Apenas um Dia
Capítulo 15
15
outubro
Faculdade
Adio o m áxim o que posso m eus pensam entos sobre o fim de sem ana dos pais e, na quinta-feira anterior à chegada deles, dou um a olhada no m eu dorm itório e o vej o não com o eu vej o — paredes, um a cam a, um a escrivaninha, um a côm oda —, m as com o m eus pais o verão. Este não é um quarto de um a Universitária Feliz. Há roupa suj a saindo de cada gaveta, e m eus papéis estão por todo lado. Minha m ãe tem horror a coisas am ontoadas. Matei aula e passei o dia fazendo lim peza. Carreguei toda a roupa suj a até a m áquina de lavar e fiquei lá sentada, enquanto girava e rodava. Tirei o pó das superfícies em poeiradas. No closet, escondi todos os m eus trabalhos, as planilhas de m andarim em pilhadas com o j ornais não lidos, os testes de quím ica e física de Scantron com notas am eaçadoram ente baixas rabiscadas em verm elho; os relatórios do laboratório com com entários do tipo “Precisa ser m ais cuidadosa” e “Preste atenção nos cálculos!” e o abom inável “Venha m e ver”. No lugar deles coloco um a porção de anotações e gráficos do início do curso, antes de, obviam ente, eu com eçar a tom ar bom ba. Desem brulho o edredom que com pram os na Bed, Bath & Bey ond no verão passado e o coloco sobre a colcha sim ples debaixo da qual tenho dorm ido. Pego algum as das fotos de dentro das caixas e as espalho pelo quarto. Passo na livraria da faculdade e com pro um daqueles banners estúpidos com o nom e da faculdade e o coloco em cim a da cam a. Voilà. Espírito universitário.
Mas, por algum a razão, m e esqueço dos relógios. E isso m e delata.
Quando m am ãe entra no quarto, depois de arrulhar sobre o tam anho precário do lounge, encanta-se com as fotos de Buster de Kali e então olha para m inha parede relativam ente vazia e engasga. Pela expressão de horror dela, alguém poderia pensar que eu a havia decorado com fotos de cenas de crim e.
— Onde está sua coleção?
Aponto para as caixas fechadas dentro do closet.
— Por que estão lá?
— São m uito barulhentos — m into rapidam ente. — Não quero incom odar Kali com eles. — Sem com entários quanto ao fato de Kali ligar o rádio no últim o volum e às sete da m anhã.
— Você poderia colocá-los e não dar corda — diz ela. — Os despertadores são a sua cara.
São m esm o? Não lem bro quando com ecei a colecioná-los. Mam ãe gostava de ir ao m ercado de pulgas nos fins de sem ana e então, um dia, m e transform ei num a colecionadora de despertadores. Eu realm ente m e envolvi durante um tem po, m as não m e lem bro do m om ento em que vi um velho despertador e pensei “Quero colecionar”.
— A sua m etade parece terrivelm ente sem vida perto da de Kali — com enta m inha m ãe.
— Deveria ter visto o m eu dorm itório — diz papai, perdido em sua névoa de nostalgia. — Meu colega de quarto punha papel lam inado nas j anelas. Parecia um a nave espacial. Ele o cham ava de Dorm itório do Futuro.
— Eu estou m ais na linha do Dorm itório Minim alista.
— Tem certo charm e penitenciário — diz papai.
— É com o o antes e o depois num daqueles program as de decoração. — Mam ãe aponta para a m etade de Kali, onde cada m ilím etro do espaço da parede está coberto ou com pôsteres ou com estam pas artísticas ou com fotos. — Você é o antes — continua ela. Com o se eu j á não tivesse entendido.
Seguim os para um dos workshops especiais, algo insanam ente chato sobre a m udança dos aspectos tecnológicos na sala de aula. Mam ãe, por incrível que pareça, está anotando. Papai com enta cada pequena coisa de que se lem bra e cada coisa que é nova. Foi isso que ele fez quando fizem os um tour pela escola no ano passado; tanto ele quanto m am ãe estavam m uito anim ados com a expectativa de m inha vinda para cá. Criar um legado. De algum m odo, naquela época, eu tam bém estava anim ada.
Depois do workshop, papai se encontra com outros pais em busca de um legado, e m am ãe tom a café com a m ãe de Kali, Ly nn. Elas parecem se dar excepcionalm ente bem . Ou Kali não contou à m ãe o quanto eu sou fracassada ou, se contou, a m ãe dela teve a bondade de se calar sobre o assunto.
Antes do alm oço com o presidente, todos os m em bros do Quarteto Fantástico e suas respectivas fam ílias se encontram na suíte e os pais se apresentam e falam sobre o tam anho dim inuto de nossos quartos e adm iram o que fizem os com nosso pequeno lounge e tiram fotos da placa “Quarteto Fantástico dá as boas-vindas ao Octógono Fantástico” feita pelo restante do grupo. Em seguida, cam inham os j untos até o pátio e fazem os um tour pelo cam pus, percorrendo o traj eto m ais longo para m ostrar alguns dos prédios m ais velhos e m ais suntuosos, a hera averm elhada subindo pelos velhos tij olos. E aparentam os estar bem , j untas, com saias de flanela e botas de cano alto e suéteres de caxem ira e j aquetas de cam urça, enquanto passam os com passos barulhentos pelas folhas do outono. Nós realm ente parecem os as Universitárias Felizes dos catálogos.
