Apenas um Dia
parte um
UM DIA
1
agosto
Stratford-upon-Avon, Inglaterra
E se Shakespeare entendeu tudo errado?
Ser ou não ser, eis a questão. Isso é de Hamlet, talvez o m onólogo m ais fam oso de Shakespeare. Tive que decorar todo o discurso no prim eiro ano de inglês do ensino m édio, e até hoj e consigo m e lem brar de cada palavra. Na época, não pensei m uito sobre o assunto. Só queria decorar direito todas as palavras e tirar m eu A. Mas, e se Shakespeare, e Ham let, estivessem fazendo a pergunta errada? E se a verdadeira pergunta não se referir a ser, m as a como ser?
O problem a é que eu não sei se teria feito esse questionam ento — como ser — se não fosse por Hamlet. Talvez tivesse continuado a ser a Ally son Healey que sem pre fui. Fazendo o que era esperado, o que, neste caso, era assistir a Hamlet.
— Meu Deus, está m uito calor. Achei que nunca ficasse tão quente assim na Inglaterra. — Minha am iga Melanie prende o cabelo louro num coque e abana o pescoço suado. — Por falar nisso, a que horas eles abrem as portas?
Olhei para a Sra. Foley, a quem , pelas costas, Melanie e basicam ente todo o restante do grupo batizaram de Nossa Líder Destem ida, m as ela estava conversando com Todd, um dos form andos de história que aj udavam a liderar a viagem , provavelm ente lhe dando um a bronca por um m otivo ou outro. No Teen Tours! A brochura da Extravaganza Cultural que m eus pais m e deram de presente por ocasião da m inha form atura no ensino m édio, dois m eses atrás, cham ava os estudantes com o Todd de “consultores históricos” do Teen Tours! No entanto, até aquele m om ento, Todd tinha sido m ais útil estim ulando as ressacas, levando todo m undo para beber quase toda noite. Tenho certeza de que esta noite todo m undo vai se j ogar. Afinal, esta é nossa últim a parada, Stratford-upon-Avon, um a cidade repleta de cultura! O que parece se traduzir num núm ero desproporcional de pubs com nom es que hom enageiam Shakespeare e frequentados por pessoas que usam tênis brancos cham ativos.
Enquanto dá bronca em Todd, a Sra. Foley está usando seus próprios tênis brancos, assim com o um a calça j eans azul im pecavelm ente passada e um a cam iseta polo do Teen Tours! Às vezes, à noite, quando todos estão na rua, ela m e diz que precisa ligar para a m atriz para falar sobre ele. Contudo, parece que nunca coloca isso em prática. Acho que, em parte, é porque, quando o repreende, ele flerta. Mesm o com a Sra. Foley. Principalm ente com a Sra. Foley.
— Acho que com eça às sete horas — respondo a Melanie. Olho para o relógio, outro presente de form atura, de ouro m aciço, a frase Pelo Mundo gravada na parte de trás. O relógio pesa m uito no m eu pulso suado. — Agora são seis e m eia.
— Nossa, os ingleses adoram fazer fila. Deveriam ter aprendido com os italianos, que sim plesm ente se aglom eram . Ou talvez os italianos devessem ter aprendido com os ingleses. — Melanie puxa a m inissaia, a saia Band-Aid, com o ela diz, e aj eita a m iniblusa. — Meu Deus, Rom a. Parece que faz um ano.
Rom a? Isso foi há seis dias? Ou há 16? Toda a Europa tinha se tornado um a m istura de aeroportos, ônibus, prédios antigos e m enus executivos que serviam frango com vários tipos de m olho diferentes. Quando m eus pais m e deram esta viagem com o presente de form atura do ensino m édio, fiquei um pouco relutante em ir. Mas m am ãe m e garantiu que havia pesquisado: o Teen Tours! era m uito bem cotado, conhecido por seu alto com prom etim ento com a educação, assim com o pelo cuidado com os estudantes. Eu estaria em boas m ãos. “Você nunca estará sozinha”, prom eteram m eus pais. E, claro, Melanie tam bém viria.
