Apenas um Dia

Gayle Forman · Capítulo 17 de 40

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Apenas um Dia

Capítulo 16

16

novem bro

Nova York

 

A últim a vez que vi Melanie, ela tinha m echas cor-de-rosa desbotadas no cabelo louro e estava usando seu m icrouniform e vulgar da Topshop, com sandálias plataform a titubeantes que tinha com prado na liquidação de final de estação da Macy ’s. Então, quando ela vem em m inha direção na esquina de um a rua m ovim entada de Chinatown, assim que sou vom itada para fora do ônibus, m al a reconheço. Agora j á não tem m ais a m echa; o cabelo dela é castanho-escuro com um toque averm elhado. Ela tem um a franj a curtíssim a, e o restante do cabelo está preso para trás em um coque com um par de palitos esm altados. Está usando um vestido estranho, fashion e florido, e botas de cowboy surradas; tem óculos de vovó estilo gatinha. Seus lábios estão pintados de verm elho-sangue. Está fantástica, m esm o não se parecendo em nada com a m inha Melanie.

Pelo m enos, quando m e abraça, ela ainda tem o cheiro da m inha Melanie: condicionador e talco de bebê.

— Meu Deus, com o você está m agra — diz ela. — Era para você ganhar sete quilos, não perder.

— Já alm oçou no bandej ão?

— Claro. Hello, sorvete à vontade. Só isso j á faz a m ensalidade valer a pena!

Afasto-m e. Olho para ela novam ente. Tudo é novo. Incluindo os óculos de grau.

— Você está usando óculos?

— São falsos. Vej a. Não têm lentes. — Ela enfia um dedo no ar, através da arm ação, direto no olho, para dem onstrar. — Faz parte do m eu look bibliotecária punk-rock. Os caras que são m úsicos adoram ! — Ela tira os óculos, solta o cabelo. Risadas.

— E adeus cabelo louro.

— Quero que as pessoas m e levem m ais a sério. — Ela coloca os óculos de volta e agarra o puxador da m inha m ala. — E então, com o está quase-Boston?

Quando escolhi m inha faculdade, Melanie tirou sarro pelo fato de ela ficar uns dez quilôm etros fora de Boston, assim com o a cidade onde crescem os, que fica a 40 quilôm etros da Filadélfia. Ela disse que eu estava na órbita da vida urbana. Ela, por sua vez, m ergulhou de cabeça. A faculdade dela é no centro de Manhattan.

— Quase bom — respondo. — Com o está Nova York?

— Pra lá de bom ! Tanta coisa para fazer! Tipo hoj e à noite tem os opções: um a festa no dorm itório, um a boate legal para m aiores de dezoito anos, no Lafay ette, ou um am igo de um am igo nos convidou para um a festa num loft em Greenpoint, onde um a banda m aravilhosa vai tocar. Ou podem os tentar com prar um ingresso de últim a hora na Tim es Square e ver um show da Broadway.

— Tanto faz. Só vim aqui ver você.

Sinto um a pontada de tristeza ao dizer isso. Mesm o sendo tecnicam ente verdade que estou aqui para vê-la, não é totalm ente verdade. Eu iria ver Melanie de qualquer m aneira, em casa, no feriado de Ação de Graças dentro de alguns dias, m as, quando m eus pais agendaram as passagens, disseram que eu teria que pegar o trem porque não dava para confiar nos voos além de estes serem m uito caros num fim de sem ana de feriado.

Ao im aginar seis horas dentro de um trem , eu quase passei m al. Seis horas tentando afastar lem branças. Foi então que Melanie m encionou que os pais dela viriam de carro na terça-feira antes do feriado de Ação de Graças para fazer com pras e levá-la de volta; daí eu tive a brilhante ideia de tom ar um ônibus barato de Chinatown até Nova York e pegar um a carona até em casa com Melanie. Na volta, tom o um ônibus para Boston.