O alm oço estava razoável e chato, frango borrachudo e discursos borrachudos em um hall grande, frio e cheio de eco. É só depois do alm oço que o m ito do Quarteto Fantástico com eça a se revelar. Sutilm ente, as fam ílias de Kendra, Jenn e Kali se j untam . Tenho certeza de que estão conversando sobre o Natal, o Dia de Ação de Graças, a sem ana do saco cheio, reuniões ocasionais e coisas desse tipo. Minha m ãe dá um a olhada neles, m as não diz nada.
Ela e papai voltam para o hotel e se preparam para o j antar. Mam ãe m e diz que o lugar é sofisticado e sugere que eu use m eu vestido envelope verm elho e preto. E que lave m eu cabelo, que parece engordurado.
Quando voltam para m e buscar, há um m om ento de estranheza quando m inha fam ília se encontra com o restante do Quarteto Fantástico e a fam ília delas, que estão indo j untos para um grande j antar em grupo em um fam oso restaurante de frutos do m ar no centro de Boston. Há um tipo de em bate com m eus pais encarando os outros pais. O restante das m inhas colegas, com o rosto enrubescendo, m ostra um grande interesse no tapete cinza sintético. Finalm ente, o pai de Jenn intervém e faz um convite tardio para que nos j untem os a eles.
— Tenho certeza de que podem os acom odar m ais três pessoas.
— Ah, isso não será necessário — diz m am ãe, com sua voz m ais esnobe. — Tem os reservas no Prezzo, em Back Bay.
— Uau! Com o conseguiram ? — pergunta Ly nn. — Tentam os e não tinham lugar até o m ês que vem . — Prezzo, de acordo com a m inha m ãe, é o restaurante m ais fam oso da cidade.
Mam ãe sorri m isteriosam ente. Ela não diz, m as papai m e contou que um de seus am igos do golfe tinha um am igo docente no hospital em Boston e ele m exeu uns pauzinhos para conseguir a reserva para nós. Mam ãe ficou m uito feliz, m as posso ver agora que a vitória está desonrada.
— Aproveitem o seu chowdah — diz ela. Só papai e eu notam os quanto ela está sendo condescendente.
O j antar é terrível. Mesm o sentados neste lugar cheio de frescura com os bostonianos m ais ilustres, posso ver que m am ãe, e, por tabela, papai se sentem rej eitados. E não são. É a m inha rej eição que estão sentindo.
Eles perguntam sobre as m inhas aulas, e eu, obedientem ente, conto a eles sobre quím ica, física, biologia e m andarim , escondendo o quanto é difícil ficar acordada nas aulas, independentem ente de quão cedo eu vá para a cam a, ou o quanto estou indo m al nas m atérias em que costum ava tirar A na escola. Conversar ou não conversar, tudo isso m e deixa tão cansada que eu quero enfiar a cabeça dentro da m inha salada de 30 dólares.
Quando as entradas chegam , m am ãe pede um copo de Chardonnay e papai, um Shiraz. Tento não olhar para o m odo com o a luz da vela dança nas cores do vinho. Até isso m achuca. Abaixo os olhos para o m eu prato de ravióli. O cheiro é bom , m as não tenho vontade de com ê-lo.
— Será que está querendo dizer algum a coisa? — pergunta m am ãe.
Por um m inúsculo m om ento, m e pergunto o que aconteceria se eu lhes contasse a verdade. Que a escola não é nada do que eu im aginei que seria. Que nem de longe eu sou a garota do catálogo. Que eu não sou um a Universitária Feliz. Não sei quem eu sou. Ou talvez saiba quem sou e sim plesm ente não queira m ais ser.
Mas isso não é um a opção. Mam ãe ficaria ainda m ais triste, decepcionada, com o se m inha infelicidade fosse algum tipo de insulto à criação dela. E então m e culparia por ser tão sortuda. Isso é a faculdade! A experiência de faculdade que ela não teve oportunidade de ter. E essa foi um a das razões pelas quais ela passou quase todo o m eu ensino m édio sendo um general do Exército, planej ando m inhas atividades extracurriculares, arrum ando tutores para as m atérias nas quais eu ia m al, m e m atriculando nos preparatórios do SAT.
— Só estou cansada — explico. Isso, pelo m enos, não é m entira.
— Provavelm ente deve estar passando tem po dem ais na biblioteca — intervém papai. — Está tom ando sol suficiente? Isso pode afetar seriam ente seu ritm o circadiano.
Balanço a cabeça. Isso tam bém é verdade.
— Tem corrido? Há algum as pistas bem legais por aqui. E não é m uito longe do rio.
Acho que a últim a vez que corri foi com papai, alguns dias antes de partir para o tour.
— Sairem os am anhã de m anhã, antes do brunch. Queim ar o j antar. Colocar um pouco de ar nesses pulm ões.