E eles estavam certos. Sei que todo m undo detesta os olhos de águia da Sra. Foley, m as eu gosto da m aneira com o ela sem pre faz a contagem do grupo, gosto até de com o desaprova as incursões noturnas aos bares locais, ainda que, na Europa, a m aioria de nós j á sej a legalm ente autorizada a beber; não que alguém por aqui pareça dar a m ínim a para essas coisas.
Eu não frequento bares. Geralm ente volto para o quarto de hotel que divido com Melanie e assisto a um film e. Quase sem pre é possível encontrar film es am ericanos, o m esm o tipo de film e a que, em casa, Melanie e eu geralm ente assistim os j untas nos fins de sem ana, no m eu quarto ou no dela, com m uita pipoca.
— Estou torrando aqui — reclam a Melanie. — E ainda estam os, tipo, no m eio da tarde.
Olho para cim a. O sol está quente e as nuvens passam depressa pelo céu. Gosto da m aneira com o elas passam , com nada em seu cam inho. Pelo céu, pode-se ver que a Inglaterra é um a ilha.
— Pelo m enos o céu não está desabando, com o no dia em que chegam os aqui.
— Você tem um a presilha? — pergunta Melanie. — Não, claro que não. Aposto que está adorando seu cabelo agora.
Minha m ão vai a m inha nuca, ainda esquisita, estranham ente exposta. O Teen Tours! com eçou em Londres, e, na tarde do segundo dia, tivem os algum as horas livres para fazer com pras, o que, im agino, deve ser considerado cultura. Durante esse tem po, Melanie m e convenceu a cortar o cabelo bem curto. Era tudo parte do plano de reinvenção pré-faculdade, que ela havia m e explicado durante o voo de vinda:
— Ninguém na faculdade saberá que éram os com o robôs de processam ento autom ático. Quer dizer, som os bonitas dem ais para serm os apenas geniazinhas, e, na faculdade, todo m undo é inteligente. Então podem os ser legais e inteligentes.
Um a coisa não vai m ais excluir a outra.
Aparentem ente, para Melanie, essa reinvenção significava o novo guarda-roupa curtíssim o com o qual queim ou na Topshop m etade do dinheiro que trouxe, e a abreviação do nom e de Melanie para Mel, algo que nunca m e lem bro de fazer, independentem ente de quantas vezes ela m e chute por debaixo da m esa. Para m im , acho que a reinvenção significou o corte de cabelo que ela m e convenceu a adotar.
Eu surtei quando m e vi. Até onde consigo m e lem brar, sem pre tive cabelo com prido e preto, sem franj a, e a garota olhando para m im no espelho do salão não se parecia nada com igo. Àquela altura, fazia apenas dois dias que tínham os chegado, m as eu j á estava com um buraco no estôm ago de tanta saudade. Queria estar de volta em casa, no m eu quarto com as conhecidas paredes cor de pêssego e m inha coleção de despertadores vintage. Perguntei-m e com o conseguiria sobreviver à faculdade se não conseguia sequer lidar com isso.
Mas m e acostum ei com o cabelo, e a saudade quase passou totalm ente; m esm o que não tivesse passado, o tour está quase no fim . Am anhã quase todo m undo tom ará o ônibus direto para o aeroporto e voará de volta para casa. Melanie e eu vam os pegar um trem até Londres para passar três dias com a prim a dela. Melanie está falando em voltar ao salão onde fiz o m eu corte para fazer um a m echa cor-de-rosa no cabelo dela, e vam os assistir a Let it Be, no West End. No dom ingo, irem os para casa e logo depois com eçarem os a faculdade: eu, perto de Boston; Melanie, em Nova York.
— Libertem Shakespeare!