— Ah, tam bém estou feliz por ver você de novo. Será que j á tínham os ficado tanto tem po sem nos encontrar?

Balanço m inha cabeça. Não desde que nos conhecem os.

— Ok, então, festa no dorm itório, show na Broadway, boate ou banda da pesada no Brookly n?

O que eu realm ente quero fazer é voltar para o quarto dela e assistir a alguns film es, e ficarm os j untas com o nos velhos tem pos, m as suspeito de que, se sugerir isso, Melanie vai m e acusar de ser avessa a aventuras. A festa no Brookly n m e parece a m enos tentadora e, provavelm ente, é o que Melanie quer fazer, então, provavelm ente, é o que eu deveria escolher. E é a que eu escolho.

É com o se eu tivesse escolhido a resposta certa num a prova de tanto que os olhos dela se ilum inaram .

— Que m áxim o! Alguns dos m eus am igos da faculdade vão. Prim eiro vam os com er, depois voltam os, deixam os suas coisas, nos aprontam os e vam os nos aventurar j untas. Parece bom ?

— Ótim o!

— Já estam os em Chinatown, e m eu restaurante vietnam ita favorito é perto daqui.

Enquanto passam os pelas ruas retorcidas e m ovim entadas, cheias de lanternas verm elhas, guarda-chuvas de papel e tem plos falsos, tento m anter os olhos na calçada. Há placas por todo lado. E um a delas inevitavelm ente m encionará a dupla felicidade. Paris está a m ais de 1.500 quilôm etros, m as as lem branças… Um a delas vem à tona; eu a afasto. Mas, então, outra aparece. Nunca sei quando surgirá um a lem brança. Elas estão enterradas em todo lugar, com o m inas terrestres.

Entram os num pequeno restaurante, com luzes fluorescentes e m esas de fórm ica, e nos sentam os no canto. Melanie pede rolinhos prim avera, frango e chá, depois dobra os óculos e os coloca num a caixinha (para m elhor proteger as lentes im aginárias?). Depois de servir chá para nós duas, ela olha para m im e diz:

— E aí, está se sentindo m elhor?

É m ais um a ordem do que um a pergunta. Melanie m e viu no estado m ais deplorável. Quando voltei de Paris e perdi com pletam ente o controle, ela m e deixou chorar a noite toda, xingando Willem por ter sido um canalha barato, com o ela havia suspeitado desde o início. Na viagem de volta para casa, dava olhares fatais a qualquer um que olhasse para m im de form a estranha, enquanto eu chorava o tem po todo, as oito horas de voo. Quando, em algum lugar por cim a da Groenlândia, com ecei a hiperventilar, m e perguntando se eu não tinha com etido um erro épico, se algum a coisa teria acontecido, se alguém o pegou, ela m e colocou de volta no lugar.

— Com certeza. Ele foi. Alguém o pegou, sim . Você! E depois desapareceu.

— Mas e se… — eu com eçava.

— Ally son, qual é? Num dia você o viu ser despido por um a garota, pegar um bilhete secreto de outra, e só Deus sabe o que aconteceu no trem com aquelas m eninas; com o você acha que ele conseguiu aquela m ancha na calça?

Eu nem tinha pensado nisso.

Ela m e levou para o m inúsculo banheiro do avião e enfiou a cam iseta do Sous ou Sus no lixo. Então dem os descarga na m oeda que ele tinha m e dado, e eu a im aginei caindo todos aqueles m ilhares de m etros, afundando no oceano lá em baixo.

— Pronto, destruím os todos os vestígios dele — disse ela.

Bem , quase todos. Eu não tinha contado a ela sobre a foto no m eu celular, a que Agnethe tirou de nós dois. Eu ainda não a havia apagado, apesar de não ter olhado para ela nem um a vez.