Só de pensar j á fico exausta, m as aquilo é m ais um a ordem que um convite, e os planos estão sendo feitos antes m esm o de eu concordar com eles.
Na m anhã seguinte, o restante das garotas está sentado no lounge tom ando café, conversando anim adam ente sobre o j antar, o que incluía um pequeno incidente com um garçom bonitinho e um m artelo de lagosta que j á estava virando um a lenda cham ada “A m achadinha e o gostosão”. Elas se entreolham ao m e verem de calça de ginástica e m oletom , procurando m eus tênis de corrida. Nosso dorm itório tem um a sala de ginástica de últim a geração na qual Kendra e Kali são viciadas, e Jenn é puxada para lá com elas, m as eu até agora nunca pus os pés lá.
Eu esperava só m eu pai, m as m inha m ãe tam bém está aqui, toda alegre em sua calça de lã preta e com um a capa de caxem ira.
— Pensei que nos encontraríam os no brunch — digo.
— Ah, eu só queria passar um tem pinho com você no aloj am ento. Vai m e aj udar a ter um a ideia de onde você está quando não estou por perto. — Ela se vira para Kali. — Se não for incom odar vocês. — A voz de m am ãe é tão educada que Kali talvez nunca perceba a arrogância contida nela.
— Eu acho m uito meigo — diz Kali.
— Está pronta, Ally son? — pergunta papai.
— Quase. Não consigo achar m eus tênis de corrida.
Mam ãe m e dá um a olhada, com o se eu obviam ente perdesse tudo o tem po todo.
— Qual o últim o lugar onde os deixou? — papai pergunta. — Tente lem brar. É assim que se encontram coisas perdidas.
Esse conselho é antigo, m as geralm ente funciona. E, claro, ao pensar nos m eus tênis, ainda em pacotados na m ala debaixo na cam a, é exatam ente lá que estão.
Quando chegam os lá em baixo, papai faz alguns alongam entos, indiferentem ente.
— Vam os ver se lem bro com o fazer isso — brinca. Ele não é um corredor, m as está sem pre m andando seus pacientes fazerem exercícios, assim tenta praticar aquilo que prega.
Saím os por um a trilha em direção ao rio. É um verdadeiro dia de outono, claro e fresco com um a pegada forte de inverno no ar. Eu não am o correr, não no início, m as geralm ente, depois de m ais ou m enos uns dez m inutos, aquela coisa tom a conta e eu m eio que saio de órbita e esqueço o que estou fazendo. Hoj e, no entanto, toda vez que com eço a m e perder, é com o se m inha m ente fosse autom aticam ente de volta para aquela outra corrida, a m elhor corrida de todas, a corrida da m inha vida, a corrida pela m inha vida. E então m inhas pernas se transform am em troncos encharcados, e todas as lindas cores do outono ficam cinza.
Depois de m ais ou m enos dois quilôm etros tenho que parar. Digo que estou com cãibra. Peço para voltar, m as papai quer ir até o centro da cidade ver o que m udou, e então vam os. Param os num café para tom ar cappuccinos, e papai m e pergunta sobre m inhas aulas e tem lem branças nostálgicas de seus dias de quím ica orgânica. Então m e conta quanto tem estado ocupado, que a m am ãe está passando por um a fase difícil e que eu deveria pegar leve com ela.
— Não era para ela voltar a trabalhar? — pergunto.
Papai olha para o relógio.
— Hora de ir — responde.
Papai m e deixa no dorm itório para eu m e trocar antes do brunch. Assim que ponho os pés lá dentro, sei que há algo errado. Ouço o tique-taque. E então olho ao redor, e, por um segundo, fico confusa, pois o dorm itório não parece m ais o m eu dorm itório, m as sim o m eu quarto de casa. Mam ãe tirou todos os pôsteres do m eu closet e os colocou exatam ente na m esm a configuração de casa. Mexeu nas fotos, e elas são a im agem espelhada do m eu antigo quarto. Ela arrum ou a cam a com um m onte de alm ofadas, as alm ofadas que eu especificam ente disse que não queria trazer porque odeio alm ofadas. É preciso tirá-las e reorganizá-las todos os dias. Em cim a da cam a estão as roupas, que m am ãe está dobrando em pilhas perfeitas e organizando para m im , exatam ente com o fazia quando eu estava na quarta série.
E, nos parapeitos das j anelas e nas prateleiras, estão todos os m eus despertadores. Todos eles funcionando e fazendo tique-taque.
Mam ãe levanta os olhos enquanto arranca as etiquetas de um a calça que ainda nem experim entei.
— Você m e pareceu deprim ida a noite passada. Achei que pudesse anim á-la se isto aqui se parecesse m ais com a nossa casa. Está tão m ais alegre agora — declara.
Com eço a protestar. No entanto, não tenho certeza sobre o que protestar.
— E conversei com Kali, e ela acha o barulho dos relógios calm ante. Com o um a m áquina de ruído branco.
Eles não m e acalm am nem um pouco. Soam com o centenas de bom bas-relógio esperando para explodir.