Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 38 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 37

37

 

Alm oçam os em um restaurante indonésio que serve aquelas refeições rijsttafel enorm es, com em os até ficar tontas, e, enquanto estam os nos equilibrando na bicicleta, tenho um a ideia. Não são os cam pos de flores de Keukenhof, m as talvez sirva. Ficam os perdidas por m ais ou m enos vinte m inutos até eu encontrar o m ercado de flores pelo qual tinha passado esta m anhã. Os vendedores estão fechando os quiosques e deixando para trás um m onte de sobras. Wren e eu pegam os várias delas e as colocam os sobre a calçada curvada acim a da beira do canal. Ela rola por cim a delas, feliz da vida. Eu rio e tiro algum as fotos com a câm era dela e com m eu celular e m ando para m inha m ãe por m ensagens de texto.

Os vendedores olham para ela com um leve encantam ento, com o se esse tipo de coisa acontecesse pelo m enos duas vezes por sem ana. Então um cara grande e barbado, usando suspensórios sobre o início de um a barriga protuberante, aparece com um pouco de lavanda seca.

— Ela pode ficar com isto tam bém .

— Aqui, Wren. — Jogo as flores roxas cheirosas na direção dela.

— Obrigada — digo ao hom em . Então explico a ele sobre Wren e sua lista de desej os e os grandes cam pos de tulipa que agora estão fora da estação, por isso tem os que nos contentar com aquilo.

Ele olha para Wren, que está tentando tirar as pétalas e folhas de seu suéter. Enfia a m ão no bolso e tira um cartão.

— Tulipas em agosto não são fáceis de encontrar. Mas, se você e sua am iga não se im portarem de acordar cedo, talvez eu consiga um pequeno cam po cheio delas.

 

Na m anhã seguinte, Wren e eu colocam os o relógio para despertar às quatro da m anhã e, quinze m inutos depois, descem os as escadas até a rua deserta para encontrar Wolfgang nos esperando em seu m inicam inhão. Todos os avisos que m eus pais j á tinham m e dado sobre não entrar em carros com estranhos vieram à tona, m as percebo, por m ais im provável que sej a, que Wolfgang não é um estranho. Nós três nos esprem em os no banco da frente enquanto seguim os em direção a um a estufa em Aalsm eer. Wren está praticam ente pulando de anim ação, o que parece incom um para as quatro e quinze da m anhã, e ela ainda não com eu nada, apesar de Wolfgang, atenciosam ente, ter trazido um a garrafa térm ica com café, além de ovos cozidos e pão.

Passam os a viagem ouvindo m úsica popular europeia brega e as histórias de Wolfgang ter passado trinta anos na Marinha Mercante antes de se m udar para o bairro de Jordaan, em Am sterdã.

— Sou alem ão de nascim ento, m as serei holandês quando m orrer — diz ele, com um grande sorriso cheio de dentes tortos.

Às cinco da m anhã, chegam os a Bioflor, que não tem nada a ver com as fotos dos j ardins de Keukenhof, com seus tapetes coloridos, m as, em vez disso, se parece com algum tipo de fazenda industrial. Olho para Wren e dou de om bros. Wolfgang entra e estaciona ao lado de um a estufa do tam anho de um cam po de futebol com um a fileira de painéis solares em cim a. Um cara de rosto averm elhado cham ado Jos nos cum prim enta. E então ele destranca a porta, e Wren e eu perdem os o fôlego.

Há fileiras e fileiras de flores de todas as cores. Muitos m etros delas. Andam os por cam inhos estreitos entre os canteiros, o ar espesso com um idade e esterco, até Wolfgang apontar para um a seção de tulipas em tons fúcsia, cor de sol e um a m istura cítrica m aravilhosa parecida com um a laranj a-de-sangue. Eu m e afasto, deixando Wren com suas flores.

Ela fica lá durante um tem po. Então a ouço dizer:

— Incrível. Consegue ver isto? — Wolfang olha para m im , m as não respondo porque acho que não é conosco que ela está falando.

Wren anda por esta estufa, e por outra cheia de j unquilhos cheirosos, e eu tiro várias fotos. E então Wolfgang tem que ir em bora. Berram os canções do Abba durante todo o cam inho de volta, Wolfgang dizendo que Abba significa felicidade em esperanto, e que a ONU deveria tocar as m úsicas deles nas assem bleias gerais.

Só quando chegam os ao depósito fora de Am sterdã é que percebo que a traseira do cam inhão de Wolfgang ainda está vazia.

— Não com prou flores para o seu quiosque?

Ele balança a cabeça.

— Ah, não com pro flores diretam ente dos agricultores. Com pro em leilão, através de atacadistas que entregam aqui. Ele aponta para onde as pessoas estão carregando os cam inhões com flores.

— Quer dizer que teve todo esse trabalho de ir até lá por nós? — pergunto.

Ele levanta os om bros de leve, com o se dissesse “obviam ente, e por que m ais?”. E, a esta altura, eu definitivam ente não tinha o direito de m e surpreender com a generosidade e a bondade das pessoas, m as, m esm o assim , m e surpreendo. Fico chocada toda vez.

— Podem os levá-lo para j antar hoj e à noite? — pergunto.

Ele balança a cabeça.

— Hoj e à noite, não. Vou ver um a peça no Vondelpark. — Ele olha para nós. — Deveriam vir. É em inglês.

— Por que um a peça de teatro na Holanda seria em inglês? — pergunta Wren.

— Essa é a diferença entre os alem ães e os holandeses. — responde ele. — Os alem ães traduzem Shakespeare. Os holandeses o deixam em inglês.

— Shakespeare? — pergunto, sentindo todos os pelos do m eu corpo se arrepiarem . — Qual a peça?

E, antes de Wolfgang term inar de m e dizer o título, com eço a rir. Porque é sim plesm ente im possível. É m enos provável do que encontrar um a agulha num palheiro. Menos provável do que encontrar um a estrela num a constelação. É m enos provável do que encontrar aquela pessoa entre os bilhões de pessoas às quais você poderá am ar.

Esta noite, porém , em cartaz no Vondelpark, está Como Gostais. E sei, com um a certeza absoluta para a qual não tenho explicação, m as pelo que poderia apostar m inha vida, que ele fará parte dela.