Quando chegam os em casa, Melanie estava pronta para deixar a viagem para trás e se concentrar no próxim o capítulo: a faculdade. Eu entendia. Eu tam bém deveria estar em polgada. Só que não estava. Todo dia nós nos arrastávam os até a Ikea, a Bed, Bath & Bey ond, a Am erican Apparel e a J. Crew com nossas m ães. Mas era com o se eu estivesse com um problem a perm anente com o fuso horário; tudo o que eu queria fazer era dorm ir na cam a dos m ostruários. Quando Melanie partiu para a faculdade, dois dias antes de m im , caí no choro. Todo m undo pensou que eu estivesse chorando por m e separar da m inha m elhor am iga, m as Melanie sabia que não era isso, e talvez tenha sido por esse m otivo que ela pareceu um pouco im paciente ao m e abraçar e sussurrar no m eu ouvido:

— Foi apenas um dia, Ally son. Vai passar.

Assim , quando Melanie m e pergunta, agora, se eu estou m elhor, não posso decepcioná-la.

— Sim — digo. — Estou ótim a.

— Que bom . — Ela bate palm as e pega o telefone. Manda um a m ensagem de texto. — Tem um cara que vai estar lá hoj e, um am igo do m eu am igo Trevor. Acho que você vai gostar dele.

— Ah, não. Eu acho que não.

— Você acabou de dizer que j á se recuperou do puto holandês.

— E é verdade.

Ela olha fixam ente para m im .

— Os três prim eiros m eses de faculdade são os m ais loucos que se pode ter na vida. Pelo m enos você reparou em algum cara?

— Eu basicam ente m antive os olhos fechados durante todas as orgias selvagens.

— Ah, tá. Boa tentativa. Mas você se esquece de que eu a conheço m elhor do que qualquer um . Aposto que nem beij ou alguém .

Tiro o recheio esquisito do rolinho prim avera, lim pando o excesso de gordura num guardanapo de papel.

— E daí?

— E daí que o cara que eu quero que conheça hoj e à noite... ele é m uito m ais seu tipo.

— O que isso quer dizer? — Apesar de saber o que significa. Foi absurdo achar que ele pudesse ser m eu tipo. Ou eu o dele.

— Legal. Norm al. Mostrei sua foto e ele m e disse que você parecia som bria e m isteriosa. — Ela estica a m ão para tocar m eu cabelo. — Mas você deveria cortar seu cabelo curto de novo. Agora está precisando de um trato.

Não corto o cabelo desde Londres, e ele está na altura dos om bros, com o um a cortina bagunçada.

— Esse é o look que eu estou buscando.

— Bem , está conseguindo. Mas, então, ele é m uito legal, o Mason…

— Mason? Que tipo de nom e é esse?

— Vai j ulgar a pessoa pelo nom e? Está parecendo sua m ãe.

Resisto à vontade de enfiar um palito de m adeira nos olhos dela.

— De qualquer form a, quem se im porta? Talvez o nom e dele sej a realm ente Jason, m as ele se cham a de Mason. — Melanie continua. — Falando nisso, ninguém m e cham a de Melanie aqui. Me cham am de Mel ou Lainie.

— Dois nom es pelo preço de um .

— É a faculdade, Ally son. Ninguém sabe quem você foi. Não há época m elhor para se reinventar. Você deveria tentar. — Ela m e lança um olhar fustigante.

Quero dizer a ela que tentei. Mas não consegui.

 

Mason acabou não sendo tão ruim . Ele é inteligente e levem ente nerd, e do Sul, o que explica o nom e, eu acho, e fala com um sotaque arrastado do qual ele m esm o tira sarro. Quando chegam os à festa, num trecho desolado de um a rua descam pada, a quilôm etros do m etrô, ele brinca que é do program a Fashion Police e m e pergunta se eu tenho tatuagens suficientes para estar nesta parte da cidade. É nesse m om ento que Trevor exibe sua tribal em volta do braço e Melanie com eça a falar sobre a tatoo que está pensando em fazer no tornozelo ou no bum bum ou outros lugares nos quais as garotas fazem , e Mason olha para m im e vira levem ente os olhos.

