Apenas um Dia
parte dois
UM ANO
14
setem bro
Faculdade
— Ally son. Ally son. Você está aí?
Puxo o travesseiro para cim a da cabeça e fecho os olhos com força, fingindo dorm ir.
A chave vira na fechadura quando m inha colega de quarto, Kali, abre a porta.
— Eu gostaria que você não trancasse a porta quando está aqui. E eu sei que não está dorm indo. Está fingindo de morta. Com o Buster.
Buster é o cachorro de Kali. Um lhasa apso. Ela tem fotos dele entre as dúzias pregadas na parede. Contou-m e tudo sobre Buster em j ulho passado, quando fizem os nosso telefonem a de apresentação dos colegas de quarto. Na época achei Buster fofinho, e achei esquisito que o nom e de Kali tivesse sido dado em hom enagem ao Estado onde m orava, e o j eito com o ela conversava — com o se estivesse, de algum m odo, cuspindo as palavras — m e pareceu m eigo.
— Okaay, Ally son. Tudo bem. Não responda, m as vej a bem , será que pode ligar para os seus pais? Sua mãe ligou no m eu celular procurando você.
De debaixo dos travesseiros, abro os olhos. Im aginei quanto tem po poderia deixar m eu celular descarregado antes de algum a coisa acontecer. Já há um a entrega m isteriosa da UPS. Eu m eio que estava esperando um pom bo-correio chegar. Mas ligar para m inhas colegas de quarto?
Escondo-m e debaixo dos travesseiros, enquanto Kali veste um a roupa para sair, se m aquia e se borrifa com aquele perfum e com cheiro de baunilha que gruda em tudo. Depois que ela sai, tiro o travesseiro de cim a da cabeça e balanço as pernas ao lado da cam a. Coloco de lado m eu livro de quím ica, a caneta m arca-texto deixada na dobra, destam pada, sem pre com a esperança de ser usada antes que seque de tanto desprezo. Localizo o celular m orto na m inha gaveta de m eias e dou um chute na pilha de roupas suj as dentro do m eu closet, procurando o carregador. Quando o celular carrega, de volta, a caixa postal m e diz que tenho trinta e duas novas m ensagens. Verifico as cham adas não atendidas. Dezoito são dos m eus pais. Duas de m inha avó. Um a de Melanie e um a da secretaria.
— Oi, Ally son, é sua m ãe. Só estou ligando para saber se está tudo bem . Ligue para m im .
— Oi, Ally son. É a m am ãe. Estou com o catálogo da Boden e tem algum as saias bem bonitinhas. E calças de veludo canelado, bem quentes. Vou pedir algum as coisas e as levarei no fim de sem ana dos pais. Me ligue de volta!
Em seguida há um a ligação do papai.
— Sua m ãe quer saber onde deveríam os fazer a reserva para o fim de sem ana dos pais: italiano ou francês ou talvez j aponês. Eu disse a ela que você ficaria grata por qualquer coisa. Não consigo im aginar que a com ida do dorm itório tenha m elhorado tanto nos últim os vinte e cinco anos.
Então voltam os para a m am ãe.
— Ally son, seu telefone está quebrado? Por favor, não m e diga que o perdeu tam bém . Por favor, pode dar notícias? Estou tentando organizar o fim de sem ana dos pais. Pensei em ir às aulas com você…
— Oi, Ally, é a vovó. Agora estou no Facebook. Não tenho m uita certeza de com o funciona, então m e aceite com o am iga. Ou pode m e ligar. Mas quero fazer do j eito que vocês j ovens fazem .
— Ally son, é o papai. Ligue para sua m ãe. Estam os tentando fazer reservas no Prezzo…
— Ally son, está doente? Porque não consigo pensar em nenhum a outra explicação para essa falta de com unicação…
As m ensagens continuam aparecendo, a m am ãe agindo com o se fizesse três m eses, e não três dias, desde que nos falam os pela últim a vez. Acabo apagando a últim a leva sem nem m esm o escutar, parando apenas para ouvir Melanie contar sobre a escola e os caras sexy de Nova York e sobre a superioridade da pizza.
Olho para a hora no m eu telefone. São seis horas. Se ligar para casa, talvez a m am ãe estej a fora e acabarei na secretária eletrônica. Não tenho certeza do que ela faz com seus dias agora. Quando eu tinha sete anos, ela acabou por deixar o em prego, m esm o não tendo tirado a licença-m aternidade, depois de tudo. O plano era voltar ao trabalho assim que eu fosse para a faculdade, m as isso ainda não tinha decolado.
Ela atende ao segundo toque.
— Ally son, por onde esteve? — A voz de m am ãe é desagradável, um pouco im paciente.