Levanto os olhos. Um grupo de aproxim adam ente 12 pessoas está indo e voltando pela fila, distribuindo panfletos coloridos. De cara, dá para notar que não são am ericanos: sem tênis brancos reluzentes ou shorts estilo cargo. São todos absurdam ente altos e m agros e, de certo m odo, diferentes. É com o se a própria estrutura óssea deles fosse diferente.
— Ah, vou querer um desses. — Melanie estende a m ão e usa o panfleto para se abanar.
— O que diz aí? — pergunto a ela, olhando para o grupo. Aqui na turística Stratford-upon-Avon eles cham am a atenção com o papoulas laranj a fluorescentes num cam po verde.
Um a garota com o tipo de m echa rosa que Melanie está querendo vem até nós.
— Shakespeare para o povo.
Dou um a olhada no encarte. Ele diz Will Guerrilheiro. Shakespeare sem Fronteiras. Shakespeare Liberto. Shakespeare Grátis. Shakespeare para Todos.
— Shakespeare de graça? — lê Melanie.
— É — responde a garota de cabelo cor-de-rosa e sotaque britânico.
— Sem lucro capitalista. Com o Shakespeare gostaria que fosse.
— Você não acha que, na verdade, ele gostaria de vender ingressos para ganhar dinheiro com as peças de teatro? Não estou tentando bancar a esperta, m as m e lem bro do film e Shakespeare Apaixonado e de que ele sem pre devia dinheiro para um e outro.
A garota revira os olhos, e eu com eço a m e sentir um a idiota. Olho para o chão. Um a som bra paira sobre m im , encobrindo m om entaneam ente o brilho do sol. E então ouço um a risada. Ergo os olhos. Não consigo ver a pessoa na m inha frente porque ela está contra o sol, ainda brilhante naquela tarde. Mas consigo ouvi-lo.
— Acho que ela está certa — diz ele. — Ser um artista m orto de fom e talvez não sej a tão rom ântico quando se está realm ente m orrendo de fom e.
Pisco algum as vezes. Meus olhos se aj ustam e vej o que o cara é alto, talvez uns 30 centím etros m ais alto do que eu, e m agro. O cabelo dele tem centenas de tons de louro, e os olhos são tão castanhos que quase chegam a ser negros. Preciso colocar o pescoço para trás para conseguir olhá-lo, e ele abaixa a cabeça para poder olhar para m im .
— Mas Shakespeare está m orto; não está recebendo direitos autorais lá no túm ulo. E nós, nós estam os vivos. — Ele abre os braços, com o se fosse abraçar o universo. — O que vocês vão ver?
— Hamlet — respondo.
— Ah, Hamlet. — O sotaque dele é m uito leve, quase im perceptível. — Acho que um a noite com o esta não se desperdiça com tragédias. — Ele olha para m im , com o se fosse um a pergunta. Então sorri. — Ou em lugares fechados. Estam os fazendo Noite de Reis. Ao ar livre. — Ele m e passa um panfleto.
— Vam os pensar no assunto — com enta Melanie com sua voz de periguete.
O cara levanta um om bro e inclina o pescoço na direção dele, a orelha quase tocando a om oplata angulosa.
— Com o quiser — diz ele, apesar de estar olhando para m im .
Então, cam inha alegrem ente para se j untar ao restante de sua trupe.
Melanie os observa ir em bora.
— Uau! Por que eles não estão no Teen Tours! Extravaganza Cultural? Essa é um a cultura pela qual eu poderia m e interessar.
Fico olhando eles se afastarem , sentindo um estranho puxão.
— Já vi Hamlet antes, sabe?
Melanie olha para m im , as sobrancelhas, que ela tirou dem ais até form arem um a linha fina, arqueadas.
— Eu tam bém . Foi na TV, m as até aí…
— Poderíam os ir… assistir. Quer dizer, seria diferente. Um a experiência cultural, e foi por isso que nossos pais nos m andaram neste tour.
Melanie ri.
— Olha só quem está se revelando um a ovelha negra! Mas e a Nossa Líder Destem ida? Parece que está se preparando para fazer m ais um a contagem .