Na festa, um elevador se abre diretam ente dentro de um loft, que é ao m esm o tem po enorm e e desgastado, com pinturas gigantes nas paredes e cheiro de tinta a óleo e terebintina. O m esm o cheiro do squat. Outra m ina terrestre. Eu a chutei antes que explodisse.

Melanie e Trevor ficam falando sem parar sobre a tal banda m aravilhosa, cuj o vídeo cham uscado eles m e m ostram no celular de Melanie. Estão se parabenizando por estarem assistindo a eles num lugar com o este antes que o m undo os descubra. Quando a banda com eça a tocar, Melanie — Mel, Lainie, ou sei lá quem — e Trevor correm para a frente e com eçam a dançar feito loucos. Mason fica lá atrás com igo. Tem m uito barulho para tentar um a conversa e eu fico feliz com isso, m as tam bém fico feliz por alguém ter ficado perto de m im . Sinto m eu sinal lum inoso de turista piscando, e estou em território nativo.

Depois do que pareceu ser um a eternidade, a banda finalm ente faz um a pausa; o barulho nos m eus ouvidos é tão alto que parece que ainda está tocando.

— Está a fim de um a libação alcoólica?

— Hein? — Ainda estou m eio surda.

Ele faz m ím ica de beber algo.

— Ah, não, obrigada.

— Eu... Volto... Logo — ele diz, exagerando as palavras para facilitar a leitura labial.

Enquanto isso, Melanie e Trevor estão fazendo a sua própria leitura labial. Estão j ogados num sofá, se pegando. É com o se não percebessem m ais ninguém no am biente. Não quero ir assistir ao show, m as não consigo parar. Vê-los se beij arem m e deixa fisicam ente enj oada. É difícil m e desvencilhar dessa lem brança. A m ais difícil de todas. E é por isso que está enterrada no lugar m ais fundo.

Mason volta com um a cervej a para ele e um a água para m im . Olha para Melanie e Trevor.

— Era para acontecer — diz ele. — Esses dois estão rodando em volta um do outro há sem anas, feito dois cachorros no cio. Eu estava curioso para saber qual seria o detonador.

— Álcool e m úsica pesada — digo, fazendo aspas no ar.

— Férias. É m ais fácil com eçar algo quando se sabe que não tem que ver alguém por um tem po. Alivia a pressão. — Ele dá um a olhada para os dois. — Dou duas sem anas para eles, no m áxim o.

— Duas sem anas? Isso é m uito generoso de sua parte. Alguns caras não dariam m ais que um a noite. — Mesm o com todo o barulho, consigo ouvir m inha am argura. Posso senti-la em m inha boca.

— Eu daria m ais do que um a noite para você — diz Mason.

E, ah, é a coisa tão certa para dizer. Quem sabe? Talvez ele estej a sendo sincero, apesar de eu j á saber que não posso confiar em m im m esm a para distinguir entre sinceridade e falsidade.

Mesm o assim , quero superar isso. Quero que todas as lem branças desapareçam ou sej am suplantadas por outra coisa, que parem de m e assom brar. Assim , quando Mason se inclina para m e beij ar, fecho os olhos e deixo que o faça. Tento m e perder naquele beij o, tento não m e preocupar se a am argura em m inha boca pode ter causado m au hálito. Tento ser beij ada por outra pessoa, tento ser outra pessoa.

Mas então Mason toca m eu pescoço bem no lugar do corte daquela noite, que, desde então, j á cicatrizou, e eu m e afasto.

Ao final, ele estava certo; o corte não deixou cicatriz, apesar de parte de m im desej ar que tivesse deixado. Pelo m enos eu teria algum a evidência, algum a j ustificativa para essa continuidade. As m anchas são ainda piores quando se é a única pessoa que consegue vê-las.