— Fugi para entrar em um a seita. — Há um a breve pausa, com o se ela realm ente considerasse essa possibilidade. — Estou na faculdade, m am ãe. Estou ocupada. Tentando m e aj ustar à carga de trabalho.
— Se acha que isso é ruim , espere até chegar à escola de m edicina. Espere até sua residência! Eu m al conseguia ver seu pai!
— Então j á deveria estar acostum ada com isso!
Mam ãe faz um a pausa. Esse m eu cinism o é novo. Papai diz que, desde que voltei da Europa, tive um caso de “adolescentice” atrasada. Nunca agi dessa form a antes, m as agora aparentem ente tenho um m au com portam ento e um péssim o corte de cabelo e um veio de irresponsabilidade, conform e evidenciado pelo fato de eu ter perdido não só m inha m ala e todo o conteúdo com o tam bém m eu relógio de form atura, ainda que, de acordo com a história que Melanie e eu contam os a eles, a m ala e o relógio que estava dentro dela tenham sido roubados na estação de trem . O que, teoricam ente, deveria m e isentar da culpa. Mas não é assim . Talvez porque eu não sej a inocente.
Mam ãe m uda de assunto.
— Recebeu o pacote? Um a coisa é você m e ignorar, m as sua avó gostaria m uito de receber um agradecim ento.
Chuto as roupas azedas am arrotadas à procura da caixa da UPS. Em balados em plástico bolha estão um despertador antigo de Betty Boop e um a caixa de biscoitos black & white da Shriner’s, um a padaria de nossa cidade. O bilhete grudado nos biscoitos diz “Esses são da vovó”.
— Achei que o relógio seria perfeito para sua coleção.
— Ahã. — Olho para as caixas ainda em baladas em m eu closet, onde m inha coleção de despertadores e todas as m inhas coisas supérfluas de casa ainda estão.
— E tam bém pedi um m onte de roupas novas. Devo m andá-las ou só levá-las?
— Só traga, acho.
— Falando do fim de sem ana dos pais, estam os finalizando os planos para sábado à noite. Estam os tentando fazer reservas no Prezzo. Dom ingo é o brunch, e, depois disso, antes de voltarm os para casa, seu pai tem um encontro de ex-alunos, então pensei em gastar em um spa para nós. Ah, e no sábado de m anhã, antes do alm oço, vou tom ar café com a m ãe de Kali, Ly nn. Tem os trocado e-m ails.
— Por que está m andando e-m ails para a m ãe da m inha colega de quarto?
— Por que não? — A voz de m inha m ãe é im pertinente, com o se não houvesse razão para eu questionar isso, com o se não houvesse razão para ela não estar presente em todos os aspectos da m inha vida.
— Bem , será que dá para você não ligar para o celular da Kali? É m eio esquisito.
— É m eio esquisito que sua filha fique incom unicável por um a sem ana.
— Três dias, m am ãe.
— Então você tam bém está contando. — Ela faz um a pausa, m arcando um ponto. — Se m e deixasse instalar um a linha fixa, não teríam os este tipo de problem a.
— Ninguém m ais tem linha fixa. Todos nós tem os celulares. Nossos próprios núm eros. Por favor, não ligue no núm ero dela.
— Então retorne m inhas ligações, Ally son.
— Vou retornar. Acabei de perder m eu carregador — m into.
Seu suspiro forçado do outro lado da linha m e faz perceber que escolhi a m entira errada.
— Será que precisarem os am arrar seus pertences a você? — pergunta ela.
— Eu o em prestei a m inha colega de quarto, e estava nas coisas dela.
— Você quer dizer Kali?
Kali e eu m al dividim os um sabonete.
— Certo.
— Estou ansiosa para conhecer ela e sua fam ília. Eles parecem adoráveis. Eles nos convidaram para ir a La Jolla.
Quase perguntei à m inha m ãe se ela realm ente queria ser am iga de pessoas que batizaram a filha de Kali em hom enagem à Califórnia.
Minha m ãe tem um a coisa com nom es; odeia apelidos. Quando eu estava crescendo, ela era m eio fascista em relação a isso, sem pre tentando evitar que qualquer pessoa dim inuísse m eu nom e para Ally ou Al. Minha avó a ignorou, m as todo o restante, até os professores na escola, seguiram à risca. Nunca entendi por quê; se isso a incom odava tanto, tinha que ter m e dado um nom e que não pudesse ser abreviado, m esm o Ally son sendo um nom e tradicional na fam ília. Não digo nada sobre Kali porque, se for m uito arrogante, posso acabar com m eu disfarce de Universitária Feliz. E m inha m ãe, especialm ente, cuj os pais não tiveram dinheiro para m andá-la para a faculdade que escolheu, e que precisou trabalhar durante a faculdade e, m ais tarde, sustentar papai enquanto ele cursava a escola de m edicina, tem a nítida intenção de que eu sej a um a Universitária Feliz.