— Bom , o calor estava realm ente a incom odando… — com eço.
Melanie olha para m im por um segundo, depois a ficha cai. Ela lam be os lábios, sorri e fica vesga.
— Ah, claro. Estou com insolação. — Ela se vira para Paula, que é do Maine e está concentradíssim a lendo um guia da Fodor. — Paula, estou m e sentindo m uito tonta.
— Está quente dem ais — diz Paula, concordando, com sim patia. — Você deve se hidratar.
— Acho que vou desm aiar ou sei lá. Estou vendo pontinhos pretos.
— Não exagere — cochicho.
— É bom criar um clim a — m urm ura Melanie, agora j á gostando daquilo. — Ah, acho que vou desm aiar.
— Sra. Foley — cham o.
A Sra. Foley levanta os olhos dos nom es ticados de sua lista de cham ada. Ela vem até nós, o rosto tão cheio de preocupação que m e sinto m al por estar m entindo.
— Acho que Melanie, quer dizer, Mel está tendo um a insolação.
— É m esm o, pobrezinha? Não deve dem orar m uito m ais agora. E dentro do teatro está fresco e agradável.
A Sra. Foley fala de um j eito híbrido, m isturando o sotaque do m eio oeste com o britânico, e todos fazem piadas sobre isso, pois acham arrogante. Eu, no entanto, acho que é só porque ela é de Michigan e passa m uito tem po na Europa.
— Acho que vou vom itar — continua Melanie. — Odiaria fazer isso dentro do Swan Theatre.
O rosto da Sra. Foley se enruga de noj o, em bora eu não saiba dizer se era pela ideia de Melanie colocar os bofes para fora dentro do Swan ou pelo uso da palavra “vom itar” tão perto da Roy al Shakespeare Com pany.
— Ah, querida. Acho m elhor acom panhá-la até o hotel.
— Eu posso levá-la — ofereço.
— Mesm o? Ah, não. Eu não poderia. Você deveria ver Hamlet.
— Não, tudo bem . Eu a levarei.
— Não! É m inha responsabilidade levá-la. Eu sim plesm ente não poderia lhe passar um fardo com o este.
Consigo perceber o conflito que ela está enfrentando consigo m esm a através do rosto distorcido.
— Não tem problem a, Senhora Foley. Já vi Hamlet antes, e o hotel fica logo depois da praça.
— Mesm o? Ah, isso seria fantástico. Acreditaria se dissesse que, em todos esses anos fazendo isso, nunca vi o Hamlet do Bardo interpretado pela RSC?
Melanie faz um pequeno grunhido para dar um efeito especial. Pego-a gentilm ente pelo cotovelo. Sorrio para a Sra. Foley.
— Então, definitivam ente, a senhora não deveria perder isso aqui.
Ela concorda com a cabeça solenem ente, com o se estivéssem os discutindo negócios im portantes aqui, a linha de sucessão do trono ou algo do tipo. Então, ela toca m inha m ão.
— Tem sido um prazer tão grande viaj ar com você, Ally son. Vou sentir sua falta. Se os j ovens de hoj e fossem iguais a você. Tão… — Ela faz um a pausa m om entânea, procurando a palavra certa. — Tão boazinha.
— Obrigada. — Agradeço autom aticam ente. Mas seu elogio m e deixa vazia. Não sei se por essa ser a coisa m ais legal que ela consegue pensar sobre m im , ou se por não estar sendo tão boazinha assim naquele m om ento.
— Boazinha um a ova! — Melanie ri assim que saím os da fila e ela pode parar de fazer cena.
— Fique quieta. Não gosto de fingir.
— Bem , você é m uito boa nisso. Se m e perguntasse, diria que pode ter um a carreira prom issora.
— Não estou perguntando. E aí, onde é o lugar? — Olho para o panfleto. — Canal Basin? O que é isso?
