou o m édico que tratou de Willem ?

O enferm eiro deve entender um pouco de inglês, porque esfrega o queixo e volta para o com putador.

— Ah, Doutor Robinet — inform a e pega o telefone.

Alguns m inutos depois, as portas basculantes se abrem e é com o se desta vez São Judas resolvesse nos m andar um bônus, porque o m édico é lindo com o um astro de TV: cabelo grisalho encaracolado, rosto ao m esm o tem po delicado e irregular. Wren com eça a explicar a situação, m as então percebo que, causa perdida ou não, tenho que construir m eu próprio caso. No francês m ais elaborado possível, tento explicar: Amigo machucado. Neste hospital. Amigo perdido. Preciso encontrar. Estou esgotada e, com m inhas frases bem básicas, devo parecer um a m ulher das cavernas.

O Dr. Robinet m e olha por um m om ento. Então acena para que o sigam os pelas portas vaivém até a sala de exam es, onde pede para nos sentarm os na m aca enquanto ele se acom oda num banco com rodinhas.

— Entendo seu dilem a — ele responde num inglês com sotaque britânico perfeito. — Mas sim plesm ente não podem os abrir nossos arquivos sobre os pacientes. — Ele se vira diretam ente para m im . Os olhos são de um verde brilhante, aguçados e bondosos ao m esm o tem po. — Entendo que tenha vindo dos Estados Unidos, m as sinto m uito.

— Pode pelo m enos m e dizer o que aconteceu com ele? Sem ter que, de fato, olhar a ficha dele? Isso seria quebrar o protocolo?

O Dr. Robinet sorri pacientem ente.

— Vej o centenas de pacientes por dia. E isso foi, você diz, um ano atrás?

Balanço a cabeça.

— Foi. — Enfio a cabeça entre as m ãos. A loucura dos eventos tom a conta de m im novam ente. Um dia. Um ano.

— Talvez se você o descrevesse. — O Dr. Robinet m e dá um pouco de corda.

Eu agarro a oportunidade.

— Ele é holandês. Muito alto, seis ponto três pés, isso é um m etro e noventa. Setenta e cinco quilos. Tem o cabelo bem claro, quase com o palha, m as olhos bem escuros, quase com o carvão. Bem m agro. Os dedos são longos. Tem um a cicatriz com o um zigue-zague bem em cim a do peito do pé. Enquanto continuo a descrevê-lo, detalhes que pensava ter esquecido m e voltam à m ente e um a im agem dele sobe à superfície.

No entanto, o Dr. Robinet não consegue visualizá-la. Ele parece confuso e eu percebo que, do ponto de vista dele, eu acabei de descrever um cara alto e louro, um a pessoa entre m ilhares.

— Talvez se você tivesse um a fotografia.

Sinto com o se a im agem que eu criei de Willem estivesse viva na sala. Ele estava certo com relação a não precisar de um a câm era para gravar as coisas im portantes da vida. Ele esteve dentro de m im todo esse tem po.

— Não tenho — digo. — Ah, m as ele levou pontos. E tinha um olho roxo.

— Isso descreve a m aioria das pessoas que tratam os — diz o Dr. Robinet. — Sinto m uito. — Ele se levanta do banquinho; algum a coisa m etálica cai no chão. Wren pega um a m oeda de euro do chão e com eça a dar de volta a ele.

— Espere! Ele fazia essa coisa com m oedas — digo. — Ele equilibrava a m oeda entre os ossinhos da m ão. Desse j eito. Posso? — Alcanço a m oeda de euro e m ostro com o ele virava a m oeda pelos ossinhos das m ãos.

Devolvo o euro ao Dr. Robinet, e ele o segura na m ão, exam inando-a com o se fosse um a m oeda rara. Então a atira, rodopiando pelos ares, e a pega de volta.

— Commotion cérébrale! — fala.

— O quê?

— Traum atism o craniano — traduz Wren.

— Traum atism o craniano?

Ele levanta o dedo indicador e se vira lentam ente, com o se estivesse arrancando a inform ação de um poço profundo.

— Ele teve um traum atism o craniano. E, se m e lem bro bem , um a laceração facial. Queríam os que ele ficasse em observação, pois o traum atism o craniano pode ser sério, e queríam os reportar à polícia, pois ele tinha sido agredido.

— Agredido? Por quê? Por quem ?

— Não sabem os. A praxe é prestar queixa à polícia, m as ele se recusou. Estava m uito agitado. Agora eu m e lem bro! Ele ficou poucas horas. Queria ir em bora logo, m as insistim os que ficasse para um a tom ografia com putadorizada. Assim que dem os os pontos e vim os que não havia sangram ento cerebral, ele insistiu que precisava ir. Ele disse que era m uito im portante. Alguém que ele perderia. — Ele se vira para m im , os olhos agora arregalados. — Você?

— Você — diz Wren.

— Eu — confirm o. Pontos pretos dançam em m inha visão, e m inha cabeça parece derreter.

— Acho que ela vai desm aiar — avisa Wren.

— Coloque a cabeça entre as pernas — aconselha o Dr. Robinet. Ele grita no corredor, e um a enferm eira m e traz um copo de água. Tom o a água. O m undo para de rodar. Lentam ente, volto à posição ereta de novo. O Dr. Robinet está m e olhando neste m om ento e é com o se a m áscara do profissionalism o tivesse caído.

— Mas isso foi há um ano? — pergunta ele, com a voz m acia com o um cobertor. — Vocês se perderam há um ano?

Balanço a cabeça.

— E você ficou procurando esse tem po todo?

Balanço a cabeça novam ente. De algum m odo, fiquei.

— E acha que ele tam bém ficou procurando você?

— Não sei. — E realm ente não sei. Só porque ele tentou m e encontrar há um ano não quer dizer que queira m e encontrar agora. Ou que queira que eu o encontre.

— Mas você precisa saber — afirm a ele. E por um m inuto acho que está m e repreendendo, m as então pega o telefone e faz um a ligação. Quando acaba, vira-se para m im . — Você precisa saber — repete. — Vá até a cabine dois no departam ento de cobrança agora. Eles não podem liberar a ficha, m as eu os instruí para que lhe dessem o endereço dele.

— Eles têm ? Eles têm o endereço dele?

— Eles têm um endereço. Vá pegá-lo agora. E depois o encontre. — Ele m e olha novam ente. — Independentem ente de qualquer coisa, você precisa saber.

Saio do hospital, passo por onde os pacientes de câncer estão recebendo seus tratam entos de quim ioterapia sob o sol do final de tarde. O papel com o endereço de Willem está apertado em m inhas m ãos. Ainda não olhei para ele. Digo a Wren que preciso ficar sozinha por um m om ento e cam inho em direção aos m uros do antigo hospital.

Sento-m e num banco ao lado do quadrilátero de gram a, entre os antigos prédios de tij olos. As abelhas dançam por entre os arbustos de flores, e as crianças brincam ; há tanta vida nas paredes deste antigo hospital. Olho para o papel em m inha m ão. Poderia ter qualquer endereço. Ele poderia estar em qualquer lugar do m undo. Até onde eu vou com isso?

Penso em Willem , m achucado — m achucado! — e ainda tentando m e encontrar. Respiro fundo. O cheiro de gram a recém -cortada se m istura ao pólen e à fum aça dos cam inhões parados na rua. Olho para a m arca de nascença em m eu pulso.

Abro o papel, sem m uita certeza de para onde vou depois, só com a certeza de que vou.