— Preciso ir — digo. — Vou sair com m inhas colegas hoj e à noite.
— Ah, que gostoso! Aonde vão?
— A um a festa.
— Um a festa de estudantes?
— Talvez um film e.
— Acabei de ver um ótim o com a Kate Winslet. Você deveria ver esse.
— Ok. Vou ver.
— Me ligue am anhã. E deixe seu telefone ligado.
— Os professores fazem cara feia para celulares ligados nas aulas. — A arrogância vem à tona novam ente.
— Am anhã é sábado. E eu conheço sua agenda, Ally son. Todas as aulas são na parte da m anhã.
Ela com certeza conhece m inha agenda. Ela basicam ente a criou. Todas essas aulas são na parte da m anhã, pois ela disse que seriam m enos frequentadas e eu teria m ais atenção e então teria o restante do dia para estudar. Ou, com o acaba sendo, para dorm ir.
Depois de desligar, enfio o despertador num a caixa no m eu closet, tiro os biscoitos e trago para o lounge, onde o restante de m inhas colegas j á com eçou a beber um fardo de seis cervej as. Estão todas arrum adas e prontas para sair.
Quando as aulas com eçaram , todas elas estavam m uito anim adas. Eram realm ente as Universitárias Felizes. Jenn fez brownies orgânicos e Kendra desenhou um a plaquinha em nossa porta com nossos nom es e um slogan, “Quarteto Fantástico”, em cim a. Kali, por sua vez, nos deu cupons para um a sessão de bronzeam ento, a fim de evitar a inevitável doença que afeta a estação.
Agora, depois de um m ês, as três são um a unidade sólida. E eu sou a chata. Quero dizer a Kendra que não tem problem a se ela quiser tirar a placa ou substituí-la por um a que diga “Trio Fantástico e Ally son”.
Ando pelo lounge.
— Aqui — digo, entregando os biscoitos a Kali, apesar de saber que ela conta calorias e que os black & white sej am m eus favoritos. — Sinto m uito pela m inha m ãe.
Kendra e Jenn cacarej am em apoio, m as Kali estreita os olhos.
— Não quero ser chata ou coisa do gênero, m as j á é ruim o bastante ter que driblar m eus próprios pais, ok?
— Ela está passando pela Síndrom e do Ninho Vazio ou algo do tipo. — É isso que m eu pai fica m e dizendo. — Ela não vai fazer isso de novo — acrescento com m ais confiança do que realm ente tenho.
— Minha m ãe transform ou m eu quarto num ateliê dois dias depois que eu saí de casa — conta Jenn. — Pelo m enos eles sentem sua falta.
— Ahã.
— Que tipo de biscoito é esse? — pergunta Kendra.
— Black & white.
— Com o nós — brinca Kendra. — Ela é negra, ou afro-am ericana; nunca tenho certeza de qual está correto, e ela usa os dois.
— A harm onia racial dos biscoitos — digo.
Jenn e Kendra riem .
— Você deveria vir com a gente hoj e à noite — convida Jenn.
— Vam os a um a festa no Henderson, e há um bar na Central que aparentem ente tem um a política de identificação m uito liberal — diz Kendra, enrolando seu cabelo negro recém -alisado num coque; depois pensa duas vezes e o solta. — Muitas espécies m asculinas.
— E espécies fem ininas tam bém , se isso faz a sua cabeça — acrescenta Jenn.
— Não faz m inha cabeça. Quer dizer, nada disso faz m inha cabeça.
Kali m e dá um sorrisinho arrogante.
— Acho que você se m atriculou na escola errada. Parece que tem um convento em Boston.
Algo revira em m eu estôm ago.
— Eles não aceitam j udeus.
— Parem com isso, vocês duas — diz Kendra, sem pre a diplom ata. Ela se vira para m im . — Vam os sair só por algum as horinhas.
— Quím ica. Física. — A sala fica em silêncio. Elas todas são graduandas na área de artes ou negócios, de form a que invocar ciências as faz se calarem .
— Bom , é m elhor eu voltar para o quarto. Tenho um encontro com a Terceira Lei da Term odinâm ica.
— Parece sexy — diz Jenn.
Sorrio para m ostrar que entendi a piada, então volto para m eu quarto, onde diligentem ente pego os Fundam entos da Quím ica, m as, quando o Trio Fantástico está saindo pela porta, m eus olhos j á têm bolsas de areia dentro deles. Pego no sono em cim a de um a m ontanha de ciência não lida. E então tem início outro fim de sem ana na vida da Universitária Feliz.