Melanie pega seu telefone, que, diferentem ente do m eu, funciona na Europa, e abre o aplicativo de m apas.
— Parece ser um a baía perto do canal.
Alguns m inutos depois, chegam os à beira da água. Parece carnaval, cheio de gente para lá e para cá. Há barcas am arradas ao lado da água, barcos diferentes vendendo de tudo, desde sorvetes até pinturas. A única coisa que não existe é qualquer tipo de teatro. Ou palco. Ou cadeiras. Ou atores. Olho para o panfleto de novo.
— Será que não é em cim a da ponte? — pergunta Melanie.
Cam inham os de volta até a ponte m edieval cheia de arcos, m as é só m ais do m esm o: turistas com o nós peram bulando num a noite quente.
— Eles disseram que era hoj e à noite? — pergunta Melanie.
Penso naquele cara, os olhos absurdam ente escuros, dizendo especificam ente que esta noite não era m uito boa para tragédias. Mas, ao olhar em volta, não há nenhum a peça aqui, obviam ente. Provavelm ente era algum tipo de piada: engane o turista idiota.
— Vam os tom ar um sorvete, assim a noite não vai ser totalm ente desperdiçada — sugiro.
Estam os entrando na fila do sorvete quando ouvim os um zum bido de guitarras acústicas e o eco das batidas de bongô. Meus ouvidos se aguçam , m eu sonar sintoniza. Fico em pé em cim a de um banco para olhar em volta. Não que um palco tenha m agicam ente aparecido, m as o que acaba de se m aterializar é um a m ultidão, bem grande, em baixo de várias árvores.
— Acho que está com eçando — digo, agarrando a m ão de Melanie.
— Mas e o sorvete? — reclam a ela.
— Mais tarde — digo, puxando-a em direção à m ultidão.
“Se a m úsica é o alim ento do am or, continue tocando.”
O cara que interpreta o Duque Orsino não se parece nada com um ator shakespeariano, exceto talvez na versão cinem atográfica de Romeu e Julieta com Leonardo DiCaprio. Ele é alto, negro, com dreadlocks no cabelo e vestido com o um a estrela do rock cheia de glam our, calça j usta de vinil, sapatos de bico fino e um tipo de cam iseta de redinha que deixa entrever o peito torneado.
— Ah, com certeza fizem os a escolha certa — cochicha Melanie ao m eu ouvido.
Conform e Orsino faz seu m onólogo de abertura ao som das guitarras e dos bongôs, sinto um arrepio m e subir pela espinha.
Assistim os ao prim eiro ato inteiro, seguindo os atores pela beira da água. Quando eles andam , nós andam os j unto, o que dá a sensação de que fazem os parte da peça. Talvez por isso sej a tão diferente. Eu j á vi Shakespeare antes. Produções escolares e algum as peças no Philadelphia Shakespeare Theatre. Mas sem pre m e senti ouvindo algo em um a língua que não entendia m uito bem . Tinha que m e forçar a prestar atenção e, na m etade do tem po, acabava relendo o program a vez após outra, com o se aquilo pudesse m e dar um a com preensão m ais profunda.
Desta vez, caiu a ficha. É com o se m eus ouvidos tivessem sintonizado com a língua esquisita e eu tivesse sido absorvida totalm ente pela história, do m esm o m odo com o quando vej o um film e e consigo senti-lo. Quando Orsino se consom e de desej o pela fria Olívia, sinto aquele soco no estôm ago por todas as vezes que m e apaixonei por caras para os quais eu era totalm ente invisível. E, quando Viola chora pelo irm ão, sinto a solidão dela. Quando ela se apaixona por Orsino, que pensa que ela é um hom em , é de fato engraçado e ao m esm o tem po tocante.
Ele não aparece até o segundo ato. Ele faz o papel de Sebastian, o irm ão gêm eo de Viola, que pensavam estar m orto. O que faz certo sentido, pois, quando ele entra em cena, estou com eçando a pensar que ele nunca existiu, que foi apenas fruto da m inha im aginação.
Ao correr pela gram a, perseguido pelo sem pre leal Antônio, nós todos o perseguim os. Um tem po depois, tom o coragem .
— Vam os chegar um pouco m ais perto — digo a Melanie.
Ela agarra m inha m ão, e vam os até a frente da m ultidão, bem na parte em que o bobo da corte de Olívia vem atrás de Sebastian e eles discutem , antes de Sebastian m andá-lo em bora. Um pouco antes de sair, ele parece cruzar o olhar com o m eu por m eio segundo.
À m edida que a luz do dia quente vai suavem ente se transform ando num crepúsculo e eu vou ficando cada vez m ais envolvida no m undo ilusório de Illy ria, sinto-m e com o se tivesse entrado em algum estranho espaço de outro m undo, onde qualquer coisa pode acontecer, onde as identidades podem ser trocadas com o sapatos. Onde os que pensávam os estar m ortos podem viver de novo. Onde todos têm o seu “felizes para sem pre”. Reconheço que é m eio fora de m oda, m as o ar está m orno e gostoso, as árvores estão frondosas e exuberantes, os grilos estão cantando e parece que, só desta vez, é possível acontecer.
Rápido dem ais, a peça está chegando ao fim . Sebastian e Viola se unem novam ente. Viola revela a Orsino que ela é na verdade um a garota e ele, obviam ente, agora quer se casar com ela. Olívia percebe que Sebastian não é a pessoa com quem pensou ter se casado, m as não se im porta: ela o am a de qualquer m aneira. Os m úsicos estão tocando quando o bobo da corte faz o m onólogo final. E então os atores vêm ao palco e agradecem , cada um fazendo algo m eio bobo durante o agradecim ento. Um dá cam balhotas. Outro toca guitarra. Quando Sebastian agradece, passa os olhos pela plateia e para bem em cim a de m im . Abre aquele sorrisinho am arelo engraçado, tira um a das m oedas falsas do bolso e a j oga para m im . Está bem escuro e a m oeda é pequena, m as consigo pegá-la, e agora parece que as pessoas tam bém batem palm as para m im .
Com a m oeda na m ão, aplaudo. Aplaudo até m inhas m ãos com eçarem a form igar. Aplaudo com o se, fazendo isso, pudesse prolongar a noite, pudesse transform ar a Noite de Reis num Longo Reinado. Aplaudo para poder m e agarrar a esse sentim ento. Aplaudo porque sei o que acontecerá quando eu parar. A m esm a coisa que acontece quando term ina um film e m uito bom , no qual tenha m e perdido: serei j ogada de volta à m inha própria realidade, e algo som brio nascerá em m eu peito. Às vezes assisto a um film e várias vezes só para recapturar aquele sentim ento de estar dentro de algo real. O que, eu sei, não faz o m enor sentido.
Mas não há recom eço esta noite. A m ultidão está se dispersando, os atores, indo em bora. As únicas pessoas do espetáculo ainda ali são alguns m úsicos passando o chapéu para doações. Pego um a nota de dez libras na carteira.
Melanie e eu ficam os em silêncio j untas.
— Uau! — diz ela.
— É m esm o. Uau! — respondo.
— Isso foi m uito legal. E olha que eu odeio Shakespeare.
Eu balanço a cabeça.
— E será que sou eu ou aquele cara lindo da fila, o que fez o papel de Sebastian, estava de olho em nós?
Nós? Mas ele j ogou a m oeda para mim! Ou por acaso fui eu que a peguei? Por que ele não estaria de olho em Melanie, com seu cabelo louro e seu top estilo cam isola? Mel 2.0, com o ela se cham ava, tão m ais atraente que Ally son 1.0.
— Não deu para ver — digo.
— E ele j ogou m oedas para nós! Mandou bem , por falar nisso. Talvez devêssem os tentar encontrá-los. Ficar um pouco com eles ou qualquer coisa do gênero.
— Eles j á foram em bora.
— Sim , m as aqueles caras ainda estão aqui. — Ela aponta para os coletores de dinheiro. — Podem os perguntar onde eles ficam .
Balanço a cabeça.
— Duvido que queiram passar o tem po deles com duas adolescentes am ericanas idiotas.
— Não som os idiotas, e a m aioria deles não parecia ser m uito m ais velha que um adolescente.
— Não. Além disso, a Senhora Foley pode querer dar um a olhada em nós. Precisam os voltar para o hotel.
Melanie revira os olhos.
— Por que você sem pre faz isso?
— Isso o quê?
— Diz não a tudo. É com o se fosse avessa à aventura.
— Não digo não sem pre.
— Nove em dez vezes. Estam os prestes a ir para a faculdade. Vam os viver um pouco.
— Eu vivo o suficiente — retruco. — Além do m ais, isso nunca a incom odou antes.
Melanie e eu som os am igas desde que a fam ília dela se m udou para duas casas depois da nossa no verão antes da segunda série. Desde então, tem os feito tudo j untas: perdem os nossos dentes j untas, ficam os m enstruadas na m esm a época, até nossos nam oros vieram em parceria. Eu com ecei a sair com Evan poucas sem anas depois de ela ter com eçado a sair com Alex (que era o m elhor am igo de Evan), ainda que ela e Alex tenham term inado o nam oro em j aneiro enquanto Evan e eu duram os até abril.
Passam os tanto tem po j untas que quase tem os um a língua secreta de piadas e olhares confidenciais. Claro, j á brigam os bastante. Às vezes éram os com o irm ãs. Um a vez quebram os um abaj ur durante um a briga. Mas nunca foi com o agora. Eu nem m esm o tenho certeza do que está acontecendo; desde que com eçam os o tour, estar com Melanie m e faz sentir com o se eu estivesse perdendo um a corrida na qual nem sabia que havia entrado.
— Vim aqui esta noite — expliquei, m inha voz trêm ula e defensiva. — Menti para a Senhora Foley para que pudéssem os vir.
— Grande coisa! E nós nos divertim os m uito! Então, por que não continuam os?
Chacoalho a cabeça.
Ela rem exe dentro da bolsa e tira o telefone, checa as m ensagens de texto.
— Hamlet tam bém acabou de term inar. Craig diz que Todd levou a turm a para um pub cham ado Dirty Duck. Gosto do som desse nom e. Venha com a gente. Vai ser ótim o!
O fato é que eu saí com Melanie e todo m undo do tour um a vez, quando fazia um a sem ana que estávam os viaj ando. A essa altura, eles j á haviam saído algum as vezes. E, apesar de Melanie conhecer esses caras havia apenas um a sem ana, o m esm o tem po que eu os conhecia, ela tinha todas essas piadinhas secretas com eles que eu não entendia. Fiquei sentada em volta da m esa cheia de gente, tom ando conta de um a bebida, m e sentindo com o um a criança azarada que tem que com eçar num a nova escola no m eio do ano.
Olho para o m eu relógio, que tinha escorregado até em baixo. Puxo-o de volta para cim a, cobrindo a feia m arca de nascença bem no m eu pulso.
— São quase onze horas, e tem os que acordar cedo para pegar nosso trem . Se você não se im portar, vou levar m eu eu avesso a aventuras de volta para o quarto. — Com a voz cheia de rancor, pareço m inha m ãe falando.
— Tudo bem . Vou andando até lá com você e depois vou para o pub.
— E se a Senhora Foley for dar um a olhada em nós?
Melanie ri.
— Diga a ela que tive um a insolação. E que agora não está m ais tão quente. — Ela com eça a subir a ram pa de volta em direção à ponte. — O quê? Está esperando algum a coisa?
Olho na direção da água, as barcas agora se esvaziando da m ovim entação da noite. Os coletores de lixo lá fora, num erosos, trabalhando. O dia está term inando; não tem volta.
— Não. Não estou.